04/02/13

Cinema: Seis sessões - vamos falar de sexo!


Histórias de pessoas com deficiência populam o cinema. Deficiência mental ou física. Umas mais realistas, outras menos. Interpretadas por Dustin Hoffman em Encontro de irmãos, Shean Penn em I am Sam. Caprio em What's eating Gilbert Grape? Sam Worthington em Avatar. Também animais, Winter, em A Dolphin's tale. E até um dragão animado - Toothless, em Como treinar o teu dragão! Algumas destas histórias são sobre a vida de pessoas em situações limite, pessoas para quem o seu corpo se tornou uma armadilha, um cárcere, caso de Mar adentro, de Amenabar, ou O escafandro e a borboleta, de Schnabel. Assim é Seis sessões embora não se possa comparar com estes, o seu tom é mais carinhoso, menos sério, é uma comédia dramática, um drama cómico, é, sem dúvida, mais sobre sexo do que sobre deficiência. E encara-o com uma naturalidade, uma honestidade e simplicidade raras no cinema norte-americano, nesse aspecto fez-me lembrar de Sexo, mentiras e video, o primeiro êxito de Soderbergh.

Quando li a sinopse de Seis sessões lembrei-me de O meu pé esquerdo, com Daniel Day Lewis. O filme também é baseado em factos reais, segue o livro com o mesmo nome escrito por Christy Brown, um escritor e artista irlandês, diagnosticado com paralisia cerebral à nascença. Com a ajuda da mãe ele aprendeu a escrever e a pintar com o único membro do seu corpo que conseguia controlar - o seu pé esquerdo. A sua história tem contornos de milagre, de tão incrível que é. Os actores, Daniel Day Lewis e Brenda Fricker, que interpreta o papel da mãe de Christy, foram nomeados para o Óscar e levaram as estatuetas consigo. No final dos anos 80 eu via cinema todas as semanas e se possível tentava ver todas as fitas nomeadas antes da cerimónia da sua entrega. Mas O meu pé esquerdo ficou para anos depois e só o vi quando passou na televisão. Nem sempre tinha estofo emocional para ser confrontada com as manipulações emocionais que muitos realizadores fazem destas histórias. Mas O meu pé esquerdo é um filme a não perder. Em vez de nos ensopar a face em lágrimas ou de nos abafar o coração com o sofrimento do protagonista, o filme de Jim Sheridan entretém- nos com inteligência e humor, celebrando a vitória de Christy Brown sobre a sua incapacidade, a descoberta da sua vocação artística, o seu desejo de amor e de apreço pela vida, a impressão que fica é a de um ser extraordinário e forte, não uma criatura inadaptada e frágil. Escrevo de memória, passaram-se anos sobre a noite em que vi este filme, mas aconselho aos leitores cinéfilos mais jovens deste blogue, sem hesitações.

Seis sessões tem como ponto de partida o artigo "On Seeing a Sex Surrogate", escrito por Marc O'Brien, para o jornal "The Sun", nos anos 90. É um filme simples mas seguro, realizado com economia narrativa e uma eficácia extremas. Não é um filme excepcional, é um bom filme sobre um homem que gosta de mulheres e que deseja que as mulheres gostem dele. Seria talvez um filme imensamente constrangedor não fossem os diálogos inspirados e as interpretações fantásticas dos protagonistas, Helen Hunt, a terapeuta sexual, e John Hawkes, papel do poeta e jornalista de 38 anos que se prepara para a sua primeira experiência sexual, mesmo se dorme num "pulmão de aço" durante a noite para poder respirar, e se não deixa a cama/maca em nenhum momento do dia, porque está completamente paralisado. A eles junta-se William H. Macy enquanto padre, amigo e conselheiro nesta aventura. Bonito, inteligente, culto e bem humorado, este homem que vive num tubo de ferro, é dependente da ajuda de terceiros para tudo, tudo mesmo, desde a sua higiene até à compra de roupa. Mas não prescindirá nem da sua vaidade pessoal, -é levado até à loja vintage para escolher uma camisa bonita- nem de viver os seus sonhos, nem que para tanto tenha de questionar as regras da sociedade, os limites morais da religião em que foi educado, e os seus próprios limites físicos, indo ao encontro da felicidade, que, efectivamente, o aguarda, premiando a sua persistência e a sua ousadia.

Ver este filme não nos dobra o espírito em quatro mas faz-nos questionar a forma como encaramos a vida. Alguns dos nossos queixumes diários parecerão até miseráveis. Que vergonha sentir que viver nos suga o ar dos pulmões. Afinal somos, na maioria, indivíduos funcionais e autónomos, bem aparelhados para a vida, no pleno domínio das nossas faculdades. Mas quantos dias nos sentimos amassados pelo peso de existir como se a vida fosse uma prisão! Presos nos seus corpos estiveram afinal Marc e Christy, Marc durante cerca de 50 anos, Christy durante mais alguns, creio, e isso não os impediu de fazer das suas debilidades uma vitória. E nós que somos donos e senhores do nosso corpo, da nossa mente, não raras vezes respiramos apenas insatisfação, frustração e angústia por todos os poros, não conseguimos gerir satisfatoriamente a nossa liberdade, incapacitados até para definir o nosso futuro. Caso então para perguntar quem é que afinal é deficiente.

Mais sobre Mark O'Brian


Breathing Lessons: The life and work of Marc O'Brian - Pequeno documentário premiado sobre o poeta e jornalista Marc O'Brian que lutou contra a sua doença, a burocracia e a percepção que a sociedade tem da incapacidade física das pessoas com deficiência. Atreveu-se a perguntar o que torna a vida digna de ser vivida.

How I Became a Human Being: A Disabled Man's Quest for Independence (Wisconsin Studies in Autobiography) - Neste livro autobiográfico, O'Brien descreve como foi crescer sem o uso de seus membros, após ter acordado do coma, aos seis anos, vítima de polio. Descreve a sua adolescência lutadora, a reabilitação física, o sofrimento, a burocracia de hospitais e instituições. Continua traçando o seu percurso pela vida adulta como um estudante independente e escritor. Apesar de suas limitações físicas, O'Brien produziu uma narrativa rica à semelhança da forma positiva e esperançosa como encarava a vida.

On seeing a surrogate - The sun - O artigo publicado por Marc no The Sun e que deu origem ao filme.

Concurso Performance Poética em video da Edita-me!



Para celebrar o seu 4º aniversário, a editora Edita-Me em parceria com o Olhares.com e o Rivoli, lança um novo concurso: Concurso de Performance Poética (em vídeo).

Este concurso consiste na produção de vídeos de performance poética por parte dos concorrentes, a partir de poemas/textos seleccionados de obras editadas pela Edita-me, e destina-se a premiar o melhor vídeo nas seguintes categorias:

- Melhor vídeo em termos absolutos
- Melhor performance poética
- Melhor produção vídeo
- NOVO: Melhor Making-of (prémio simbólico)

Os trabalhos deverão ser enviados até 15/Março/2013.

Os textos que devem servir de base para o trabalho, podem ser obtidos aqui.
O Regulamento do concurso com todos os detalhes, e lista de prémios, pode ser obtido aqui.

Para quem não disponha das duas valências (leitura e técnica) e mesmo assim queira participar, deixem nos comentários os vossos dados: (cliquem no link pois é no blogue da Edita-me que devem deixar os comentários)

Valência (Produção Vídeo ou Leitura) + Zona Geográfica + Contacto

Desta forma, a Edita-me pode criar uma "carteira" para auxiliar quem procure uma parceria, para a valência de que não dispõe, por consulta simples aos comentários.

03/02/13

Bob Harper's 20 Skinny Rules: perder peso com as regras do Bob Harper?



Encontrei as 20 regras do Bob Harper no Facebook - Bob Harper's 20 Skinny Rules! Nunca tinha visto este tal Bob Harper mais gordo, mas li as regras dele e elas fazem algum sentido, em teoria. Resultarão na prática? Eis o que penso: manter o peso ideal implica estar emocionalmente estabilizado, ter uma rotina de vida (pessoal, profissional, etc) satisfatória e controlada, e depois, sim, comer com conta e medida, e, por útimo, não passar a vida sentado a escrever no blogue ou a cuscar no Facebook! Voilá. Fácil, não é? (Just kidding!)

Fiz alguma pesquisa para saber quem é o cavalheiro. Encontrei aqui e aqui a resposta. É um guru do fitness que ajudou celebridades a emagrecer mas que ganhou maior projecção ao fazer parte da equipa técnica do concurso The Biggest Looser, nos EUA. O Bob também é um protector de animais e por isso eu até já gosto um pouco mais dele, digamos que essa gente dos concursos para gordos aspirantes a magros não me inspira grandes paixões, não é? O Bob foi vegetariano e deixou, agora é novamente um comedor de carne por alguma razão que ele deve já ter explicado em algum livro ou DVD.

Uma vez vi uns minutos do concurso equivalente ao The Biggest Looser que passava na nossa televisão - ainda passa? - e fiquei chocada. Os concorrentes que ali vão têm excesso de peso e não é pouco. São, a meu ver, casos clínicos, deviam estar era no consultório médico, não na TV. Mas, infelizmente, sucumbiram ao feitiço televisivo e lá estão em busca dos seus 15 minutinhos de fama, exibindo tristemente as suas curvas disformes para a nação e suando as estopinhas pela cadeia de TV que promove o concurso! A TV é que é a grande vencedora desta empresa ao vender espaço para publicidade a peso de ouro, ela ganha dinheiro enquanto os pobres concorrentes perdem calorias e cheiram mal. Que chocante vê-los alinhados a pesarem-se. Apenas vi cinco minutos do concurso e fiquei indisposta. Nestes dias em que ninguém quer ser gordo a verdade é que nunca houve tanto gordo por aí! Não acho que ninguém deve ter vergonha de ser gordo. Mas aquela exibição na TV é degradante e vergonhosa, não me venham dizer que é pedagógico.

A vida normal de todos os dias não favorece a boa forma de ninguém e em especial de quem já tiver uma especial predisposição para a engorda! Muitas são as causas para a obesidade: distúrbios e doenças que não conseguimos controlar, efeitos secundários de medicamentos, o estilo de vida estúpido que adoptamos mais ou menos conscientemente, uma alimentação desequilibrada, quantas vezes desde a infância ou adolescência. Uma coisa que esses concursos de TV parecem provar é que não basta uma corridinha matinal para fazer milagres. Quantos é que podem fazer 4 horas de exercício diário com um personal trainer e fazer dietas estudadas a preceito? Além disso, no meio de tanta informação sobre o que é saudável e o que não é, as dietas e os exercícios físicos, mais as mil e uma fórmulas milagrosas para abater as banhas instantaneamente antes do verão, há sempre quem mande tudo à fava, dicas, medicações, e tudo o mais, e continue a engordar.O segredo para conseguir criar e manter bons hábitos alimentares permanece um mistério complexo e indecifrável para muitos, algo a que se aspira mas que permanece inatingível. Assim o emagrecimento apresenta-se cada ano como um rentável negócio e, infelizmente, também como fórmula de entretenimento na TV.

Do excesso de peso nascem muitos problemas, nem todos nos afectam de igual forma. Eu, por exemplo, sinto-me aborrecida por não poder vestir peças de roupa relativamente novas que estão no meu guarda-roupa. Sei que isto não é nada comparado com problemas de auto-estima, relacionamento social ou de saúde com que muitas pessoas com excesso de peso se debatem. Mas para mim já é bem aborrecido, sobretudo porque não tenho dinheiro para ir substituir o guarda-roupa! Além disso, mesmo que a minha figura não seja a mais esbelta e ainda possa conviver com isso sem grande remorso, sei que estou a contribuir para a ruína da minha saúde, embora ainda não sinta os efeitos de forma directa. Mas eles não tardarão aí.

Estou no dia 3 de Fevereiro, dois dias depois do meu aniversário, sabem o que isso significou - bolinhos, bebidas, excessos! É uma boa altura para estabelecer um objectivo. Estou determinada a chegar a Junho com menos peso e mais em forma. Este ano é que é. O último bikini que comprei é lindo demais para lhe meter dentro um corpinho desleixado. Será que tenho tempo? Já não me peso há uns meses, criei uma certa alergia à balança. Na verdade eu até nem uso a balança para controlar o peso - basta-me vestir as jeans e já sei se estou bem ou mal. Neste momento estou quase no limite, ou seja, prestes a ter de ir à loja comprar um novo par de jeans!! O que fazer de acordo com o bom do Bob Harper para reverter este estado de coisas? Ora vejamos o quanto eu tenho de sofrer! Eis as 20 regras do Bob Harper.

1. Drink a large glass of water BEFORE Every meal-No Excuses!
1. Beber um grande copo de água antes de qualquer refeição. Isto parece fácil, mas para mim é algo terrível. Eu nunca tenho sede. E à refeição raras vezes quero ver água por perto a não ser que não esteja disfarçada como sopa ou como chá!

2. Don't Drink Your Calories.
2. Não beber calorias. Ok, vamos lá pensar nisto. Tenho de abolir tudo quanto for bebida com calorias? Isso deixa-me a copos com a minha amiga água, chá e café desde que não lhes meta açucar ou mel. O café e a maioria das tisanas eu bebo sem adoçar, já no chá preto eu gosto de uns grãos de açucar. Adoro um bom vinho de vez em quando, mas não creio que isso seja grave. Acho que esta regra nº 2 é exequível sem sofrimentos.
3. Eat Protien at EVERY Meal -or stay hungry and grouchy!

3. Comer proteínas a todas as refeições ou ficar com fome e rabugenta! Esta regra também não é complicada de seguir. Desde Setembro tenho feito refeições vegetais ricas em proteínas, não é só na carne e no peixe que elas estão. Como pouca carne e gosto mais de peixe.

4. Slash Your Intake of Refined Flours and Grains.
4. Reduzir o consumo de farinhas refinadas e grãos. Fácil.

5. Eat 30-50 grams of FIBER per day!
5. Comer 30-50 gramas de fibra por dia. Mas como é que eu vou pesar as fibras? É normal que já esteja a observar esta regra pois como pão integral diariamente.

6. Eat Apples and Berries Every single day- Yes, EVERY-SINGLE-DAY!
6. Comer maçãs e bagas todos os dias. Comer maças todos os dias também é uma regra fácil de cumprir pois já o faço não apenas porque gosto muito de maçãs mas porque ainda é das frutas mais baratinhas que estão à venda. O preço da fruta está um escândalo. O que nos leva para as bagas. Bagas ou frutos silvestres nem sempre estão à venda e são caras, Bob. Quanto é que achas que ganho por mês no meio desta crise?! Será que devo investir numa horta de varanda?


7. NO Carbs after Lunch ( eat 'lean and green' at night)
7. Nada de hidratos de carbono depois do almoço - para a noite comer pouco e verde. Sem comentários. É o que já costumo fazer, aligeirar o jantar.

8.Learn to Read Food Labels so You know what you are eating!
8. Aprender a ler as etiquetas que vêm nos produtos para saber o que estamos a comer. Despertei para isso em Setembro e agora sempre que vou às compras tenho de contar com o dobro do tempo! Acreditem que é importante apesar de parecer uma esquisitice do Bob.

9. Stop Guessing about Portion Size and Get it Right-for good!
9. Parar de adivinhar o tamanho das porções de uma vez por todas! Pois, essa é a parte em que dava jeito ter alguém ao meu lado a fazer as contas à quantidades de alimentos, porções e já agora às calorias que contêm. Uma grande chatice se querem saber.

10. No more added sweetners-including artificial ones!
10. Eliminar os aditivos açucarados. Nada a comentar.Já ando em cima deles há muito tempo!

11. Get rid of White potatoes!
11. Livrar-me das batatas. Esta regra é um bocado complicada, ó Bob. Mas o que tens tu contra as batatas?! Tenho de ir investigar. Eu acredito que a batata não engorda. Agora tu queres dizer que quem a come, engorda? E com que acompanhamento é que eu vou comer o bacalhau, Bob?

12. Make one day a week Meatless.
12. Fazer um dia por semana sem carne. Fácil. Já faço vários dias sem carne.

13. Get rid of Fast foods and fried foods.
13. Cortar com a fast food e as comidas fritas. Quase nunca vou em fast food e também não sou grande apreciadora de fritos. Estamos conversados quanto a esta Bob.

14. Eat a REAL breakfast.
14. Comer um pequeno-almoço a sério. O que será um pequeno almoço a sério para o Bob?!!

15. Make Your own food and eat at least ten meals a week at home.
15. Fazer a minha própria comida - Que remédio, eu detesto cozinhar, mas lá tem de ser enquanto não puder contratar uma cozinheira - e comer pelo menos 10 refeições em casa por semana. Eu como sempre em casa, Bob, a não ser que não possa, e nesse caso ainda tento levar a minha comida comigo. Gosto de ir ao restaurante em momentos especiais e não por rotina, esses tempos já lá vão. Quando vou ao restaurante gosto de pedir coisas que eu não saiba fazer ou que sejam mesmo, mesmo difíceis ou aborrecidas de cozinhar. Assim torna-se mais difícil fazer contas ao preço do que estou a pagar e aprecio melhor o momento...percebes?

16. Banish High Salt Foods.
16. Banir comidas muito salgadas. Ok, Bob, nunca consegui comer coisas muito salgadas. A minha intolerância ao sal começa muito antes dos outros começarem sequer a dizer que a comida lhes sabe a alguma coisa!

17. Eat Your Vegetables-(no excuses)- Just DO it!
17. Comer vegetais. Sem comentários, Bob. Eu podia ser um coelho.

18.Go to bed hungry!
18. Ir para a cama com fome. Bob, a minha avó sempre dizia que quem se deita sem ceia, toda a noite rabeia. Mas eu percebo. Aqueles snacks noturnos são do pior. Se ferrarmos o dente neles uma noite, nas seguintes vamos querer mais.

19. Sleep Right.
19. Dormir bem. Concordo, já li muito sobre isto, nem sequer preciso de dormir sobre o assunto para concordar. Dormir é essencial para regular o peso. Ultimamente não tenho tido insónias, a coisa está controlada, Bob.

20. Plan one splurge MEAL per week.
20. Planear uma refeição alarde - escreveu ele - por semana. Será que não quereria dizer alarve?

Em Junho volto a escrever sobre isto. Prometo.

02/02/13

Cinema: Skyfall - Daniel Craig é o melhor 007 de sempre


James Bond anda pelas salas de cinema desde 1962. Resisti durante muito tempo aos encantos do agente secreto de sua majestade, apenas comecei a ir ver Bond quando o papel foi entregue a Pierce Brosnan. Gostava tanto de Brosnan, que considerava o actor mais sexy do cinema de então, que não resisti a ir ver os filmes do 007 numa altura da minha vida cinéfila em que desprezava bastante o género de acção. Progressivamente fui aceitando outro cinema, hoje vejo de tudo, e até tenho boas surpresas, apesar de manter a preferência por um cinema mais sério, por vezes até dito alternativo, independente.

Quando Daniel Craig tomou o lugar de Brosnan eu fui ver Casino Royal mas a minha longa e dedicada paixão -ehehe!- por Brosnan nem me deixou apreciar um dos melhores Bond que tinham sido feitos até à data. Mais tarde, na TV, revi Bond e revi completamente a minha opinião: Daniel Craig dava bem conta do recado e Eva Green foi insuperável. Não podia negar que a fórmula 007 podia proporcionar um bom espectáculo e até bom cinema. O problema com as fórmulas é que facilmente geram saturação e fastio. Mais tarde, ao ver Quantum of Solace, dei por mim a pensar que Bond devia tirar umas merecidas férias, senão mesmo reformar-se! Não que Craig se portasse mal, o filme no seu todo é que não estava capaz, um tédio. A fórmula a dar o peido mestre, pensei eu. Nunca mais vou ver 007, pensei eu à saída do cinema.

Entretanto é anunciado Skyfall e a Adele começou a cantar por aí. A musiquinha foi fazendo ninho no meu ouvido e depois veio a nomeação de Bardem para melhor actor secundário nos Oscares - o vilão do anterior filme era uma nulidade, isto era um bom sinal. Sam Mendes como realizador também me intrigava pois só o associava a Beleza americana, um filme muito recomendável focado na crise de meia idade masculina e nos valores da classe média norte americana. Era por si só curioso ver como Sam Mendes trataria Bond. E então veio a noite de ver Bond, ontem. Veredicto: gostei muito. Este James Bond apresenta-se meio estropiado e debilitado, depois de uma missão falhada, não está em boa forma. Mas ao mesmo tempo é másculo e frio, possui o semblante de um assassino sem coração, determinado e implacável. Assenta-lhe bem a vulnerabilidade disfarçada. Desta vez não há gadgets aos montes na mala do carro, nem mesmo uma verdadeira Bond Girl na fita, tal como nos lembramos delas. Mas já Vesper tinha sido diferente e por isso está morta. Em Skyfall, James está mais obcecado em proteger M do que no flirt! Os caros leitores masculinos continuam a ter direito a um par de carinhas larocas, embora as cenas nunca durem muito. Fixem bem isto: Bond só tem olhos para M. Compreensível, será o último filme em que a vai ter à frente do MI-6.

A perseguição inicial com que o filme abre está ao nível daquela que vi em Casino Royal. Mas a partir do momento em que 007 vôa para Xangai preparem-se para cenas nocturnas visualmente maravilhosas da cidade, algumas cenas de luta que se assemelham a teatro de sombras, o mistério e o encantamento do Oriente condensados em alguns minutos de esplendor cinematográfico. É uma sequência enebriante! Ontem, era a noite do meu aniversário, talvez eu tivesse bebido demais, mas se forem ver Skyfall, depois a gente conversa melhor sobre isto! Eu recordo que em Casino Royal existe uma cena ímpar - o encontro de Vesper Lynd e Bond, no comboio. Ora, aqui não temos nunca nada do género mas em termos visuais esta sequência é o seu equivalente. Mas se a destaco não esperem menos da totalidade do filme em geral neste campo, a cinematografia é topo de gama.

O filme demora até nos revelar Raoul Silva, o cyber-terrorista efeminado, um ex-agente 00 em busca de vingança, dominado pela loucura, subtilmente destilada nos diálogos e na forma desconcertante como actua. Isso acontece não apenas por necessário artifício de suspense, mas também porque no centro de Skyfall não está tanto uma caça ao homem e muito mais o conflito em que M se vê mergulhada, encostada à parede quanto ao critério e resultados do seu desempenho quer no presente, - os políticos não perdem tempo a questioná-la e a exigir a sua cabeça numa bandeja, - quer no passado - é de lá que chega Silva, como um fantasma que regressa para acertar contas.

Depois de ter visto Skyfall atrevo-me até a dizer que Craig se tornou o melhor 007 de todos. Para não desvirtuar o género mostra-nos grandes sequências de acção, e algum humor pontual. Mas em Skyfall houve evidente preocupação em estruturar uma boa história e em desenvolver as personagens um pouco mais do que é usual, estruturando a sua motivação e tornando-as mais complexas nos seus dilemas. Além disso, é visualmente assombroso. É um bom thriller capaz de competir com outros que estão nas salas de cinema. É a fórmula 007 a funcionar, retocada para cativar os descrentes do género e os mais exigentes. Aconselho este filme mesmo para quem não seja fã do agente secreto!
P.S. Banda sonora muito aconselhável!

O cinema ainda é a preto e branco

Descobri hoje que existe uma National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) nos EUA que promove uma atribuição de prémios diversos - a NAACP Image Awards - só para negros. Premeia indivíduos ou grupos que promovam a justiça social através de empresas criativas. 

Fundada em 1909, a NAACP é a mais antiga organização de direitos civis e luta por justiça social para todos os americanos. Estes prémios distinguem o cinema, a televisão, a música, e a literatura. Achei curioso ter encontrado, no Facebook, quase acto imediato, esta imagem com declarações de Morgan Freeman. Fui procurar a fonte pois não vou em cantigas. E encontrei. Aqui está a fonte, foi em 2005, no programa 60 Minutes, numa entrevista com Mike Wallace...Analisem.


Ah, estas descobertas fizeram-me lembrar aquela polémica envolvendo o Denzel Washington, que, há uns anitos, se recusou a beijar a parceira branca que contracenava com ele, creio que era a Kelly Lynch, já não recordo qual o filme. Agora, uns anitos passados, uns quilos e mais uns prémios em cima, Denzel mudou de opinião. Em Decisão de risco ele já não é tão esquisito quanto a cores. Aqui deixo então mais uma lista de prémios, apenas na categoria CINEMA.

Melhor Filme
"Beasts of the Southern Wild" (Fox Searchlight Pictures)
"Django Unchained" (The Weinstein Company)
"Flight" (Paramount Pictures)
"Red Tails" (Lucasfilm) Vencedor
"Tyler Perry's Good Deeds" (Lionsgate)


Melhor actor
Denzel Washington - "Flight" (Paramount Pictures)Vencedor
Jamie Foxx - "Django Unchained" (The Weinstein Company)
Morgan Freeman - "The Magic of Belle Isle" (Magnolia Pictures)
Suraj Sharma - "Life of Pi" (20th Century Fox)
Tyler Perry - "Alex Cross" (Summit Entertainment)

Melhor actriz
Emayatzy Corinealdi - "Middle of Nowhere" (AAFRM)
Halle Berry - "Cloud Atlas" (Warner Bros. Pictures)
Loretta Devine - "In The Hive" (Eone Entertainment)
Quvenzhané Wallis - "Beasts of the Southern Wild" (Fox Searchlight Pictures)
Viola Davis - "Won't Back Down" (20th Century Fox)Vencedor

Melhor actor secundário
David Oyelowo - "Middle of Nowhere" (AFFRM)
Don Cheadle - "Flight" (Paramount Pictures)
Dwight Henry - "Beasts of the Southern Wild" (Fox Searchlight Pictures)
Lenny Kravitz - "The Hunger Games" (Lionsgate)
Samuel L. Jackson - "Django Unchained" (The Weinstein Company)Vencedor

Melhor actriz secundária
Amandla Stenberg - "The Hunger Games" (Lionsgate)
Gloria Reuben - "Lincoln" (The Walt Disney Studios)
Kerry Washington - "Django Unchained" (The Weinstein Company)Vencedor
Phylicia Rashad - "Tyler Perry's Good Deeds" (Lionsgate)
Taraji P. Henson - "Think Like a Man" (Screen Gems)