10/10/19

Olga Tokarczuk é Nobel da Literatura!

O livro Viagens pode ser aquirido online na Wook

A verdadeira vida só pode desenrolar-se em movimento.Tudo o que está em movimento tem mais nobreza do que aquilo que está parado. O que se movimenta dura para sempre. O que pára, morre. Memórias, reflexões e ficção. Diversos registos, relatos fragmentados. O livro Viagens promete originalidade e desafio. Este livro, escrito em 2007, assim que foi traduzido para a língua inglesa, ganhou, em 2018, um prémio a que sempre presto atenção: o Man Booker Prize.  No próximo dia 14 saberemos quem o vencerá no corrente ano. Viagens já estava na minha lista de compras futuras. Por isso foi com agrado que soube que a escritora tinha ganho o Nobel.

Nascida em 1962, Olga Tokarczuk é autora de romances (este foi o 12º) e de duas colecções de contos, sendo também co-organizadora de um festival literário perto da sua residência, no sul da Polónia. Venceu já múltiplos prémios e é autora de "bestsellers".

O prémio Nobel do ano passado também só agora foi atribuído.  Se bem se lembram, estoirou o escândalo em plena pujança do movimento #metoo: o fotógrafo Jean-Claude Arnault, acusado de assédio por 18 mulheres, foi condenado a dois anos de prisão. Ele e a mulher, a poeta e dramaturga Katarina Frostenson, um dos 18 membros da Academia Sueca, dirigiam uma organização apoiada financeiramente pela instituição sueca quando as denúncias chegaram a público, levando à demissão de vários elementos do júri. Arnaut também fora o autor da fuga de informação sobre os nomes dos vencedores do Nobel em sete ocasiões distintas. Sem quórum e com a sua imagem em crise, a instituição decidiu adiar os prémios de 2018.

Daí, Peter Handke. Ignorante, eu apenas o conhecia do mundo do cinema. Na minha ideia Handke seria mais um realizador-argumentista do que um escritor, e não, certamente, um de grande gabarito capaz de receber o Nobel. Parece, afinal, que é o inverso. E, claro, ligava o seu nome ao de Milosevic, líder nacionalista sérvio. Milosevic faleceu no centro de detenção das Nações Unidas, após enfarte, e por altura do velório do ditador, em 2006, o escritor não só compareceu como discursou a sua simpatia pelo homem e suas acções, o que suscitou amplos reparos e polémica. Isto de ser amiguinho de gente que leva a cabo operações de limpeza étnica - milhares de homens, mulheres e crianças morreram em consequência dos planos concebidas por Milosevic, - não cai bem a nenhuma pessoa de bem e a malta  não está a deixar passar o facto em branco neste momento de celebração das letras.  Embora muitos escritores e artistas cuja obra apreciamos tenham os seus podres, todos preferíamos que fossem impolutos. Esta premiação não deverá  revestir-se, pelo menos no seio da Academia, da aura de escândalo do ano passado mas, ainda assim, é, na minha opinião,  um ponto bastante negro, da atribuição deste Nobel.

P.S. Já depois de ter fechado este apontamento, leio que Peter Handke considerou corajosa a sua escolha como Nobel de 2018 , possivelmente em virtude da sua visão pró-sérvia, mas também,  descubro, agora porque ao longo da carreira defendeu a eliminação do prémio,  que classificava de "falsa canonização" acrescentando que "não oferece nada aos leitores". Fico então à espera que tome a corajosa decisão de o recusar, em sintonia com a sua opinião.

P.S.  - Polémica em torno do Nobel a Peter Handke não dá sinais de amainar - A ler, aqui.

4 comentários:

Mário M. Gonçalves disse...

Handke é uma verdadeira desgraça. Nunca pediu desculpas nem se arrependeu do que fez e disse. Todos os balcãs (menos alguns sérvios) o odeiam. Ele pode achar bem que se cometa um genocídio em nome de uma forma de racismo; quem quiser que o leia; mas que o Nobel o premeie, semi-encobrindo com outra nomeação, é repugnante. Acho eu.

Belinha Fernandes disse...

Também não tenho interesse em ler Handke,em parte por desconhecer mesmo a obra tirando o que fez para o cinema e nem tudo. Mas pode até ser que seja, apesar disso, de ser um idiota nacionalista, um bom escritor. Ezra Pound era racista, aliás, muitos escritores, bons escritores que ficaram na história, eram racistas. Outros criminosos ou simplesmente pessoas muito imperfeitas. É uma boa questão saber até que ponto devemos boicotá-los, ignorá-los ou tentar compreendê-los...

Mário M. Gonçalves disse...

Se fosse só um idiota nacionalista... Ele APOIOU Milosevic na matança do Kosovo. E na política de submissão ao poder Sérvio. Contra tudo o que se sabia na Europa.
Ezra Pound (de quem gosto de alguns poemas) nunca teve prémio Nobel. Eu não lho teria dado. Admito que valha a pena ler alguma coisa de Handke; o que me repugna é darem-lhe um prémio, que ele irá receber, aclamado e vaidoso depois da porcaria que disse e fez.
Tentar compreendê-los, sim; premiá-los, não.



redonda disse...

Dela ainda não li nada, dele sei que li A angústia do guarda-redes mas não me lembro do que li :(...vou procurar o livro para me relembrar