Tornado na Ericeira, veja o video no Youtube. Foi hoje, a meio da tarde. Temos de nos habituar à ideia de que estes fenómenos se tornarão cada vez mais frequentes.
25/10/13
20/10/13
Exposição Colectiva de Fotografia Figueira da Foz, Aqui sou feliz encerra hoje!
20 autores, 20 olhares, 20 fotografias. Encerrou hoje a exposição colectiva de fotografia Figueira da Foz, Aqui sou feliz que esteve aberta à visita do público no 1º piso do Mercado Municipal desde o dia 20 de Setembro. A iniciativa de organizar esta exposição partiu de uma página do Facebook dedicada à cidade da Figueira da Foz, administrada por Mauro Correia, – www.facebook.com/figueiradafoz - e contou com o apoio da Divisão de Cultura da Câmara Municipal, tendo sido integrada nas comemorações do 131º Aniversário da elevação da Figueira da Foz a cidade.
Não sei se a exposição teve muita adesão, mas havia boas razões para ir ao Mercado Municipal. Em primeiro lugar, as fotografias. Eram fotografias da região. Acreditem que mesmo residindo na Figueira da Foz poderiam ser surpreendidos. Mesmo que caminhem pelas suas ruas diariamente. Ou façam muitas voltinhas ao fim-de-semana. Um bom fotógrafo vai conseguir mostrar-nos coisas que nunca vimos ou de uma forma que não conseguimos ver. Acabamos por ampliar o nosso conhecimento através dos olhares dos outros. Experimentamos surpresa, beleza, dúvida. É um bom exercício. Em segundo lugar, os fotógrafos. Não conheço nenhum deles pessoalmente, não sei quem é profissional, quem é amador, se são todos amigos ou não. Mas uniram-se e fizeram acontecer a exposição. No mínimo deram-nos mais um bom pretexto para sair de casa e esticar as pernas. Merecem o nosso apoio. Em terceiro lugar era grátis. Actualmente quase tudo é pago e uma das razões que muita gente aponta para não participar em eventos culturais é o preço. Ir ver a exposição era de borla e, sim, fotografia é cultura. Em quarto lugar, era inovador. Era sim senhora. A exposição foi feita num espaço tradicionalmente apartado dos eventos culturais, o mercado municipal. Espero que o exemplo continue e que o espaço venha a ser explorado para esse fim mais vezes. E já agora outros espaços. Além destas, outras mais, por exemplo, esteve aberta durante um período de tempo razoável e num bom horário. Se não foram ver a exposição, paciência. Terá de ficar para a próxima. Eu não fotografei as fotografias pois os vidros tinham muitos reflexos, estaria a prestar um mau serviço aos fotógrafos se o tivesse feito. No entanto fotografei o 1º piso do mercado para vocês verem como está este espaço depois da obra de requalificação. (Abaixo.)
Estes jovens têm páginas no Facebook e eu sigo algumas. Aconselho a que procurem pois eles são uns autênticos caçadores de imagens, eu tenho visto recantos da Figueira da Foz e arredores que nem sabia que existiam! Vamos ver se aquando da próxima exposição nos encontramos todos lá! Aqui deixo as minhas impressões pessoais das fotos, " a la minute", para não aborrecer muito!
Bianca Nerlich, apresentou uma bela fotografia, uma autêntica cápsula do tempo, onde o nosso olhar hesita entre a beleza de um céu carregado de estrelas e a aparente fragilidade de um moinho de madeira. Debaixo daquele céu majestoso parece um estóico soldado, um resistente de um tempo perdido!
Celso Silva, mostra na sua fotografia como a Natureza não precisa de mais que uns tons de laranja para pintar uma obra prima. Nem tudo o que reluz é oiro, mas nesta fotografia os raios de sol transformaram a água do rio Mondego em ouro líquido, inundando a foz de esperança por entre as nuvens negras.
Cíntia Sofia, trouxe o humor a esta exposição através da cor, das formas redondas dos Wolkswagen! Ela encontrou dois "carochas", um mais entradote e outro jovem, a viverem um romance, junto da Torre do Relógio, sob a égide dos gelados da Olá! Esta foto divertida, que captura a luz e as cores do verão, acaba por ser uma metáfora. Um instante que valeu a pena guardar!
Filipe Brás, fez talvez a minha foto predilecta. Porquê? A realidade desoladora de um dia agreste. O molhe norte está deserto e as ondas que o varrem são de areia. Tive de olhar duas vezes e aproximar-me para ver melhor. Ondas de areia. Ele viu poesia. Isto vale a pena.
Jaime Albarino, mostrou-nos um porto de abrigo em tons de cinza azulado e laranja, a marina, uma das zonas mais bonitas da Figueira da Foz. Vejam se os barcos não parecem casas, se o chão de água não podia ser terra. Que tranquilidade embalada pelo luar.
João Silva, trouxe para a exposição uma fotografia de rosas e azuis irreais, esfumados, abruptamente manchados de escuro por um rochedo, um intruso, a lembrar-me alguns barcos que encalharam na nossa costa!
Jorge Ribeiro, fotografou autênticas asas de liberdade que se lançam do topo da Serra da Boa Viagem, sem medo. Uma fotografia a preto e branco onde quase adivinhamos os vultos a sumirem-se na névoa do horizonte, deixando as amarras para sempre.
José Alberto Ferreira, mostra-nos numa das fotografias mais complexas em sentidos e jogos de linhas, a engenharia da modernidade da ponte da Figueira e a técnica antiga da construção de salinas. Friamente, leva-nos a interrogar sobre esta convivência. Será o reflexo da ponte nas águas das salinas um sinal de ameaça, ainda que velado?
Luís Cavaleiro, apresenta-nos uma fotografia que captura aquele momento mágico em que dia e noite convivem. Ainda não é noite mas já não é dia. Um rasto de luz laranja faz vibrar a quietude desta paisagem. É uma fotografia plena de mistério e qualidade estética.
Luís Pessoa, mostra-nos a graça de ver a rua ocupada pelas pessoas e transformada numa celebração de passos e poses, sem preconceitos ou vergonha dos olhares alheios. Mais uma fotografia que nos faz esboçar um sorriso.
Nestor Santos, oferece-nos uma fotografia de cores saturadas e boa perspectiva, um postal do trabalho nas salinas.
Miguel Madureira, na fotografia apresentada, mais do que um relógio, eu vi duas pessoas sem futuro. As linhas da torre e da varanda parecem barrar os movimentos a este dois, sentados num banco, apartados, sem diálogo. O tempo parou, eles pararam o tempo. E, no entanto, não poderão eles ser apenas dois estranhos que escolheram o mesmo banco por acaso?
Paulo Barbosa de Madureira, branco e negro, as cores académicas, tinha de ser uma fotografia a preto e branco. O sorriso deste rapaz ao centro da fotografia ilumina todo o recinto. É através dele que vivemos a festa no Coliseu e a desconcertante celebração estudantil da garraiada. É também através da sua alegria que festejamos este abraço anual entre a Figueira da Foz e Coimbra! Uma excelente participação!
Pedro Cruz, apresenta-nos uma fotografia que é movimento, é força, é ousadia, é espanto. Impossível não perguntar que louco é aquele que se agarra à sua prancha como um animal marinho à sua carapaça para conseguir sobreviver, acrobaticamente, à fúria da onda! Como te atreves? - parece questionar a onda,- Vai-te se não queres ser engolido! - parece ela rugir ao enrolar-se. Uma homenagem ao Cabedelo e aos surfistas loucos que nos encantam com as suas proezas.
Pedro Martins, traz-nos uma fotografia do molhe norte, o paredão que entra pelo mar e descreve aquela curva suave para a esquerda. Nesta foto tudo parece líquido, o ar, o caminho, o horizonte. É o caminho do mar, é o destino, ou foi, de muita gente da Figueira. Ao vê-la a nossa respiração suspende-se como se estivéssemos debaixo de água. Adorei.
Rui Paulo Gonçalves, a fotografia que nos trouxe até podia ser uma tela, um empastelado de cores escolhidas a preceito. Ali perdemos o pé, não sabemos mais onde fica o chão e onde o céu, se voamos pelo chão ou se caminhamos pelas nuvens. O encontro das pontes é uma ilusão mas na realidade prova, através do olhar do fotógrafo, que o passado e o futuro estão intimamente ligados.
Rui Santos, mostra-nos uma fotografia que se vê e que se ouve. Escutem o vento enquanto ele acaricia as ervas ondulantes em primeiro plano para depois as abandonar. Sigam o seu rasto pelos terrenos e descansem os olhos no horizonte orlado pela Serra da Boa Viagem.
Sérgio Vieira, desvenda-nos o amor da terra pelo mar nesta fotografia. Quando a noite chega a terra incendeia as águas do mar com tochas de luz. Amor é fogo que arde sem se ver, a não ser que haja um fotógrafo por perto. Um bom click.
Susana Cardoso, captou uma modesta vendedora de castanhas assadas junto do gigante Casino da Figueira e deu o nome de Perfume de Outono à sua fotografia. É um retrato social onde a fina ironia dava para escrever um livro!
Susana Monteiro, mostrou-nos um céu azul eléctrico sobre o vasto areal da Figueira da Foz. Ao longe o horizonte iluminado por um raio, sinal de tempestade no mar. Em frente a nós a passadeira. Ver melhor, ver mais de perto...ir até ao mar...O clarão despertou-me para a vida dos pescadores e dos perigos por que passam no alto-mar. Vida dura. Quantos de nós teriam a coragem de fazer esse caminho?
A Figueira da Foz precisa de mais iniciativas como esta, dos seus cidadãos para os outros cidadãos, despretensiosas, feitas com o coração. Simples exposições como esta animam os espaços urbanos não apenas pela mostra em si mas também pela discussão que podem fomentar. Não raro geram entusiasmo e mobilizações para projectos futuros. Potencialmente podem até despertar o visitante para a fotografia amadora, ou até como profissão, ao colocarem-no perante uma forma de apreciação da fotografia diferente daquela a que usualmente está habituado. Com a generalização do digital a banalização da fotografia tornou-se uma evidência. A captação fotográfica de imagens e a sua distribuição estão mais presentes no nosso quotidiano que nunca.Qualquer exposição de fotografia, obrigando a um formato adequado e impressão em papel, acaba por reconduzir o olhar do seu observador à sua original vocação e só por isso valerá a pena...
19/10/13
Desemprego: as razões da Sara são as razões de muitos

"NÃO MATAM MAS MOEM
Ver diariamente dezenas de anúncios de emprego, uns enganosos, outros com requisitos que não preencho, outros inacessíveis (queres ver o contacto, paga!); responder a uns quantos e não receber nem os avisos de leitura dos mails; ver o meu nome todas as semanas nas listas de “não colocação” do MEC; imprimir as provas disto tudo para arquivar no dossier do IEFP (que provavelmente nunca vai ser fiscalizado); ir a entrevistas onde me oferecem salários ridículos, me fazem esperar horas e nem se dão ao trabalho de me informar depois que não fui seleccionada; receber cartas da SS a dizer que tenho 30 dias para devolver “prestações indevidamente pagas”; ir à Junta de Freguesia de 15 em 15 dias mostrar um papel e trazer outro: não mata, mas mói… e CANSA!
Fazer contas à vida todos os dias, hesitar em cada compra, vasculhar prateleiras e cupões do supermercado para poupar uns cêntimos; tentar gastar menos luz, menos água, menos tabaco; separar coisas para tentar vender, a ver se arranjo uns trocos; recusar convites de amigos para jantar e/ou beber uns copos; ver cada vez mais gente a pedir nas ruas e a vasculhar o lixo (lembrando-me que ainda há mais patamares para descer), e não poder ajudar: não mata, mas mói… e ENTRISTECE!
Ver notícias sobre o aumento do desemprego, o alastrar da miséria, o caos instalado nas escolas, os cortes nos salários, nas reformas e nas prestações sociais; ver as poses pindéricas e ouvir as verborreias do Silva, do Coelho, do Portas, da Albuquerque, do Barroso e já agora do Seguro e da maior parte dos deputadosinhos: não mata, mas mói… e ENOJA!
Ir às manifestações sozinha ou às vezes com um amigo ou outro, que a maior parte tem preguiça ou muito calor ou medo da chuva ou não acredita que resulte; ouvir alguns desses amigos e outros, conhecidos, a dizer que não adianta nada, que eles foram eleitos democraticamente e a culpa é de quem votou neles e/ou de quem se absteve (como eu!); ouvir também de alguns que isto só se resolve com violência, acções radicais, é partir tudo, é parar tudo (mas é só letra, que não os vejo mexer uma palha, quanto mais uma pedra); ver pessoas encostadas às montras de Santa Catarina, a deixar passar as manifestações onde desfilo, pasmadas, indiferentes, incomodadas, condescendentes; não mata, mas mói… e DÓI!
Porque estou cansada, triste, enojada, dorida e, sobretudo, REVOLTADA, mas ainda não estou morta, amanhã vou à MARCHA POR ABRIL da CGTP. No dia 26 também irei à manifestação NÃO HÁ BECOS SEM SAÍDA, do “Que Se Lixe a Troika”.
Não posso ficar parada enquanto o meu país é destruído e engolido num suicídio europeu. Não posso ficar calada enquanto houver uma corja de gente ignóbil a arrasar a minha vida e a de milhões de outras pessoas.
Eu sei que as manifestações não matam. Mas sei que moem. E as próximas hão-de moer e moer e MOER."
Por Sara Nelma. https://www.facebook.com/sara.nelma
07/10/13
Figueira da Foz: concessionários descontentes
Ao pegar o jornal A voz da Figueira do dia 18 de Setembro li um lamento de um concessionário que tem nesta cidade o seu negócio de exploração de chapéus de sol. Manuel Teixeira é concessionário há 25 anos. Há 25 anos ainda eu não frequentava a praia da Figueira. Quem me conhecia então sabia que eu não gostava de praia. Eu era a única que chegava chegava ao Liceu no Outono com a mesma cara pálida com que tinha saído de lá em Junho!! Vivi na Figueira anos a fio sem meter os pés no areal e muito menos no mar. Subitamente um Verão tudo mudou. Apaixonei-me pelo azul e pela luz do Verão. Se há riqueza que prezo nesta cidade é a sua geografia costeira.
Fiquei então a saber pelo jornal. Muita parra pouca uva para o sr. Manuel. A praia cheia de gente mas poucos alugaram chapéus. Este concessionário queixa-se de não ter tido retorno, pagou as despesas e já não sobrou nada para dar aos filhos que o auxiliaram no trabalho. Ele refere que a sua clientela fiel envelheceu, é natural que alguma até já tenha partido deste mundo. Os novos preferem carregar com chapéus de praia e tapa-ventos, não alugam. (Ou tendas. Ultimamente assisto ao fenómeno das tendas pronto-a-usar. Leves, chegam debaixo do braço e montam-se num instante. Parecem-me frágeis mas ainda não vi nenhuma a voar como vejo chapéus.) O preço do aluguer são 10 euros/dia, mas o preço baixa se o aluguer for de maior duração. Diz também que a sua zona está em terra de ninguém, entre a praia da Figueira e a baía de Buarcos, as duas zonas mais atraentes, onde a animação é promovida. O mar está cada vez mais distante, os chapéus avançaram para mais perto do mar e o café-restaurante e WC ficam a meio caminho de tudo, a meio caminho da avenida e a meio caminho do mar. Ninguém se sente incentivado para lá ir, longe para quem está no calçadão, longe para quem estiver na junto ao mar! As passadeiras não têm manutenção, as pessoas até já lá deram tombos, e nem a sua extensão é suficiente, com a areia sempre a crescer à sua frente! Entre o investimento feito e que continua a amortizar, e as despesas com rendas, manutenção e pagamento aos nadadores salvadores, Manuel Teixeira trabalha praticamente para aquecer.
O que me parece é que Manuel Teixeira tem um negócio em vias de extinção. É grave para ele mas também é grave para a imagem da praia. Comecei a imaginar a praia sem os habituais toldos listados alinhados. Não seria bem a mesma coisa. O certo é que as barracas e chapéus têm vindo a diminuir, eu própria o consigo testemunhar mesmo sem ter 25 anos de frequência de praia. Cada ano há menos guarda-sóis e cada ano são levantados mais cedo. Pergunto-me se estes concessionários não podiam ser apoiados. Está tudo a mudar, é certo, mas quando a gente imagina uma praia imagina-a com estruturas de apoio. Esses equipamentos acabam por caracterizá-la também. Se mais gente alugasse chapéus o negócio seria viável, o preço do aluguer até poderia baixar. No meu caso, posso dizer que se há coisa que não aprecio é carregar com a tralha para a praia. Faço-o porque é mais barato. Seria bem mais confortável poder sair de casa e caminhar até à praia apenas com uma ceira debaixo do braço. E mais saudável também - as tralhas são a razão porque muitos continuam a ir de carro, perdendo uma boa oportunidade para caminhar e fazer algum exercício.
Uma coisa que Manuel Teixeira referiu foi a despesa com os nadadores salvadores. Por acaso eu já me tenho interrogado acerca desse facto. Porque razão têm de ser eles a fazer esse pagamento. Os nadadores salvadores estão de serviço à concessão. Mas se a pessoa que tiver alugado uma barraca for arrastada por uma corrente para a zona não concessionada eles não a deixam afogar-se, pois não? E se uma pessoa estiver na zona não concessionada e vier tomar banho na zona concessionada? Vai o nadador salvador perguntar-lhe na sua hora de aflição se ela pertence ou não à zona explorada pelo seu patrão antes de lhe passar a bóia?!
As praias portuguesas recebem milhões de visitantes todos os anos, Portugal vende praia como componente essencial do seu pacote turístico e a segurança das praias é uma questão fundamental quando se fala de turismo de qualidade. A presença de nadadores salvadores nas praias devia ser independente da existência e viabilidade destas concessões de praia.
Outra questão em que matuto quando estou na praia. Ser nadador salvador é uma profissão? Nem tenho a certeza que os próprios a encarem assim. Mas penso que o seu exercício devia ser, de alguma maneira, dignificado. A maioria das pessoas vê os nadadores salvadores como uns estudantes que vão ali fazer um trabalhito de Verão, um part-time, que se resume a passar o dia a olhar as ondas. Além disso ainda tem bónus:dá para namorar umas miúdas e apanhar um bom bronze. Os jovens até fazem isto por gosto. Não custa nada. Mas não será bem assim. Além da efectiva responsabilidade pelas vidas na praia - de que as pessoas apenas se lembram quando há um salvamento - ainda estão sujeitos ao insulto fácil no momento em que pretendam ver os seus avisos respeitados pelos banhistas.
Fiz uma pesquisa rápida no Google e descobri que para se ser nadador salvador é preciso ter um curso, uma formação de 135 horas distribuidas por 29 dias. Os cursos de nadadores-salvadores são ministrados pela Escola de Autoridade Marítima (EAM), recorrendo a uma bolsa de formadores do ISN.O candidato tem de prestar provas físicas como nadar 100 metros livres no tempo de 1 minuto e 50 segundos, cumprir 20 segundos, no mínimo, de natação subaquática, fazer 25 metros de costas só com batimento de pernas e recolher dois objectos a uma profundidade mínima de 2 metros. Os módulos práticos da formação abordam técnicas de natação, salvamento em meio aquático, suporte básico de vida, oxigenoterapia aplicada ao afogamento, resgate em piscina e aulas de mar.
O modelo vigente em Portugal obriga os concessionários das praias a fazerem a contratação de nadadores salvadores. Eu penso que isso talvez devesse ser mudado. Porque não passar a ser uma responsabilidade das autarquias, dos orgãos de Turismo ou outras entidades? Porque não uma responsabilidade repartida? Também em relação à actividade dos nadadores salvadores, que é sazonal, seria interessante que num país com uma costa tão extensa pudessem ter ocupação todo o ano, por exemplo, a ensinaram natação a crianças e adultos ou a promoverem acções de educação sobre salva-guarda dos ambientes costeiros. Porque ficam essas estruturas do areal fechadas quase todo o ano? Porque não permitir uma maior aproximação às praias não apenas no Verão, mas na Primavera e até no Outono? Quem observou as praias de Figueira neste fim-de-semana viu como se animaram de adultos e crianças. Cada vez mais as pessoas têm de combater o sedentarismo, sair de casa e viver o ar livre. O nosso país não tem dos invernos mais longos e rigorosos e estudos indicam que as temperaturas vão continuar a subir nos próximos anos. Talvez as minhas divagações motivadas pelas tardes na praia não sejam ideias assim desprovidas de sentido. O sr. Manuel Teixeira até talvez votasse nelas, quem sabe.
28/09/13
Cinema: Desligados é cibersexo, mentiras e internet
Henry Alex Rubin é o realizador de Disconnect que em português tomou o nome de "Desligados". Ele já fez documentários premiados mas este parece ser a sua primeira incursão na ficção. Trata-se de uma história que abrange várias personagens directa ou indirectamente ligadas, um pouco como aconteceu no oscarizado Crash ou noutros filmes menos celebrados.
Disconnect - Desligados é um filme ancorado na cultura das redes sociais, aplicações, computadores, telemóveis, enfim, da tecnologia que hoje nos rodeia, e também de um certo alheamento da realidade em que muitos parecem mergulhados, um estado de "desligamento" global. Para uns a mensagem de que a internet é um papão e de que existe ali uma autêntica cyber-selva digna de um salve-se quem puder poderá até ser risível. Tão risível quanto sabemos que a televisão já foi acusada do mesmo. Para outros poderá ser um alerta. Nem todas as pessoas vivem a era da internet com a mesma intensidade. Mas Disconnect - Desligados é representativo da forma como a internet entrelaça a vida de todos nós, questionando o poder e o papel das relações virtuais que tecemos e também o da forma com comunicamos. Usemos a tecnologia mas saibamos usá-la a nosso favor. A tecnologia faz parte integrante das nossas vidas. Qual a nossa relação com ela? Devemos confiar cegamente nas novas ferramentas ou devemos estar alerta e perceber que, se não soubermos o que estamos a fazer, podemos vir a causar danos, intencionalmente ou não, a nós mesmos e/ou a terceiros?
E qual a qualidade da comunicação assim feita? Nunca tantos estiveram ligados e nunca a comunicação foi tão potencialmente capaz de encerrar erro, mentira, engano, falsa expectativa, humilhação. Em vez de nos tornar mais autênticos a tecnologia veio possibilitar entre nós e o outro uma espécie de pano onde projectamos o que queremos ser, como queremos ser. Vivemos existências veladas e quando somos forçados a revelar-nos acontece o choque de percebermos a enorme pobreza emocional que tudo isso encerra, confrontados que somos com a nossa derradeira descaracterização como seres verdadeiramente humanos. Desligados. A culpa é nossa, não da tecnologia.
Henry Alex Rubin oferece-nos uma tapeçaria feita de histórias de vida e tecnologia, a tecnologia é o fio onde a trama se vai entrelaçando, ou seja, a vida mudando de côr e de textura à medida que acontece. E, tomem nota, as cores deste filme não são nada alegres. Rubin mostra-nos o lado negro da internet, o seu lado mais perverso. Todas as personagens vão experimentar provações ao longo da história. Há adolescentes a serem recrutados para oferecerem cybersexo em salas de chat na internet. Não têm a noção exacta da gravidade do que lhes aconteceu, não percebem que estão a ser explorados, vivem o dia-a-dia numa ilusão sem se interrogarem acerca do futuro. Há teenagers que se entretêm a fazer bullying usando a internet sem consciência do perigo, possivelmente encarando isso como apenas mais uma partida, uma brincadeira igual às que faziam no "mundo real". Há miúdos tímidos e talentosos que desejam a morte por terem sido humilhados através do bullying cibernético.
O mundo dos adultos não é mais nem menos negro. Um casal é vítima de roubo de identidade, perde os seus bens e acaba a embarcar numa imprevisível caça ao homem, em busca de uma justiça que a polícia tarda em realizar. Uma jornalista insatisfeita e ambiciosa procura destaque profissional através da realização de uma peça choque sobre cybersexo de menores e vê a sua vida desmoronar quando percebe que se envolveu demais e tudo lhe escapou ao controle.
As famílias retratadas em Disconnect - Desligados são células de pessoas que se juntam à refeição mas que nem nesse momento se desligam dos seus aparelhos móveis. Cada adulto vive os seus problemas individualmente, a perda de um cônjuge e uma mudança de carreira, os dilemas financeiros, a obsessão pelo trabalho, sem se ligarem mais que superficialmente uns aos outros. O diálogo morreu. A opção é ligarem-se à internet para compensar o vazio. O consolo perante o luto de um bebé que se perdeu ou perante a angústia de estar só num casamento em crise, é encontrado, num site na internet destinado a apoiar emocionalmente pessoas que atravessam momentos de crise. E são as palavras de gente anónima, estranha, virtual, que tornam a vida mais suportável. É ainda num site de jogo online que se encontra a o escape para a vida real com que não se consegue lidar. Um ex-polícia é agora um cyber-detetive e quando um pai se vê confrontado pelo mistério do suicídio do seu filho é ainda para a internet que se volta, para o Facebook, onde busca avidamente o apaziguamento para a sua perplexidade, a resposta às suas questões. Como se não fossem capazes de comunicarem entre si de forma natural, ou não soubessem como, é sempre através da intermediação de um aparelho que a realidade parece finalmente fazer sentido. Será que deixámos que a tecnologia nos mudasse de tal modo que vamos todos precisar de mediadores da realidade no futuro?!
Embora não sendo uma obra-prima Disconnect - Desligados não deixa se ser um filme muito interessante de seguir para o que concorrem sobretudo as excelentes interpretações de todos os intervenientes, mesmo os mais jovens. Os jovens actores são admiráveis nos seus papéis, rivalizam à vontade com os adultos, e as suas personagens bem desenvolvidas. Os aspectos técnicos também são de bom nível, em especial a edição e fotografia, e a realização de Henry Alex Rubin é segura. Podem censurar-me a postagem cheia de spoilers. Mas isso não vai retirar-vos o prazer de ver este filme pois não são os diversos fios que desenrolei o mais importante e antes a forma como Rubin tece este filme até chegar ao resultado final. Aconselho, quanto mais não seja para fomentar a discussão. E agora, se me dão licença, vou ali ao Facebook e já volto.
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