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14/04/19

O casamento por conveniência na Idade Média

Cranach Digital Archive

 Um par mal combinado
, é o nome desta pintura. É uma obra de Lucas Cranach, o Velho, de 1530. Querem ver um exemplo de como o Facebook  só me faz perder tempo? Entro no Facebook para desopilar um pouco e vejo que o Rui B. acaba de publicar uma fórmula onde se explica a diferença entre gostar de alguém, estar apaixonado por alguém e amar alguém. Leio. Gosta-se quando a gente se apega a alguém e se começa a apreciar a pessoa; apaixonamo-nos quando achamos que a pessoa em questão é perfeita, e finalmente amamos essa pessoa quando, concluindo que a pessoa não é perfeita, aprendemos a amar os seus defeitos. Ora, era informação de que não precisava, mas é sempre bonito rever conhecimentos adquiridos.

Continuo a fazer scroll pelo feed e outro Rui (V.) acaba de publicar uma pintura de um cavaleiro. Era esse o título da mesma e foi assim que soube qual o estatuto deste janota, um homem de cabelos ruivos, barba penteada e um acrobático bigode que se abre de par em par sob o aquilino nariz. Gosto do que estou a ver e começo a examinar a obra prima. Na cabeça um chapéu preto marginado a penas que lhe tomba para o lado direito. Tem o pescoço atormentado por um colarinho dourado, mais propriamente uma feminina gargantilha que parece não pertencer à camisa pregueada que salta à vista do amplo decote quadrangular da vestimenta e onde assenta uma corrente dourada com uma pequena medalha. O tronco está bem cingido por essa peça que mais parece um vestido, desta forma o seu peito é quase um coração tal a sufocante cintura de vespa que depois se alarga, mas não muito. Ficamos pelo meio corpo, o pintor não se abalançou a mais, os olhos vão-se-nos nas mangas de verde escaravelho tufadas até ao cotovelo, dali em diante bem justas até culminar nas mãos, uma na anquinha, outra na espada. A expressão do cavaleiro é a que eu devia fazer em miúda quando ia obrigatoriamente fazer as radiografias torácicas no âmbito escolar e o radiologista me dizia: não mexe, não respira. O peito do homem também parece estar repleto de ar e pronto a estoirar.

Cranach Digital Archive

O autor deste retrato é Lukas Cranach, o Novo. Era filho do Lukas, o Velho. Assim que vi o nome lembrei logo que um deles, o novo ou o velho, pintou o retrato de Lutero. Mas qual? À semelhança da fórmula romântica, também não precisava de ter visto esta pintura hoje. Mas já que vi uma, porque não ver mais algumas? É coisa para que estou sempre pronta. A memória já não me assiste como dantes pelo que no Google comprovei que, o Velho, era, de facto, o pintor amigo do Lutero. Fiquei depois a deleitar-me com mais algumas obras do artista germânico - visitem o link que vos deixo abaixo, do arquivo digital - que ficou conhecido por muitas razões, uma delas porque foi um dos melhores do seu tempo, grande retratista, autor de pintura religiosa e secular, etc,etc. Além do retrato do Lutero eu sempre o associei às divertidas pinturas dos homens velhos que se perdem de amores, ou luxúria, pelas mulheres mais jovens. Era um tema recorrente na pintura da época. Nas paredes dos lares da Renascença penduravam-se estas lições de moralidade, a da jovem mulher que seduz um homem mais velho e tonto por dinheiro. O pintor retrata por vezes o acto de forma descarada, a jovem com a delicada mão na bolsa das moedas mesmo nas barbas do homem seduzido. Estas mulheres da Renascença eram o demónio de saias. E os homens, coitados, tinham de ter estes lembretes pendurados na parede porque ainda não havia post-it para colar no frigorífico. A "idade das trevas" ficava para trás rapidamente e a Europa abria os afoitos olhos à "idade da luz". Mas, como é sabido, nos assuntos da paixão, a razão nem sempre consegue prevalecer: quantas vezes o coração com as suas razões que a razão desconhece se assemelha a um obscuro território onde a Idade Média parece nunca ter um fim.

No exemplo que escolhi, dos muitos existentes, observem como a jovem da pintura irradia vida e beleza: de carnes roliças, ainda pode dar à luz um filho, mais não, que a esperança média de vida naquela época era cousa pouca. Mas o homem já está mais com os pés para a cova que para durar! No entanto, coberto de peles, é, evidente que se trata de um rico homem. Fiquei entretanto a magicar em que fase da fórmula que descrevi acima se encontraria a mulher, se I, II ou III. Examinemos. Sem dúvida que a mulher gosta dele: vejam como se agarra com firmeza ao seu pescoço e se mostra tão apegada à mão do pobre homem! E como lhe devolve o sorriso desdentado! Aquele casaco de peles é um atributo a considerar: quem é que não se apaixonava por um casaco daqueles. E sem quaisquer remorsos pois no séc. XVI ainda não havia a PETA: Pessoas para o Tratamento Ético dos Animais. E o que dizer da casinha tão romântica com vista para o mar? Que mulher não seria facilmente conquistada com promessas de um magnífico pôr de sol a dois avistado dali? E o pequeno detalhe do homem  já não ter dentes? Um amor assim é como embalar de novo um bebé nos braços. Salta à vista mais desarmada que a senhora gosta, está apaixonada e ama do coração cada fio prateado daquela moribunda barba: só de pensar no que vai herdar!  Cranach era mesmo terrível a engendrar estas narrativas do engodo amoroso! Com uma destas pinturas pendurada em casa, nenhum homem poderia invocar alguma vez não ter sido bem avisado.

Lucas Cranach, o Velho, de acordo com biografia no arquivo digital, "incorpora os ideais do homem da Renascença, activo não só como pintor e gravador, mas também como empresário e político. Pouco se pode afirmar com certeza sobre sua juventude, excepto que ele nasceu na cidade de Kronach, no norte da Francônia, como uma das quatro crianças do pintor Hans Maler e que o nome de solteira de sua mãe era Hübner. Sua data de nascimento exacta é desconhecida, mas foi provavelmente no ano de 1472."

Sugestão de leitura

Cranach Digital Archive : (em Inglês e Alemão)


Cranach Digital Archive

13/04/19

A célebre pesquisa da ONU



( Em circulação desde 2006, pelo menos, e ainda actual!)


A Organização das Nações Unidas (ONU) resolveu fazer uma pesquisa sobre alimentos no mundo inteiro. Então a organização  enviou uma carta para o representante de cada país com a seguinte pergunta: Por favor, diga honestamente qual é a sua opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo. A pesquisa, porém, foi um grande fracasso. Porquê, perguntarão vocês. Porque:

1º - ... nenhum país do continente europeu entendeu o significado de "escassez".

2º - ... os africanos não sabiam o que era "alimento".

3º - ... os cubanos estranharam o uso da palavra "opinião" e pediram explicações.

4º - ... os argentinos mal sabiam o significado de "por favor".

5º - ... os Estados Unidos nem imaginavam o que significava "resto do mundo".

6º - ... e o Congresso brasileiro está até hoje a debater o que significa "honestamente".

Livius Mohr
Jardim Camburi - Vitória

12/04/19

Petição Pública: Salvemos as pegadas de dinossauros de Carenque!



Todos conhecem Sir David Attenborough e todos o adoram! Ninguém como ele soube aproximar-nos tanto do mundo natural que nos rodeia através da televisão. O naturalista foi um verdadeiro pioneiro no uso das tecnologias da comunicação ao serviço da divulgação dos tesouros da vida selvagem. É uma inspiração para muitos e um homem com uma carreira excepcional e fascinante, a merecer, quem sabe uma postagem longa e apaixonada numa próxima oportunidade. Hoje apenas o chamei aqui para estabelecer um paralelo com António Marcos Galopim de Carvalho, o português conhecido como o "avô dos dinossáurios", também ele um homem digno de toda a nossa admiração.

Conhecido por ser um grande defensor do património cultural e científico, tendo-se tornado um símbolo da defesa e valorização de Geologia (incluindo a Paleontologia), do património geológico e da profissão de geólogo, lutou pela defesa das grandes jazidas com pegadas de dinossáurios descobertas em Carenque, Sesimbra – Espichel e Serra D’ Aire, tendo salvo as pegadas da destruição. Apaixonou o público português pelos dinossáurios e ficou, desde então, conhecido como o avô dos dinossáurios. A exposição que organizou, a primeira exposição de dinossáurios em Portugal, teve um enorme impacto no público. Aconteceu em 1992/1993 no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) com esqueletos completos e dinossáurios robotizados.

A exposição intitulava-se-se “Dinossáurios Regressam a Lisboa” com uma afluência recorde de 350 mil visitantes em 11 semanas.  Esta exposição aconteceu ao mesmo tempo, creio eu,  que o filme de Steven Spielberg, Jurassic Park, que veio provocar uma autêntica dinomania!

Deparei-me com um apelo do Prof. Galopim de Carvalho no Facebook. Desconhecia que o projecto de conservação e exploração da jazida de Carenque está parado no tempo e à mercê da degradação. Ora, vivendo eu numa cidade onde também, bem próximo, nas falésias do Cabo Mondego, existem valiosas pegadas de dinossáurio - vejam estas fotografias e explicações,  -  fiquei sensibilizada com o apelo e assinei a petição. Mais uma vez, e como em tantos casos,  um património tão único, devidamente avaliado e valorado por peritos, não é considerado como necessitado de intervenção  prioritária, estando exposto à incúria geral e até ao vandalismo, e, inclusivamente, após investimentos vultuosos já feitos para fins da sua preservação.

É, pois, um pedido de ajuda do avô dos dinossáurios que hoje aqui publico para lerem. Caso assim o entendam, assinem a petição e divulguem junto de mais interessados.

Pixabay

APELO : Salvemos as pegadas de dinossauros de Carenque


"33 ANOS A LUTAR DINOSSÁURIOS E A BATALHA DE CARENQUE, é o título de um livro que dei a público na Editorial Notícias, em 1994, hoje esgotado.

Este é um texto longo e todos sabemos que, via de regra, o número de leitores é inversamente proporcional à extensão das prosas. Mas é um grito de alerta e de revolta por algo de muito importante, em vias de se perder para sempre.

MAS NADA SE FAZ SEM ESFORÇO.

GANHÁMOS UMA LUTA MAS FALTA GANHAR A GUERRA.

E a verdade é que precisamos da todos.

Para VERGONHA do “Instituto de Conservação da Natureza”, a jazida com pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque) que, há 22 anos, por solicitação minha, em nome do Museu Nacional de História Natural, classificou como MONUMENTO NATURAL (Dec. Nº 19/97, de 5 de Maio), encontra-se no mais confrangedor abandono, convertida, de novo, em vazadouro clandestino e densamente invadido pela vegetação autóctone, mais parecendo uma selva conspurcada por lixo.

Diz o citado diploma legal que cabe a este Instituto (agora também, ilogicamente, dito “das Florestas”), zelar pela proteção e conservação dos Monumentos Naturais que oficialmente classifica.

Uma vergonha!

Esquecida também dos poderes local (a autarquia sintrense) e central, esta importante jazida, em fase acelerada de destruição, está bem viva na mente de todos os que, como eu, sabem do que estão a falar, ou seja, os geólogos, docentes e investigadores nacionais nesta área científica e todos os especialistas internacionais que aqui acorreram, das Américas à China e à Mongólia, sem esquecer, claro, os nossos vizinhos da Europa. Está, ainda, no coração de todos os que respeitam os valores da Natureza.

A luta pela defesa desta jazida paleontológica, que ficou conhecida por “Batalha de Carenque”, remonta a 1986, (há 33 anos, portanto) quando dois finalistas da Licenciatura em Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, Carlos Coke e Paulo Branquinho, meus ex-alunos, descobriram um vasto conjunto de pegadas de dinossáurios no fundo de uma pedreira abandonada, na altura a ser usada como vazadouro de entulhos e lixeira clandestina, em Pego Longo, concelho de Sintra, na vizinhança imediata de Carenque.

Esta importante jazida paleontológica corresponde a uma superfície rochosa com cerca de duas centenas de pegadas, de onde sobressai, pela sua excepcional importância, um trilho com 132 metros de comprimento, no troço visível, formado por marcas subcirculares, com 50 a 60cm de diâmetro, atribuídas a um dinossáurio bípede.

Além deste, considerado na altura o mais longo trilho contínuo da Europa, identificaram-se, na mesma superfície, pegadas tridáctilas atribuíveis a carnívoros (terópodes), parte delas igualmente organizadas em trilhos.

O chão que suporta estas pegadas corresponde ao topo de uma delgada camada de calcário do Cretácico (com cerca de 92 milhões de anos), com 10 a 15cm de espessura, levemente basculada para Sul. Muito fracturada (à escala centimétrica), esta camada assenta sobre uma outra, bem mais espessa, de natureza argilosa, condições que dão grande fragilidade à dita camada de calcário e, portanto, a esta jazida.

Para além das consequências inevitáveis de degradação decorrentes do uso deste enorme buraco como vazadouro, fui alertado, em Maio de 1992, para o facto de o traçado da então projectada Circular Regional Exterior de Lisboa (CREL) vir a destruir a maior parte do trilho principal, precisamente no seu troço mais interessante. Louvavelmente, a Brisa, empresa interessada neste processo, apercebeu-se do valor patrimonial em causa, mantendo-se em consonância com o Museu Nacional de História Natural na procura de soluções que corrigissem uma tal situação, não desejável.

Após uma longa batalha, de que a comunicação social de então deu ampla divulgação, a abertura dos túneis de Carenque foi, finalmente, a solução aceite pelo governo, representando para as finanças públicas um esforço acrescido, na ordem de um milhão e seiscentos mil contos (8 milhões de euros), merecedor de aplauso. Dois anos e meio depois, a 9 de Setembro de 1995, o então Primeiro-Ministro Cavaco Silva inaugurava a CREL, tendo tido a atenção de me incluir na comitiva que com ele percorreu os túneis de Carenque sob as pegadas de dinossáurios que tanta tinta têm feito correr. Terminava, assim, uma primeira batalha entre os cifrões e a cultura científica, de que esta, em boa hora, saiu vitoriosa.

Mas a guerra não ficou ganha. Há, ainda, como todos sabemos, uma última batalha que é imperioso e urgente ganhar. Ganhá-la passa pela conveniente musealização do sítio, cujo projecto de arquitectura, “Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo (Carenque)”, da autoria do Arqº. Mário Moutinho, aprovado pela Câmara de Sintra em 2001 (sob a presidência de Edite Estrela), aguarda há 17 (dezassete) anos o necessário cabimento de verba.

Desde então, com a queda da presidência do PS para o PSD, nada mais foi feito. Simpático, acolhedor e, até amistoso no modo como sempre me recebeu, Fernando Seara nada fez pela salvaguarda deste importante geomonumento. Idêntico tratamento recebi, mais recentemente, de Basílio Horta, mas, infelizmente, tudo continua nos esquecimento. O desinteresse destes senhores pela cultura científica é evidente e lamentável.

A concretização deste projecto não necessita ser encarada em bloco. Pode ser faseada no tempo, começando pelas peças mais urgentes e atractivas. Não é compreensível ter-se dispendido tanto dinheiro na abertura dos túneis, para salvaguarda da jazida, e não viabilizar, agora, o financiamento necessário à conclusão da obra prevista e tirar dela os dividendos culturais e pedagógicos que é lícito esperar como potencial pólo de atracção turística.

Passados 33 anos sobre a sua descoberta, o trânsito automóvel flui normalmente sob um raro e valioso património, lamentavelmente deixado ao abandono. Entretanto, a jazida degrada-se sob a vigência de uma administração cega, surda e muda, indiferente aos milhões já ali investidos, não obstante a obra em falta representar muito pouco face à cifra já gasta com a abertura dos túneis.

E quando, em nome dos euros, se argumenta contra este empreendimento, podemos responder com o enorme potencial turístico desta jazida. A topografia do terreno permite uma boa adaptação do local aos fins em vista, dispondo do lado SW de um pequeno relevo (residual da exploração da pedreira) adaptável, por excelência, a miradouro, de onde se pode observar, de um só golpe de vista e no conjunto, toda a camada – uma imensa laje pejada de pegadas – levemente basculada no sentido do local do observador, numa panorâmica de justificada e invulgar grandiosidade.

Em acréscimo deste significativo potencial está o facto de a jazida se situar na vizinhança de uma grande metrópole e numa região de intensa procura turística (Sintra, Queluz, Belas) e, ainda, o de ser servida por duas importantes rodovias, a via rápida Lisboa-Sintra (IC-19), por Queluz, e a Circular Regional Externa de Lisboa (CREL-A9) que a torna acessível pelo nó de Belas e, no futuro, mais comodamente, pelo nó de Colaride.

O reconhecimento desta jazida como valioso e excepcional relíquia geológica e paleontológica, à escala internacional, é hoje um dado adquirido. Assim e tendo em conta a condição privilegiada da região sintrense e a sua classificação, pela UNESCO, como Património Mundial, justifica-se todo o envolvimento que possa surgir, por parte das administrações local e central, nesta realização, que transcende não só as fronteiras da autarquia, como também as do País.

Todos sabemos que os dinossáurios constituem um tema de enorme atracção entre o público e que qualquer iniciativa neste domínio da paleontologia está votada ao sucesso. Nesta realidade, a Jazida de Pego Longo, convenientemente adaptada a uma oferta de turismo da natureza, de grande qualidade e suficientemente bem equipada e promovida, garante total rentabilidade a todo o investimento que ali se queira fazer.

Pela minha parte, continuo a oferecer, graciosamente (como sempre fiz), o meu trabalho na concretização deste projecto.

Como cidadão profundamente envolvido nesta causa, sinto-me no dever e no direito de nela voltar a insistir.

Esquecidas dos poderes local e central, as pegadas de dinossáurios de Carenque estão bem vivas na mente de todos os que, como eu, sabem do que estão a falar, ou seja, os geólogos, docentes e investigadores nacionais nesta área científica e todos os especialistas internacionais que aqui acorreram, das Américas à China e à Mongólia, sem esquecer, claro, os nossos vizinhos da Europa. Estão, ainda, no coração de todos os que respeitam os valores da Natureza.

Lembrando a sessão de dia 11 de Fevereiro de 1993, no Parlamento, sob a presidência do, para mim, saudoso Prof. Barbosa de Melo, na qual foi votada, por unanimidade (coisa rara), a recomendação ao executivo, no sentido da salvaguarda desta jazida paleontológica, apelo, uma vez mais, ao governo e à autarquia sintrense que reúnam vontades e interesses a fim de que se não perca este valioso património tão antigo quanto cento e doze mil vezes a História de Portugal.

A. M. Galopim de Carvalho"



Galopim de Carvalho, nascido em Évora, em 1931, é licenciado em ciências Geológicas pela Universidade de Lisboa (1959) e doutorado em Geologia pela mesma Universidade (1969). Jubilou-se em 2001 como professor catedrático do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Em 1992 foi nomeado Director do Museu Nacional de História Natural e esteve à frente do seu destino entre 1993 e 2003. É responsável por inúmeros projectos de investigação. Dirigiu e integrou diversos organismos nacionais e internacionais, nomeadamente a comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO. Foi consultor científico na revisão de textos no âmbito das Ciências da Terra e consultor científico da RTP para as séries televisivas de divulgação científica na mesma área. É autor de vasta bibliografia científica e pedagógica na área das Ciências da Terra. Escreveu diversos livros e na área da literatura de ficção obteve assinalável êxito com: “O Cheiro da Madeira” (1994) e “o Preço da Borrega” (1995). Publicou em 1997 “Os Homens não tapam as orelhas” e em 2001,"Com poejos e outras ervas”. 

É, pois, um homem que também todos devíamos admirar, não vos parece?

Antes de fechar a publicação, uma questão.  Porque existem duas palavras - dinossáurio ou dinossauro - para denominar estes animais que povoaram o nosso planeta há 200 milhões de anos?
Encontrei uma opinião bem fundamentada sobre a origem dos dois termos. Afinal ambas as grafias são lícitas, encontrando-se consagradas e consolidadas na literatura científica portuguesa. 
O termo Dinosauria foi cunhado por Sir Richard Owen (n.1804 - f.1892), médico e paleontólogo britânico, quando Owen apresentou na “British Association for the Advancement of Science”, em 1841, uma comunicação sobre répteis fósseis da Grã-Bretanha. O termo é, portanto, um neologismo formalizado por Owen em meados do séc. XIX. Daqui deriva o vocábulo português dinossáurio. 
Mas, quando surge o termo em português? E por que razão existem duas grafias distintas? O termo “dinossauro” chegou ao português do mesmo modo que dinosaur (ou deinosaur) ao inglês e dinosaure ao francês, i.e., como modificação do vocábulo latinizado Dinosaurus (como no nome genérico Tyrannosaurus), ou então como simples importação e adaptação do termo inglês ou do francês. 
Por seu turno o vocábulo “dinossáurio” resulta da modificação de Dinosauria (nome igualmente latinizado de ordem de répteis), tal como no inglês a palavra saurian (adj. e sub.) resulta da modificação de Sauria (outra ordem de répteis).

(Adaptado de: SILVA, C.M. DA (2001) - Dinossáurio ou dinossauro, eis a questão! Al-Madan, Almada, II sér., 10 (Secção - Crónica de Paleontologia): 14-16.)
Sugestão de leitura:

Facebook do Prof. Galopim , de onde extraí o texto supra

Alunos de Sintra formam cordão humano em defesa das pegadas de dinossáurios de Carenque

Entrevista com o prof. Galopim de Carvalho

Monumento Natural de Carenque




10/04/19

A fotografia do buraco negro e os memes


https://twitter.com/ehtelescope
A reacção de Katie Bouman

"Observando, incrédula, enquanto a primeira imagem que jamais fiz de um buraco negro estava em processamento.", escreveu Katie Bouman, no Facebook.

!Hoje não foi um dia negro para a ciência. Katie Bouman, é formada em engenharia eléctrica e ciência da computação pelo Massachussets Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Esta  jovem pesquisadora de 29 anos iniciou em 2016 o processo de programação dos algoritmos que tornaram possível obter a primeira imagem de um buraco negro. Do esforço colectivo de três dezenas de pessoas, outros cientistas de computação, astrónomos, engenheiros e matemáticos, resultou a imagem histórica que foi captada pelo projeto Event Horizon Telescope (EHT), uma rede de radiotelescópios espalhados pelo planeta. De acordo com o jornal Washington Post, Katie guardou bem o segredo hoje revelado ao mundo, apenas partilhado a informação com os colegas.

Os buracos negros não são vazios e antes aglomerados com grande força gravitacional e com uma enorme massa de matéria concentrada num volume reduzido. Existe até uma zona chamada de "não retorno". A teoria geral da relatividade de Albert Einstein previa que qualquer estrela ou fotão que passasse perto do buraco negro seria capturado pela gravidade. Daí veio o nome: um local no espaço que engole tudo que passa, até a luz. Uma pena que Stephen Hawkings não tivesse vivido para ver esta fotografia.


“A black hole is very, very far away and very compact,” Bouman says. “[Taking a picture of the black hole in the center of the Milky Way galaxy is] equivalent to taking an image of a grapefruit on the moon, but with a radio telescope. To image something this small means that we would need a telescope with a 10,000-kilometer diameter, which is not practical because the diameter of the Earth is not even 13,000 kilometers.” Continue a ler aqui.

"Localizado em uma galáxia distante da Terra, o buraco negro tem 40 bilhões de quilómetros de diâmetro - cerca de 3 milhões de vezes o tamanho de nosso planeta - e é descrito pelos cientistas como um "monstro"." Continue a ler, aqui.

Enquanto isso, no espaço internetário...















Conan Capa Osiris Revista Abril Cristina Liberdade


"Às vezes penso quem sou eu, uma pessoa singular, 
com a minha história, para representar o país?"

Conan Osiris

"CONAN, o artista com o coração que ri! 

Conan Osíris, como Salvador Sobral, não é um rapaz apenas com futuro, mais que isso, é um rapaz que já tinha um passado antes de aparecer para a opinião pública. E desta vez, ao contrário daquilo que se passou com Salvador - que NUNCA ganhou o 1o prémio do público no Festival da Canção, não nos esqueçamos -, este mesmo público parece ter aprendido com os seus erros e, desta vez, não está a julgar Osíris pelas suas roupas e atitudes. Parabéns público! Aprender é uma arte também. O público desta vez está a julgá-lo pelo que sente, pelo que Osíris faz sentir: seja um incómodo grande no cérebro, como um nó de marinheiro que queremos aprender a desatar para sair do porto de abrigo à descoberta, seja uma aflição grande nos pés, como uma vontade de dançar como o incrível e excepcional bailarino (João Moreira) que faz parte da banda do artista, e que o acompanha desde sempre, e que Osíris chamou de propósito para a sua “banda.”

Osíris é um cantor frágil, mas um artista forte! A sua fragilidade fê-lo construir um estilo muito singular, que mistura o fado, o cigano, o arabesco. Porque cantar é uma pequenina parte de se ser intérprete. Mas se há uma canção que todos os artistas conhecem é a canção de que no peito de um desafinado também bate um coração, e esse é o mais importante em cada artista. O coração de Osíris é original, bondoso, popular, despreconceituoso, acutilante, humilde. O coração de Osíris dança. Fantasia. Critica. Ri! Ter um artista com um coração que ri não é fácil. É até uma benção de vez em quando. 

Um antigo filósofo grego afirmava que é possível fazer arte com a brincadeira e arte com a seriedade, mas que a última estava já muito gasta. E este era um assunto sério para o filósofo. 

O grande desafio de Conan não passa pelo consenso público ou pela Eurovisão. Mais tarde, quando tudo isso ficar para trás, o grande desafio de Conan será o mesmo de todos os artistas, a dificuldade de fazer sempre algo original e diferente a cada gesto. E para ele ainda será mais difícil, porque o que ele faz agora é já muito vincado, fechado, e não sei até que ponto ele conseguirá se ultrapassar ainda mais. Mas tenta Osíris, tenta!!"

https://www.instagram.com/julioresende.piano/

09/04/19

Prémios Play da Música Portuguesa: quem canta o quê?


É a primeira edição dos Prémios PLAY-Prémios da Música Portuguesa, uma iniciativa da associação PassMúsica, entidade constituída pela AUDIOGEST e pela GDA, estando assim representadas todas as editoras discográficas multinacionais, nacionais e independentes (AUDIOGEST), bem como os artistas, executantes e intérpretes da música portuguesa (GDA). Em parceria com a RTP e a Vodafone, foram criados para distinguir a melhor música consumida em Portugal.

O júri é composto por cerca de 100 pessoas do meio da música portuguesa:responsáveis de playlists de rádio; jornalistas da área musical (Televisão, Rádio, Imprensa, Digital), Programadores musicais; Programadores de festivais; Parceiros dos PLAY (Vodafone, RTP e Sagres). Já o Play de melhor canção será atribuído pelo público.

Os prémios, atribuidos a 9 de Abril,  em cerimónia no palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, são repartidos por 12 categorias. Nesta lista pode facilmente ficar a conhecer os temas e os artistas nomeados e quem venceu. Basta clicar nos links.

Melhor Grupo
Dead Combo Vencedor
Diabo na Cruz
Linda Martini
Wet Bed Gang

Melhor Álbum Fado

Maria” de Carminho Vencedor
“Branco” de Cristina Branco
“Sempre” de Katia Guerreiro
“Sara Correia” de Sara Correia

Vodafone Melhor Canção
Faz Gostoso’ de Blaya
Água de Côco’ de ProfJam
‘Estradas no Céu’ feat. Raquel Tavares de Valas - Vencedora
‘Devia Ir’ de Wet Bed Gang

Melhor Álbum
Mariza” de Mariza
Do Avesso” de António Zambujo
Odeon Hotel” de Dead Combo
Mundo Nôbu” de Dino D’Santiago Vencedor

Artista Revelação
Conan Osiris Vencedor
Papillon
Sara Correia
Selma Uamusse

Melhor Videoclipe
Eu Avisei’ de Blaya
Queque Foi’ de Boss AC
Amor em Tempo de Muros’ de Pedro Abrunhosa Vencedor
Água de Côco’ de ProfJam

Prémio Lusofonia
C4Pedro (“Se eu soubesse”),
A brasileira Ludmilla (“Din din din”),
O angolano Matias Damásio (“Nada mudou”) Vencedor
O holandês, de origem cabo-verdiana, Nelson Freitas (“Nubian Queen”).

Canção Internacional
Ariana Grande – ‘No Tears Left To Cry’
Drake – ‘God’s Plan’
Kendrick Lamar– ‘All The Stars’ (com SZA) Vencedor
Shawn Mendes – ‘In My Blood’

Melhor Artista Internacional
Ariana Grande
Cardi B
Drake
Kendrick Lamar Vencedor

Prémio da Crítica
Votado por um painel de 10 críticos de música, foi entregue a Dino D'Santiago

Prémio Carreira
Decidido colegialmente por membros das direções da Audiogest, GDA e Associação PassMúsica, foi entregue a Carlos do Carmo.

07/04/19

Vidro antigo com urânio que brilha no escuro


Candeeiro a petróleo em vidro de urânio

Qual é o vosso interesse por antiguidades e velharias? Sou viciada nisso! Visito lojas e feiras e até tempo perco em leilões online, a maioria das vezes apenas para ver peças bem antigas e invulgares. Não são apenas objectos especiais porque já não se fabricam, são-no, também, porque têm uma história em si mesmos, a que, com alguma sorte, podemos somar a história dos anteriores proprietários, das razões que os levaram a separar-se de um tal objecto, atribulações diversas, e, por vezes, não apenas a morte a separá-los ou uma doença, um estado de necessidade, que os vendedores até nos contam, se tiverem conhecimento, com imenso prazer. Foi assim que descobri num loja de colecionismo e antiguidades, um candeeiro a petróleo com a particularidade de ter um depósito e pé em vidro que brilha no escuro se for iluminado por luz negra. A razão disso é o facto de o vidro conter urânio. A substância radioactiva foi usada no fabrico de muitos objectos: que tal usar um colar radioactivo ou comer um bife num prato radioactivo? Agrada-lhe esta ideia? Já foram objectos populares. Hoje vou desvendar a sua história aqui no Palavras Cruzadas.

O urânio foi descoberto por Martimn Klaproth, químico alemão, na Alemanha, em 1789, no mineral uranilita ou pecheblenda. Mas na forma de óxido ele já era usado há muito tempo. O elemento foi isolado do mineral, como metal, pelo francês Eugene-Melchior Peligot, apenas em 1841, através da redução do cloreto anidro com potássio.

Em 1896, o francês A. Henri Becquerel, dando seguimento a estudos anteriores feitos por Rontgan sobre o raio que permitia ver para dentro do corpo humano, o raio X, que lhe deu o Prémio Nobel, descobriu que o urânio possuía propriedades radioactivas, ao tentar mostrar a relação entre os raios X e a luminescência dos sais de urânio. Ele colocou uma quantidade de sal de urânio em cima de uma chapa fotográfica envolvida em papel preto, exposta à luz solar. Após a revelação da chapa, constatou que os raios emitidos pelo sal de urânio atravessavam o papel preto. Ao tentar repetir a experiência, mais tarde, Becquerel notou que o tempo estava de chuva e guardou o material numa gaveta. Teve de esperar quase uma semana pois o sol não queria aparecer nos céus de Paris! Quando Becquerel retornou as pesquisas observou uma imagem "impressa" na placa. Repetiu a experiência no escuro total e obteve o mesmo resultado, assim provando que os sais de urânio emitiam raios que imprimiram a placa fotográfica sem que ela fosse exposta a luz solar. Faltava saber se outros sais também manchavam as chapas fotográficas e, para isso, Becquerel realizou mais testes envolvendo outros tipos de sais.

Bequeral descobriu a radioatividade do urânio, sim, mas interpretou o fenómeno como um tipo de fosforescência invisível e não ainda como radioactividade, um fenómeno que só mais tarde seria completamente esclarecido, em especial pela formulação de Marie Curie. Bequerel partilhou o Prémio Nobel com Pierre e Marie Curie pela descoberta da radioactividade e o Becquerel (símbolo Bq) é a unidade de medida no Sistema Internacional (SI) equivale à actividade resultante da desintegração de um nuclídeo radioactivo por segundo para actividade de um radionuclídeo. A descoberta da fissão nuclear pelos alemães Otto Hahn e Fritz Strassman, fez do urânio um elemento importante. Em 22 de Dezembro de 1938, os dois físicos alemães conseguiram cindir um núcleo de urânio. Após o lançamento das bombas de Hiroshima e Nagasaki, Hahn (outro Prémio Nobel) passou a lutar contra a corrida nuclear, tendo sido um dos subscritores da Declaração de Göttingen, um dos primeiros manifestos anti-nuclear.

O urânio é um elemento químico radioactivo e pertence ao grupo dos actinídeos. É o elemento natural de maior número atómico. Trata-se de um metal prateado, maleável, que, quando exposto ao ar, forma à superfície uma camada de óxido. Ocorre em rochas e areais com monazita e diversos minerais como a uraninita ou na pechblenda, que é uma variedade, provavelmente impura, de uraninita. O urânio, que é constituinte de muitas rochas, é extraído do minério, purificado e concentrado sob a forma de um sal de cor amarela, conhecido como "yellowcake", - "bolo amarelo" - que, já livre de impurezas, é o que serve para fins de produção de energia nuclear.

O minério de urânio é hoje utilizado em sectores industriais através do fornecimento de matéria-prima (ilmenita, zirconita e rutilo) para a indústria siderúrgica, automobilística, a de fibras ópticas e de cerâmicas especiais. Até à II Guerra Mundial era apenas uma fonte de rádio, popular em tratamentos médicos, já que os sais de urânio tinham aplicações limitadas na fotografia e cerâmica. Uma equipa liderada por Enrico Fermi construiu o primeiro reator nuclear (conhecido como "pilha atómica") em grande segredo na Universidade de Chicago. Em 1942 conseguiram a primeira reacção controlada de urânio. Do esforço de cientistas de diversos países - Projecto Manhattan, - resultou a primeira explosão nuclear no local de testes Trinity, no Novo México, em Julho de 1945. Em 1954, o primeiro reactor comercial do mundo produziu energia em Obninsk, na Rússia. Na Grã-Bretanha, conhecida como Calder Hall, data de 1956 a primeira central nuclear a operar em escala industrial. O urânio tornou-se essencial para utilização em reactores nucleares, como combustível para gerar energia eléctrica, quando a indústria nuclear se desenvolveu nos anos 60 e 70 do séc. XX para fazer face à subida e flutuações dos preços de petróleo e gás, sendo que a maioria das jazidas e empresas de extração de petróleo se encontram em zonas politicamente instáveis. Mas a protecção do ambiente também foi invocada na defesa do nuclear: as emissões de dióxido de carbono e aquecimento global, efeitos agravados pela utilização de petróleo e carvão, não se colocavam no caso do urânio. Muitos desconhecem que a exploração de uma central nuclear pode ser mais limpa do que uma termo-eléctrica: não há produção de gases de estufa (dióxido de carbono, metano, etc), nem causadores de chuva ácida (dióxido de enxofre,etc). Mas, por outro lado, coloca-se a séria questão do tratamento e armazenamento dos resíduos: veja-se esta recente polémica sobre armazenamento de resíduos de urânio no Grand Canyon, EUA, a que turistas poderiam ter estado estado expostos.


O livro Vaseline Glass está à venda online na WOOK

O vidro de urânio contém urânio adicionado à mistura durante o período de fusão quando a cor é adicionada. Em alguns artigos online também vi chamarem-lhe "uralina". A quantidade de urânio pode variar de 2 a 20%, e as cores, do amarelo ao verde amarelo ou mesmo da coloração do abacate. Especula-se que o seu primeiro uso foi em 79 dC em virtude da descoberta, em 1912, de um mosaico de vidro numa escavação de uma vila romana perto de Nápoles, na Itália, mas isso nunca foi provado. A referência mais antiga que existe sobre o urânio em vidro aparece num livro de 1817 da autoria de C. S. Gilbert "An Historical Survey of The Country of Cornwall". Aí se lê que os óxidos de urânio proporcionam uma cor brilhante ao vidro. Sais de urânio (dióxido de urânio), no seu estado natural, possuem uma cor amarela viva e por isso escolhidos para adicionar ao vidro como um corante.

Franz Anton Riedel (1786-1844) começou a produção de vidro de urânio na década de 1830 e Josef Riedel (1816-1894) desenvolveu dois tipos de vidro colorido de urânio a que deu os nomes de Annagelb (amarelo) e Annagrün (verde), em homenagem a sua esposa Anna nas suas fábricas na Boémia. Pela mesma altura, vidros semelhantes foram produzidos na Inglaterra e na França sob o nome de "vidro canário" e "verre canari". Em 1835 as experiências com o urânio como um corante de vidro foram realizadas pela Whitefriars Glass Works em Londres e que em 1836, e um par de castiçais de vidro de urânio foram apresentados à rainha. Devido à sua aparência translúcida semelhante a vaselina, alguns objectos de vidro de urânio amarelo-esverdeado receberam o nome de "vidro vaselina".  (Em 1859, Robert Chesebrough , um químico, foi aos campos petrolíferos em Titusville, na  Pensilvânia, e aí soube que um resíduo chamado "rod wax" era usado pelos trabalhadores para curar cortes, feridas e queimaduras. Então levou amostras do "rod wax" para Brooklyn, extraiu a geleia de petróleo (petroleum jelly), e começou a fabricar o produto medicinal a que chamou "vaselina".) A qualidade transparente do vidro pode, todavia, ser obscurecida por tratamentos opalinos, iridizantes,  satinizantes, de areia ou ácidos, e cortes. Os primeiros objectos de vidro de urânio eram um cristal pesado e esculpido ou facetado para um melhor efeito, mas depois diversificaram-se e as peças adquiriram maior requinte. O vidro de urânio também pode ser opaco.

A partir da década de 1840 até à Primeira Guerra Mundial, a produção intensificou-se dando origem a objectos tão variados como copos, garrafas, tigelas, pratos, vasos, estatuetas, pisa-papéis, jarros e botões, cuja gama de cores, podiam ir de âmbar até vários tons de amarelo, ou verde, dependendo da mistura no vidro. Eram bastante comuns a partir da década de 1880 e até 1920. Cada empresa tinha nomes exclusivos para sua cor específica: cidra, jasmim, verde-dourado, mostarda, florentino e muito mais. Durante a Depressão, nos Estados Unidos, o óxido de ferro foi adicionado ao vidro para aumentar o seu brilho verde e chama-se a esse vidro "vidro da Depressão".

Em 1943, nos Estados Unidos e no Reino Unido, a legislação introduziu salvaguardas e controlos para substâncias radioactivas. O governo americano proibiu depois o uso comercial dos sais de urânio devido à sua importância estratégica durante a Segunda Guerra Mundial. Desde então, o uso de urânio natural para esmaltes e vidros caiu em todo o mundo e o urânio empobrecido começou a ser usado a partir de 1958 em vez da versão radioactiva natural. As peças produzidas hoje são exclusivamente decorativas e não para levar à mesa.

O vidro de urânio é radioactivo pelo que se aproximarmos um contador geiger ele dará uma leitura positiva. Ao contrário do que à primeira vista se possa pensar a exposição do corpo a raios gama emitidos pelos radiocuclídeos de urânio no vidro, ou das mãos às partículas beta dos mesmos e até a ingestão de urânio que tenha contaminado comida ou bebida em contacto com o vidro, não é perigosa, sendo mais perigoso usar vidro que integra chumbo, arsénio, cobalto ou vários outros corantes e aditivos. Recordo que a exposição à radiação ultravioleta (luz negra) pode provocar irritação dos olhos ou da pele, devendo ser usada protecção.

Peças de vidro com urânio iluminadas por luz negra
Além disso, o vidro com urânio brilha num tom verde brilhante sob luz ultravioleta (luz negra). A luz excita os electrões externos dos átomos de urânio que, como resultado, libertam energia que é vista pelos nossos olhos como um brilho verde luminoso ou fluorescência. Quanto mais intensa a luz ultravioleta, mais luminoso será o brilho verde e menor será a coloração do vidro. À luz do dia, o vidro ostenta um leve brilho verde porque a luz do sol também possui raios ultavioleta. O brilho intenso é cortado pelo efeito dos outros componente da luz branca. Seja qual a cor do objecto de vidro, - a mais comum é verde ou amarelo, mas também pode ser âmbar, azul, turquesa, rosa, branco - ele apresentará esse verde brilhante no escuro. A intensidade do brilho será menor caso tenham adicionado chumbo ao vidro. Salvaguardo que algum vidro que contém urânio, todavia, não brilhará sob a luz ultravioleta: é o caso do vidro "gemstone".

Lanterna de luz ultravioleta

Se por acaso tiver em alguma gaveta uma lanterna de luz ultavioleta daquelas que se usam para detecção de notas e documentos falsos, certas bactérias e fluídos corporais, para seguir o rasto de sangue dos animais feridos, etc, pode apontá-la para algumas peças de vidro que tenha em sua casa e, quem sabe, descobrir o brilho do urânio no vidro de que são feitas. Volte e comente aqui se a experiência der positivo. Gostaria de saber!


Sugestão de leitura

A experiência de Becquerel

A descoberta da radioactividade

Veja a radiação do urânio neste video da Cloudy Labs, ao som de uma valsa de Strauss, ahaha!

History of Uranium

Vaselin glass/Uranium glass by 1st.Glass (Referência)

Vaseline Glass Collectors

Video onde se vê uma colecção de vidro com urânio

Projecto Radiação e Ambiente - Marinha Grande

Tipos de vidro - Vidrado

As pessoas sem maneiras


Fonte

The hardest job kids face today is learning good manners  without seeing any.”

Fred Astaire

  1. Existem pessoas desagradáveis que dizem que são assim brutas com evidente orgulho, porque são directas, e que isso é uma grande qualidade. Por isso perguntam sobre tudo e dizem de tudo, sem cuidar que daí possa resultar um enorme embaraço para as outras.
  2. Outras há que empunhando o smartphone conversam em qualquer lugar e a qualquer hora sobre temas sensíveis, sempre dando largas aos decibéis sem pejo de partilhar todos os detalhes com os ouvintes em redor, por mais delicado que seja o assunto, porque aos seus olhos são completamente invisíveis.
  3. Há as que têm uma família em casa, gato, cão e periquito,  mas que passam o tempo nas redes sociais a serem mais familiares com as pessoas virtuais do que com aquelas com quem vivem, correndo para o computador assim que acabam de almoçar, ao Domingo, para mostrar uma foto do cozido à portuguesa que engoliram a toque de caixa.
  4. Pessoas há, ainda, que empurram as desgraçadas das outras com a barriga, a malinha de cortiça, o carro das compras ou as três crianças na fila de pagamento do hipermercado como se estivessem cheias de vontade de ir à casinha de banho fazer uma mija antes da ecografia à bexiga.
  5. Outras pessoas estacionam os seus veículos nos lugares reservados a deficientes motores porque, evidentemente, ainda não existem lugares reservados a deficientes do intelecto, que era onde deviam logo ter ido colocar a viatura em primeiro lugar.
  6. Um vasto grupo de outras pessoas deixa as criancinhas pintar a manta em qualquer lugar público, mas em especial em espaços fechados, sempre pequenos para as suas corridas desenfreadas, gritos e explosões de contentamento, porque têm um receio bíblico de que uma repreenda vá impedir a sua transformação num génio mundial, quando crescerem.
  7. Pessoas há que são melhores a pedir favores do que a agradecer o que lhes foi concedido, sobretudo porque hoje a comunicação nunca foi tão difícil, tornando  o exercício da gratidão uma tarefa assaz penosa.
  8. Temos também as pessoas que caminham em grupo pelo passeio como se estivessem a fazer uma barreira para proteger o guarda-redes na hora da cobrança de uma falta.
  9. Muitas pessoas do género masculino há que se sentam nos transportes públicos como se estivessem no sofá da sua sala de estar, profilaticamente convencidas de que se não deixarem a sua fruta respirar mais à vontade durante uma viagem ela perde o viço.
  10. Também já topei com pessoas que fingem estar a dormir nos comboios e autocarros para não dar o seu lugar aos idosos, grávidas e mulheres com crianças de colo. Dos outros que estão de olhos abertos nem vale a pena falar.
  11. O que dizer daquelas pessoas que, de pé, junto às prateleiras de jornais e revistas dos hipermercados,  aproveitam para ler as gordas, as magras e as anoréticas.
  12. Ou daquelas pessoas que poupam nas palavras “por favor”, “com licença”, “peço desculpa” , "posso", e “obrigada” como se fossem palavras de sete-e-quinhentos de algum programa de aplicação de poupança a prazo.
  13. Temo referir uma enorme maioria silenciosa de pessoas que conspurcam os espaços públicos com  grande à vontade, acreditando porcamente na ideia de que o chão da cidade ou o parque urbano verde são meros caixotes de lixo gigantes que algum escravo há-de despejar. Papéis, embalagens de fast-food, maços de tabaco, beatas, pastilhas elásticas, lenços de assoar...
  14. No grupo de pessoas que espalham lixos há a salientar o binómio pessoa-canídeo. A pessoa-canídeo vai à rua ou ao parque fazer o passeio higiénico e por deixa lá o presente do seu canídeo de estimação para algum incauto pisar. Noutra versão, a pessoa-canídeo vai à praia e, idem, até tapa o presente com areia, para que ele resulte em surpresa para quem o encontrar. É de ficar agradecido com tanto esmero.
  15. Um grupo que quase entrou em extinção é o das pessoas que não respeitam as filas porque as pessoas do negócio das máquinas de senhas lhes estragaram o jogo com muita pinta.
  16. Lembro ainda, no caso do binómio pessoa-canídeo, aquelas que não levam os cães pela trela em espaços públicos porque o cão não faz mal nem a uma mosca, porque não gostam de ver o bicho preso ou porque meter a trela dá uma trabalheira do caraças.
  17. Não sei se já me referi ao grupo de pessoas que falam sempre muito alto mesmo sem ser ao telemóvel por pensarem que andamos todos a experimentar o aparelho auditivo da Minisom.
  18. Existe também a fita das pessoas que não colocam o telemóvel em silêncio no cinema, teatro, ou conferências em virtude da vontade constante de não perder pitada, via mensagens ou redes sociais. Isto até tão grave que até tem um acrónimo: sofrem de extremo FOMO - Fear of Missing Out.
  19. E que pensar daquelas pessoas que mudam o canal da televisão na sala de espera do consultório médico sem pedir licença a ninguém? Que seriam mudas? 
  20. E já viram aquelas pessoas que apalpam as peças de fruta da loja toda e que depois não compram nem um caroço?
  21. Também temos as pessoas que caminham pelo apartamento e que sobem a escada do prédio, a qualquer hora do dia ou da noite, como se fossem o pelotão de Reconhecimento do Batalhão de Infantaria da Brigada de Intervenção.
  22. Já me esquecia do clássico hábito que muitas pessoas têm de enfiar o dedo no nariz enquanto estão paradas dentro dos seus carros nas filas e semáforos para de lá  retirar plasticina. Sempre é uma forma de manter a mão longe do smartphone e escapar à multa. Outras, mais famintas, até a comem. 
  23. E as pessoas que pagam 150 euros por uma "experiência gastronómica" (sem bebidas) num restaurante de nomeada e depois sacam dos smartphones para fotografar os pratos? 
  24. E como ignorar as pessoas que desenham histórias com os talheres no ar enquanto falam...
  25. E as pessoas que agem como o dr. Jekyll na vida real mas que são ferozes mr. Hyde na vida digital?
  26. E as pessoas que vão de visita a casa de pessoa amiga e olham para o smartphone de dois em dois minutos como se disso dependesse a sua vida?
  27.  E já quase me esquecia daquelas pessoas que nasceram para ser noivas e que chegam atrasadas a todo o lado.
  28. E aquelas pessoas, muitas, que usam as fotografias das outras pessoas nas redes sociais sem pedir autorização e nem sequer dar créditos?
  29. E o que dizer  das pessoas condutoras que aceleram nas passadeiras e das pessoas que se passeiam nas passadeiras que tomam por passeadeiras? 
  30. ...

05/04/19

Às vezes compro brincos na Parfois



Por vezes faço compras por impulso. Não gosto disso. Já fui assim e depois deixei de ser e comecei a ponderar e a pesar cada aquisição. O dinheiro ficou cada vez mais caro desde que assumimos o euro e eu cada vez mais ciosa das minhas opções à medida que compreendei até que ponto a sociedade de consumo nos manipula. Comecei a ter horror ao acumulo de peças, à ocupação de espaço por tralhas que rapidamente perderão o seu préstimo. O quotidiano é muito mais simples quando nos reunimos de objectos essenciais e de boa qualidade, que se ajustam às nossas necessidades e que não têm um fim de vida anunciado na sua forma, cor ou  escopo atrofiado. Acreditem que é verdade.

Com isto não quero dizer que me subtraia a certos prazeres proporcionados por bens que não suprem as tais primeiras necessidades. Por exemplo, jóias. Não conheço nenhuma mulher que não goste de jóias, mesmo que não as use. Possuo algumas peças de joalharia, a maioria oferecida por pessoas queridas. O meu luxo sempre foram as viagens e quadros de pintores de nomeada mas ainda acessíveis, e por isso raras vezes pensei em gastar dinheiro nisso. Dentro da bijuteria existem materiais que aprecio muito, em especial pedras, vidros, incluindo o marinho, e resinas, ou outros, como sementes, ou até conchas marinhas. Há designers com  ideias fantásticas que me cativam como o fizeram e fazem os mestres ourives. Tive uma fase de entusiasmo por anéis de toda a espécie, em especial com pedraria e pérolas, que de vez em quando ainda vou buscar para dar colorido aos meus dedos. Ainda que tenha deixado de frequentar as ourivesarias, até porque já tenho mais anéis do que dedos, sendo anéis e brincos os meus acessórios favoritos, nunca deixei de olhar as montras para apreciar as peças. O trabalho de ourivesaria é belíssimo e por vezes as peças mais simples conseguem ser encantadoras apenas graças ao brilho ou cores de uma pequena pedra e trabalho de mestre do metal precioso.

Pois esta semana, ao passar pela montra de uma ourivesaria que costumo habitualmente espreitar, em Leira, vi um par de brincos maravilhosos. Agora ando numa fase de brincos. Não saio de casa sem vestir o lóbulo da orelha. Se olho ao espelho e falta qualquer coisa naquele furinho, feito ainda em bebé, volto atrás como quem esqueceu um guarda-chuva e nota ao botar o pé na rua que está a chuviscar.  O preço na etiqueta era visível e era daqueles que não cabe no meu orçamento. Fiquei colada ao vidro que nem um peixe limpa-vidros a suspirar pelo par de brincos e a imaginá-lo combinado com algumas camisas fresquinhas e casacos, e em todas era um complemento que ficava a matar. Deixando os meus olhos lá pregados, forcei-me a meter os pés ao caminho sem me conseguir abstrair dos brincos que eram a minha cara, num desejo de consumo tal como não tinha memória.

Parei meia dúzia de passos a seguir porque notei que tinha chegado uma mensagem e fui à bolsa procurar o telemóvel. Fiquei depois, de pé, no passeio, voltada para a rua onde os carros passavam em vagas à ordem de abertura dos semáforos, a dedilhar o ecrã. Estava neste afã quando no espaço livre entre os dois carros, mesmo à minha frente, uma mulher se aprestou a estacionar o Mercedes mais comprido que já vi. Tirei-lhe as medidas e achei que não ia caber ali. A máquina era de um preto imaculado, e limpíssima e lustrada, brilhava quase tanto como as jóias que eu acabara de ver na montra.  O carro lembrava-me um grilo, de tão negro, e o seu motor se não cantava, parecia, enquanto ela, sem esforço, manobrava. De forma inaudita a mulher encaixou o veículo à primeira. Ela olhou-me através do vidro lateral por instantes, olhos nos olhos, como se me dissesse, Estavas a pensar que eu não era capaz, Ora toma.

Aparentava ter metade da minha idade e um olhar vagamente triste que não gostaria que ela tivesse encontrado na minha cara. Concentrei-me na minha mensagem e nem a vi ir buscar o ticket de parqueamento e voltar. Quando olhei de novo em frente, ela estava dobrada, meio corpo enfiado sobre o banco traseiro a libertar o filho dos cintos de segurança e a comandá-lo a atravessar o passeio rapidamente para ficar a coberto dos tectos do edifício, que entretanto tinha começado a chover. Vestia bem, de forma ainda clássica mas moderna, em malhas pérola, caneladas. O que mais me chamou a atenção foram os sapatos de um castanho-mel brilhante com um monograma bordado,  calçados numas meias de vidro que as calças curtas de boa fazenda ajudavam a colocar em evidência. O cabelo negro e forte, estava escovado e atado em rabo de cabelo. Das orelhas pendiam um par de brincos dourados, uma espécie de folha grande de uma planta ou mesmo fungo! Oscilavam e refletiam a pouca luz de um sol escondido agora. O miúdo de telemóvel na mão, correu sem dele tirar os olhos; a mãe veio juntar-se-lhe, logo após, aconchegou-o, estendendo o seu braço esquerdo  pelos ombros estreitos, a bolsa no outro.  Seguiram lentamente. Aonde iriam? Apostei que talvez a uma consulta médica. Talvez o menino de cabelos louros fosse ao pediatra cujo nome lera na placa na parede a uns metros dali. Ou então à ourivesaria! Oh, mas era isso, só podia ser: a mulher iria decerto à ourivesaria. Entraria e demorar-se-ia muito pouco, apenas o tempo de pagar o par de brincos que já escolhera em outra ocasião. E na volta passariam por mim, o braço dela sobre os ombros do menino, o menino com os olhos no seu brinquedo electrónico preferido, e os meus encantados brincos a balançarem-se dos lóbulos das orelhas felizes dela.

Não, não seria assim. Não podia ser. Aqueles brincos não fariam sequer pandã com o look desta mulher, pelo menos não neste dia. Eram brincos de sol, não de chuva, de olhar brilhante e alegre e não triste e compenetrado. Inspirei profundamente e guardei o telemóvel na minha mala enquanto o par se afastava de mim vagarosamente. Passaram pela ourivesaria e a mãe do menino nem sequer olhou. E o menino também não porque tinha os olhos estavam presos ao brilho do telemóvel, e, além disso, nem altura ainda tinha para conseguir ver toda a beleza que se encontrava naquela montra. Talvez a mulher já tivesse todas as jóias de que precisasse, a mais  bonita delas, aquela criança. Ou talvez fosse como eu, nada dada a compras impulsivas e hoje nenhuma ida à ourivesaria estivesse nos seus planos.  O par sumiu quando dobraram a esquina e eu esqueci-me deles. Mas não do par de brincos.

Continuei o meu caminho e uns metros à frente passei pela Parfois. A Parfois, menos conhecida pela  Às vezes, mas, sim, é isso - Às vezes ou Sometimes - abriu pela primeira vez em 1994, no Porto, na Rua de Santa Catarina. Este bem sucedido projecto de uma mulher do norte, Manuela Medeiros, deve hoje estar a aproximar-se das 1000 lojas espalhadas pelo mundo. A Parfois vende acessórios para gente que se pela por estar na vanguarda da moda. Os acessórios são a coisa mais fantástica que a moda inventou para ir catar o dinheiro que as mulheres não têm mas que inventam de qualquer forma só para os ter. Qualquer uma dirá que são indispensáveis para transformar o look mais básico e insosso numa demonstração capaz da sua personalidade: brincos, anéis, colares, pulseiras, lenços, chapéus, bolsas, óculos, relógios. Não sei como é que os homens se têm aguentado sem gravatas nem alfinetes de gravata, nem botões de punho, nem chapéus, nem bengalas. E até os anéis, tão em voga num tempo mais antigo, hoje são coisas herdadas dos bisavôs e guardadas longe da vista. Penduricalhos, e afins, são coisas de mulher que muito poucos homens da nossa civilização usam a não ser porque lhes associem valor estimativo. Bem tentam os ditadores da moda incutir-lhes que são modos de afirmação pessoal, que aumentam o potencial de atracção, ou que os sintonizam com o seu tempo. Só os mais jovens e mais artísticos é que vão na cantiga. Os outros guardam o dinheiro e vão comprar presunto fumado e umas cervejas artesanais. Ou um bom relógio, no máximo dos máximos.

Na realidade os acessórios nunca vestiram as despidas nem calçaram as descalças. Vivemos todas muito bem sem eles até ao momento em que o orifício no lóbulo da orelha começa a ser um incómodo e a pedir alívio na forma de um brinco. Para mim, o dito "orifício" devia chamar-se antes "ourifício". Não se iludam: não há liga metálica que melhor case com tal desígnio que o velhinho aurum (brilhante). Substância rara e mítica, que premeia os vencedores e sela a maioria dos votos dos casais apaixonados, o ouro simboliza o Sol e produzi-lo era o sonho de todo o alquimista. Mas todas gostamos de brilhar, se não no dia-a-dia, pelo menos à noite, ou em algumas ocasiões especiais, e, por isso, não deve haver uma mulher em Portugal que não tenha entrado já numa Parfois. Uma coisa que a Parfois fez bem foi democratizar o acessório. As lojas nos shopping parecem um luxo quando se olha de longe, mas de perto os preços não esvaziam de todo os nossos bolsos, fazendo assim a  felicidade de consumo de milhares de pessoas, aqui e pelo mundo inteiro.

Em diversos museus que cobrem os tempos pré-históricos, já todos vimos colares que foram usados pelos homens e mulheres para se enfeitarem, talvez em rituais ou ocasiões especiais, feitos de simples pedra e osso trabalhado. Na Idade dos Metais surgiram outras possibilidades de criar adornos. As jóias foram sendo cada vez mais sumptuosas e artísticas e usadas para muitos propósitos, inicialmente por uma elite: como enfeite, ou símbolo de status e riqueza,  ou para demonstrar  afeição, ou ainda como protecção contra a má sorte. Nem vale a pena puxar pela cabeça. A bijuteria deve ter surgido quando alguém quis ter uma jóia ao peito e não tinha como pagar o elevado preço; e outro alguém, com ideias, começou a fabricar réplicas para satisfazer esse desejo e ganhar com isso a sua parte. Hoje já não são apenas as pessoas com baixo poder aquisitivo que usam a bijuteria. Na realidade, os designers conseguiram criar peças que são únicas pela sua originalidade, materiais e formas e que, desta feição, competem com o valor intrínseco das jóias na preferências das mulheres que podem muito bem usar as duas.

E tanta conversa para dizer o quê? Que acabei por entrar na Parfois e comprar um par de brincos a ver se deixava de pensar nos tais, os da ourivesaria. Dizem no site online - onde até já vi alguns de que gostei mais e que a loja não tinha - que são de poliuretano (plástico!) e zinco. Não os coloquei logo e ainda bem. Quando cheguei a casa e os retirei da base plástica, as duas peças de um separaram-se. O próprio fecho também é demasiado lasso para se aguentar. Teria certamente perdido o brinco se os tivesse colocado. Fiquei irritadíssima comigo, com a minha impulsividade, que tinha tido por consequência a compra de um produto defeituoso e que em nada tinha conseguido alterar a minha fixação mental nos brincos da ourivesaria. E agora? Gastar gasolina para ir à loja trocar as pecinhas ou comprar Super-cola 3 para consertar não vale a pena: os brincos custaram menos que qualquer das hipóteses. Fui ao site da Parfois ver se os podia devolver por correio e pedir outros. Mas entretanto desisti de fazer isso pois é melhor examinar com dois pares de olhos o próximo par. Tenho um mês para voltar a passar pela loja e resolver a situação.



Tudo isto avivou na minha memória um enxovalho recebido há uns meses. Estava a almoçar no Porto, cidade onde nasceu a Parfois, quando uma conhecida minha notou os meus brincos, dizendo que eram giros. Perguntou, como não podia deixar de ser, se os tinha comprado na Parfois. Eu disse que não, que os tinha comprado na "Chinois". Ela não percebeu a piada. Começou por dizer que nunca tinha ouvido falar dessa loja, era onde, a Chinois, quis saber se tinha site online, etc.  E até pegou no telemóvel, que descansava sobre a mesa enquanto nos deliciávamos com um suculento peito de frango assado com alho francês, ali num restaurante minúsculo à Rua das Flores, para o consultar. Desatei a rir. Talvez fosse o entusiasmo vínico a inflar a minha sonora risada, e não o meu espírito trocista, mas a gargalhada saiu  demasiado opulenta para o exíguo espaço. Acalmei-me e esclareci, baixinho: Nos chineses, minha tola. Ui, o que eu fui dizer. MAS TU COMPRASTE ISSO NOS CHINOCAS? - inquiriu, poisando até os talheres no prato, como se eu tivesse infringido algum código de conduta. Comprei, claro que comprei. Tenho uns iguais que me deu a minha mãe, em ouro. Mas tenho receio de os perder. Não me digas que agora já não gostas. Ela levou o copo de Porca de Murça Tinto à boca e depois mudou de assunto. O facto é que os brincos dourados comprados "na Chinois" continuam dourados, os fechos não perderam força, nem oxidaram, nem me causaram alergia. Já este par de não sei o quê, saído das mãos dos designers da afamada Parfois, vai forçar-me a fazer nova visita a uma loja qualquer para os trocar...

Ainda não me esqueci dos brincos da ourivesaria, nem mesmo escrever sobre o assunto exorcizou o sonho de consumo. Quando voltar a passar por lá, sei que irei novamente namorá-los à janela. ♥♥♥

03/04/19

Shawn Mendes marca presença em Portugal





“You know when you’re in a state of unhappiness when you have no reason to be unhappy?
  I hate that.”
Shawn Mendes

Fui inteirar-me sobre a paixão assolapada das adolescentes portuguesas por Shaw Mendes desconfiando que a idolatria melosa se ficasse a dever ao facto do rapaz ter uma costela portuguesa. Nós não deixamos passar em branco essas coisas: os avós maternos de Danielle Steel, eram açorianos, Tom Hanks tem um bisavô português, Maria Isilda Ribeiro, a costureira que coseu a bandeira americana colocada na Lua por Neil Armstrong, fabricada numa  fábrica em New Jersey, era portuguesa. E até o BO, o cão de água português, de Obama, era o melhor do mundo. A Katty Perry, a Nelly Furtado...A lista aumentou, pois, com Shawn Mendes, é mais um luso-canadiano com êxito na música. 

Shawn Mendes, o cantor e compositor de 20 aninhos acabados de fazer, é obcecado com o sucesso, temendo um dia acordar e ninguém querer mais saber dele. Começou a tocar guitarra aos 13 anos e agora anda a fazer tours de 50 ou mais espectáculos, promovidas por elogiosas referências como "multiplatinado e sensação mundial", "uma ascensão meteórica", e os ídolos que ele imitava na extinta Vine aprestam-se a colaborar nos seus discos, mais coisa menos coisa: Sheeran, Taylor Swift, John Mayer. São apenas três álbuns, mas já são três álbuns e um sucesso à escala global. É obra, mesmo que se queira torcer o nariz ao miúdo, não dá para ignorar. 

Começou por construir um pop-folk que fisgava descaradamente o coração das adolescentes, ele próprio era um adolescente. As canções que somavam e seguiam nos tops eram tipicamente juvenis, de encher o coração, ora tipo baladeiro, ora de saltar a pés juntos de emoção. A voz adocicada e falsettos de Mendes apareciam a cada vez que se ligava uma FM - eu detestava Stiches, embora constatasse distraidamente que era pop do bom, mesmo que tratasse do mau que é ter um desgosto de amor. Sempre a ominpresente guitarra acústica, por vezes trocada por uma eléctrica. Agora já se mete por caminhos de RB, e sabe-se lá onde irá parar - There's noting holding him back. 

Cresceu em popularidade de um momento para o outro, como um cogumelo que brota do solo, a par da música cultivando um look clean e uma postura de gratidão e simpatia pelas fãs. Diz-se apoiado pelos pais desde sempre e pelos amigos, aí assentando o equilíbrio que transmite. Mas depois treme que nem varas verdes quando o provocam dizendo que aparenta uma aura gay, sentindo-se na obrigação de prestar contas; ou então mete-se a cismar que a música que faz pode não durar e fica ansioso.

É cada vez mais frequente assistir ao êxito de jovens no território pop - veja-se (ou ouça-se) When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, o aguardado primeiro álbum de Billie Eilish, que tem 17 anos. Esquecemos facilmente que são ainda jovens e que nem sempre conseguem lidar da melhor forma com muitas pressões que fazem parte do estrelato súbito. No caso de Mendes, que conquistou a fama com dedicação e trabalho sério, quase dá a impressão de que o sucesso é que o tomou nos braços e o elevou às estrelas,  num capricho. Não foi uma coisa que lhe aconteceu, foi algo que fez acontecer. O êxito não tem geração espontânea, não na música nem em domínio algum, por exemplo, a escola, embora para alguns, mais dotados, possa ser mais fácil. Há que saber o que se quer. E, mesmo sabendo, chegar lá nem sempre é possível, por vezes nem mesmo com muito trabalhinho. Finalmente, o fenómeno Mendes nunca o seria sem o poder da internet e das redes sociais. Estes dois jovens artistas são fenómenos muito do tempo presente, a que certos números facilmente dão expressão melhor do que palavras. Por exemplo: Mendes tem  21.5 M seguidores no Twitter.

Shawn Mendes apresentou-se em digressão mundial de apresentação do terceiro álbum de originais, o  homónimo, Shawn Mendes, no dia 28 de Março, em Lisboa, na Altice Arena. Os bilhetes esgotaram quase de imediato, em Maio do ano passado. Em Agosto de 2018, o músico já tinha actuado no MEO Sudoeste, na Zambujeira do Mar. 


Neste momento fiz uma pausa e fui ouvir o tema Youth, que penso ter aberto o concerto, e que foi escrito motivado pelo ataque terrorista no Manchester Arena, em Maio de 2017. Morreram 23 pessoas e mais de uma centena ficaram feridas, após o concerto de Ariana Grande.Trata-se de uma espécie de hino motivacional ou inspiracional para a juventude instigada a não deixar de ser como é apesar das horríveis provações que tenha de enfrentar. Youth conta com a colaboração de Khalid e não está nada mal. Ouvi e vi também o video de Lost in Japan. Quando me apercebi de que se tratava de uma recriação do filme Lost in Translation, de que gosto imenso, quase gritei blasfémia! O final do vídeo de Lost in Japan não podia ser amargo, nem sequer agri-doce. Onde no filme, os dois protagonistas, Chalotte e Bob, se separam, sem nunca sabermos o que este lhe disse ao ouvido, no vídeo, Shawn é incentivado a ir no encalço da miúda. As fãs não se contentariam com menos que um "Happy ending", não é? Um final em aberto para cada um dar asas à sua imaginação. Ao ver Shawn vestido de robe e chinelos, no quarto de hotel, imaginei que não faltará muito para que seja convidado para interpretar um papel num filme: já tem um perfume Shawn Mendes Signature nas lojas e empresta o corpo à campanha da marca Calvin Klein, que sabe muito bem onde está o que é preciso para fazer bom dinheirinho. Next!


Mas se me fui dar ao trabalho de refletir sobre Shawn Mendes não foi, claro, por causa do jovem e antes por causa de uma jovem, filha de uma amiga, que foi ao concerto, e que encontrei às voltinhas no shopping. A Joanita, como eu a chamo, desde pequena, tem agora 13 anos, e desconfio que já não gosta muito do diminutivo. Esteve nove horas na fila com as amigas para poder obter um bom lugar no Altice Arena. Até veio de lá bronzeada. Diz que foi o melhor concerto que viu na vida, que nunca vai haver outro tão bom. (Bem sabemos que não será assim. A Joanita vai assistir a muitos concertos e cada um que vir será sempre melhor que o anterior. )

Os adolescentes são um grupo muito particular. Tão depressa lhes dizemos que ainda não têm maturidade para fazerem isto ou aquilo, como que já são crescidos o bastante para fazerem aquilo  ou isto. É natural que sintam estar num beco da vida e que se refugiem na sua cama populada de almofadas, a olhar para o tecto, a viver cada verso e cada batida das canções do Shawn Mendes, que os phones do smartphone lhes descarregam aos ouvidos, como se fossem um mantra. É evidente que querem experimentar tudo, incluindo ir ao concerto do ídolo, que não há outro como ele na terra inteira nem nunca haverá.  É nesta altura que se fazem toda a espécie de tolices a coberto da imunidade que a adolescência unicamente confere. E não é porque não estejam cientes da tolice: é porque vão tirar um benefício dela, que para eles será importante, por exemplo, euforia, respeito, Likes. É o tempo de fazer tudo com urgência mas não como se a vida terminasse em breve e apenas porque ainda não se viveu nada e é tudo fome de viver e de aventura. Se até nós, tantos anos vividos, ainda gostamos de novas ideias, conhecimentos, sensações, como não perceber o que excita o adolescente e o move para a experimentação de tudo, por mais imprevisto ou até perigoso? É também o tempo para consolidar aprendizagens de toda a espécie, intelectuais e emocionais, para apalpar o futuro e ir adaptando o cérebro às novas realidades experimentadas. É o tempo para ser o mais imperfeito possível de forma exemplarmente perfeita. Porque ser adolescente nada mais é do que ser perfeito imperfeitamente.

Para orientar os adolescentes são necessários adultos compreensivos e em sintonia com estas entidades complexas, por vezes com mais uns centímetros que os progenitores, mas firmes o suficiente para fazer face aos ímpetos e desejos juvenis sem parecerem uns algozes parentais, ainda que os olhem agora de baixo para cima, numa posição inconfortável, é certo. Mas nem adolescentes nem adultos se medem aos palmos. Afinal, até uma pequena e singela agulha numa caixa redonda  nos pode indicar o norte. Os adolescentes precisam ainda de orientação, mesmo que afirmem, sem rodeios: "Eu já tenho idade", ou , "Já não sou uma criança". Paciência, mas é assim mesmo. A ponte da adolescência lá há-de conduzir, ao mundo dos adultos. Mas os pais, ou os seus responsáveis, os educadores, sejam eles quem forem, devem ter uma palavra a dizer durante a travessia.

Mas é mais fácil de dizer do que fazer. A Joanita, tem 13 anos, é aluna do 6º ano,  e faltou às aulas para ir ver o concerto do Shawn Mendes. Shawn Mendes marca presença em Portugal, as alunas faltam. Não deve ter sido caso único. Não me levou a melhor, a Joanita, não senhora, pois andava eu na escola primária, quando a meio da tarde, a minha avó me foi buscar para irmos ao cinema ver Música no Coração. Sim, eu sei, ir ver a Maria Lay ee odl lay ee odl-oo, o Capitão von Trapp, e as cabrinhas, não é bem a mesma coisa que ir ao Altice Arena, mas é parecido. Ir à noite estava fora de questão, suponho eu, e os adultos da casa talvez só tivessem sabido do filme no Theatro Circo depois do fim de semana. Não fui eu que pedi. Nunca tinha ido ver um filme com actores de carne e osso e em nossa casa apenas havia TV a preto a branco. Estão a imaginar a surpresa que foi, não é verdade? Qual foi o prejuízo em termos de frequência escolar? Nenhum. Eu já lia e escrevia muito bem, desenhava melhor, apenas não atinava com os números, e esse desatino acompanhou-me vida fora. A Joanita, pelo contrário, é uma aluna com muitas dificuldades, embora eu não saiba exactamente quais, apenas sei que a mãe se queixa do aproveitamento a várias disciplinas. Ora, mesmo assim, o que fariam vocês? Levariam a miúda ao concerto? Bom, eu talvez levasse, sim. Mas, e agora, veio a revelação da miúda: "Até tinha teste a matemática!"  Fiquei perplexa. No dia em questão a Joanita tinha teste a matemática e, mesmo assim, a mãe assumiu que não havia problema algum em que ela faltasse às aulas? Nesse caso, eu já não teria deixado a Joanita ir ao concerto. Não era negociável.

A adolescência serve também para os miúdos aprenderem como funciona o mundo. Ou não será? Então que mundo é este onde a diversão vem um passo à frente do trabalho? Uma avaliação?! Estarei a ser bota de elástico? O "trabalho" dos adolescentes é estudar. Ou não é para isso que os pais os colocam na escola? Há um tempo para a escola e há o tempo livre para ir à praia, ao cinema, aos concertos, ao campismo, para namorar. Afinal, ainda não há muitas semanas, aquando da Greve Climática Juvenil, se assistiu a tanto protesto de pais, mesmo dos que são sensíveis à causa e que não a consideram uma mera propaganda esquerdista,  que criticavam a iniciativa porque os alunos (do secundário) iam faltar às aulas.  O que estamos a passar aos miúdos é que um dia será legítimo faltar ao trabalho para ir a um concerto ou não será? Ou a um piquenique? Ou aproveitar a vaga de calor para ir à praia?

Mas há mais. O professor de Matemática, soube da ida ao concerto, e logo concordou fazer um teste extra para a miúda ser avaliada. Todos ficaram felizes: o professor, esse grande compincha, a Joanita e os pais da Joanita. E agora vocês dizem-me: assunto encerrado, Belinha. Tudo está bem quando acaba bem. Mas porque será que sinto um certo desconforto com o final feliz? Estou à espera de me cruzar com a mãe para lhe perguntar se justificou a falta assim: art.16º, i), "  Participação em atividades culturais, associativas e desportivas reconhecidas, nos termos da lei, como de interesse público ou consideradas relevantes pelas respetivas autoridades escolares." Tudo é possível porque o mundo onde estas jovens crescem já não é o mundo onde eu cresci.

Já agora, que é feito do Estatuto do Aluno? Talvez já não exista. Para quê? Ninguém o deve ler. Quando fui uma aluna de 13 anos, na Preparatória André Soares,  posso garantir que os meus pais nunca leram nenhum regulamento. Mas também não era preciso. Todos sabíamos o que era e como funcionava a escola e o que era ser estudante. Eles garantiam que eu chegava a horas, que andava alimentada, vestida, limpa; que fazia os TPC; que tinha os materiais. Não me policiavam, não era preciso. Eu faltava quando apanhava uma gripe ou ficava com febre alta. Levava os meus livros, esferográficas, o que era preciso. Nunca tive uma falta de material. Uma vez, em Trabalhos Manuais, esqueci-me de levar a peça de madeira e pedi ao professor para ir a casa buscá-la. 50 minutos depois estava de volta, ensopada em suor pois tinha ido a correr. Havia noção da responsabilidade, mesmo se éramos adolescentes. Hoje os alunos vão para a escola mas até parece que vão é passear o telemóvel - é objecto que nunca esquecem. Não sei para que os pais compram livros (ainda por cima caríssimos) se os deixam em casa, ou cadernos, se andam sempre a cravar folhas uns aos outros. E as fichas distribuídas pelos professores andam sempre a voar pela Via Láctea, transformadas em aviões de papel, mas nunca nos dossiers, quando são precisas, ou a fazer as vezes de bolas em remates ao cesto do lixo dos seus quartos. 

Não perguntei muito mais à feliz Joanita e muito menos perguntarei à mãe como justificou a falta, quando a encontrar. Guardarei a minha perplexidade. Talvez a minha amiga se tenha mudado para Marte sem me ter dito, ou andasse com a cabeça na Lua, ou talvez seja eu que estou no planeta errado. Talvez em Marte, um dia, no mundo do trabalho, a Joanita também vá faltar para assistir ao concerto da Tour dos 15 anos de carreira da Billie Elish,  e uma colega marciana, sem questionar, aceite trabalhar por duas nesse dia para assegurar as tarefas da Joanita faltosa. E depois a Joanita, ainda assim, talvez receba o seu salário por inteiro,  porque o patrão é mais um marciano bacano que acredita que a vida é uma pândega total onde a adolescência dura até aos trinta anos, pelo menos. 

Digam-me lá se é isto ser melhor educador, ou se é isto melhor escola, ou se não estamos apenas a ser uns totós que perderam por completo o norte do que é educar e ensinar, e depois queixamo-nos que os jovens de hoje são assim e assado: egoístas, irresponsáveis, alienados, uns tontos, "a quem aparece tudo feito". Todavia, não se alarmem, o fenómeno não é nada de novo, está connosco desde o princípio dos tempos: "O pai teme os seus filhos. O filho acha-se igual ao seu pai e não tem nem respeito nem consideração aos seus pais. O que ele quer é ser livre. O professor tem medo dos seus alunos. Os alunos cobrem o professor de insultos. Os mais novos querem tomar já o lugar dos mais velhos. Os mais velhos, para não parecerem antiquados ou despóticos, consentem nesta demissão".*

Os adolescentes são, desde sempre, entidades complexas. E sempre irão colocar os pais perante situações críticas, dificuldades, para as quais os pais terão de encontrar uma resposta. Os pais, tal como os adolescentes, não nasceram ensinados e crescem dentro deste papel à medida que lhes vão sendo passados testes. Talvez nem sempre encontrem a resposta certa perdida no meio de tantas respostas múltiplas. Talvez até errem redondamente. Talvez não saibam como responder. Talvez lhes seja difícil meter a cruz no quadrado da resposta certa por saberem que vão despoletar um confronto.  É mais fácil deixar o adolescente fazer o que quer e evitar uma crise, aturar a frustração impossível da criatura, que por uma semana andará pelos cantos da casa com uma cara de poucos amigos e a esquivar-se a qualquer diálogo.  Só que ser educador não é evitar, é fazer a sua parte, por vezes ingrata e com consciência disso mesmo.

Mas outros, mais modernos, talvez até já se tenham demitido de dar respostas. Tratam o adolescente como se ele fosse um adulto, um ser autónomo, e soubesse já decidir o que é melhor para si. Para estes, os adolescentes já sabem tudo e estão prontos para a vida. Não precisam de ser educados para serem mais humanos ou colaborativos ou responsáveis. Os pais já não procuram dar repostas - nem tão pouco são questionados - porque as respostas que estes adolescentes procuram estão todas no Google. Deixam-nos displicentemente tomar as rédeas do seu destino, faltar às aulas, ir aos concertos com os amigos, pedir ao professor para ter trabalho extra e fazer uma outra ficha de avaliação especial só para si (que não custa nada, ora, temos de ser uns para os outros). Estão a criar uns pequenos monstros. Mas ainda bem que é sobretudo em Marte, e não por cá, que isso mais acontece.


*Autor da frase a negrito:  (Platão ; 428-348 a.C.; A República, livro VIII)


Sugestões de leitura:

Estudo de 2018 sobre os adolescentes : Health Behaviour in School-aged Children (HBSC) . Nele participam 44 países. Em Portugal é realizado desde 1998, e a ritmo quadrienal, pela equipa Aventura Social, da Faculdade de Motricidade Humana. "O mundo digital é, sem dúvida, o mundo que maioritariamente preenche o tempo dos adolescentes portugueses. 60,8% conversam online várias vezes por dia com os amigos chegados e 35,7% admitem ter amigos que apenas conhecem por meio da internet. As redes sociais servem regularmente para “fugir de sentimentos negativos” (28,6%). E 26% tentara passar menos tempo online sem o conseguir. Tanto durante a semana como aos fins-de-semana, a presença online mantém-se estável: os adolescentes não dispensam a partilha e a consulta no Instagram, o visionamento de vídeos no YouTube e a troca de mensagens por WhatsApp.