23/06/20

São João 2020: para esquecer ou para recordar?



Na véspera de São João a Direcção Geral de Saúde acaba de lançar mais um apelo: Amigo infecta amigo. Não infectes, ou seja, não vás. Resumindo: DESINFECTA! A DGS vem lançar um repto aos "festiveiros". Nem só de festivais vive, ou vivia, o Verão, há muita festa no rectângulo. O alvo do repto de hoje não são os festivaleiros. Só podem ser os adeptos das tradições dos Santos Populares, Romarias e outros ajuntamentos populares que arrancam em Junho e se prolongam até Setembro de norte a sul do país. Pelo meu lado, exceptuando festivais de cinema, poucos outros eventos que juntam multidões movimentam a minha atenção, quanto mais o meu corpo. E quanto a festas e romarias, apenas uma me diz alguma coisa: o São João. Sempre gostei do São João, desde a infância, em Braga. O singular ano de 2020 fica marcado pelo cancelamento do São João, em especial no Porto, o que, para mim é capaz de ser o equivalente do cancelamento do RFM Somni, do NOS Alive ou coisa assim para muitos: uma decepção graúda.

Quando iniciei o confinamento voluntário em Março disse a alguns amigos do Porto que fizessem o sacrifício, que ia valer a pena, ou corríamos o risco de ficar sem  festa de São João. Tinha seguido atentamente o desenrolar da situação na China e em Macau e pensava que nos livraríamos do vírus, ou, pelo menos, destas limitações à nossa normal movimentação e interacção pessoal antes do Verão. Também acreditava que no Inverno o vírus regressaria, mas possivelmente enfraquecido devido a alguma mutação e com a vantagem de muitos de nós já estarem naturalmente imunizados o que lhe trocaria as voltas. A cada dia a informação acumulava-se, estudos sobre estudos surgiam como cogumelos. Mas a sensação de que era preciso tempo para que os estudiosos conseguissem reunir todos os dados e tirar conclusões ponderadas impunha-se. Rapidamente concluí que apenas perdia tempo em vez de me esclarecer ao dedicar-me a tantas leituras.

A pandemia desenrolou-se, semanas tornaram-se meses. Após muitas leituras de opiniões diferentes, e até contraditórias, percebi que o cenário não era promissor ainda que os números o fossem, e que continuaríamos a viver sujeitos a certos transes por largos meses. Também a cada novo país para onde a infecção se expandia, alguns tornando-se o novo epicentro da mesma, se repetiam as questões, e em alguns casos mais do que o alarmismo até o absurdo de situações. O ciclo de acontecimentos repetia-se. Rever tudo aquilo a que já se assistira antes desgastava-me  e sobretudo dava-me a impressão de que estávamos longe do fim da crise, da serenidade, da normalidade perdida. Por fim, em termos de novidade já nem as fontes oficiais acrescentavam nada que não se soubesse, ou davam o dito por não dito, num processo normal de adaptação a novos dados, mas fastidioso e desgastante, e em última análise pouco útil. Perante essa avalanche de impressões que em vez de esclarecerem me confundiam e lançavam dúvidas até sobre algumas convicções que já levavam meses,  passei lentamente a deixar a pesquisa de lado e  a concentrar-me apenas em duas coisas: fazer o possível para me proteger da infecção e aos outros, próximos e mais distantes, seguindo as instruções básicas que tinham sido divulgadas pela OMS ou pelas autoridades de Macau logo no início do surto.  E a Covid 19 passou a ser apenas a realidade concreta com que tinha de viver o meu dia-a-dia e não a realidade do mundo inteiro trazida pela internet em vagas sucessivas e comentada nas redes até à saturação, numa espécie de competição pela pole position na grelha das estratégias, em cada teclado um especialista em opiniões, muitas que o tempo quase sempre derrubava, algumas próximas da realidade que, afinal, se afigurava bem mais desafiadora do que se previra.Também os meus afazeres me forçaram a desligar de tudo o que não fosse essencial, até mesmo da escrita diletante aqui no blogue.

E, quase de repente, é véspera de São João. Estamos no Verão, ainda inaugurado de fresco, mas já a correr diariamente alheio a todas as nossas aflições e com o seu habitual convite à nossa entrega à sua luz revigorante e calor. Mas o panorama continua carregado e sombrio por mais janelas abertas e vestidos de tecidos leves e florais que se vistam. Nas notícias há relato de  zonas do país, sobretudo em Lisboa, onde os casos de Covid 19 dispararam e pedidos de uma cerca sanitária para evitar o alastramento da infecção. Ou de festas de aniversário no Algarve que escaparam da mão aos organizadores e que promoveram a infecção de grupo, assim acabando por suscitar a censura e a condenação da maioria generalizada por representarem um mau exemplo de conduta cívica em tempos de pandemia e um risco para a saúde pública.

No Porto há muito que o São João tinha sido "oficialmente" cancelado. Li, na ocasião, a declaração institucional disso mesmo com incredulidade. Ontem vi num site da TV um excerto de uma notícia: era o relato da ausência total de preparativos sanjoaninos na zona da Ribeira por parte de donos de bares e restaurantes: a palavra de ordem é manter a distância social. Que coisa esta. O São João é a festa maior da proximidade: na noite de São João toda a gente se conhece e trata por tu. O distanciamento social desaparece e acreditamos que podemos ser todos amigos, até o distanciamento emocional é esbatido. Não há forma de festejar mantendo o distanciamento, não há meio termo na noite de São João: o que mais importa é estarmos juntos.  A sala de estar é pequena demais por maior que seja. O terraço e até o pátio. As paredes não são mais bem vindas. Então o espaço público é conquistado metro a metro: a cidade enche-se de gente. É essa a essência da festa. Mas não em 2020. Um São João diferente nos aguarda, esta noite, um sem a espontaneidade popular que o caracteriza. Esta noite as  ruas repletas de gente que por uma noite deixam de ser estranhas e de se estranhar, a vitória da familiaridade, não vai acontecer. Fica adiado o grande encontro na rua, que a Covid 19 quer vazia de gente e de emoções. Que estranho vai ser não ouvir o som dos martelinhos até ao nascer do sol.

Resta fazer o São João em modo familiar. Cá por casa fiz questão de caprichar nos pormenores e logo à noite não vão faltar nem as decorações e acessórios da festa nem as típicas sardinhas, a salada de pimentos assados com tomate e cebola, a broa, a sangria, a cerveja bem geladinha e até um copo de verde. Vamos todos para fora, na nossa varanda, e cá dentro, na nossa sala, porque a rua tradicionalmente cheia e festiva é hoje território proibido. Vai ser uma noite de São João muito diferente do que alguma vez imaginei mas que espero se torne tão memorável como outras que passei na cidade do Porto. Não podemos deixar de celebrar e viver o que é importante. O espírito da festa estará lá, entre quatro paredes. As saudades do futuro, sem distanciamentos de nenhuma ordem, também.

Desejo um bom São João aos meus amigos do norte e a todos os outros que também o festejam em alguns outros pontos do país.

08/06/20

Um vírus bom é um vírus morto


Ajay Ohri - As 8 regras da redacção



1. Escreva 50 palavras. Isso é um parágrafo.

2. Escreva 400 palavras. Isso é uma página.

3. Escreva 300 páginas. Isso é um manuscrito.

4. Escreva todos os dias. Isso é um hábito.

5. Edite e reescreva. É assim que se melhora.

6. Divulgue a sua escrita para que as pessoas comentem. Isso é ter feedback.

7. Não se preocupe com rejeição ou publicação. Isso é ser escritor.

8. Quando não estiver escrevendo, leia. Leia de escritores melhor que você. Leia e entenda. 

 Ajay Ohri

02/06/20

Fruitvale Station: a inglória morte de Oscar Grant


Vi muitos quadrados negros e aproveitamentos comerciais desta mesma ideia nas redes, anúncios, por sinal, bem esgalhados,  a serem partilhados por norte-americanos, mas não só. Não concordo com este tipo de protesto. Aproveite-se o espaço para divulgar ideias, provocar a reflexão, sensibilizar, e não para fazer alhear as pessoas daquilo que se deseja construtivamente criticar.  Assim, sugiro, dentro desta linha o visionamento do filme Fruitvale Station, de 2013. 


A história verídica de Oscar Grant (Michael B. Jordan), um jovem negro de 22 anos, inspira este filme, quase documental. Acompanhamos as suas tomadas de decisão durante o dia 31 de Dezembro de 2008: tornar-se melhor filho, namorado e pai. Os seus planos não passarão disso, pois acaba por ser envolvido numa rixa na estação Fruitvale, em Oakland, Califórnia, morrendo quando, no chão, o polícia que o imobiliza dispara sobre si.  Mais um caso, a juntar-se a muitos, de mortes inglórias de negros às mãos da polícia, nos EUA, este um caso polémico, transformado em filme, para  equacionar razões, porquês, soluções, reflexões, e promover discussões, enquanto assistimos ao desenrolar do drama da morte de George Floyd e suas consequências. Estreia na realização de Ryan Coogler, que conseguiu ter "Fruitvale Station" em competição no Festival de Cinema de Sundance, onde ganhou prémios do Público e do Grande Júri para Melhor Filme Dramático, e no Festival de Cinema de Cannes, que lhe atribuiu o prémio Avenir na secção Un Certain Regard.

Covid 19: quer ir à praia? Estas são as regras











Fonte

22/05/20

Covid 19: idas à praia, ventilação, ar condicionado


IDAS À PRAIA. A DISTÂNCIA DE 1.5 M ESTÁ ERRADA

Opinião de Manuel Gameiro da Silva. Partilho textos retirados do seu Facebook de forma integral.

Como vem aí um fim de semana de bom tempo e é provável uma grande afluência às praias, a minha opinião sobre as regras difundidas de posicionamento nas praias, que considero erradas e perigosas.
O que há de diferente entre um ambiente interior e uma praia:
- O confinamento físico do espaço, que é normalmente inexistente numa praia;
- A exposição a radiação solar direta, existente numa praia e maioritariamente inexistente num ambiente interior;
- A gama de velocidades do ar; tipicamente da ordem de 0 a 0.2 m/s na zona ocupada no interior dos edifícios, enquanto que a velocidade média do vento na orla costeira portuguesa deve ser de cerca de 4m/s.
Quais são as consequências destas diferenças de condições ambientais? A capacidade de dispersão da carga viral é mais elevada no ambiente exterior de uma praia e também o tempo em que o vírus se mantém viável é mais reduzido. Os dados apresentados por William Bryan, consultor do DHS, numa conferência de imprensa na Casa Branca, referem uma meia-vida de 1 minuto e meio quando o vírus é sujeito a radiação solar direta, em condições de temperatura de 21 a 24ºC e de 20% de humidade relativa.
Todavia, numa praia, é maior a capacidade de transporte das partículas exaladas de maior dimensão (que nos ambientes interiores caem antes de 2 metros) porque a gama de velocidades é mais elevada.
Numa praia, com todo o espaço disponível, não faz qualquer sentido um distanciamento de 1.5 metros entre utentes de toalhas vizinhas, porque as gotículas de maior dimensão, às quais estará associada uma maior carga viral, poderão facilmente ter percursos superiores a essa distância,devido às velocidades do ar mais elevadas.
Acresce o facto de 1.5 m não ser um comprimento significativo para que a maior capacidade de dispersão, devido às velocidades superiores do vento, já se tenha feito sentir e, além disso, o efeito da radiação solar será ainda praticamente nulo na eliminação do vírus num trajeto com duração de menos de 2 segundos. O mesmo se aplica relativamente aos 3 m de distanciamento entre chapéus de sol, toldos ou colmos, podendo estes ser ocupados por até 5 pessoas.
A distância entre toalhas de pessoas de grupos diferentes deveria ser de mais de 10 m, porque será praticamente impossível garantir que as pessoas usarão máscaras e é preciso distância para garantir a dispersão ds aerossóis.
Não consigo entender de todo que tipo de raciocínio possa ter estado na base da fixação dos valores definidos e acho que o mais importante é explicar estratégias e comportamentos.
O fator mais relevante no posicionamento dos utentes numa praia é a direção do vento, que aliás é facilmente percetível para toda a gente, a partir da visualização das bandeiras de sinalização do estado do mar.
Sugiro que imaginem que no grupo vizinho há alguém a fumar. Posicionem-se como se quisessem garantir que, tendo em conta a direção do vento, não apanhavam com o fumo do tabaco,
PARTILHEM, SFF

Outras opiniões: VENTILAÇÃO DE ESPAÇOS e OUTRAS QUESTÕES

Porque acho que poderá ser interessante que seja do conhecimento público, as minhas respostas a duas questões que me foram colocadas após um dos webinars em que participei:
1. A ventilação de ar novo dos espaços deve ser feita com os ocupantes ou sem os ocupantes no espaço? Pergunto porque a ventilação pode de alguma forma «empurrar» o ar contaminado para outros espaços? E se se recomenda ter a porta aberta durante a ocupação dos gabinetes, o melhor é ter a porta fechada durante a ventilação, para que o ar contaminado não se desloque para outras zonas.., o melhor é ventilar durante as pausas ou almoço e com a porta fechada?
Deve ventilar sempre, não faz sentido parar de ventilar quando estão os ocupantes. A ventilação tem como objetivo diminuir a concentração da carga viral que possa existir no ambiente devido à libertação a partir de um potencial infetado. Como não sabemos à partida onde é que esse potencial infetado poderá estar, o que podemos fazer é diluir a concentração do vírus, tanto quanto pudermos, de modo a que as pessoas sejam sujeitas a concentrações abaixo do limiar de infecciosidade. Nestas questões de qualidade do ar interior o que interessa é baixar tanto quanto for possível a dose a que as pessoas estão sujeitas. A dose resulta do produto da concentração média ao longo do tempo pela duração do período de exposição.
Claro que se tiver uma unidade industrial ou um edifício com diversos setores que estejam servidos por diferentes unidades de tratamento de ar, as portas de comunicação entre os setores devem estar fechadas, para que não ocorra uma possível contaminação cruzada entre os setores. Contudo, deve-se sempre ter o cuidado de garantir que não há espaços que ficam sem ventilação.
2. Por outro lado, o que acha desta situação: duas pessoas que façam deslocação no mesmo veiculo aconselha que o 2º vá atrás, do banco do condutor ou levando ambas mascara isso é dispensável (o 2º ir atrás..)?
Se forem duas pessoas devem levar ambas máscara. Como o escoamento no interior do habitáculo de um automóvel se faz da frente para trás, com entrada pelas grelhas do tablier e saída pelas grelhas de extração que ficam normalmente junto aos pilares traseiros, por cima do vidro traseiro ou na chapeleira, a minha sugestão é que viajem em lados diferentes do veículo e nunca uma atrás da outra. Assim podem ir as duas pessoas no banco da frente, ou a pessoa que não conduz ir sentada atrás no lado direito do veículo, se o volante for do lado esquerdo. O ar condicionado pode estar a trabalhar, para garantir o conforto térmico, mas sempre no modo de entrada de ar novo, nunca no modo de recirculação.
Se forem lado a lado nos bancos da frente, devem ser instruídas para falarem sem se virarem uma para a outra. Devem ter sempre alguma ventilação ligada, preferencialmente a que é dirigida para o para-brisas, de modo a criar uma circulação do ar pela parte de cima junto ao teto e devem-se evitar situações de abertura não simétrica das janelas laterais, porque isso pode destruir o padrão normal de escoamento no interior do veículo e permitir contaminação de um lado para o outro.
Se forem uma no banco de trás e outra no banco da frente, em lados diferentes, a ventilação deve preferencialmente ser feita pelas duas entradas laterais do tablier, mantendo-se o que disse anteriormente sobre as aberturas das janelas laterais.

TRANSMISSÃO POR AEROSSÓIS e AR CONDICIONADO

Vamos lá então explicar esta questão agora levantada de o ar condicionado contribuir para a propagação da COVID-19, por causa do artigo sobre o que se passou num restaurante em Guangzhou.
Primeiro ponto: A principal conclusão do artigo, que parece ter escapado à generalidade dos que resolveram comentá-lo, é que o modo de transmissão por aerossóis existe mesmo no caso da COVID-19, ao contrário do que afirmava o Diretor-Geral da OMS que dizia que nos cerca de 70 000 casos de infeção da China não havia qualquer evidência de transmissão por aerossóis. Não explicou, no entanto, que evidências é que tinha sobre os outros dois modos de transmissão nesses 70000 casos
Segundo ponto: O artigo não diz que o ar condicionado tenha potenciado a transmissão. O que diz é que a rota de transmissão do vírus teve a ver com o padrão de escoamento existente na sala devido ao equipamento de ar condicionado. Se não houvesse ar condicionado e as condições de ventilação (diluição em ar novo) fossem as mesmas, o número de infetados seria provavelmente da mesma ordem de grandeza. Isto porque o ar condicionado não acrescenta carga viral, só a distribui de outra forma ao longo do volume da sala.
Estabeleçamos uma analogia: Temos um "serial killer" com uma pistola com seis balas no palco de uma sala de espetáculos que tem a plateia semi-cheia. Podemos dizer que ele mata mais pessoas se disparar os seis tiros para o fundo da sala do que se os disparar para a primeira fila?
Evidentemente que não. Se simularmos num jogo de computador, muitas vezes esta situação, porque assim não haverá vítimas reais, se não houver não-uniformidades evidentes na distribuição de pessoas na sala, chegaremos à conclusão, quando o número de testes for suficiente para ter representatividade estatística, que teremos o mesmo número de vítimas nos dois casos.
Convinha que a DGS não começasse agora a exacerbar competências estendendo a sua atuação às áreas que são claramente do domínio da Engenharia .Depois de não se terem apercebido da necessidade de abordagens interdisciplinares nas fases anteriores...

MÁSCARAS E VISEIRAS
Então, aqui fica uma interpretação da área de Engenharia sobre a complementaridade das máscaras com as viseiras. As máscaras cirúrgicas são menos eficazes na retenção das partículas de menores dimensões, exatamente aquelas que são responsáveis pelo modo de transmissão por aerossóis. Uma viseira é uma parede sólida e funciona particularmente bem relativamente à situação de escoamento em que o risco de inalação é maior, isto é aquela em que há um escoamento frontal que vem contra a nossa face. Neste caso, o escoamento é forçado a contornar a viseira e a carga viral nos aerossóis que chega à máscara torna-se residual.
Aparentemente, escapou aos especialistas convidados a opinar...
Aliás, desconfio que tem havido muito poucas opiniões de Engenharia nas tomadas de decisão.

Desconfinar é bom!













20/05/20

O tempo do absurdo é agora


Foto de anúncio de venda de máscara (visto no Facebook)

Alguém inventou a mascarilha que queria ser viseira e alguém anda a vender. O que mais me surpreendeu foi ler nos comentários que há gente a comprar porque é lindo! É lindo! Já agora, porque não compram antes uma chupeta? Também é fofinho e dá muita protecção. Se abrirem a boca, ela cai. Por isso, a chupeta impede os vírus de sair. Pelo menos, pela boca. Vocês ainda têm paciência para conviver com toda esta paranóia? Eu estou à beirinha da loucura. Um destes dias ainda assalto um banco: máscara que me deixa açaimada como um cão, luvas até ao cotovelo e viseira de soldadura, já tenho. E sem engenho assim para ganhar dinheiro honradamente, resta-me a salvação da ilicitude!

19/05/20

Bolo com cobertura de pera fatiada: simples e bom!

 


De preparo muito simples, dá um pequeno bolo, ideal para lanche ou para completar uma refeição leve. 

Ingredientes: 3 peras maduras cortadas em fatias, 100 gr de manteiga à temperatura ambiente, 150 gr de açúcar, 270 gr de farinha com fermento, 2 ovos, raspa de limão, 15 gr de fermento em pó e 80 ml de leite. Açucar mascavado e canela para polvilhar a camada de peras. Usei uma forma de aro removível, com diâmetro de 26 cm, em forno pré-aquecido a 180º . 

Como fazer? Numa taça, desfazer a manteiga e bater (usei batedeira eléctrica) até formar uma pasta macia. Juntar o açúcar até ficar bem incorporado e a raspa de limão. A seguir os ovos um a um, batendo bem. À parte, misturar o fermento na farinha e depois adicionar esta aos poucos ao preparado. Deitar o leite antes de terminar de juntar a farinha. Se depois de juntar toda a farinha a massa ficar muito presa, pode juntar um pouco mais de leite. A massa é consistente para suportar a fruta sendo até preciso espatulá-la na forma. Untar e enfarinhar a forma e verter a massa. Dispor as fatias de pera em volta, pressionando ligeiramente. Polvilhar com açúcar mascavado e canela a gosto. Pode ser usado outro açúcar. Juntar miolo de noz também não fará mal. Vai 40 minutos ao forno. 

As mulheres que cozinham para os homens


Fotomontagem: MC Somsen, Facebook

Vou confessar-vos. Ainda não me casei porque ainda não encontrei um macho que queira livrar-me do inferno diário de preparar comida. Onde é que andará o meu gastrossexual de sonho? Assumo. Deixem-me sair da despensa: sou daquelas que se conquistam pelo estômago. Onde andará o meu deus na terra, aquele homem mítico que me livrará desse tormento que é ter de ir comprar ingredientes saudáveis com boa relação de qualidade/preço, acondicioná-los, destiná-los, e depois prepará-los segundo ritos nutricionais e calóricos equilibrados e levá-los à mesa com boa apresentação e requinte, diariamente, sempre com o sorriso fresco e divertido de quem acabou de degustar um amuse-bouche num restaurante Michelin? Cheguei a considerar seduzir uma mulher, mas não resultou: nem a química nem a física funcionaram, nem a consegui provar. Mas as refeições eram um prazer. E é por isso que acabo de partilhar uma receita de um bolo de pera em vez de uma infografia feita no Illustrator de um automóvel híbrido. Está-se mesmo a ver que o presidente do ACP é um zero à esquerda na cozinha. Mas é capaz de ter tido mais sorte do que eu: terá, eventualmente, seduzido uma fêmea cozinheira com conversas bem oleadas sobre fantasias e loucuras em automóveis descapotáveis. Há 16 anos que o Carlos Barbosa está na presidência. Deve ser uma máquina de gestão. No discurso de tomada de posse até aposto que ele lhe agradece ante os presentes, concluindo, embevecido: "Atrás de um grande presidente há sempre uma grande cozinheira".

17/05/20

Cognac e filoxera



Que tal foi o vosso almoço domingueiro? O meu começou bem e terminou melhor, com café amargo, um conhaque e uma fatia anafada deste bolo com cobertura de pera, açucar mascavado e canela. E esta história. Por volta de 1870 a filoxera causou forte dano à produção na região de Cognac destruindo os vinhedos. Provavelmente, um navio que partiu da América para Inglaterra transportava no seu bojo uma praga inclemente: a filoxera. Era costume os viticultores europeus importarem videiras oriundas da América. Sem pagar bilhete e sem mostrar passaporte, os piolhos amarelos viajavam clandestinos nas raízes das videiras americanas nativas, que tinham aprendido sabiamente como resistir-lhe. Já as europeias não eram imunes ao seu ataque. Dali para França e depois para Portugal, as videiras europeias encheram-se de folhas amarelas que murchavam. O piolho picava a raiz da videira e sugava a seiva. O maldito empanturrava-se de vida enquanto matava as videiras à fome pois as suas raízes definhavam de tal forma que não conseguiam extrair nutrientes do solo. Por cá sofreu a produção de vinho do Porto, enquanto que na região de Cognac, na França, foi a de conhaque. Lutar contra a filoxera não foi pera doce. Nem pesticidas nem químicos nem sapos presos às vinhas eliminavam o piolho. Restava arrancar as vinhas mortas. Só o enxerto da vinha europeia com a congénere americana resolveria a questão. Mas este casamento de conveniência não era visto como pacífico pelos vitivinicultores que se dividiram entre os defensores da busca por uma solução química e os do enxerto. O governo francês criou até um prémio para quem encontrasse a cura. Mas nem então, nem hoje, se sabe como como lidar com a infestação a não ser por via do enxerto. Em Portugal, as castas Malvasia e Ramisco, na região de Colares, de onde são oriundos alguns dos mais singulares vinhos nacionais, cultivados no solo arenoso, e resguardados do ar marítimo com desmesurado esforço, são imunes à praga.

02/05/20

Covid-19: a máscara mais avançada do momento!




Andar pelo Facebook é ter esta imensa sorte de receber anúncios especialmente escolhidos para nós com base na espiolhação de dados que permitimos. Apresento-vos mais uma sugestão patrocinada pela rede: a fantástica "BioVYZR" é a evolução da protecção pessoal para pandemias criada para garantir que a economia não pára. Ninguém vai parar, é apenas preciso enfiar o barrete. É um "design sem precedentes para um tempo sem precedentes, diz o anúncio." É tipo escafandro: propicia o isolamento social e descarta a necessidade da distância. O susto que o próprio nome - BioVYZR - promove chega só por si, para impor o respeito. É um design futurista mas a mim parece que me querem enfiar um carrinho de bebé com protecção para a chuva na cabeça. Para o visionário criador o mundo do amanhã pertencerá aos mascarados de astronauta que usarão o BioVYZR para atender clientes, para ir às aulas, para atender pacientes, para viajar em aviões, no metro e comboios. Dizem que é bom para usar em conferências. Mas, pensando em lazer, como é que vou ao cinema com isto? Alguma coisa se há-de arranjar. Pelo menos é garantido que não tocarei na cara, nem no nariz, nem na boca. Partículas e aerossóis são filtrados e purificados pelo poder da tecnologia. Um motor alimentado a bateria suga o ar para dentro do habitáculo através de um filtro criando pressão positiva que empurra o ar exalado para fora. A maquilhagem vai durar muito mais. Mas nem quero imaginar o drama de uma pestana no olho. Poderei tossir e espirrar nesta redoma viral sem incomodar o meu cotovelo, pouparei lenços descartáveis. Falarei pelos cotovelos, berrarei aos quatros ventos, - é uma forma de expressão - e até poderei cantar a canção da Marisa para espantar algum vírus mais afoito que tenha conseguido penetrar na minha intimidade sem espalhar perdigotos indesejáveis. Um upgrade social poderá garantir que filtra também insultos racistas nos jogos de futebol, mas não está previsto. Mas, atenção: este modelo ainda não tem aspiração automática de ranhocas e sua transformação em hidratante para a pele. Restará sofrer, sofrer, sofrer para evitar o pingo. Falta ainda garantir a ingestão de líquidos através de palhinha para aliviar a garganta seca. Essa opção será possivelmente disponibilizada na BioVYZR 0.2 num futuro próximo, creio, estou a fazer adivinhação futurista. A viseira está afastada da cara e não embacia, além de garantir óptima visibilidade. Um outro upgrade poderá ser a simulação de uma leve brisa, eventual personalização poderá permitir escolher entre marinha, montanha, campo...e também um par de pisca-piscas laterais para agilizar a movimentação das pessoas nos espaços públicos. Dizem que esta artimanha pode ser usada com qualquer vestuário! Imaginem eu casar-me e levar uma destas. Mas em branco, claro, a fazer pandã com os meus dentes. Porque fica distante da cabeça posso usar qualquer penteado, até um à B52's. É à prova de vento e de chuva, o que eu não pouparei em idas ao cabeleireiro. Os planos para a BioVYZR 0.3 ainda estão no segredo dos deuses mas já vazou na net a promessa de colocação, ajuste, remoção e higienização fácil sem uso das mãos, tipo a armadura do Homem de Ferro, com comando por voz, mas isso é que é mesmo design futurista. Custava 180 euros mas agora está com desconto de 15%. Vou aproveitar porque para combater a rotina em pandemia nada melhor do que imaginar que viajo para Marte a caminho do trabalho.

27/04/20

Quando eu for grande quero ser designer.



"Quando eu for grande quero ser designer. Os meus amigos querem ser futebolistas ou super-heróis. Eu quero ser designer, porque a missão do designer é muito importante.

O designer é muito importante para as pessoas e para os super-heróis também, porque é ele que desenha as marcas para eles porem nos fatos. O designer também desenha bonequinhos para por na porta das casas de banho, para os meninos e as meninas não se enganarem.

A missão do designer é mostrar às pessoas, que o gosto delas não é tão importante como o seu. O designer também tem que mostrar aos outros, que aquilo que faz dá mais trabalho do que parece.

O designer tem como missão, fazer as coisas bonitas. As pessoas adultas compram coisas porque são bonitas.

O designer tem como missão ser crescido e nunca se enganar, mas se isso acontecer, é porque fez de propósito.

O designer tem como missão explicar à família que não desenha casas.

O designer tem como missão preocupar-se com aquilo que ninguém se preocupa, alinha as coisas e escolhe tipos de letra, sem ser a Times.

A missão do designer é conseguir fazer os trabalhos no dia anterior, de forma a parecer que estão feitos há muito tempo.

O designer é um elemento mediador, tem como missão conciliar e responder a um variado conjunto de objectivos e condicionantes que se colocam perante si.

A minha avó diz que há um designer dentro de cada um de nós. A minha avó faz bordados e tem um macintosh."

Tiago Carvalho da Silva Resende

Geração Marketing - Are you ready? - Edições IPAM - Solange Ribeiro ( Inclui esta "redacção" que terá sido enviada à autora por uma amiga. Não se sabe se o menino é real ou não.)

24/04/20

Viagem fantástica!


Vocês viram aquele filme, Viagem fantástica? Um estadista obscurantista e prepotente, é vítima de um atentado biológico nunca reivindicado. Está entre a vida e a morte devido a uma infecção viral cujo agente patogénico se revela particularmente resistente. Os seus conselheiros decidem arriscar uma intervenção cirúrgica pioneira a partir do interior do seu corpo, graças a um processo revolucionário sugerido pela senhora da limpeza, a D. Solange, que tinha a cargo a higiene da Divisão de ciência e tecnologia do departamento e que acumulava ainda um part-time no solário do Presidente. “Atingimos o corpo com uma tremenda intensidade, seja ultravioleta ou apenas uma luz muito poderosa”, disse ela, enquanto limpava os candeeiros de mesa com uma flanela amarela, " trazendo a luz para dentro do corpo, o que pode ser feito através da pele ou de alguma outra maneira”. Logo a seguir, ela teve outra ideia, enquanto desenroscava a tampa da garrafa de lixívia, questionando se seria possível colocá-la em prática: “Vejo o desinfectante, que derruba o vírus num minuto. Um minuto. Haverá alguma forma de fazer algo do género, como injectar ou fazer uma limpeza numa pessoa?" Tony Stark e Elon Musk, formam uma task-force e criam uma espécie de mini- submarino especial. Uma equipa médica chefiada pelo Dr. House é reduzida a dimensões microscópicas e injectada na jugular do ferido com uma seringa. O minúsculo submarino alcança todo o corpo, navegando através de veias e artérias, com passagens pelos pulmões e alvéolos pulmonares, e até pelo coração, borrifando as células com lixívia através de minini-pulverizadores, ao mesmo tempo que envia raios ultravioletas em todas as direcções. Porém, uma sabotadora a bordo do minúsculo submarino quase deita tudo a perder no último momento: trata-se de uma médica convencional que defende que aquele método não se baseia em evidências científicas, "toda uma irresponsabilidade", afirma, que ditará a morte do estadista. O sucesso da operação intitulada "Luz ao fundo da tripa" é posto em causa quando ela se fecha na sala de comando disposta a tudo para salvar o seu presidente, nem que para isso tenha ela de morrer e todos naquela cápsula. Após algumas peripécias, a médica é capturada e acusada de conspirar com os chineses para derrubar o líder da nação mais poderosa do mundo. A arrojada operação de limpeza viral é finalizada com êxito. O estadista sobrevive, o inimigo invisível é vencido. Semanas depois, quando retoma as suas funções, o mundo assiste, estupefacto, ao renascimento de um líder, de pele branqueada. Além disso, ele era agora dono de um pensamento iluminado e capaz de um discurso limpo, o que a todos os cidadãos deixou contagiados. A America voltaria a ser grande, so help me God, disse. Trata-se, claro, de um filme de ficção científica. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

19/04/20

Polémicas de pandemia: as comemorações do 25 de Abril na AR





Assisto à grande inflamação popular, ou apenas de redes sociais, não sei bem, discute-se se devemos ou não assinalar, na AR, em versão minimalista, o Dia da Liberdade. As massas dividem-se, cada uma em busca do triunfo da sua razão, umasde coração na boca, outras com o cérebro atravessado no estômago, ajuntando toda a espécie de argumentos, uns de natureza higiénica, outros patrióticos. Mas uma parte da gente, uma que talvez fosse passar o feriado à praia, e que está agora mais frustrada que um rato de laboratório porque este ano não há solário para ninguém, mesmo que o astro rei compareça, sempre foi indiferente a cerimónias na casa da Democracia, nunca deu ouvidos àquela maçada, um não aquece nem arrefece, apenas pão que vai ao forno mas que não cresce e não doura. Para estes, o 25 ideal era para estar na rua, como a poesia, e não podendo ser assim, ao ar livre, com raios ultravioleta, avermelhando faces em cravo, pulmões inflados e garganta rouca de cantar, em convívio, então mais vale esquecer. A outra parte, a de sofá, insiste na discurseta tradicional no Parlamento, mas não porque vá assistir a algo de que já se cansou. Nas redes, até parece que Portugal anda todo o ano à espera de discursos monocórdicos, e de contar os cravos tristonhos nas lapelas ou nas bancadas, como se esse magro alimento fosse matar a fome de justiça que o 25 anunciou e ainda não cumpriu.  Para outra porção da gente nada disto é pão que se cheire, há anos esperançosa numa revolução serena, um desejo acalentado de que alguém metesse as mãos na massa e reinventasse a celebração da conquista de tantos direitos, a aproximasse dos novos, a tornasse uma festa. Em plena pandemia, eis o pretexto, eis, talvez, a janela que se abre.  Porque o 25 é ainda uma emergência de todos os dias, porque é preciso alimentar o ideal de liberdade, já tão difusa a amargura que foi viver o tempo do fascismo. Mas não. Discursos sem flama, 130 pessoas. Cravos murchos. Formatos pouco elásticos. Massa que não leveda. 25 de Abril sempre.

11/04/20

Folar da Páscoa muito rápido e fácil de fazer





Ingredientes: 

- 300 gr de farinha (tipo 55, sem fermento)
- 75 gr açúcar amarelo ou branco
- 1/2 c. sopa fermento (de bolos)
- 1 iogurte- 125 gr (natural ou grego natural- também podem ser açucarados)
- 50 gr manteiga (com ou sem sal)
- 1 ovo
- 1 c. chá canela
- 1/2 c. chá erva doce em pó (opcional)
- 1 laranja (ou limão)...

Preparação: 

Derreter a manteiga num tachinho. Numa taça juntar a manteiga derretida e o açúcar. Mexer bem. Juntar a raspa de limão, o ovo, e misturar. Juntar o iogurte e mexer. Depois a farinha, a canela, a erva doce e o fermento. Mexer tudo. Passar a massa para a bancada para amassar assim que for impossível usar a colher. Forrar tabuleiro com papel, polvilhar com farinha e colocar a massa em formato de bola. Pincelar com ovo e polvilhar com açúcar amarelo. Levar ao forno 30 minutos a 200º.

É uma receita da Rita do La Dolce Rita, que ontem fez uma "Live" e colocou meio mundo a fazer folares e a partilhar fotos!