11/24/06

NÃO PAREM DE ME ARTESANAR!


(Artesanato natalício para suspender na porta da entrada de casa. O meu sobrinho fez as estrelas, os corações, os peixes e pássaros em massa DAS e cravou-lhe pedrinhas coloridas. Eu fiz o resto.)

De há uns três anos a esta parte a blogosfera portuguesa encheu-se de blogues de mulheres que se dedicam a criar peças de artesanato da mais variada qualidade e pelos mais variados motivos. Aventuras criativas individuais para passar o tempo, valorosas cruzadas maternais perante a adversidade, juvenis experiências empreendedoras, microformas de negócios on-line - há de tudo nesta vasta galeria de produtos manuais desenvolvidos no aconchego do lar e expostos na grande montra da Internet. Sempre apreciei peças artesanais porque são únicas. Eu própria gosto de criar algumas de tempos a tempos, exemplares únicos, pois se tenho de fazer vários semelhantes ou parecidos o tédio apodera-se de mim e logo me enfado. Coisa que nestas artesãs ditas urbanas parece não existir já que algumas se dedicam à efectiva produção artesanal de série, peças atrás de peças atrás de peças que apenas apresentam algumas variações mínimas. Elogio-lhes a paciência fruto da paixão ou da necessidade. Alguns desses produtos são efectivamente notáveis pelo conceito de produção que envolvem ou o próprio design. Adquiri um a Rosa Pomar, uma boneca personalizada para oferecer à minha irmã por altura do nascimento do meu sobrinho. Infelizmente muitos produtos que se podem encontrar nestes blogues já são apenas derivação ou mesmo cópia do engenho de quem se abalançou a dar o primeiro passo. Todo este afã criativo rejuvenesceu e ressuscitou a cena das manualidades que andava até mal vista e arrumada algures entre produto de donas de casa desesperadas, ocupação de ócio de senhoras bem e entretém das reformadas, ou metodologia de quermesse. Técnicas antigas receberam novo fôlego; possuir jeito de mãos tornou-se subitamente motivo de inveja e moda; competências femininas de outrora foram revalorizadas e até já existem homens intrigados com o fenómeno, a cobiçarem a astúcia e a deitarem mãos à obra!
Todo este movimento traz à tona o primado do indivíduo e é isso que me fascina como criatura individualista que tendo a ser. Eu tive sorte. Eu fui uma bebé que teve um enxoval confeccionado à medida, peças minúsculas cortadas em retalhos escolhidos com amor e costuradas uma a uma, malhinhas tecidas com modelos originais e exclusivos, babetes bordados com minúcia. Ah! E já me esquecia de mencionar a alcofa decorada e respectivos lençóis made by mamã. E depois fui crescendo e nos anos seguintes a minha mãe continuou a confeccionar quase toda a minha roupa, vestidos fabulosos, casacos, calças. Na altura eu achava isso natural, aliás, pensava que todas as mães eram assim. Mas hoje penso que isso foi extraordinário. Até porque hoje já não tenho essa sorte, hoje que eu gostaria de usar peças exclusivas a toda a hora! Por ter estado por perto do atelier adquiri conhecimentos de corte, diferentes tipos de tecidos e acabamentos e isso tornou-me mais tarde uma consumidora crítica que sempre olhou para a roupa das lojas como quem inspecciona, escapando à sedução da moda as mais das vezes, sendo mais objectiva do que emotiva no acto da compra.
A produção em série pode ser muito lucrativa para o dono da fábrica mas nem sempre deixa o consumidor plenamente feliz. Deixa-o apaziguado na sua necessidade mas vestido de igual a não sei quantos mais consumidores. Que tédio. Compramos muitas vezes o que precisamos, não o que gostamos verdadeiramente. Esgotada a necessidade chega o dia em que adquirimos nova peça e com desprendimento deixamos de parte a anterior que nada tinha de especial que justificasse uso prolongado, cuidados especiais, destaque no guarda-roupa. Com o tempo o consumidor acabou por acreditar que a situação era prática, a solução única e que fazia máximo sentido no quotidiano do corre-corre. Esqueceu-se que podia ele mesmo produzir e ser único. Talvez nem sempre nem nunca, mas esqueceu-se. Imagine-se agora que a sociedade de consumo possa evoluir e dar lugar a uma outra onde a afirmação individual se faça pela produção de tudo o que cada um de nós souber fazer de melhor a par do primado do nosso gosto especial atípico, incomum, único. Na realidade porque têm tanto sucesso alguns blogs e podcasts? Não será porque os consumidores estão cansados de formatos padronizados ou conteúdos espartilhados por regras que não os servem mas que foram treinados para aceitar como a resposta única?!! Algo na nossa consciência colectiva reclamava por esta pequena revolução dos produtores artesanais que apela fundo à satisfação dos nossos caprichos e desejos. Não apenas às nossas necessidades mas também ao nosso desejo de prazer, ao nosso eu muito pessoal. E a internet foi a alavanca deste movimento criativo. E estamos todos a descobrir o prazer de comprar por encomenda, à nossa medida e dos nossos gostos. E havendo procura é apenas inevitável que não nos parem de artesanar …

4 comments:

carrie said...

quem não gosta de peças originais e únicas?

agora c a bebé, renovou-se-me esse espírito e comecei até a fazer-lhe uns sapatitos :) e não é que são cobiçados pelos demais papás, mamãs, tios e tias por onde ela passa? :) nunca pensei ter jeito para o corte e costura de agulha... :)

carrie said...

os sapatitos dão pelo nome de pezitos. e estão alguns em expo em www.or-gasm.blogspot.com :) tb te vou linkar! :) ehehheeheh

Anocas said...

Olá!
Gostava que muitas pessoas pensassem assim...
Pois por vezes a desmotivaçao vem ao de cima, com frases como :"isso eu também fazia",ou "nos chineses há igual".
Enfim...o que vale é que realmente ainda há pessoas que apreciam :)

Tchetcha said...

Olá, gostei muito deste artigo, do seu blog e obrigada pelo link. Sem dúvida que artesanar é um prazer renascido! Para quem o faz e para quem o compra!
Artesanato Caseiro

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