Hacks: Jean Smart é absolutamente fabulosa na série da HBO Max


Martha Logan foi uma grande personagem da série 24. É verdade: eu via a 24 e achava um piadão às aventuras do Jack Bauer e companhia. Foi no século passado. Já mal me lembro! Martha era a esposa de Charles Logan, presidente norte-americano, uma senhora classuda, com historial de doença mental, medicada para depressão e ansiedade, que acaba por expor triunfantemente a verdade acerca do seu manipulador marido. É disso que me recordo e da excelente interpretação de Jean Smart. Depois disso nunca mais vi esta actriz até que já este ano, para minha agradável surpresa, ela interpretou a mãe de Mare, em Mare of Easttown, uma série bastante recomendável. Uma coisa levou à outra: quando soube que protagonizava Hacks, nem sequer quis saber sobre o que era a série de comédia. Tinha de ver. E vi. Foi uma óptima escolha.

Em Hacks ficamos a conhecer a história de Deborah Vance, interpretada por Jean Smart, uma mulher que foi pioneira no stand-up comedy, mas que agora, após décadas de sucesso no palco de um casino em Las Vegas, e aplaudida por um público fiel, começa a ser considerada ultrapassada porque o seu humor não chega às plateias jovens. Além de manter o seu show às sextas e sábados à noite, ela assina contratos publicitários com pizzarias que inaugura e aparece em canais de compras de TV que nem sempre são prestigiantes, contando para isso com a ajuda de um dedicado COO, Chief Operating Officer, Marcus, um gay que a adora desde jovem e que por ela contratado não consegue ter vida pessoal, personagem muito cómica a cargo do desconhecido Carl Clemons-Hopkins.

É assim que Debra, embora contrariada, acaba por aceitar a presença de uma jovem guionista de televisão de Los Angeles que caiu em desgraça após ter feito um tuite de mau gosto sobre o filho gay de um congressista de direita. A jovem Ava Daniels - igualmente bem interpretada com angústia e desafio por Hannah Einbinder, deverá auxiliá-la a actualizar as suas piadas, uma ideia do agente que a quer ajudar a obter trabalho mas não sabe como: desde o azar no Twitter ela ficou marcada, renegada por todos, qual Hester Prynne, até parece ter uma "letra escarlate" sobre o peito! Ava, que também não queria o trabalho, acaba por aceitar porque "cancelada" em Hollywood e com uma hipoteca sobre um  apartamento para pagar, não tem alternativa. 

Ava, que pertence à geração Z,  não sabe nada sobre Debra além daquilo que circula na internet e do que descobre: ela é uma capitalista excêntrica que vive rodeada de casinos mas que joga blackjack em casa, com uma dealer particular! É rápida a julgá-la e pronta em diminuir o seu valor profissional e humano. E Debra também não a considera ideal, não apenas porque ela é totalmente desprovida de glamour, - Ava, até a mim, por vezes, me parece desinteressante, mas talvez apenas porque Debra é uma personagem tão fascinante - calça botas disformes e tem mãos enormes, mas porque porque sempre escreveu e conquistou tudo sozinha, está habituada a controlar e não quer abrir mão disso. Sem dúvida que não podem ter a mesma visão sobre o que é a comédia: dado o fosso geracional, isso era já de esperar. Debra e Ava pertencem a duas gerações (mesmo artísticas) diferentes. O ódio acontece de forma recíproca e instantânea, na mansão luxuosa e superfluamente decorada de Debra.  

Superficialmente não podiam ser mais diferentes.  No entanto, Debra, após uma troca inflamada onde ela talvez reconheça em Ava algo da sua própria forma rude de lidar com o humor, - e com os outros - acaba por aceitar a sua colaboração. Afinal elas são mais parecidas do que julgam, desde logo ambas estão desesperadas por ajuda, atravessando momentos vulneráveis das suas carreiras. Também não têm as melhores relações com os seus familiares mais próximos e talvez até se sintam sós para lá das aparências. É possível que o humor cortante que manifestam tenha raízes em traumas passados. E nenhuma é flor que se cheire: Debra não tem papas na língua, é uma ricaça desbocada e pouco sensível; Ava vive numa bolha egoísta, focada na sua carreira e nos seus prazeres. E é desta relação forçada, da convivência mais ou menos conturbada das duas, que acabará por surgir a renovação não apenas do espectáculo de Debra mas sobretudo da própria Debra. E a evidência de que, afinal, mesmo com as suas divergências e justificadas diferenças, o duo improvável pode respeitar-se mutuamente e ser uma equipa de trabalho de sucesso. Que Debra tivesse acabado por aceitar a sugestão de Ava, aceitando experimentar uma nova forma de estar na comédia, não deixa de ser intrigante, pois Debra representa uma geração habituada a preservar a sua esfera mais pessoal dos olhares do público e para quem as piadas não têm de refletir a vida pessoal e real do comediante, em especial o seu lado mais frágil. 

Muito mais do que uma série sobre o stand-up comedy, ou a comédia, ou a carreira de uma lenda, Hacks explora o que está sob a superfície, aquilo que o público de Debra percebe como sendo a personagem e o  espectáculo. Além da lenda existe uma mulher de carne e osso, uma com um passado e uma história. De que forma ele moldou a sua personagem, e até a sua carreira, ou de que forma é que a mulher sobreviveu graças a essa personagem de palco, ou de que forma ela foi subjugada por ela, escondendo quem realmente foi, aceitando que o público acredite em mentiras se elas lhe valerem risos, é aquilo que torna Hacks especial. Daí que uma convertida ao talento de  Debra  - e até enamorada? -  Ava a desafie a fazer um novo tipo de espectáculo porque na sua óptica o público vai apreciar a verdade e o sofrimento que as suas piadas antigas não deixavam transparecer. A jovem acredita que tem de haver verdade nas piadas, uma razão de peso a justificá-las, mesmo que provoquem o mal estar na plateia.

Hacks também apresenta Debra como pioneira num meio e num tipo de espectáculo essencialmente masculino, ou que, por alguma razão, preconceito ou receio de não serem vistas como iguais, as mulheres evitaram experimentar. Criada no pós #meetoo, não se exime de mostrar que os espaços de espectáculo foram e são local onde as mulheres se tornam alvo de fácil importunação sexual: afinal, tanta revolução, tanta liberdade, tanta afirmação, e o que mudou naquele reduto? Podemos ainda vê-la como um manifesto da dificuldade que as mulheres têm de singrar em certos domínios artísticos quando a idade começa a transformar os seus corpos, face e cabelos. A composição da personagem de Jane Smart é maravilhosa: perucas, pestanas, roupa, acessórios, isso associado à postura e presença de Jean, enchem o ecrã. Mas a sua razão de ser não é apenas a do gosto da personagem pelo luxo, até mesmo espampanante, um sinal da sua sofrida conquista profissional e de sublimação das suas infelicidades. Os produtos de beleza caríssimos e a cirurgia estética, são também a afirmação da necessidade de lançar mão de uma táctica desesperada - que muitas estrelas recusam, mas que outras consideram indispensável - que lhes permita concorrer com a juventude.

Recomendo que vejam Hacks! Inicialmente a história parece comum, a de duas mulheres que tinham sido escorraçadas pela indústria, diferentes e incapazes de se reconhecerem quaisquer semelhanças. Mas depois a história cresce e engrandece-se com muitos momentos brilhantes, menos explosivos e mais serenos, por vezes até dramáticos. Embora se trate de uma comédia, e existam momentos hilariantes ao longo dos imperdíveis 10 curtos episódios, o humor que lhe serve de âncora é constantemente balanceado com o drama. Bem escrita, bem filmada.  É frequente não passar da primeira temporada nas séries que vejo, mas fico a aguardar a segunda temporada de Hacks com expectativa, e, claro, a torcer pelos Emmys - atribuição no dia 19! - para que a série foi nomeada! 


Jean Smart premiada! 👏👏👏


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