30/01/19

Bom mesmo, crónica de Luis Fernando Verissimo

O livro, O melhor das comédias da vida privada pode ser adquirido online, na Wook!

Para quem cultiva o humor inteligente, eis uma crónica de Luis Fernando Verissimo, da série "Novas Comédias da Vida Privada". De seguida, leia uma curta biografia para ficar a saber um pouco sobre quem é Luis Fernando  Veríssimo.

"O homem passa por várias fases na sua breve estada neste palco que é o mundo, segundo Shakespeare, que só foi original porque foi o primeiro que disse isso. Muitas coisas distinguem uma fase da outra – a rigidez dos tecidos, o alcance e a elasticidade dos membros, a energia e o que se faz com ela -, mas o que realmente diferencia os estágios da experiência humana sobre a Terra é o que o homem, a cada idade, considera bom mesmo. Não o que ele acha bom – o que ele acha melhor. Melhor do que tudo. Bom mesmo.

Um recém-nascido, se pudesse participar articuladamente de uma conversa com homens de outras idades, ouviria pacientemente a opinião de cada um sobre as melhores coisas do mundo e no fim decretaria:

– Conversa. Bom mesmo é mãe.

Já um bebê de mais idade discordaria.

– Bom mesmo é papinha.

Depois de uma certa idade, a escolha do melhor de tudo passa a ser mais difícil. A infância é um viveiro de prazeres. Como comparar, por exemplo, o orgulho de um pião bem lançado, ou o volume voluptuoso de uma bola de gude daquelas boas entres os dedos, com o cheiro de terra úmida ou de caderno novo? Existem gostos exóticos:

– Bom mesmo é cheiro de Vick Vaporub.

Mas acho que, tirando-se uma média das opiniões de pré-adolescentes normais e brasileiros, se chegaria fatalmente à conclusão de que, nessa fase, bom mesmo, melhor do que tudo, melhor até do que fazer xixi na piscina, é passe de calcanhar que dá certo.

Existe ainda uma fase, no começo da puberdade, em que a indecisão é de outra natureza. O cara se acha na obrigação de pensar que bom mesmo é mulher (no caso prima, que é parecido com mulher), mas no fundo ainda tem a secreta convicção de que bom mesmo é acordar com febre na segunda-feira e não precisar ir à aula. Depois, sim, vem a fase em que não tem conversa:

– Bom mesmo é sexo!

Essa fase dura, para muita gente, até o fim da vida. Mesmo quando sexo não está em primeiro lugar numa escala de preferências (“Pra mim é sexo em primeiro e romance policial em segundo, longe”) serve como referência. Daí para diante, quando alguém disser que “bom mesmo” é outra coisa que não o sexo estará sendo exemplarmente honesto ou desconcertantemente original.

– Olha, bom mesmo é figada com queijo.

– Melhor do que sexo?

– Bem… Cada coisa na sua hora.

Há quem anuncie o que prefere mesmo como quem faz uma confissão há muito contida. Abre o jogo e o peito, e não importa que pensem que o sexo não lhe interessa mais:

– Pensem o que quiserem. Pra mim, bom mesmo é discurso de baiano.

E há casos patéticos. Tem uma crónica do Paulo Mendes Campos em que ele conta de um amigo que sofria de pressão alta e era obrigado a fazer uma dieta rigorosa. Certa vez, no meio de uma conversa animada de um grupo, durante a qual mantivera um silêncio triste, ele suspirou fundo e declarou:

– Vocês ficam aí dizendo que bom mesmo é mulher. Bom mesmo é sal!

Com a chamada idade madura, embora persista o consenso de que nada se iguala ao prazer, mesmo teórico, do sexo, as necessidades do conforto e os pequenos prazeres das coisas práticas vão se impondo.

– Meu filho, eu sei que você, aí tão cheio de vida e de entusiasmo, não pode compreender isso. Mas tome nota do que eu vou dizer porque um dia você concordará comigo: bom mesmo é escada rolante.

E assim é a trajetória do homem e seu gosto inconstante sobre a Terra, do colo da mãe, que parece que nada, jamais, substituirá, à descoberta final de que uma boa poltrona reclinável, se não é igual, é parecida. E que bom, mas bom mesmo, é não precisar ir a lugar nenhum, mesmo sem febre.”

Uma curta biografia

Profícuo escritor de crónicas, Luis Fernando Veríssimo também é contista, guionista, romancista, cartoonista - foi assim que começou antes de despontar para a escrita, como tradutor e redactor publicitário, - e até músico já que tem um grupo de jazz. São conta mais de 60 livros publicados e unanimidade entre leitores e críticos. Nascido em Porto Alegre, é um dos mais bem-sucedidos e populares escritores brasileiros contemporâneos. Muitos livros que escreveu deram lugar a adaptações para o cinema,  TV e  teatro. Destaco títulos como Comédias da Vida Privada, que foi adaptado para uma série da TV Globo; Gula: O Clube dos Anjos, um romance, Borges e os Orangotangos Eternos, uma ficção policial; e O Analista de Bagé,cuja personagem é uma espécie de psicanalista freudiano da fronteira gaúcha. Veríssimo, é  filho do escritor Érico Veríssimo, que escreveu Olhai os lírios do campo, ou O tempo e o vento. Nascido, portanto, em berço literário, não desapontou a sua herança e revelou-se um mestre a analisar o quotidiano banal da sociedade brasileira e das pessoas normais através de um olhar singular, fazendo uso de uma linguagem muito clara, simples mas cuidadosa para desvendar todo o tipo de comportamentos da vida pública ou privada,  dos trágicos aos cómicos, com ironia e humor irresistíveis.

Aos 10 anos de idade, o publicitário e jornalista Marcelo Dunlop, descobriu  num texto de Luis Fernando Verissimo, que até a morte podia ser engraçada. Recortou a crónica do jornal e passou a fazer o mesmo com as seguintes. Duas décadas depois, uma empreitada: um livro, publicado em 2016,  Ver!ssimas frases, reflexões e sacadas sobre quase tudo, uma recolha de frases e de cartoons do inspirado autor brasileiro, com prefácio de também um bom cronista brasileiro, António Prata, de que deixo alguns exemplos para vos aguçar a curiosidade: 

BRASIL
No Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa.

CLASSES
O Brasil é formado por uma classe dominante e uma classe ludibriada.

CONSTITUIÇÃO
Nossa Constituição é como “A Voz do Brasil”: a maioria não liga.

DEMOCRACIA
Toda a história da democracia no Brasil é a história da educação da nossa elite na arte de não mudar nada, ou só mudar o suficiente para não perder o controle.

FALCATRUAS
Nossa alma amazônica não se satisfaz com pequenas falcatruas, queremos pororocas de sujeira, dilúvios de canalhice.

IGUALDADE
Todo brasileiro é igual perante a lei, contanto que não seja pé de chinelo, porque aí é culpado mesmo.

INDEPENDÊNCIA
Todos deviam ser donos do seu nariz, mas infelizmente isto não acontece. Num país como o Brasil o sonho do nariz próprio continua inalcancável para a maioria.

JORNAL
Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data.

LINGUAGEM
Tortuosos são os caminhos da língua. Espera um pouquinho, ficou meio pornográfico.

TAXISTAS
O Brasil vai mal porque as únicas pessoas que sabem como governá-lo estão dirigindo táxis, em vez de no governo. Os motoristas de táxi têm a solução para todos os problemas do país ou – dependendo do tamanho da corrida – do mundo. Um dia, quando estivermos na iminência do caos terminal (pode ser amanhã), uma revolução popular colocará os homens certos nos lugares certos. Os motoristas de táxi, os dentistas e os barbeiros assumirão o poder, colocarão em prática suas teorias e resolverão todos os nossos problemas.


Sugestões de leitura:

Luis Fernando Veríssimo escreve no Estadão

Em entrevista de 2015, por Anabela da Mota Ribeiro: "Gosto muito daquela frase “conheça-se a si mesmo, mas não fique íntimo”. Não quero intimidades comigo mesmo. Quanto à psicanálise, concordo cm o analista de Bagé, que a considera uma frescura, embora possa ajudar algumas pessoas.

Em entrevista de 2018, por Nuno Costa Santos : "O colunista e autor de Aventuras da Família Brasil manifesta ter uma relação, digamos, pouco romântica com o gesto de escrever. É ele que diz, com ameno pragmatismo: “A minha musa inspiradora é o meu prazo de entrega”. Também tem por hábito citar uma frase de Zuenir Ventura, que diz que não gosta de escrever, gosta de ter escrito."

28/01/19

Se quiser falar com Deus, mande-lhe uma SMS enquanto conduz




À entrada de uma igreja encontrava-se um cartaz com a seguinte advertência:
Ao entrar nesta igreja é possível que receba um chamamento de Deus. No entanto, é improvável que Ele faça essa chamada para o seu telemóvel. Por isso, pedimos encarecidamente que o desligue.
Se quiser falar com Deus, a melhor maneira é entrar, escolher um lugar da sua preferência e muito simplesmente conversar com Ele.
 
Mas, se por acaso quiser Vê-lo, pode sempre mandar-lhe uma mensagem de texto enquanto estiver a conduzir.
Ano novo, condução nova. Que tal? Vale a pena parar e escutar a voz da razão. A sério. É que a PSP e a GNR, registaram 115 multas por dia entre Janeiro e Setembro do ano passado, diz a jornalista no video que acabei de ver. Apanharam 29.000 condutores em infracção! Fala-se até em estudar a inibição do sinal de telemóvel dos condutores! É claro que durante toda a minha infância e adolescência nunca se viu um telemóvel num automóvel e a vida corria sobre rodas. Mas nos dias de hoje, como viver sem eles? O facto é que as multas por uso do telemóvel ao volante vão de vento em poupa! Tudo começou com as conversas, depois a leitura e envio de mensagens, depois o tomar notas, pesquisar, e agora até já se vê televisão no telemóvel enquanto se conduz. O velhinho "se conduzir não beba" só aparece por ocasião das festas, a preocupação com o uso pouco cauteloso dos telemóveis roubou-lhe o protagonismo. Não admira que a Tesla queira meter os automóveis a conduzir autonomamente!

Os estudos mais loucos, desta e daquela universidade, são notícia já habitual. Quase tanto como as multas! É de tal forma que já ninguém liga a estudos "científicos". Mas, quem é que ainda não ouviu falar do estudo dos cérebros dos taxistas ingleses? O que terão os seus cérebros assim de tão especial? Antes de explicar, um aparte: um taxista londrino não é um taxista qualquer. Para obter a licença de taxista e poder conduzir um daqueles icónicos táxis negros na capital londrina, os candidatos a taxistas têm de fazer um exame: "The Knowledge" e isto significa que têm de aprender 300 percursos e 25.000 ruas, ou seja, há que decorar o A-Z de Londres, além das principais atracções turísticas, como museus, parques, igrejas, além de outros lugares de interesse para o cidadão comum, como mercados, escolas, hospitais, etc. O resultado de todo este esforça resulta na suada obtenção licença de taxista e num hipocampo direito aumentado, segundo o já famoso estudo, também londrino, de Eleanor Maguire e colegas. Esta dedicada canseira pode demorar entre 2 a 4 anos e o exame tem prova escrita e oral e não permite cábulas. Há até um documentário sobre o mais difícil exame para se ser taxista no mundo: ser taxista londrino. Estes homens não podem usar GPS nos seus carros, ao contrário dos motoristas da UBER, e isso já tem motivado protestos por acharem injusto: tenho de lhes dar razão. Os motoristas londrinos conseguem até melhores resultados que os aparelhos, aliando conhecimento e intuição para bater o trânsito congestionado. É assim que o conhecimento e experiência de navegação e orientação destes condutores londrinos não se compara à dos nossos taxistas nem, muito menos, à nossa, de comum condutor. O hipocampo é uma região do cérebro humano relacionada com a memória e a navegação espacial, sendo uma das primeiras áreas do cérebro a ser afectada pela doença de Alzheimer. Daí a razão destes particulares cérebros terem sido estudados.

Ora, estudos efectuados aos montes, a sério, são imensos, demonstram que usar o telemóvel e conduzir ao mesmo tempo implica uma sobrecarga mental acrescida que prejudica a realização segura da tarefa da condução. O risco de colisão aumenta quatro vezes! (Olha o estudo!) O nosso cérebro é incapaz de atender satisfatoriamente a duas tarefas diferentes realizadas simultaneamente. Mulheres, esqueçam a ideia de que a vantagem no multitasking vos favorecerá, e, aliás parece que já foi desmentida uma falsa notícia a favor da tese originada num estudo  que algum jornalista tresleu. É mais um  mito,  e o que se aconselha a todos, homens e mulheres, é a trabalharem sequencialmente, para obterem os melhores resultados.

Um psicólogo cognitivo de nome George Miller já em 1956 tinha chegado à conclusão de que apenas conseguimos manejar sete, mais ou menos dois, "segmentos" de informação ao mesmo tempo. (Nome do estudo- O número mágico sete, mais ou menos dois: Alguns limites na nossa capacidade de processar informação.) Ou seja, a actividade da memória (memória de trabalho)  tem uma capacidade limitada. Por isso, não inventem super-poderes. Pode correr mal, pode ser só chapa, e já não é bom, ou pode ser pior.

Basicamente o uso do telemóvel compromete a nossa capacidade de vigilância porque a nossa atenção tem se repartir por vários focos em vez de se concentrar no trânsito. É tão elementar que custa a levar a sério. Dizem que a própria conversa já é um factor de distracção por si só, pelo que embora o uso de um sistema"kit mãos livres" permita manter as 2 mãos no volante, reduzindo alguns riscos, não resolve tudo. Somos muito permeáveis à distracção. Há uma experiência, a experiência do gorila invisível, que atesta isso mesmo. 

Imagine que o convidavam para ver um video no qual seis pessoas - três em camisa branca e três em camisa preta - jogam basket, e lhe pediam que fizesse a contagem silenciosa do número de passes feitos pelas pessoas em camisa branca. Diria que isso era fácil. E se algures no video um gorila aparecesse no meio do jogo, encarasse a câmara e batesse no peito, saindo, depois, passados nove segundos? Você teria a certeza que não deixaria de o ver. Juraria a pés juntos que sim, que seria fácil. Só que talvez não fosse bem assim. A experiência foi feita na Universidade de Harvard, há alguns anos, e metade das pessoas que assistiram ao vídeo e contaram os passes não viram o gorila: era como se o gorila fosse invisível.

O aconselhável é, portanto, que o condutor - incluindo o ciclista, e também o peão, que já tenho visto a atravessar a rua a olhar para o instrumento! - evite usar o telemóvel, seja qual for a sua forma de utilização, durante o acto de condução. Se de todo não for capaz, bem, é melhor chamar um táxi!

O que pode acontecer assim de tão errado? É, realmente, difícil aceitar que não consigamos dar conta de dois recados ao mesmo tempo. Mas a psicologia aconselha-nos a desconfiar da nossa confiança pois medimos muito mal o risco e desvalorizamos o perigo. Desde logo, o tempo de reacção aumenta, e, só por isso, uma situação antes controlável pode tornar-se perigosa: um peão que se atravessa na estrada, um cão imprevisível, uma moto vinda de nenhures. É mais complicado ajustar a distância em relação a veículo que circula à frente. É mais difícil descodificar sinais de trânsito, placas informativas. Se já somos preguiçosos a sinalizar mudança de direcção, de telemóvel em punho ela não se vai fazer. A visão periférica e a informação visual recolhida através dos retrovisores é prejudicada: o olhar perde mobilidade, foca-se na zona frontal. A conversa pode levar a excitabilidade diversa em função do seu teor. Usar o telemóvel pode revelar-se mais prejudicial se estiver a chover, se o trânsito for intenso, etc.

E, claro, podemos ser multados por usar o telemóvel durante a condução. Mas, atenção, se pararmos para o utilizar também podemos ser multados. E que tal ter algum amor, se não à nossa vida e à vida dos outros, ao lindo dinheirinho que tanto nos custa a ganhar? A multa para os condutores apanhados a conduzir e a falar ao telemóvel vai de 120 a 600 euros, de acordo com o artigo 84.º do Código de Estrada, Lei n.72/2013 de 3 de Setembro:

- É proibida ao condutor, durante a marcha do veículo, a utilização ou o manuseamento de forma continuada de qualquer tipo de equipamento ou aparelho suscetível de prejudicar a condução, designadamente auscultadores sonoros e aparelhos radiotelefónicos, com a exceção dos aparelhos dotados de um único auricular ou microfone com sistema de alta voz, cuja utilização não implique manuseamento continuado. 

E trata-se de uma contra-ordenação grave, de acordo com o art.145º, perde-se 2 pontos na carta, podendo resultar na inibição de conduzir de 1 mês a 1 ano:

n) A utilização, durante a marcha do veículo, de auscultadores sonoros e de aparelhos radiotelefónicos, salvo nas condições previstas no n.º 2 do artigo 84.º (aparelhos dotados de um único auricular ou microfone com sistema de alta voz, cuja utilização não implique manuseamento continuado).

O Código diz que durante a marcha não podemos usar o telemóvel. Mas não estar em marcha não significa que não existam multas de condutores que estavam parados de telemóvel em punho ou mesmo com o kit mãos livres: é o Código da Estrada, não o Dicionário Priberam. A coisa requer alguns cuidados de interpretação. Os condutores podem usar o telemóvel sem meios adicionais se estiverem estacionados ou parados - nunca durante a marcha - e não causarem perigo ou embaraço para os outros utentes da via. Durante a marcha é permitido o uso de um único auricular ou microfone com sistema de alta voz, cuja utilização não implique manuseamento continuado. Evite sempre o manuseio do seu telemóvel. E cuidado ainda no momento em que se decida parar ou estacionar não vá a urgência toldar o discernimento e acaba-se multado por ter parado ou estacionado num local proibido.

Divulgue, por um novo ano mais seguro na estrada e com menos multas!

O que diz o Código da Estrada:

Artigo 84.º - Proibição de utilização de certos aparelhos

1 — É proibido ao condutor utilizar, durante a marcha do veículo, qualquer tipo de auscultadores sonoros e de aparelhos radiotelefónicos.
2 — Exceptuam-se do número anterior:
a) Os aparelhos dotados de um auricular ou de microfone com sistema alta voz, cuja utilização não implique manuseamento continuado;

Paragem e estacionamento 

Artigo 48.º 
Como devem efetuar-se 
1 - Considera-se paragem a imobilização de um veículo pelo tempo estritamente necessário para a entrada ou saída de passageiros ou para breves operações de carga ou descarga, desde que o condutor esteja pronto a retomar a marcha e o faça sempre que estiver a impedir ou a dificultar a passagem de outros veículos.
 2 - Considera-se estacionamento a imobilização de um veículo que não constitua paragem e que não seja motivada por circunstâncias próprias da circulação. 

Artigo 49.º - Proibição de paragem ou estacionamento

 1 - É proibido parar ou estacionar:
 aa) Nas rotundas, pontes, túneis, passagens de nível, passagens inferiores ou superiores e em todos os lugares de visibilidade insuficiente; 
bb) A menos de 5 m para um e outro lado dos cruzamentos, entroncamentos ou rotundas, sem prejuízo do disposto na alínea e)do presente número e na alínea a) do n.º 2;
 cc) A menos de 5 m para a frente e 25 m para trás dos sinais indicativos da paragem dos veículos de transporte coletivo de passageiros ou a menos de 6 m para trás daqueles sinais quando os referidos veículos transitem sobre carris; 
dd) A menos de 5 m antes e nas passagens assinaladas para a travessia de peões ou de velocípedes; ee) A menos de 20 m antes dos sinais verticais ou luminosos se a altura dos veículos, incluindo a respetiva carga, os encobrir; f
f) Nas pistas de velocípedes, nos ilhéus direcionais, nas placas centrais das rotundas, nos passeios e demais locais destinados ao trânsito de peões; 
gg) Na faixa de rodagem sempre que esteja sinalizada com linha longitudinal contínua e a distância entre esta e o veículo seja inferior a 3 m. 
2 - Fora das localidades, é ainda proibido: 
aa) Parar ou estacionar a menos de 50 m para um e outro lado dos cruzamentos, entroncamentos, rotundas, curvas ou lombas de visibilidade reduzida; 
bb) Estacionar nas faixas de rodagem; 
cc) Parar na faixa de rodagem, salvo nas condições previstas no n.º 3 do artigo anterior. 

Artigo 50.º Proibição de estacionamento

 1 - É proibido o estacionamento: 
aa) Impedindo o trânsito de veículos ou obrigando à utilização da parte da faixa de rodagem destinada ao sentido contrário, conforme o trânsito se faça num ou em dois sentidos; 
bb) Nas faixas de rodagem, em segunda fila, e em todos os lugares em que impeça o acesso a veículos devidamente estacionados, a saída destes ou a ocupação de lugares vagos; 
cc) Nos lugares por onde se faça o acesso de pessoas ou veículos a propriedades, a parques ou a lugares de estacionamento; 
dd) A menos de 10 m para um e outro lado das passagens de nível;
 ee) A menos de 5 m para um e outro lado dos postos de abastecimento de combustíveis; 
ff) Nos locais reservados, mediante sinalização, ao estacionamento de determinados veículos;
 gg) De veículos agrícolas, máquinas industriais, reboques ou semirreboques quando não atrelados ao veículo trator, salvo nos parques de estacionamento especialmente destinados a esse efeito; 
hh) Nas zonas de estacionamento de duração limitada quando não for cumprido o respetivo regulamento; 
ii) De veículos ostentando qualquer  informação com vista à sua transação, em parques de estacionamento.

27/01/19

Todo mundo, Alguém, Qualquer Um, Ninguém.


Quem é quem 

Era uma vez uma empresa que tinha 
Quatro funcionários chamados: 
Todo mundo, Alguém, Qualquer Um, 
Ninguém. 

Havia um importante trabalho a ser feito 
e Todo Mundo estava certo de que Alguém o faria. 

Qualquer Um poderia tê-lo feito mas Ninguém o fez... 

Alguém ficou zangado com isso, pois era um trabalho de Todo Mundo. 
Todo Mundo pensou que Qualquer Um poderia fazê-lo, 
mas Ninguém imaginou que Todo Mundo não o faria. 

A história termina com 
Todo Mundo culpando Alguém 
quando realmente Ninguém poderia responsabilizar Qualquer Um. 

(Autor desconhecido)

Os estereótipos de género e os provérbios populares


Já alguma vez frequentaram algum workshop sobre Igualdade de Género? Inscrevi-me num e esta semana os participantes foram convidados a reflectir acerca das crenças que informam os provérbios e a identificar neles eventuais estereótipos de género. Alguns dos inscritos são brasileiros e um deles enviou este sintético contributo. Em duas linhas, ele escreveu: "O novo Brasil...É uma nova era no Brasil. Menino veste azul e menina veste rosa”, Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos...." A polémica que se instalou depois da Ministra ter proferido a sua fórmula chegou cá e li opiniões bastante inflamadas sobre o assunto. É no mínimo estranho. É que nem a minha mãe me vestiu de cor-se-rosa e eu nasci para lá de longe, em plena ditadura! Lembro, todavia, de ter tido uma bata cor-de-rosa na escola primária. (Já não me lembro de que cor era a bata dos meninos, se azul  ou se estavam dispensados.) Por isso, não sei se em vez de uma nova era não será um regresso a um passado longínquo para o "novo Brasil". Adiante. Foi, no entanto, esse flasback que me deu a ideia de associar o tema dos estereótipos e dos provérbios à vida das mulheres durante a ditadura em Portugal.

A PETA anda há uns anos a tentar modificar certas expressões que continham menções ofensivas para com os animais: "pegar o touro pelos cornos" por "pegar a flor pelos espinhos" ou "matar dois coelhos com uma cajadada", que no caso da língua inglesa envolve passarinhos e uma pedrada, por "alimentar dois passarinhos com um donut"! E porquê? Diz a PETA que embora essas frases pareçam inofensivas, elas encerram um significado e podem enviar sinais menos bons sobre a relação entre humanos e animais, isto é criar uma ideia de normalização do abuso junto dos mais novos. Ensinar aos pequeninos uma linguagem amiga dos animais poderia, pois, ajudar a cultivar relacionamentos positivos entre todos os seres e ajudar a acabar com a epidemia de violência infanto-juvenil contra os animais. A violência para com os animais, é verdade, existe; mas existe, sobretudo, porque os pais se demitem de dar o exemplo, de educar e de vigiar os cachopos. Depois eles agarram um gato pela cauda e arremessam-no pelo ar a ver se cai de pé, na volta o bichano vinga-se e a culpa é do gato, que é banido do lar. Ora, as pessoas não são animais e os animais não são pessoas, mas temo que algum dia alguma entidade também venha sugerir alternativas criativas aos provérbios ou que manifeste mesmo vontade de proibir o seu uso. Realmente não é lá muito bonito andar por aí a propalar que "com afagos, a mula e a mulher fazem o que o homem quer" ou que "Deus nos livre da mula que faz "him" e da mulher que sabe latim", mas pergunto qual é a percentagem de pessoas que os usa numa época em que já ninguém tem mulas e uma minoria sabe latim. Muitos destes provérbios raras vezes são usados e cada vez mais cairão em desuso. De facto já não são lá muito populares. A evolução  empurrou certos usos e expressões para debaixo do tapete, mesmo que desprovidas de ofensas - nem a pessoas nem a animais! -  pelo não uso. Por outro lado, a evolução das mentalidades também rejeitará os menos consensuais, de forma mais convicta, por não mais se rever no estado por eles caracterizado.

Os provérbios são textos anónimos, ditos ou expressões que traduzem a sabedoria popular, e onde é possível identificar uma interpretação a respeito de certos saberes, uma concepção social e cultural de uma dada época. Os provérbios exprimem juízos de valor, ou realidades aceites como verdades. Funcionam como auxiliares da organização de um certo conhecimento pelo que permitem a orientação das pessoas no seio de um grupo ou sociedade. Muitos deles, tomando as vezes de uma norma de conduta, regras a seguir, informam comportamentos esperados de cada um dos sexos: quem ousar afrontar o preceituado sofrerá a censura da comunidade.

A construção social do género tem na sua base ideias preconcebidas, estereótipos, sobre atributos, comportamentos, e papéis a que homens e mulheres devem aderir em função da sua categoria social de pertença, e alguns provérbios evidenciam-nos. Pela sua semelhança com normas, ocorreu-me recordar aqui algumas normas do tempo do Estado Novo, que atribuíam a homens e mulheres, quanto a actividades comuns, desigual e diferente distribuição de papéis e uma vincada distinção do que era idealmente masculino e feminino. Desde 1933 que a Constituição portuguesa mencionava a igualdade de todos os cidadãos, mas, na prática, vivia-se a realidade traduzida nos provérbios.

Por exemplo, as ideias que informam os provérbios “Quando há homens, não se confessam as mulheres”, “À mulher casada, o marido lhe basta”, ”Mulher sem marido, barco sem leme” remetem para a superioridade do elemento masculino, ou seja, um particular estatuto subalterno da mulher na sociedade. Denotam o tratamento desigual das necessidades e aspirações de cada um dos sexos, com desprimor para a mulher, a sua conformação a um papel subsidiário, dependente, sendo o casamento entendido como atributo da sua valorização.

Se remontarmos ao tempo do Estado Novo, a lei indicava com clareza que o marido era o chefe da família, competindo-lhe nessa qualidade representar a mulher e decidir em todos os actos da vida conjugal. O marido detinha o poder marital e paternal. Salvo casos excepcionais, era ele o administrador dos bens comuns do casal, dos bens próprios da mulher e dos filhos menores. Quanto a família, a mulher não tinha os mesmos direitos na educação dos filhos que o homem. Era clara a chefia masculina do agregado doméstico e a mulher dependia do cônjuge para poder ingressar no mundo do trabalho. O papel da mulher era o de cuidadora do marido, dos filhos, de governante do lar, de gestora dos rendimentos do marido.

Provérbios como “A casa é das mulheres, a rua dos homens” ou “À mulher roca, ao marido espada”, traduzem a ideia da não participação equilibrada de homens e mulheres nas esferas da vida económica, social ou política. Ambos os sexos devem ser livres de desenvolver as suas aspirações sem limitações impostas por papéis sociais de género. Além de reduzirem a actuação da mulher ao espaço privado, a casa, o lar; fomentam a estigmatização daqueles homens que defendam um entendimento diverso.

A semelhança estes provérbios, o Código Civil de 1966 determinava que durante a vida em comum, o governo doméstico ficava a cargo da mulher. Ela não podia abandonar de livre vontade a residência conjugal, nem exercer uma profissão independente, nem atravessar as fronteiras, sem autorização masculina. Em 1974, as mulheres eram apenas 25% da população trabalhadora; apenas 19% trabalhavam fora de casa. Os maridos podiam impedir que as esposas trabalhassem e algumas profissões como a magistratura judicial, o ministério público, a diplomacia e as forças de segurança, eram vedadas às mulheres. Apenas as mulheres solteiras é que podiam ser enfermeiras, telefonistas ou hospedeiras da TAP. Se a mulher exercesse actividades lucrativas sem o consentimento do marido, este podia rescindir o contrato. Entendia-se, com toda a naturalidade, que certos lugares eram reservados aos homens. Escreveu Salazar, em 1939, (Discursos e Notas políticas. Vol. I: 1928-1934. Coimbra: Coimbra Editora.) na defesa de que o lugar da mulher e em casa e o seu papel essencialmente familiar, como “mãe, esposa, irmã ou filha de todos os que somos em Portugal” , que ela devia ficar longe do espaço laboral, pois “o trabalho da mulher fora do lar desagrega este, separa os membros da família, torna-os um pouco estranhos uns aos outros”, e porque, “nunca houve nenhuma dona de casa que não tivesse imenso que fazer, devendo pois confinar-se a sua presença e actividade aos espaços considerados “próprios”.

O provérbio “Entre marido e mulher, não metas a colher” demonstra uma clara submissão da mulher ao marido e a desvalorização de um eventual abuso de poder que pudesse verificar-se no seio do casal pela sociedade, instada a não se meter nas “coisas deles.” Se ainda hoje a violência doméstica representa um delicado problema para qualquer mulher, imagine-se o que esta crença generalizada podia significar num tempo em que a maioria das mulheres vivia na dependência económica do seu potencial agressor. A desconsideração da condição e menorização dos direitos da mulher é notória num preceito do Código Penal português que ate 1975 consagrava os crimes de honra, permitindo que um marido ou pai matasse a mulher adúltera, ou as filhas menores de 21, se “corrompidas”, com castigo máximo de seis meses de desterro da comarca. A pena para o marido era ligeira. Também o Código Civil de 1966 estabelecia, por exemplo, que o facto da mulher não ser virgem da mulher ao tempo do casamento podia ser motivo para a sua anulação pelo marido. Os contraceptivos não podiam ser tomados contra a vontade do marido, que podia alegar este facto para pedir o divórcio, e o aborto era punido com prisão.

Em provérbios como “ Homem com fala de mulher, nem o diabo o quer” ou “ Nem a homem calado, nem a mulher barbada dês pousada”, nota-se a presença de estereótipos ligados as características físicas e traços de personalidade que supostamente devem nortear a masculinidade e a feminilidade, sendo que a presença de traços femininos no homem, assim tornado efeminado, o fazem indesejável. A cultura popular centrou-se mais nos comportamentos femininos mas o segundo provérbio demonstra que os estereótipos podem atingir ambos os sexos. Sem traços de masculinidade– ombros largos, corpo musculoso, voz grossa, perfil competitivo, dominador, autónomo - o homem e discriminado; sem traços de feminilidade – formas arredondadas, harmoniosas, voz delicada, com perfil afectuoso, vulnerável, dócil - é a mulher igualmente censurada. Fazendo o paralelo com o Estado Novo, apenas uma breve referencia a Mocidade Portuguesa Feminina, a organização juvenil do Estado Novo, que surgiu em 1937, com o objectivo de criar a nova mulher portuguesa: esposa, mãe, doméstica, cristã, uma boa cidadã empenhada no Bem comum; já os ideais que orientavam a secção masculina eram o culto viril da força e do amor pátrio.

Se é o/a leitor/a é jovem e nunca teve acesso  a qualquer informação sobre os anos da ditadura em Portugal, o que escrevi poderá até parecer bizarro. Mas veja este pequeno filme da RTP intitulado  O ideal feminino do Estado Novo,  (print screens abaixo) que faz um sumário crítico da situação. Nele vemos três famosas mulheres que fizeram a denúncia desta opressão ao mundo num livro célebre. São elas: Maria Teresa Horta, Isabel Barreno, Maria Velho da Costa. Escreveram As novas cartas portuguesas, um livro de luta pela libertação da mulher.


"Nesse tempo (ditadura) uma mulher não podia ganhar mais do que um homem. 
O homem não aceitava. Parecia mal."
Antes de 1974 as mulheres ganhavam menos 40% do que os homens.


Novembro de 1974: as mulheres que cosiam as redes na vila piscatória de Peniche 
saiem à rua para reivindicar salários iguais.

Salazar equiparava a governação do país ao governo de uma casa.
O Estado Novo criou uma mulher submissa e subalterna.

Nos regulamentos internos, as empresas estipulavam que a mulher não podia
casar "por razões éticas". Por exemplo, uma empresa de telefonistas, até 1940.


Pavilhão dos Desportos, Lisboa.
Homens e mulheres em luta pelo direito ao divórcio.
Junho de 1975


Azulejos "Lá em casa manda ela. Mas nela mando eu."
Nelas, mandavam eles.

Outros provérbios similares:

- Cresce o ovo bem batido, como mulher com bom marido

- Conselho de mulher vale pouco e quem o tomar é louco

- Homem pequenino, ou velhaco ou dançarino

- Quem a mulher ensina a ler, ou e corno ou esta para ser

- Mulher chora sem razão, mija sem por a mão, e acasala sem tesão

Sugestão de leitura

As novas cartas portuguesas : E, em Abril de 1972, o livro seria publicado, com a chancela dos Estúdios Cor, então com direcção literária de Natália Correia, que, mesmo tendo sido instada a cortar partes da obra, insistiu em a publicar na íntegra. A história que rodeou a publicação e primeira recepção da obra é conhecida por entrevistas dadas aos jornais, sobretudo por uma das suas autoras, Maria Teresa Horta: sabe-se que essa primeira edição foi recolhida e destruída pela censura de Marcelo Caetano, três dias após ter sido lançada no mercado; sabe-se do processo judicial que foi instaurado às três autoras, por terem escrito, em colaboração, mediante prévia combinação, um livro ao qual deram o nome de Novas Cartas Portuguesas, posteriormente considerado de ‘conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública’; sabe-se dos interrogatórios da PIDE/DGS, a que as três autoras foram sujeitas, separadamente, na tentativa de se descobrir qual delas havia escrito as partes consideradas de maior atentado à moral, e também da recusa das três (que até hoje se mantém) em o revelar; sabe-se do julgamento, que se iniciou a 25 de Outubro de 1973, e que, após sucessivos incidentes e adiamentos, só não teria lugar devido à Revolução de Abril (cf. Vidal 1974).

18/01/19

"Já é hora das mulheres pararem de se fazer de vítimas"



Inscrevi-me num workshop sobre Igualdade de Género, uma área onde em tempos desenvolvi actividade, e tinha acabado de ver um vídeo (de 2017) que denunciava, ilustrava, mediante testemunhos, a persistência de desigualdades de género a nível salarial, no acesso ao trabalho, melhor dizendo, a pouca expressividade feminina em posições de gestão, na forma como se entendem os papéis de homens e mulheres no cuidado de crianças e tarefas domésticas, e ainda a predominância de vítimas do sexo feminino em termos de violência doméstica, quando topei com um comentário no Facebook, no meio de muitos, que me chamou a atenção. Era uma opinião a propósito da notícia:” O Conselho de Ministros aprovou nesta quinta-feira uma proposta de lei que determina o uso da expressão “direitos humanos” em detrimento de “direitos do Homem”, argumentando que a decisão é "um passo no combate à desigualdade entre homens e mulheres, reconhecendo o progresso dos direitos fundamentais nos últimos 70 anos”. A proposta será agora apresentada à Assembleia da República.” Segundo o seu autor, discutir igualdade de sexos nesta sociedade é uma anedota, devíamos lutar por essa igualdade onde ela realmente faz falta, em vez de o fazer numa sociedade já equilibrada e equalitária.”

“Sónia, os salários são iguais, os contratos são iguais, os beneficios são iguais, o que difere é a disponibilidade. Enquanto grande parte das mulheres evita fins de semana por causa da família, grande parte dos homens prefere fazer os fins de semana para ganhar mais e assim sustentar a familia.
Não será hora de pararem de se fazer de vitimas e começarem a ver que em qualquer empresa, nunca será feita a distribuição de 40 vagas por 20 homens e 20 mulheres, as pessoas são escolhidas por mérito e disponibilidade.
Agora pense como o "patrão/patroa", prefere um funcionário que impõe N limites à sua disponibilidade enquanto profissional, ou um funcionário que está lá sempre que necessário? Isto falando de escritório.
Agora em fábricas.. Preferia um operário que só pode/quer fazer manhãs, ou um que está disposto a qualquer horário?
Para finalizar, porque será que há mais secretárias que secretários?
Aí a igualdade não interessa.
Tal como não interessa igualdade na construção civil, onde as mulheres normalmente são técnicas ou engenheiras de segurança no local de trabalho, ao invés de fazerem trabalho pesado.
Discutir igualdade de sexos nesta sociedade é uma anedota. Experimente lutar por essa igualdade onde ela realmente faz falta, em vez de o fazer numa sociedade já equilibrada e equalitária.”
Era longa a lista de reacções negativas à notícia. A ideia de que devemos mudar a linguagem que usamos para ajudar a esbater o modelo patriarcal que fez do homem a medida do ser humano, a norma ou o ponto de referencia, excluindo, reforçando estereótipos e preconceitos de género, tornando "invisíveis" as mulheres, e ainda indivíduos de género não-binário, que não se identificam nem como homens nem como mulheres, incomoda muita gente. A mim incomoda alguma coisa, não nego. Em 2017, recordo o escândalo provocado por um manual escolar escrito em linguagem inclusiva, em França. A Academia da Língua Francesa reagiu com um comunicado: “Diante desta aberração inclusiva, a língua francesa  encontra-se, a partir de agora, em perigo mortal. A nossa nação é responsável perante as gerações futuras”.

O propósito da utilização de linguagem inclusiva desencadeia respostas sempre alarmistas. Ideia simples em teoria, na prática causa-me alguma perplexidade em alguns contextos embora, por exemplo, me pareça correcto que num formulário se utilize uma barra em O/A cliente. Noutros casos a preocupação parece-me algo caricata, em especial porque exagerada. Por exemplo, leio que é de evitar o emprego de parênteses - ex. "o(a) candidato(a)",- pois estes indicam a introdução no texto de um elemento secundário, o que, neste caso, seria contrário ao objectivo de respeitar a igualdade de género. E existem outras fórmulas, quase próximas de linguagem de telemóvel, por exemplo, em vez de "amigos”" ou "amigas", deveríamos usar as formas "amigxs", "amig@s" ou "amigues", que não consigo aceitar. Meus amigxs, podem até chamar-me machista! mas eu não vou usar isso. "Amigues"?! Amigues, amigues, feminismos à parte. A língua não é estática mas também não é sopinha de letras instantânea. Eis mais confusão a somar a já existentes interpretações da língua, por exemplo, a daqueles que não usam "hás-de", antes "Hades", o deus dos mortos, que preferem "derivado a" em vez de "devido", que confundem o adjectivo "bom" com o advérbio "bem" quando me perguntam se estou bem. Ou, a daqueles que, como eu, não querem saber do Novo Acordo Ortográfico e persistem na velha grafia. Não, a língua não vai morrer, a gente é que, certamente, irá morrer de riso a ler esses text@s.

Usar uma linguagem sensível à questão do género poderá ser uma forma de rejeitar percepções antiquadas sobre homens, mulheres, pessoas com deficiência e outros grupos de pessoas na sociedade que se sentem desconsiderados pelo uso de uma linguagem discriminatória. Terá mais relevância numas áreas do que outras: por exemplo, se estou aqui a escrever sobre igualdade de género  ou não discriminação, haverá um contra-senso entre o que estou a dizer e o que estou a fazer, se não adoptar a prática. Se estiver a fazer uma análise de um filme de aventuras, poderá não ser relevante.

Não concordo com tudo e com todos/as sobre estas matérias do Género de forma automática. Mas não estarei nunca nem com quem ridiculariza o assunto, nem com quem defende pontos extremos cegamente. A troca de ideias a respeito é importante e não se compadece nem com fantochadas nem com histerias. Retomando o comentário, existem dados que não deverão ser novidade para quem preste alguma atenção às notícias, e em especial, nos dia 8 de cada mês de Março, Dia da Mulher, data em que somos, não raramente, confrontadas/os com a realidade dos números e forçadas/os a desfazer o equívoco em que vivíamos, quem sabe porque observando o nosso apertado círculo de conhecidos/as e amigos/as onde nos parecia que tudo ia bem. É claro que o comentador não está a considerar a hipótese de haver homens que até talvez pudessem ficar em casa a tomar conta da família, como fazem as mulheres, se essa alternativa fosse possível, ou encarada como coisa natural e não como uma excepção futurística. De facto, as mulheres não têm disponibilidade porque não há homens que façam o que elas asseguram em casa: seriam mal vistos. Numa sociedade paritária, qualquer dos sexos poderia escolher trabalhar ou ficar em casa a cuidar da família. Ou fazer meio-tempo. Não digo que não existam mulheres que não prefiram o trabalho em casa, e estará certo, o que digo é que  homens há que também podiam ter essa vontade mas nem o patrão nem a lei nem a sociedade ainda tem elasticidade que o permita. Por outro lado, o patrão que quer uma mulher ou um homem sempre disponível devia era meter robots a fazer o trabalho. O patrão quer lucro a todo o custo, os observadores destacam a baixa natalidade. Em que ficamos?

O ano passado, um dos títulos que recordo, por achá-lo quase inacreditável, foi que dados do Eurostat revelaram que Portugal foi o país da União Europeia em que o fosso salarial entre homens e mulheres mais cresceu entre 2011 e 2016 (4,6%). (Ora, como é que isto é possível? Quem paga menos às mulheres do que aos homens para trabalho igual? Não entendo como é que isto possa suceder.) Também a convocação da Greve Internacional de Mulheres, convocada para este dia, me ficou na memória, em virtude da baixa expressividade alcançada em Portugal, se comparada com a vizinha Espanha: muitas mulheres espanholas fizeram greve ao trabalho no escritório ou fábrica, mas também em casa onde, tal como por cá, são maioritariamente responsáveis por cuidar dos idosos e crianças. Porque não houve mais adesão? Esta greve teve por objectivo demonstrar a importância e impacto no dia-a-dia destas tarefas e responsabilidades a cargo praticamente exclusivo das mulheres. A ela se somaram protestos de exigência do fim da desigualdade salarial, da violência de género e de possibilidade de melhor conciliar o trabalho e a família, que vi reflectidos nos testemunhos do video. Em relação a este último, deixou de ser tão nítida a separação entre quem cuida e quem assegura a subsistência familiar. Mas verifica-se que, a mulher, ao ter conquistado o seu lugar fora de casa, acaba em alguns casos por sair penalizada em termos de ócio, saúde física e psicológica por não se verificar uma equitativa partilha de tarefas no âmbito da rotina familiar.

Vale a pena recordar a greve que aconteceu na Islândia, em 24 de Outubro de 1975, transcrevo: “No dia 24 de Outubro de 1975, 90% das mulheres islandesas recusaram-se a trabalhar e também a cozinhar, limpar, arrumar e cuidar dos filhos para exigir salários iguais aos dos homens. Cinco anos depois, era eleita a primeira mulher presidente de uma país e a primeira a ser eleita democraticamente no mundo. Muitas fábricas, bancos, lojas, escolas e creches fecharam por falta de pessoal e muitos homens viram-se, pela primeira vez, responsáveis pelas necessidades básicas dos filhos. Nesse dia, as salsichas em lata esgotaram dos supermercados e foram o almoço e jantar de muitas crianças. Os pais levaram os filhos para o trabalho. "Ouviamos o barulho de crianças a brincar enquanto os radialistas liam o noticiário na rádio", recorda Vigdis Finnbogadottir, a mulher que foi eleita presidente da Islândia em 1980.” (Fonte)

Foi esta greve que inspirou a de Março passado e a sua data permite tomar consciência de que estas reivindicações vêm de longe – e até de mais longe - e que as mudanças ocorrem de forma muito lenta. Na minha opinião isso também se fica a dever a uma não linearidade do processo, que pode registar avanços e recuos, em virtude de factores diversos, económicos, políticos, etc, ou seja, o valor da igualdade nunca está permanentemente realizado e alcançado, tal como o da liberdade, e é por isso que devemos manter uma postura vigilante, sendo que não basta que o XXI governo constitucional reconheça a igualdade e a não discriminação como condições para realizar a prossecução dos direitos humanos de todos/as, ou que se assinem convenções, compromissos políticos, etc, para que no plano concreto as mudanças se sucedam e consolidem. Em Portugal, por exemplo, a legislação interna ainda não acompanha em pleno o prescrito pela Convenção de Istambul, de 2014.

Por outro lado, o importante acesso à justiça para fazer valer direitos ainda esbarra no facto das pessoas não usufruírem na plenitude as prerrogativas legais que existem ao seu dispor, seja por insuficiência económica, diminuído grau de instrução ou, simplesmente, puro desconhecimento, ou mesmo medo. Ainda anteontem o bastonário dos advogados considerou haver uma justiça para ricos e outra para pobres por falta de custas e taxas judiciais "adequadas ao país real". Esta realidade tem barbas, não no sentido que é machista, mas porque é bem antiga e conhecida. Afecta homens e mulheres, mas afectará quem mais precise, e a verdade é esta em Portugal: as mulheres ganham menos, sofrem maior desemprego, há entre elas maior taxa de pobreza.

Por outro lado, também existem evidências de uma “justiça no masculino” no espaço mediático, que podem ser desincentivo ao recurso a essa via. Fiz uma busca rápida no Google e escolhi esta: em 2017 o Tribunal Europeu veio discordar de uma sentença que reduzia a sexualidade feminina à procriação, ignorando o seu papel na realização pessoal. O Tribunal condenou Portugal, considerando que ainda prevalecem preconceitos ligados ao género no sistema judicial português. É verdade. Argumentos como “não quer cozinhar”, ou “ela sai muito à rua” servem para atenuar a pena a atribuir. E estas situações acontecem mesmo que o colectivo de juízes seja composto por mulheres. (Fonte)

Mais um dado: em 2016, mais de 2 mulheres por dia apresentaram queixa por crime de natureza sexual à polícia. 57% das violações foram perpetradas por homens, familiares ou conhecidos das vítimas. É muito? É pouco? Serão estes os números reais, ou apenas os possíveis, num quadro onde os medos pesam: medo de perder o emprego, medo de ser chamada mentirosa, medo de lhe ser atribuída culpa, medo de reviver a experiência, medo de enfrentar o agressor, os amigos dele, os colegas, os chefes, a polícia, a justiça; medo e vergonha de julgamentos morais e incompreensões, medo, medo. Que medos terão tolhido Ana Zanatti por 10 anos? O último testemunho, de Ana Zanatti, incide sobre o drama da violência doméstica. Aproveito para referir que a violência doméstica não incide apenas sobre mulheres, mas também sobre crianças, idosos, homens e pessoas LGBTI. O caso dos homens é muito desvalorizado, incompreendido e até ridicularizado, e é possível que alguns, exactamente vítimas do preconceito machista, nunca tenham a coragem de denunciar a sua situação. Violência doméstica não é apenas física, ou sexual, muita é emocional. São bastantes as possibilidades de controlar uma pessoa de quem se está tão próximo. No caso específico das mulheres, de qualquer idade, classe social, etnia, etc, é particularmente difícil expor a terceiros o sucedido, muitas tolerando comportamentos por anos – 10 anos, diz a Ana Zanatti, no video - antes de terem a coragem para enfrentar a situação, muitas vezes procurando vias não judiciais, que as poupem à exposição. É uma luta solitária e desgastante. Muitas mulheres não têm sequer consciência de que aquilo que estão a sofrer é crime: podem ser intimidadas, controladas economicamente ou psicologicamente, resignam-se em nome de muitas justificações, até ao limite, e muitas acabam, infelizmente, por ser mortas: 24 condenações de homens por homicídio, é o número referido no video para o período temporal de um ano.

E assim é, que, perante estes dados, que muitos desconhecem e outros devem entender como delírios feministas ou meras fake news, vem o nosso comentador do Facebook entender que já é hora de as mulheres pararem de se fazer de vítimas! OK, chefe.



16/01/19

Ode a um futuro sem putas, nem pândegos, nem pedófilos

Capa do Manual da Porto Editora

A história dos manuais escolares é pródiga em episódios caricatos. Creio que foi em 2017, que pais de estudantes do Liceu Pedro Nunes, frequentadores do 8.º ano, e que andam na faixa dos 13- 14 anos, se queixaram do conteúdo inapropriado de um livro ali adoptado, que os miúdos andaram a ler nas férias do Natal: imagine-se o escândalo no seio familiar, quando entre a encenação do presépio e a decoração da árvore, os miúdos começaram a dizer aos pais que tinham trocado os cânticos de A todos um bom Natal pela leitura destes hinos: “E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu.”- Este livro, recomendado para o terceiro ciclo pelo Ministério da Educação, no âmbito do Plano Nacional de Leitura, por erro, entretanto corrigido, era a obra “O nosso reino” de Valter Hugo Mãe, que a Porto Editora anuncia no seu site como “Delicadíssima história de uma criança em torno da ansiedade por uma resposta de Deus.” O livro mantém-se na lista do Plano Nacional de Leitura mas recomendado para alunos do ensino secundário.

Foi agora a vez da Porto Editora protagonizar mais um episódio desta série. Segundo nota explicativa que li no seu site, não se tratou de um erro, foi em nome de uma qualquer “preocupação didático-pedagógica”, que a Porto Editora abafou os versos da Ode Triunfal dos manuais dos alunos do 12º ano. Quando li a notícia nem pensei em censura. Pensei foi em ignorância. Imaginei que a Porto Editora se tivesse servido da edição da Ática como base para o Manual, censurada pelo Estado Novo, copy-paste, estão a ver, imaginando que talvez os tracinhos ridículos tivessem sido um artifício de poesia concreta, vanguardista. Afinal todos sabemos que Pessoa era um ganda maluco. Pergunto como estarão a dar-se os alunos do 11º ano que têm para ler a história incestuosa dos dois irmãos, Carlos e Eduarda, que se apaixonam e vivem uma intensa relação como amantes, sem a Porto Editora a fazer vezes de pai e mãe, a zelar pela educação, virtudes e moral destas crianças, ou os professores sem opção para escapar à “desestabilização e desvio de atenção” que esta infamante história poderá motivar na sua sala de aula. Quem sabe, todavia, se a Porto Editora não terá também andado a tracejar a prosa de Eça de Queirós.

Tinha eu 13 anos, estava no 8º ano de escolaridade, quando a obra de leitura obrigatória era Novos Contos da Montanha, do grande escritor Miguel Torga. Para quem não sabe, o livro abre com o seu conto “O Alma-Grande”, em que o escritor narra práticas de eutanásia admitidas num Portugal camponês, perdido nos tempos, numa comunidade judaica. O Alma-Grande não abafava versos incómodos, como fez a Porto Editora, antes abafava vidas. As famílias chamavam-no temendo a chegada do padre e assim se libertavam os entes queridos do sofrimento mas sobretudo da submissão a sacramentos indesejados. Nunca mais esqueci essa personagem de mãos fortes e joelho de ferro, nem Isaac e a sua luta para não ser asfixiado pelo Alma-Grande. Ora, a morte não era o que Isaac, muito doente, desejava para si. Mas a família e a comunidade assim entendiam, e pretenderam decidir por ele. Desconheço se este conto sobre a eutanásia, é ainda hoje leitura obrigatória nas escolas, ou se já foi entretanto considerado inapropriado pelo Ministério da Educação para esse efeito, para o PNL, ou pelas editoras ou pelos pais, ou pelo cão da Serra da Estrela: o que não falta no Portugal moderno são abafadores do conhecimento a cada esquina.

E afinal são apenas dois versos num total de 240 que, no contexto de um poema tão exuberante e repleto de excessos quase passariam despercebidos... não fosse a sua omissão! Além de que o poema está cheio de pulsão erótica/sexual, esta energia percorre-o, e o uso desta linguagem obscena, ousada, ou o convocar de certas perversões, são um traço fundamental da Ode Triunfal, não se esgota, portanto nos dois versos omitidos. Mas a Porto Editora quer que a integridade das obras literárias se foda. (Ora censure lá isto.) Os livros são perigosos e os seus criadores uns degenerados. Os livros corrompem a juventude e vulgarizem os males da nossa existência. Os livros são factor de desestabilização e desvio! Que cheiro imundo a obscurantismo e fumaça. Caso para roubar um verso à Ode e exclamar: "Eia todo o passado dentro do presente!"

A poesia é para comer, como Natália escreveu. É para saborear inteira, amarga, doce, picante, salgada. Em liberdade. E na escola é onde é mais fácil interpretá-la, contextualizá-la, usá-la para, justamente, fomentar o espírito crítico, o debate, a imaginação; para rir ou chorar, para “sentir tudo de todas as maneiras”, de modo seguro, orientado. Como se optando por mutilar a experiência desta riqueza se estivesse a contribuir para o esclarecimento e maturidade dos jovens para o futuro, em especial os jovens alunos “difíceis”, futuro que, na ideia da Porto Editora, deverá ser, certamente, um sem putas, nem pândegos nem pedófilos. Limpo, estável. Sem desvios. Inexistente.


Álvaro de Campos
ODE TRIUNFAL


À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!


Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram
Pela minh’alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,


Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!

Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,

Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,

A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,

O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,

Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!

Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!

Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!

Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!


Londres, 1914 — Junho.

Porto Editora trata Pessoa como um pândego, mas diz que não





Autoria da fotografia

Ainda o caso pândego da omissão de um par de versos em Manual do 12º ano, adoptado por cerca de 90 escolas, e agora nas bocas do mundo porque os alunos, que segundo reza a lenda já não lêem livros, apenas memes no telemóvel, deram pela sua falta.

Ora, de acordo com a nota explicativa da editora, o que justifica a limpeza feita ao poema de Álvaro de Campos são versos que contêm linguagem explícita e os que se relacionam com a pedofilia, podendo, por isso, “constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos”. É sabido que o ambiente em sala de aula é hoje, por norma, de uma imperturbabilidade e concentração nunca vistos, os alunos não se distraem por nada deste mundo nem do outro.  Também é sabido que é zero a tolerância para  linguagem obscena e de conotação sexual em casa, na rua, na escola, em todo o lado. Afianço que já não ouço um jovem chamar carinhosamente “minha puta” a outro desde que entrei em casa, há um par de  horas atrás. Os professores devem, portanto, fingir-se  gratos por esta preocupada ingenuidade da Porto Editora. E os pais também.

Afirma também a Porto Editora que ao omiti-los no manual dos alunos mas a mantê-los no do professor está a “garantir o  papel central na preparação e na organização das suas aulas, em função das características específicas de cada turma”.  Como é que um par de versos desvirtua a garantia do papel central do professor na preparação das aulas e a sua ausência não? Não é sempre o professor a ter as rédeas do processo seja numa turma boa ou numa má turma? Naturalmente a exigir uma abordagem à medida? A meu ver, esta táctica, em vez de enaltecer o papel fundamental do professor e a sua capacidade, enfraquece o seu papel. Não vos parece que a Porto Editora  parte do pressuposto da sua inabilidade ou incapacidade de lidar com assuntos sensíveis? E se um aluno questionar os tracejados? Irá o professor dar-lhe a explicação puritana da Porto Editora?

Adianta  ainda a editora que os professores poderão assim ver “se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários”. Que me digam os professores de português acerca da trabalheira que não é explicar um par de versos num poema com 240, onde há tanto para trabalhar com os alunos, quer em termos de conteúdo, quer de forma, quer de tudo. Parece-me que o restante poema exige bem mais tempo e cuidado que estes dois versos que, no contexto de um poema tão exuberante e excessivo quase passariam despercebidos não fosse a sua omissão! Além de que o poema está cheio de pulsão erótica/sexual, esta energia percorre-o, e o uso desta linguagem obscena, ousada, ou o convocar de certas perversões, são um traço fundamental da Ode, aliás, da escrita radical do heterónimo, não se esgota, portanto em dois versos.

Por fim, a Porto Editora informa que esta escolha “ permite aos professores decidirem livremente sobre a abordagem mais adequada junto dos seus alunos.”  Intriga-me que sem esta inovação didáctico-pedagógica do abafa os professores não fossem capazes de decidir livremente.  A Porto Editora sugere, afinal, que o professor possa não promover “um conhecimento e uma fruição plena dos textos literários do património português e de literaturas de língua portuguesa” se, sei lá, estiver perante uma turma de alunos  complicados ou imaturos ou insubordinados, ou ( -----------------------------------) do 12º ano, note-se, do 12º ano. Porque é esse o papel de qualquer professor com brio deseja que lhe seja atribuído pela sociedade, ou pela preocupada Porto Editora: fintar a dificuldade, em especial quando ela está directamente relacionada com o acto de ensinar, de esclarecer, com o seu múnus. Inconcebível quando o professor era, à partida,  livre de escolher este poema ou outro para abordar, podendo evitá-lo. Isso seria legítimo, eliminar versos, não.




Dona Porto Editora: mais naturalidade e menos pudor, mais paixão pela literatura e menos pela  censura. Já se percebeu que não gosta da palavra censura:  existem outras que se podem usar, como limpeza, omissão, eclipse, controlo, apagão, mas a tolice não se tornaria menor por isso. Só que por este andar censura ainda poderá ser a palavra do ano em 2019. Não entendo o que anda a fazer no negócio dos livros. Melhor: entendo. É dinheiro, o que anda a fazer é apenas dinheiro. Porque não é assim que deve tratar a literatura, como se fosse uma fonte de maus costumes e corrupção da juventude. E muito menos a reputação dos nossos escritores consagrados, esses seres degenerados e pervertidos, uns pândegos, afinal, indignos de merecer o trabalho árduo de um professor na sala de aula.

Sugestões de leitura:
Poema de Fernando Pessoa censurado em manual escolar - a notícia
A justificação da Porto Editora



13/01/19

A moda do politicamente correcto


"A semântica pós-moderna politicamente correcta
(ou Como é belo o socialismo em Portugal)

Para uma certa esquerda norte-americana dos anos 60 ficava mal chamar negros aos negros e índios aos índios. Passaram a "afro-americanos" e "nativos americanos". Assim começou a moda do politicamente correcto. Em Portugal a revolução semântica iniciou-se há alguns anos, pela promoção das "criadas de servir" a "empregadas domésticas" (actualmente auxiliares de apoio doméstico) e dos "empregados" (de comércio e serviços) a "colaboradores". Lentamente estabeleceu-se o novo léxico das profissões consideradas menores; os carteiros passaram a técnicos de distribuição postal, os caixeiros viajantes a técnicos de vendas, as meninas dos correios a técnicas de exploração postal, os jardineiros a técnicos de manutenção de espaços verdes, os varredores a técnicos de higienização urbana, os estivadores a técnicos de manipulação e deslocação de cargas e descargas, etc. Aboliram-se os contínuos. Passaram a auxilares administrativos. Que, no caso particular das escolas e hospitais, se chamam auxiliares de acção escolar e de acção médica. Os técnicos de apoio geral (na administração postal). A revolução linguística invadiu o nosso quotidiano. O nível zero corresponde ao rés-do-chão e a cave ao menos um. O ruído chama-se poluição sonora e os lixos, resíduos urbanos. As cabines telefónicas, os bancos de jardim, os marcos do correio e os postes de iluminação, apesar de fixos, são "mobiliário urbano". Nos autocarros deixámos de picar bilhetes. Validamos títulos de transporte, ou seja, obliteramos. Nesta altura a companhia Carris inventou um novo significado para o verbo "obliterar" e o novíssimo substantivo "obliterador", no caso a máquina que pica os bilhetes. Proibido fumar é, na semântica da aviação comercial, "voo azul"... também deixou de haver regiões atrasadas. O Alentejo é uma zona de desenvolvimento sustentado e o Casal Ventoso, uma área urbana sensível aos grupos populacionais vulneráveis a condutas alternativas. Na economia deixou de haver falências. Há empresas com insustentabilidade financeira. Os prejuízos são crescimentos negativos.... Acabaram-se os despedimentos. Há ajustamentos de efectivos com racionalização e optimização de recursos humanos. Obviamente também deixou de haver desempregados. Existem cidadãos à procura de emprego, que a partir da faixa etária dos 45 entram em pré-reforma antecipada. E pobre é um indivíduo de recursos económicos sensíveis... E há que atribuir novos significantes às realidades particularmente desagradáveis. Uma prisão é um centro de detenção (ou de reinserção social, no caso dos jovens). Um asilo de velhinhos é uma unidade geriátrica... estrutura familiar monoparental quer dizer mãe solteira... Há já alguns anos que deixou de haver doentes. Existem utentes... os serviços de urgência passam a chamar-se... "emergências" Ricardo França Jardim. (Publicado no Público, 19.12.99)

08/01/19

O Tesla Model 3 está quase a rodar em Portugal





Na passada semana, em Leiria, vi um carro Tesla a carregar. Como foi o primeiro que vi ao vivo e a cores não me coibi de o fotografar e de espiolhar todinho com o meu olhar curioso. Foi por mero acaso que dei com ele, na realidade o que começou por chamar a minha atenção foi o homem que estava a ligar os cabos, um amigo meu. Fiquei curiosa. Aproximei-me para lhe perguntar se agora ele tinha um carro eléctrico e que tal se estava a dar com isso. Nessa aproximação apercebi-me de que me tinha confundido, afinal não era o meu amigo, e que o carro eléctrico era um modelo X, da marca Tesla. Já não consegui desviar os olhos, mas, estranhamente, eu era a única interessada no veículo, os passantes pareciam não ver ou ignorar a máquina que ali estava e seguiam o seu caminho, como se isso fosse comum.

Não é comum encontrar um Tesla na via pública. É esse o sonho de Elon Musk, um planeta a ser percorrido por carros eléctricos e silenciosos, duplamente não poluentes, em especial, da sua construtora, a Tesla Motors. Infelizmente o sonho ainda está longe de ser alcançado quer para ele, quer para quantos o preço elevado torna os veículos Tesla um sonho inatingível. Notem que nem sequer gosto de conduzir, mas um Tesla não é um carro qualquer e não escondo o meu entusiasmo por ter topado com um.

O Tesla representa pura inovação no sector automóvel. O primeiro, o Tesla Roadster, e já passaram quinze anos,  provou que o sonho era passível de ser tornado realidade e promoveu o interesse pelos carros eléctricos, quer junto dos condutores quer junto das outras marcas, que passaram a apostar mais no desenvolvimento desta tecnologia. A grande luta de Elon Musk tem sido o aumento da produção de veículos por ano, a empresa não é capaz de produzir em larga escala, a um preço acessível. A lista de espera é longa. Agora acaba de ser anunciado que os primeiros clientes portugueses estão prestes a receber o Tesla Model 3 , o que acontecerá em Fevereiro, mas já há notícias de deslumbre por toda a internet desde há meses, a maioria apenas lamenta que o preço não seja assim tão democrático quanto se esperava.


O Tesla apresenta ideias de design, economia, ecologia e tecnologia inteligente de sobra para convencer os mais cépticos. É um carro a energia eléctrica, totalmente silencioso e controlado por software, sempre ligado à Internet (como um smartphone), permitindo actualizações do sistema, ou seja, a manutenção é feita à distância. Agora que não há motor, não é preciso mudar o óleo, filtros,velas, correias de distribuição, embora continue a ser necessária a atenção aos pneus, limpa-vidros, direcção, etc. Não imagino quanto possa durar a bateria de lítio e como se faz para a substituir. Tem uma autonomia de cerca de 500 km. O carro é accionado por um aplicativo de telemóvel ou um cartão/chave; o painel é depojado, não há botões nem confusões, apenas um grande ecrã táctil, uma central que tudo comanda: as luzes, a direcção, o GPS, o aquecimento dos bancos e volante, o a música do Spotify, a condução em modo auto-pilot, etc. O modo de condução automática não significa, todavia, que o condutor não tenha de vigiar a condução uma vez que a condução 100% autónoma ainda não é viável.

O Tesla é um prodígio o que não impede que possamos questionar o que fazer a todas as baterias de lítio, semelhantes às dos nossos computadores, finda a sua vida útil, ou se tudo é verde e limpo no processo de fabrico. Ainda assim, o carro é uma conquista tecnológica e espera-se que continue a evoluir. Os carregamentos eléctricos deste tipo de veículos ainda me deixam de pé atrás: reparem que os disponíveis na imagem não estavam todos a funcionar. Não estão isentos do vandalismo que dantes destruía cabines telefónicas públicas, ou da fraca manutenção,  e fazer quilómetros até um destes postos por necessidade imperiosa e descobrir contratempos deve ser uma enorme decepção e transtorno para qualquer condutor. 

Sempre fui seguindo o que acontecia no universo Tesla/Musk. Recordo ler sobre uma pequena guerra travada por Elon Musk para vender os carros directamente, sem intermediação tradicional de um concessionário. A marca Tesla queria vender em lojas suas e através da internet, fazer um tipo de negócio diferente, que permitiria vender por preço inferior. Só que sem concessionário a venda é ilegal em alguns estados americanos. Em Portugal há lojas em Lisboa e no Porto,  a alternativa é ir à internet, se quiser comprar o seu Tesla. Os compradores encomendam os veículos, após a entrega de um sinal, um depósito. E depois começa a longa espera.

Outro episódio que me ocorre foi um acidente que envolveu um destes modelos Tesla X, igual ao que vi. Gerou alguma polémica pois ditou a morte do condutor quando a viatura seguia em  piloto automático.  A história é, em simultâneo, dramática e irónica, já que o condutor filmara, um mês antes, uma situação em que o carro auto-pilotado o teria poupado de uma colisão. Feitas as devidas averiguações a conclusão foi que teria havido culpa do condutor e não falha do sistema automático, que opera a partir de um conjunto de sensores, câmaras e radares instalados na carroceria.

Há mais curiosidades que fui amealhando na memória, por exemplo, não existem anúncios de televisão ao Tesla, nada, zero publicidade. No site da marca existe um Presskit com toda a informação e há presença da marca em todas as redes sociais relevantes.

Em Dezembro, li duas histórias peculiares. Uma era sobre um Tesla que se tinha incendiado na estrada e que se descobriu que pegara fogo porque um tiro fora disparado sobre a bateria; outra sobre o mau feitio de Elon Musk. Longe de ser um CEO exemplar, Musk seria um patrão abusivo e uma pessoa extremamente rude, que intimida os seus trabalhadores ao ponto deles não quererem falar seja por acordos de silêncio seja por temerem processos, despedimentos, retaliações. A sua Gigafactory, em vez de  modelo de gestão e de aplicação tecnológica aparece descrita como uma encruzilhada de problemas. Fiquei decepcionada porque imaginava um Elon Musk  genial e perfeito, uma espécie de génio tecnológico à maneira do Tony Stark, o playboy, magnata e engenhoso cientista que é ferido no peito e que acaba por se tornar o Homem de Ferro. Diz-se que o actor Robert Downey Jr se inspirou no empresário para interpretar Tony Stark, no filme e, no segundo filme, Elon Musk até aparece numa cena. De igual mode, imaginava a Tesla como uma espécie de Stark Industries.  Elon Musk estava aí para fazer avançar a tecnologia e usá-la para proteger o nosso ameaçado mundo. Ele é também director executivo da SpaceX, uma empresa de transporte espacial, e Fundador da Boring Company, conhecida pela construção de infraestruturas, além de cofundador da Open AI, uma instituição que investiga e desenvolve sistemas baseados em inteligência artificial. Não duvido que Elon Musk queira contribuir para o bem da Humanidade. Mas tal como Tony Stark também não é perfeito no mundo dos quadradinhos, este artigo da Wired (link abaixo) vem revelar Elon Musk como um homem imperfeito, dado a criancices e actos impuslsivos, bizarrices até, a par da imensa capacidade trabalho, criatividade e espírito visionário.

O plano de construir um automóvel eléctrico que liberte a humanidade de uma vez por todas do consumo de derivados do petróleo não é um exclusivo da Tesla. Mas para Elon Musk isso desde cedo se tornou uma obsessão, uma ideia fixa que parece ter nascido com ele. Na Wired li que os contratempos na produção do Modelo S foram mais que muitos, sem dúvida capazes de dar cabo da cabeça ao mais frio e racional homem de todos os tempos. O desnorte foi total: nada corria conforme os planos de Elon Musk. Perante o avolumar das contrariedades Elon Musk não dava grandes hipóteses aos seus trabalhadores: se não o satisfaziam, iam para o olho da rua. Quase 700 trabalhadores foram despedidos por não estarem à altura do desejado, por vezes parecendo que por simples implicação ou impulso do momento.

A Gigafactory era considerada pelo próprio Musk como um inferno, incapaz de produzir o desejado número de baterias. Musk, em vez de procurar razões e motivar para a resolução de problemas, arrasava o pessoal criticando-os sem dó nem piedade: que não eram espertos o suficiente, que iam ser a ruína da empresa. Tão exigente com eles como consigo, exigia que fossem mais espertos e que dessem o máximo possível à empresa. No mesmo discurso era capaz de colocar as pessoas da corôa da Lua ou destruí-las: ia de um extremo ao outro em menos de segundos, ao jeito da espantosa capacidade de aceleração do seu Tesla. Vimos há pouco o êxito da Space X e rejubilamos com a sua conquista, a recuperação de foguetões para reutilização, que parecia impossível. Também essa vitória terá sido, talvez, conseguida mercê de processos semelhantes, de enorme exigência e pouco tacto, alguma injustiça até, não nos iludamos: de génio e de louco, Elon tem bastante mais que pouco!




Não deixa de ser um homem admirável, vale a pena conhecer o seu percurso, - Elon Musk, O Génio Que Está a Inventar o Nosso Futuro (4ª Edição), de Ashlee Vance, pode ser adquirido online, na Wook - sem dúvida baseado no esforço pessoal e na sua entrega a objectivos muitas vezes quase impossíveis.

Não tendo nascido em berço de ouro, aos trinta anos já tinha enriquecido consideravelmente. Chamem-lhe dedicação, talento, intuição, inteligência ou sorte, ou uma soma de tudo isso em proporções diversas: Elon Musk é um caso de sucesso cativante. Estranho seria se em Musk não existisse uma faceta de excentricidade, de hábitos singulares ou comportamentos no mínimo estranhos, já que é assim, que, vulgarmente ocorre em pessoas geniais, por exemplo, Howard Hughes, Tesla, Edison, Benjamin Franklin, todos tinham hábitos incomuns.

Elon Musk é um árduo trabalhador, um CEO daqueles que não fica apenas sentado à secretária ou que se limita a dar ordens aos outros. Em tempo de crise, como aquele por que passou para ser bem sucedido com o seu Model 3, dormia na fábrica todos os dias ou prescindia de fins de semana. É também um visionário, sem medo de pensar absurdos que o têm conduzido à inovação, e quase sempre à custa de conflitos, falhanços retumbantes, perdas de dinheiro colossais e muito esforço de todos os envolvidos a quem não se permite que entreguem menos que o máximo de si. Nele convivem o génio tecnológico e o louco,  o homem comum, que se confessa emocionalmente arrasado e deprimido pelo divórcio com a celebridade com tiques holywoodescos, o adulto racional e a criança irrefletida que fabrica um lança-chamas, perigoso, errado, como ele reconhece, porque o viu num filme de animação. No Twitter, onde ganhou uma multidão de seguidores, é capaz de fazer rir e insultar com a mesma leveza. Lembremos a sua oferta de construção de um submarino para o resgate dos rapazes presos na gruta tailandesa e o tweet a acusar um britânico de ser pedófilo! Depois apagou os tweets...Antes o indivíduo tinha apelidado a proposta de show de relações públicas e dito que ele metesse o submarino onde lhe doesse. Parece que, de facto, Musk não sabia o que implicava o resgate, sendo a sua boa intenção apenas uma ideia pouco prática e ridícula. Nem um génio como Musk pode ter a pretensão de dominar todo o conhecimento. A polémica subsequente poderá, no entanto, não ter sido lição suficiente! No mundo real, ninguém é perfeitamente genial e nenhum carro é perfeito. Mas Elon Musk não vai parar enquanto não produzir um carro bem pertinho da perfeição. Eléctrico, claro.

https://twitter.com/elonmusk


Sugestões de leitura:

A história da Tesla e como esta está revolucionando o planeta

Dr. Elon and Mr. Musk: Life inside Tesla's production hell

TedTalk com Elon Musk

Joe Rogan Experience: Elon Musk