12/27/06

26 DE DEZEMBRO DE 2004



Ontem à noite quando liguei a TV estavam a dar na SIC um filme - Tsunami, the aftermath -inspirado pela catastrófe do dia 26 de Dezembro de 2004, o tsunami asiático. Eu esperava pelo egocêntrico Dr. House e fui vendo um pouco do filme até que descobri que iam repetir episódios passados nem há um mês e recolhi a vale de lençóis entre bocejos e impropérios contra a incompetência da TVI. Este ano reconciliei-me com a TV, caixa que desde 2000 reduzira ao mais insignificante electrodoméstico, através de duas séries: 24 e House MD. No último caso não deixo de me surpreender duplamente pois sempre menosprezei séries sobre médicos, enfermeiras e gente ensanguentada, entubada ou com as vísceras à mostra tipo Emergency Room ou outras. Não que seja particularmente impressionável mas o tema nunca me cativou. E de repente topo com esta e não desligo. Mas o filme sobre o Tsunami tinha-me feito lembrar as imagens, essas sim, impressionantes, que vira há dois anos: destroços e mais destroços, gente acampada na rua, coberta por cobertores, ou esticada ao relento. Eram os mais felizes dos infelizes, poupados à morte mas atirados para uma luta de sobrevivência diária que se iria prolongar, desgraçadamente, por muito tempo. Lembro-me de saltar dos nossos flashs noticiosos para os da BBC para tentar perceber o que sucedera. Aprendi a palavra tsunami nos filmes animados do Conan. Nunca mais me esqueci da onda que vi no filme de animação há 20 anos. O meu cérebro fazia sempre o download dessa imagem da minha memória quando a palavra maremoto vinha à tona. Em 2004 a memória foi tristemente actualizada. Difícil aceitar factos como tribos inteiras arrastadas para o mar, aldeias completamente destruídas, uma geração de crianças perdida na voragem das águas, quilómetros de costa transformados em cemitérios, a urgência de congeladores para cadáveres. Dia 26 estava eu ocupada pelo meu trabalho e bastante engripada. Cheguei a casa e enfiei-me na cama. Só ao outro dia, e nos seguintes, comecei a perceber o que tinha acontecido, os números de mortos a subir a cada edição de jornal, as fotografias inumanas. Uma semana depois já estava demasiado elucidada e mesmo assim não o suficiente. Apesar das imagens da tragédia a devastação era tão grande que não conseguia ter uma percepção exacta dela. Sempre achei que as fotografias são mais exactas do que imagens em filme quando nos queremos aperceber da realidade. Ainda há dias veio parar à minha caixa de email uma aplicação Powerpoint com fotos sobre o 11 de Setembro que confirma esta minha ideia. Mesmo depois de ter visto e revisto o que a TV passou sobre o 11 de Setembro este conjunto de fotos conseguiu ser muito mais preciso e impressionante. À semelhança do sucedido na Ásia também a queda das duas torres deu origem a material fílmico que eu deliberadamente evitei, United 93 e World Trade Center. Para mim é demasiado ser contemporânea dos acontecimentos e revê-los depois naquele formato. Dispenso mais um ponto de vista de terceiros por muito virtuoso ou excelente que seja, fico-me pelo relato jornalístico e documental. Se os trágicos acontecimentos que me envolveram apenas como espectadora desprevenida me abalam ao ponto de encontrar em mim esta recusa pergunto-me como reagirão as pessoas directamente envolvidas e que têm de conviver com esta memória. A verdade é que sem termo de comparação não conseguimos nem chegar perto do que possam sentir. O que é, como é viver o horror, o medo? Em 2001 as zonas alagadas pelas águas do Mondego no concelho de Montemor-o-Velho invadiram os televisores portugueses. A subida das águas do rio causou aqui enormes estragos materiais mas não engoliu vidas humanas. Arruinou pequenos comércios, destruiu estradas e ponte. Pese embora a elevação rápida do nível da água que apanhou a população de surpresa a resposta foi pronta e permitiu evitar o pior. Mas às perdas previsíveis, relativamente contabilizáveis e moderadamente vultuosas, juntou-se a incapacidade de reparação por parte das instituições de molde satisfatório. Um ano depois, dois, três ainda surgiam nos jornais vozes isoladas a reclamarem por essa reparação. Um sábado de manhã nesse mês de Fevereiro, resolvi ir a Coimbra. Não conduzia ainda pelo que fui de comboio. A viagem parou a meio. A linha férrea encontrava-se interrompida pela água. Daí em diante uma viagem de uma hora transformou-se em três longas horas de nervos miúdos. Uma passageira e eu chamámos um táxi: eu tinha uma reunião, ela queria ir ao hospital. Todos os trajectos tomados estavam também impedidos pela água- não tinha sido só a linha férrea que ficara cortada. Depois de meia dúzia de quilómetros o taxista invertia a marcha e tentava outro caminho, uma, duas, três vezes. O condutor conhecia muito bem as estradas, mesmo as estradas do campo, e tentou todas as possibilidades antes de não ter outra solução senão voltar para trás e apanhar a estrada principal. Antes o tivéssemos feito logo que entrámos para o veículo em Alfarelos. A dado momento recordo o carro no meio do enorme campo muito plano e dividido por estradas paralelas aqui e ali submersas. No táxi de vidros embaciados eu limpava com a mão a vidraça do meu lado esquerdo para inspeccionar à minha volta. A água corria, marulhando incessantemente. Era um enorme lençol de cor leitosa, ondulante, que corria todo na mesma direcção, da direita para a esquerda. Atravessava a estrada que tentávamos percorrer e chegava sem dúvida ao nível das portas do táxi o que me deixava bastante preocupada. À minha esquerda, à minha direita, à minha frente, atrás de mim, as terras estavam cobertas de água. O taxista insistia em avançar e eu não percebia como é que ele tinha a percepção da profundidade da água. O troço da estrada adivinhava-se através de tufos intermitentes de arbustos ora da direita, ora da esquerda. Sabendo que ele devia conhecer o carro que conduzia não deixava de perguntar uma ou duas vezes: - Ouça lá, tem a certeza de que o motor não se vai afogar? Ele dizia que não, que aquilo era uma máquina, o que me deixava igualmente intranquila. Atrás de nós, talvez a nem 500 metros, suspeitava eu de águas sustidas por frágeis barreiras em jeito de dique, num plano mais elevado. Nem queria imaginar que aquilo cedesse e elas galgassem o desnível. Se começassem a correr na nossa direcção o carro seria arrastado. Pensei nisso. Estar ali no meio daquele mar-chão de ondulação miúda e barrenta transmitia-me uma inquietação enorme. Não chovia mas a atmosfera estava muito húmida e pesada, os céus fechados de nuvens cinza-névoa. Finalmente o taxista deixou de lutar contra a sua própria teimosia. Eu respirei de alívio. Chegámos a Coimbra três horas depois do previsto. Sirvo-me da minha pequena e inconsequente experiência para tentar perceber algo do que possa ter sido o horror de ser apanhado por uma massa de água em fúria apesar de nem sequer ter molhado o dedo pequeno do pé naquelas águas barrentas dos campos de arroz de Montemor-o-Velho. Ensaio multiplicar a sensação por cem, por mil, mas nem assim. É nesta distância de proporções que se situa a minha percepção do Tsunami asiático. Nesta distância e no meu lugar de espectadora bem aconchegada no meu sofá, de controlo remoto na mão, de camisola quente e seca, em frente ao aparelho de TV. Que sorte que eu tenho.

1 comment:

Capitão-Mor said...

Embora em proporções bem distintas, as cheias que muitas vezes assolam essa área de Montemor-o-Velho e o Ribatejo têm efeitos catastróficos. No entanto, convém não esquecer que já fomos vítimas de um tsunami em 1755...

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