30/12/19

TAG - A última vez



Encontrei uma TAG  - A última,  no blogue da Isy . Apeteceu-me responder porque parece uma mini cápsula do tempo. Além disso, estamos no último mês do ano, na última semana do ano. Será talvez a melhor altura? Não faço ideia. Como sempre, introduzi algumas modificações. Não costumo nomear ninguém, mas quem quiser responder, faça favor.

1. A última pessoa sem ser familiar ou amiga com quem você falou:
O rapaz da transportadora.

2. A última vez que fez algo pela primeira vez (e o quê):

Dia 23 de Outubro comecei a fazer exercícios com pesos,
algo que sempre pensei que nunca faria na vida!

3. A última série/temporada de série que assistiu:

Sugerida pelo meu sobrinho, que gosta muito de Super-Heróis. Pois bem, fui surpreendida pela qualidade desta série do Netflix. Melhor que muitos filmes de super-heróis, sem qualquer dúvida.

4. O último filme assistido:

5. O último grupo/artista musical que se tornou seu favorito:

 Escrevi aqui sobre ela!

6. A última música que você ouviu:

Office Politics - Norman and Norma - The divine comedy

7. O último CD completo que escutou:


8. A última gulodice que comeu:

Coquinhos!


9. A última loja que visitou:



10. A última roupa que comprou:
Um casaco de malha verde com capuz,
muito quentinho!

11. O último restaurante que visitou:


12. A última refeição que fez:

(Salada de salmão fumado)

13. A última receita nova que experimentou:
Bolo de espinafres

14. A última bebida tomada:


15. A última palavra que procurou no dicionário:
Procurei por rosnido, palavra que encontrei no livro O apelo da selva,
 e cujo uso desconhecia.

16. O último blogue visitado:

Velharias do Luís

17. O último livro lido:

Pode ser adquirido online na WOOK.


18. A última vez que fez exercício físico (qualquer um):

Há mais de 3 semanas pois tenho estado adoentada neste mês de Dezembro
e impossibilitada de fazer movimentos.

19. Última publicação em rede social:

(Meu actual status no Facebook)

20. Último Shopping visitado:

Forum Aveiro

21. Última notícia lida (Título/Link):

Obra vandalizada em Leça da Palmeira. "Vergonha", "300 mil euros", lê-se

Escultura de Pedro Cabrita Reis foi vandalizada com inscrições de indignação: "Vergonha", "300 mil euros" , "os nossos impostos" e "isto é Leça", pode ler-se nas vigas de ferro da obra. Autarca lamenta "ato de vandalismo" e defende que "a política cultural é determinante para combater a intolerância".

22. A última pessoa contactada por sms, ou email:
Rosa Cláudia

23. A última praia onde esteve:

Praia da Vieira

24. O último monumento que visitou:

Mosteiro de Alcobaça

25. A última deslocação/ viagem que fez em Portugal:

Aveiro



29/12/19

Cinema: a guerra dos super-heróis e outras guerras





Scorsese deu, em Outubro, uma entrevista à revista Empire e disse que não pensava que os filmes da Marvel fossem cinema, que os via mais como parques de diversão. Muitos acharam que Scorsese tinha ido longe de mais no seu julgamento da Marvel e posicionaram-se em luta: o realizador seria o vilão a abater. Scorsese veio posteriormente explicar que era uma questão de gosto pessoal que nada tinha a ver com o talento que era aliás, evidente, e que reconhecia a quem realizava e a quem interpretava os papéis dessas produções. Para ele, e fruto do momento em que tinha nascido e crescido, o cinema tinha a ver com revelação estética, emocional e espiritual. Tinha a ver com personagens e a sua natureza complexa e contraditória, com o inesperado que caracteriza a vida e que o cinema revela. E ainda com a expansão dos limites daquela forma de expressão e a procura do cinema como arte. O debate era, na ocasião, se havia um lugar para o cinema no universo artístico, tal e qual a literatura ou a música e a dança. Ora, Scorsese fala do primado da emoção sobre o do espectáculo. Que é isso que falta aos filmes da Marvel: a revelação, o mistério ou o perigo emocional genuínos. Esses filmes são variações de um tema só, projectadas e testadas para satisfazerem o mercado. Não oferecem novidade, não levam o espectador para experiências inesperadas. Mas, independentemente dessa crítica, há mais uma razão para criticar este tipo de cinema. A razão da sua invasão e domínio nas salas. Por um lado, estes títulos estão em quase todas as salas, por outro, a distribuição preponderante acontece hoje via streaming. O cinema independente fica prisioneiro desta evidência. Não há espaço para ser mostrado e os realizadores continuam a sonhar com a exibição da sua obra em ecrãs gigantes e salas repletas de espectadores: é assim que o cinema deve ser visto. As pessoas não têm realmente escolha: a maioria dos títulos nas salas são de franchise e ver no Netflix o outro cinema não é a mesma coisa. Muitas mudanças tomaram lugar: o cinema eliminou o risco eliminou também a visão pessoal, única, do realizador para passar a servir o gosto das audiências. Não necessariamente isto quer dizer que o cinema tenha de ser subsidiado, pois uma tensão entre público e realizadores, ofereceu, durante anos, muito bom cinema ao público. Em resumo, hoje a questão do cinema como arte passou para segundo plano. Hoje temos entretenimento audiovisual global e cinema. São coisas distintas e opostas. Por vezes ainda se sobrepõem mas é raro. E como os ganhos financeiros do primeiro tipo são enormes, isso pode levar à desvalorização do cinema-arte e sua marginalização.

A questão sobre se os filmes da Marvel são ou não cinema tem demorado a morrer e continua a ser colocada a outros realizadores, e a ser discutida um pouco por toda a gente: quem os faz, quem os critica e quem os vê. Menos importante que saber se são ou não cinema, admitindo que o cinema é uma forma de expressão abrangente, sendo difícil definir o que seja, - mais fácil é distinguir entre cinema que é arte e cinema que não o é - é a constatação de que o acto de ver cinema sofreu grandes transformações. Nunca vi cinema apenas pelo entretenimento mas nunca enjeitei essa sua possibilidade. Para mim, cinema sempre foi, igualmente, e sobretudo, conhecimento, inspiração, cultura, uma janela para outros mundos, uma arma contra a intolerância. Mas nunca exclui nenhum tipo de cinema, nem o documental, nem de animação. E este ano vi bastantes filmes de terror, uma estreia para mim, que apenas conhecia os clássicos. Todavia, quanto mais cinema se vê, mais exigente se fica e  mais raramente se fica completamente satisfeito com a experiência. Isso não é necessariamente mau, apenas significa que nem tudo o que reluz no escuro das salas é ouro. E está certo que assim seja.

Scorsese queixa-se de ter menos hipóteses de mostrar os seus filmes nas salas como eu sempre me queixei de não conseguir ver cinema de outros países que não, predominantemente, os anglo-saxónicos. Durante anos estava habituada a ter o Festival de Cinema da Figueira da Foz à porta para experimentar esta possibilidade de descoberta de obras noutras línguas, de outros cantos do mundo. Procurava também na televisão, no tempo em que esta ainda considerava que mostrar filmes era algo em que valia a pena apostar, antes dos reality shows e outros os remeterem para horas mortas. E nos extintos video-clubes. Mas depois aquele certame acabou e eu deixei de ver televisão. Este ano assisti a filmes do Brasil, da China, da Coreia do Sul, da Dinamarca, da Suécia, do Japão, da Noruega, de Espanha, de França e de outros países. A maioria destes filmes não foram vistos em salas, o que não quer dizer alguns deles até não tenham estado nas salas, mas não nas mais próximas de mim. Em muitas localidades não há sequer salas de cinema, e, muito menos uma Cinemateca, Cine-Clubes, cinemas independentes, ou outros pólos de difusão que se ofereçam como alternativa aos Multiplex. Por isso, é claro que foi com regozijo que assisti ao aparecimento de plataformas como o Netflix, Amazon Prime, HBO Go, que, num momento posterior, começaram até a ser alternativas aos estúdios, na medida em que lançam as suas produções, financiando até cinema fora do universo anglo-saxónico.

A guerra entre o que é cinema ou não cinema, é apenas uma das possíveis. Em 2017, em Cannes, já se tinha assistido a outra guerra. Estúdios de cinemas, donos de redes de cinemas e alguns cineastas de prestígio defenderam a importância da experiência do cinema em sala. Almodovar entendia que filmes que não fossem exibidos nas salas não deviam concorrer a prémios ali. Duas produções da Netflix disputavam então a Palma de Ouro: Okja, de Bong Joon Ho, - que agora celebra o sucesso do fantástico Parasite, um dos meus favoritos deste ano - e The Meyerowitz Stories (New and Selected), de Noah Baumbach, que realizou Marriage Story, outro dos meus recentes predilectos. Os filmes estiveram para ser retirados da competição. Os realizadores queriam que fosse respeitado um período de espera de três anos entre a estreia em sala e estreia na plataforma. Penso que a partir dali ficou decidido que os filmes têm obrigatoriamente que passar nas salas para serem admitidos a competição. Posição diferente de Cannes adoptou o conselho da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pela atribuição do Oscar, admitindo que os filmes a concurso não necessitam de ser lançados em exclusivo nas salas para entrarem na competição: podem até ser lançados em simultâneo na plataforma mas nunca antes de serem lançados nas salas.

A meu ver, sempre haverá filmes que se podem ver em pequeno ecrã sem perdas significativas, e outros que exigem a sala, pelas suas características, resultando em menorização da experiência para o espectador se assim não for. Cabe ao espectador fazer essa escolha, ou até ver nos dois formatos, caso possa, ou então, contentar-se com menos quando não pode usufruir das melhores condições. Em todo o caso, é positivo ter acesso a filmes que de outra forma nunca poderia ver. Se eu fosse realizadora de cinema, é claro que gostaria que os meus filmes encontrassem o seu público nas salas tradicionais. Entendo Scorsese. Mas, por outro lado, também gostaria que os meus filmes chegassem ao maior número de pessoas.

A Netflix, fundada em 1997, começou como um serviço online de aluguer de filmes que enviava DVDs por correio para casa dos assinantes. Em 2007, passou a oferecer a opção de assistir a alguns dos filmes e programas de televisão via internet e, em 2010, transformou-se definitivamente em plataforma de streaming. Basicamente o que estes realizadores de cinema queriam era que os filmes que são lançados em streaming concorressem aos Emmy e não a Oscars. Seriam filmes de televisão (telefilmes) e não filmes de sala. Mas quem nunca viu um bom telefilme que pensou merecedor de um Oscar? Estou a recordar-me de Liberace, por exemplo, com uma grande interpretação de Michael Douglas no papel do cantor. Um dos defensores desta posição é Spielberg: filmes na televisão, não são cinema. Portanto eis aqui um equivalente da ideia de Scorsese de que "filmes da Marvel não são cinema".

A guerra vai continuar. O filme "O irlandês", de Scorsese, não estreou em nenhuma sala portuguesa, mas estreou em algumas salas nos EUA, em festivais, em Espanha e Itália. Evidentemente que gostaria de poder ver Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci e Martin Scorsese num grande ecrã. Fiquei com pena que assim não tenha sido deliberado. As formas de distribuição e exibição cinematográfica alteraram-se significativamente com a entrada em campo das plataformas de streaming e não são apenas os produtores, exibidores, distribuidores e programadores portugueses que se ressentem com as decisões. O público mais cinéfilo e exigente não é indiferente a estas alterações, sobretudo aquele que ainda experimentou a alegria da exibição cinematográfica independente.

Outra guerra menor opôs o universo da fantasia ao cinema dito sério por longos anos. Nos anos 70-80, quando comecei a ver cinema, eram raros os filmes de super-heróis. Mesmo filmes com um enredo mais fantástico, com boa realização, argumentos interessantes e grandes interpretações foram, anos a fio, desconsiderados por não serem intelectualmente ou  artisticamente robustos. Então, a partir talvez de 2008, tudo começa a mudar. O Dark Night é um grande êxito, - mas, claro que não é nomeado para Melhor filme nos Oscars - um filme adulto, talvez como só, anos mais tarde, Logan - nomeado para Melhor Argumento -  voltaria a ser,  mais mais um thriller à base de crime, que o singulariza e torna diferente, por exemplo, da fórmula de Iron Man, que é ainda um êxito maior e inaugura o Marvel Cinematic Universe que nos trouxe o final, neste 2019, em The Avengers: Endgame, uma vintena de filmes depois! Doravante os super-heróis e seus enredos viveriam numa teia de ligações de que The Avengers inaugura o modelo. Surgiriam também, desenvolvimentos isolados, o caso de Deadpool ou Wonder Woman ou do enorme êxito Black Panther.

A vaga de super-heróis a que se assiste agora  é a 2ª vaga. As vagas tomam forma, elevam-se e depois alastram, reduzem-se e desaparecem. A 1ª vaga de super-heróis surgiu nos anos 30. O  "sonho americano" tornara-se uma miragem, deu-se a "Grande Depressão" e na Europa o fascismo ganhava terreno. Destes tempos conturbados nasceu o Super-Homem nos livros de banda desenhada. Foi no seio de uma sociedade fragilizada que necessitava de ânimo, de escape e de algo em que acreditar, que histórias de luta do bem contra o mal, que reflectiam os episódios, personagens e valores seus contemporâneos, e que sempre terminavam com um final feliz, se tornaram populares. Além do Super Homem, foram criados o Homem Morcego, a Super Mulher e muitos outros. Após a II GG os super-heróis recolheram aos seus mundos de papel e tinta. Os homens  sentiram-se de novo confiantes e capazes para assumir o controlo do seu destino. 

Por semelhança com o passado, diz-se que esta recente ascensão de super-heróis  é apenas um sinal de que, uma vez mais, atravessamos tempos de insegurança e de angústia. Mais do que para nos divertir,  precisaríamos deles para nos reconfortar quando escasseia quem encarne ideais de justiça, rectitude, sacrifício. Será mesmo isso que explica a sua popularidade? Não deixa de ser estranho que incapazes de reconhecer heróis de carne e osso que nos inspirem  estejamos a celebrar heróis fictícios, - ou até anti-heróis - que estão, alguns, muito mais próximos do perfil de criminosos - ou loucos - do que de encarnar os ideais que precisávamos de ver em acção. Será esta espécie de alienação também um sinal dos tempos? Esta overdose de fantasia cinematográfica parece imparável, o fim da 2ª vaga de super-heróis parece ainda longínquo. Mas então talvez o vilão a derrubar não seja a Marvel, como pensa Scorsese, e antes a própria Humanidade, na sua perene - ou cíclica - imperfeição, que precisa de ser chamada a dar o definitivo salto em frente!

28/12/19

Art Sullivan: au revoir et merci




Eu ainda sou do tempo em que as crianças portuguesas sabiam cantar o refrão de canções francesas, que se ouviam na radio. Quel dinosaure, pá. Houve um tempo em que os cantores franceses populavam a nossa radiofonia e era très bon. E em que comprávamos singles deles em discotecas. E já me tinha esquecido. Mais tarde, no final dos anos 80, talvez se recordem da Vanessa Paradis a cantar Joe le taxi, (Et le cha-cha-chi). A miúda lourinha parecia o Art Sullivan e não era por ambos cantarem na língua de Proust: era por terem diastema, vulgo, dentes separados. Mas o tempo em que cantar em francês era sinal de ingenuidade e pura alegria já tenha ficado para trás. Nunca soube a letra do Joe le taxi. Agora o que dantes era bom, parecia pimba, coisa de mauvais goût. E foi preciso a morte silenciar Art para acarinhar de novo o cantor romântico que tinha passado à história e surpreender-me: então não é que ainda sei parte da letra par coeur? Apenas faits divers, dirão vós, sem interesse algum para as Petites Demoiselles ou Uber Joes do nosso tempo. A ninguém, aliás. Art, isto fica entre nós. Au revoir et merci.

C'est dimanche et je la voie, elle descend son escalier,
Et moi seul, abandonné, j'aimerais tant lui parler,
Parler la pluie du vent, de ces beaux yeux d'enfant,
Hello, hello, petite demoiselle,
Hello, hello, c'est une idée rebelle,
Il faudra bien qu'un jour, je te parle d'amour...

26/12/19

O livro na areia: um blogue que merece ser descoberto

Edições SEUIL

A alguns dias do final do ano, podia agora fazer uma daquelas postagens de balanço tão habituais nos blogues se não as considerasse um tédio. Mas algumas coisas valem a pena ser recordadas, quanto mais não seja para reparar esquecimentos. Há muito que queria aqui destacar um dos blogues que mais gosto de visitar. O assunto tem sido adiado de semana em semana. Este ano marcou o meu regresso à blogosfera de uma forma mais constante. Tentei encontrar blogues novos para seguir pois muitos dos que segui,  regularmente, há já muitos anos, deixaram de ser actualizados. Um dos meus novos preferidos chama-se O livro de areia. A última postagem que lá li é dedicada ao pintor Félix Vallotton e é um exemplo do cuidado que o autor do blogue, Mário Gonçalves,  coloca nas suas publicações. Como sou grande apreciadora de pintura e não conhecia este pintor, escolhi destacar a postagem aqui. Mas podia ter escolhido outra qualquer, pois não faltam boas sugestões de leitura neste blogue.

Exactamente como um livro, um blogue atrais leitores em função do seu conteúdo. Não digo que O Livro na areia possa ser do agrado de toda a gente, embora eu gostasse que sim, que todos se entusiasmassem com estas ricas publicações sobre a cultura nas suas mais variadas formas de expressão. Se o blogue não tem mais visitantes ou comentários é apenas porque ainda não foi descoberto pelo público certo e não porque não seja uma boa proposta. O Mário Gonçalves escreve com poder de síntese e conhecimento sobre pintura, arquitectura, escultura, música, entre outros temas, como, por exemplo, lugares que visitou, e que ali recorda. Ao contrário de muitos que se limitam a atirar "postais ilustrados" para o blogue, ele descreve com alguma minúcia o seu itinerário, de tal forma que quase podemos dizer que fomos com ele e que ficámos a conhecer (que aprendemos sobre) o lugar descrito Se, por outro lado, nos revela locais que gostava de visitar, é de igual forma muito agradável seguir as suas deambulações sobre o património construido e paisagem natural, muitas vezes locais surpreendentes, remotos, e até míticos, que ele ilustra com fotos pesquisadas e bem seleccionadas.

O conteúdo do blogue O livro de areia é, pois, diversificado, e sempre que passo por lá apenas lamento não ter chegado mais cedo. Apesar de não actualizar com muita frequência, o Mário Gonçalves publica com regularidade. Se atenderem à minha recomendação e decidirem visitar, vão com algum tempo, pois há a possibilidade de ficarem por lá e não darem pelo tempo passar!


25/12/19

Tricotar gorros e botinhas para bebés prematuros até 31 de Janeiro!





Quando fui aos CTT deixar a minha correspondência de Natal estava este folheto no balcão: "O pequeno manual de grandes acções" ensina como tricotar gorros e botinhas para bebés prematuros. Trouxe-o para ver melhor de que se tratava.

É a 3ª edição da campanha da XXS : "XXS - XXL, Pequeno no Tamanho, Grande no Coração 2019" que tem como objectivo alertar para a realidade dos nascimentos prematuros e contribuir para dotar as Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais (UCINs) de todo o País de material de conforto necessário e adequado a estes bebés. Os bebés prematuros têm tendência para arrefecer as extremidades do seu frágil corpinho e é muito importante que sejam aquecidos com gorros e botinhas para os manter com uma temperatura estável. Os gorros e botinhas vão permitir manter os bebés quentinhos e ajudar a promover o vínculo afectivo com os seus pais, através do Método Canguru. Também conhecido como "Contacto Pele a Pele", o Método Canguru é uma técnica utilizada em muitas Unidades, com resultados muito positivos demonstrados em todo o mundo e que consiste no contacto, precoce, prolongado e o mais contínuo possível, de pele com pele, entre os pais e o bebé, permitindo um maior envolvimento no cuidado ao recém-nascido.

Este ano, juntam-se à campanha os CTT e Banco CTT permitindo aumentar, a nível nacional, os pontos de recolha. Por isso encontrei o folheto nos CTT.



A XXS faz nesta campanha um apelo a todos os Portugueses para que tricotem gorros e botinhas em lã própria para bebé, com medidas mais pequenas, adequadas a bebés de baixo peso à nascença e contribuam desta forma para aquecer os corações dos Bebés XXS, dos seus pais, irmãos, família, amigos e profissionais de saúde que os acompanham dia-a-dia nas UCINs de todo o País.

Atenção:

- as peças devem ser tricotadas em algodão ou fibras anti-alérgicas, adequadas para bebés e sem pelo
- sendo sujeitas a lavagens intensivas e frequentes, deve optar-se por fibras de qualidade: um só novelo dá para completar vários conjuntos
- prefira cores neutras, que sirvam para meninos e meninas, o que facilita a gestão dos stocks nos hospitais
- além dos pdf, aqui reproduzidos, no site também há vídeos a ensinar como se faz

A entrega dos gorros e botinhas deve ser feita até ao dia 31 de Janeiro em 58 lojas CTT e Banco CTT e 11 lojas Knot espalhadas pelo país. 

A Nestlé, parceira mais uma vez nesta iniciativa, irá posteriormente recolher o material e entregar junto de todas as UCINs do país. Esta campanha é organizada pela XXS e conta com o apoio da Sociedade Portuguesa de Neonatologia, Nestlé, Knot, CTT, Final Solution e Banco CTT.





24/12/19

Merry Capitalism and Happy New debt!


A ruptura dos diques no Mondego e as bazófias políticas

O dique que cedeu, na margem esquerda do rio Mondego, entre as pontes de Pereira e Formoselha.

João Matos Fernandes, Ministro do Ambiente, acaba de dizer que as pessoas que habitam nas povoações ribeirinhas do Mondego devem começar a pensar em mudar de lugar. Devagarinho, devem começar a pensar nisso. Não tão devagar como isso deviam começar os responsáveis a não dar autorização de construção em zonas de risco, seja perto de rios ou em zonas costeiras. (Só para dar um exemplo: em Matosinhos está para nascer um hotel em cima das dunas, na praia da Memória, que contraria o PDM municipal. As máquinas andam no local neste momento em que escrevo.)  Os planos directores municipais não foram impedimento à construção em muitas zonas de risco e agora chega o Fernandes e diz que é de considerar a relocalização de habitações e de outras infraestruturas como se as casitas tivessem rodas e atreladas a elas estivessem as vidas das pessoas! Na cabeça do Ministro a  solução não passa em investir na segurança das pessoas que ali vivem, passa em convencer as pessoas que viver ali é inseguro, que não existe alternativa, como se as povoações não existissem ali há um ror de tempo, e o Mondego só agora é que tivesse começado a inundar a zona, nem seja possível que ali continuem. Afinal parece que ainda estamos pior que Veneza e  que não poderemos nunca estar tão bem como a Holanda. Mas, por incrível que pareça, nem italianos nem holandeses andam a ponderar deixar os territórios. E digo isto com a consciência de que um dia algumas zonas costeiras possam efectivamente ser tomadas pelo mar.

Ministro diz ainda que em dois meses a recuperação dos dois diques que romperam em Montemor estará completada. Porque é que me parece improvável? Porque não somos os japoneses e vem aí o Inverno, a estação ideal para fazer obras em diques, está-se mesmo a ver. O Ministro também declarou que os diques suportaram uma pressão de água muito superior àquela para a qual tinham sido projectados e que a situação não foi mais grave pelo extraordinário trabalho de manutenção realizado no local. Mas o coordenador da Protecção Civil de Montemor-o-Velho, Hélder Araújo, parece ter opinião diversa: investimento na manutenção e conservação dos diques é inexistente. Perante este cenário, lamento muito a sorte das pessoas que vivem e exploram actividades agrícolas na bacia hidrográfica do Baixo Mondego.

Mas o pior pode muito bem ainda estar para vir. Quem o imagina talvez seja o autarca de Montemor, Emílio Torrão, que já pediu ao Governo os meios para a reparação dos diques com urgência. A população tem doravante de viver em estado de alerta e com o olho na meteorologia enquanto tal não acontece: a margem direita do canal principal do rio - que ruiu sábado levando a água do Mondego para a planície agrícola e colocando pressão no talude do leito periférico, que também acabou por colapsar - tem de ser imediatamente fechada, nem que seja com uma solução provisória. Já a Ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque, que veio com o Secretário de Estado para estar com o Presidente da CM de Montemor-o-Velho, entre outras autoridades, e representantes de associações de agricultores, ver, ouvir in loco, disse que tinha de se fazer uma avaliação, correcta, concreta, dos estragos -  por exemplo, a identificação das infra-estruturas danificadas no sistema de rega - para se perceber se a dimensão dos prejuízos justificará accionar mecanismos para assegurar as condições de trabalho dos agricultores. Para ela a causa destas situações, períodos de seca, depois muita chuva, muita água que os solos não podem absorver, está nas alterações climáticas. Enfim, a comitiva foi a Montemor dar um abraço solidário aos agricultores, " fundamental, estamo-nos a aproximar do Natal, disse a Ministra" -  e ver o castelo. Só faltou a visita do Presidente Marcelo, mas do Afeganistão até Montemor não é um pulinho, desta vez lá ficaram os abraços por dar e muitas selfies por fazer.

Armindo Valente, presidente da Cooperativa Agrícola de Montemor-o-Velho, afirmou que pode demorar meses até que a água desapareça dos campos e que quase "a totalidade da área de cultivo do Baixo Mondego, entre 5.000 a 6.000 hectares, o equivalente a mais de 8.500 campos relvados de futebol, está debaixo de água", fruto das "inundações provocadas pelo Mondego, pelos afluentes, pelo Pranto, Arunca e Foja,"estimando “prejuízos gravíssimos e bastante avultados” para as infraestruturas de regadio e drenagem da planície agrícola, quer por acção da inundação – que há 18 anos arrancou caixas de rega e entulhou valas, entre outros danos – quer pela areia arrastada pelo rio para dentro dos campos. Ou seja, a partir da situação ocorrida em 2001, é relativamente simples estimar o que tem de ser feito.

Diversos rios e afluentes convergem para o Baixo Mondego. Nem todos os rios são controlados por barragens que possam ser usadas para controlar os seus caudais. Também os incêndios, cada vez mais frequentes, despiram os solos de árvores e vegetação permitindo que as águas arrastem detritos e sedimentos que se depositam assim que a água vai perdendo velocidade ao longo do seu curso ou até nas albufeiras das barragens, quando existem, que deixam de comportar tanta água quanto podiam se não forem de lá retirados. Em caso de cheia, os detritos são transportados para fora do curso dos rios. A barragem da Aguieira disciplinou o Mondego, juntamente com a construção de canais e diques, a de Fronhas, controlou o Alva. A planície aluvial do Mondego tem um leito onde corre o rio e adjacente a este existe um espaço de tradicional inundação, onde se foram acumulando sedimentos ao longo de anos e anos. Nos terrenos férteis, cultura de arroz e milho, na zona mais elevada, plantio de árvores, oliveiras, vinha, e também há salgueiros em muitos pontos. A partir dos anos 80, as casas e estradas começaram a esticar-se por zonas que dantes eram facilmente inundadas e que se passou a  acreditar serem seguras em virtude da barragem e obras. Mas o risco de inundação estava lá. Quando chove intensamente, os sedimentos acumulam-se agora no leito novo que construíram para o rio. Os diques garantiriam que a água não transbordasse, mas se os sedimentos não forem retirados, a água vai transbordar com maior facilidade, invadir os campos e os sedimentos também serão cada vez levados para mais longe, maior que seja a inundação. Cada nova cheia originará maior alagamento caso não se façam as limpezas. Não há como controlar toda a água que se encaminha para o Baixo Mondego: há cursos de água sem barragens e ninguém sabe como é que se vai comportar a chuva. Sabemos que o nosso clima, mesmo sem quaisquer ameaça de alterações climáticas, pode sempre ter invernos muito plumosos. Há aqui dois focos de preocupação: um é Montemor, outro é Coimbra. Em Coimbra também é de referir o açude-ponte que impede que os sedimentos desçam mais abaixo, acumulando-se até aí. Coimbra recebe muita água do Ceira e muito detrito chega por aí. O Basófias, o barco,  nem sempre conseguia circular. Aí a polémica são as obras de desassoreamento, para melhorar as condições do Rio Mondego, permitindo o aumento e suporte de caudais maiores para que em situações climatéricas extremas as águas não transbordem, diminuindo o risco de inundações em Coimbra, mas não isentas de crítica. Em Janeiro e Fevereiro de 2016 o rio transbordou e agora aconteceu de novo. As pessoas viveram momentos terríveis há 3 anos e houve grandes prejuízos privados e públicos, tendo o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha sido um dos monumentos atingidos. Por essa altura, João Pedro Matos Fernandes também dissera que aquilo não podia voltar a acontecer! Pois bem: aconteceu.



Ora, tentando saber - porque não adianta ouvir os Ministros, para eles estás sempre tudo perfeito, estamos sempre na vanguarda, bla,bla, bla - se estas obras de Regularização do Baixo Mondego, que foram feitas nos anos 80, para garantir maior produtividade no Baixo Mondego, os diques, os canais, se estão a ter a devida atenção por parte de quem deva fazer a sua manutenção, em relação à infra-estrutura e também no que toca à limpeza, encontrei a opinião do bastonário dos engenheiros, Mineiro Aires, que diz que desde a crise internacional de 2009 que houve um desinvestimento do Estado em tudo quanto é infraestrutura ( ferrovia, por exemplo) e portanto, também é de supor que os diques não tenham sido acautelados, referindo que "em 2001, altura em que (eu) era presidente do Instituto da Água, a manutenção era deficiente por falta de investimentos." Segundo ele, a obra não defenderá eternamente as pessoas, a obra foi prevista para um certo período e um certo caudal. É preciso completar a obra para que o sistema funcione. Diz ainda que "A Agência Portuguesa do Ambiente está completamente sem meios e está na altura de admitir quadros para que estes ainda possam conviver com os muito poucos que lá restam da geração antiga e que têm este conhecimento todo..." Ora bem, eis o que me parece: a obra foi bem pensada e funcionaria garantindo a segurança das pessoas contra inundações para um certo caudal se tivesse sido concluída, e tudo estivesse a funcionar de acordo com o estipulado no projecto, e feita a manutenção devida, nomeadamente em relação a assoreamentos. Só que não estava em 2001 e é possível que não esteja agora.

Em 2001 os diques não aguentaram e a água provocou graves prejuízos em Montemor: uma ponte caiu, os campos foram inundados, estradas foram danificadas, casas, estabelecimentos comerciais da vila, sofreram prejuízos. Na Ereira a água chegou ao primeiro andar das casas e isolou a povoação, centenas de pessoas ficaram desalojadas. Foram prometidas linhas de crédito para ajudar os agricultores. Mas oito anos depois um criador de gado, era um de oito empresários da região, que aguardava a condenação do INAG (Instituto da Água) que, segundo ele, teria negligenciado a manutenção dos diques do Mondego, que, face ao aumento de caudal, rebentaram, conduzindo à inundação no Baixo Mondego. A juíza deu por provado "que os diques se encontravam fragilizados em vários pontos, por efeito de assentamentos pontuais e da erosão provocada pelas anteriores cheias" ou que os "sifões de descarga situados na margem direita do leito central do rio Mondego não funcionaram na sua plenitude, não descarregando os volumes máximos de água para os quais foram projectados e construídos". Já o INAG defendia que as inundações eram inevitáveis, face à quantidade de chuva que caiu em Dezembro de 2000 e Janeiro de 2001: "As precipitações elevadas e contínuas durante aquele período de dois meses conduziram à saturação dos solos e diques". O despacho deu por provado que" a rotura do dique ocorreu por colapso, com rebentamento súbito, por efeito de liquefação dos materiais componentes do corpo do dique".

Dez anos depois das inundações de 2001, um especialista, Pedro Proença Cunha, alertava para o risco de voltar a registar-se uma cheia no Baixo Mondego com caudais idênticos ou superiores a 2001, quando a zona foi inundada, provocando avultados prejuízos materiais, enquanto o então o autarca de Montemor-o-Velho, Luís Leal, lembrava que a obra hidro-agrícola no rio Mondego e outras intervenções, subsequentes às cheias, não estavam ainda concluídas, tinha-se trocado o Mondego pelo Alqueva.

Ora, ainda há poucas semanas João Matos Fernandes escreveu a Greta Thunberg, dizendo estar grato pelo seu activismo, como forma de sensibilizar todos, gerações novas e velhas, para o maior desafio dos nossos tempos, lamentando-se de termos já perdido 13 quilómetros quadrados das nossas áreas costeiras em resultado da subida do nível do mar nos anos recentes. Que no sul do país, a seca é crónica e ainda precisamos de saber como vamos adaptar o nosso uso de recursos a esta realidade. Disse também que Portugal tem uma estratégia de adaptação nacional à mudança climática muito ambiciosa, que está a seguir rigorosamente, uma vez que para Portugal essa mudança já é um problema actual, não um problema de futuro. Não sei se Portugal tem uma estratégia para as alterações climáticas, mas sei, a avaliar por aquilo que o Ministro disse, o que Portugal não tem: é estratégia para o Baixo Mondego.  O que não deixa de ser ridículo. A Holanda consegue controlar a água do mar e nós não conseguimos controlar um rio, mas queremos estar na linha da frente do combate às alterações climáticas!  A verdade é que  a estratégia para o Baixo Mondego está a meter água, e não é pouca. Temos um Roteiro para a Neutralidade Carbónica! Duvido que seja exequível. Se nem as inundações do Baixo Mondego e Coimbra estes iluminados conseguem prevenir, vamos conseguir a descarbonização até 2050? ( N. B. Entre as inundações em Montemor, em 2001, e o momento actual decorreram praticamente 20 anos.)


21/12/19

Antes que o Outono diga adeus...



Não sei se as tempestades dos últimos dias  terão deixado por varrer alguma das folhas caídas. Mas se ainda encontrarem por aí alguma, eis uma dobragem que podem experimentar! Há mais propostas para descobrir aqui, mas esta é a mais lindinha delas!

20/12/19

Desafio dos pássaros #15: rudolfo@casadopainatal.org


(Ganso das neves - Anser caerulescens)

Srª. Rudolfo. Venho por esta via reclamar do resultado do concurso de recrutamento e selecção para a posição de Pai Natal que teve lugar online. Tomei conhecimento de que fui preterida em virtude do meu sexo. A legislação laboral nacional e internacional está do meu lado. O que a srª. fez foi descaradamente discriminatório! A srª. é um animal que não sabe reconhecer o que é talento. Já me informei junto da Autoridade para as Condições de Trabalho e irá ser notificada em breve. Ser assim tratada por uma rena que foi gozada pelas suas congéneres por ter um nariz diferente só prova que o poder cega mais que o nevoeiro na noite. Já se esqueceu como foi escolhida pelo Pai Natal para ser a 9ª rena do trenó? Por causa da sua luz! Porque assim se evitavam atrasos e acidentes!Também eu sei que posso fazer a diferença como o Pai Natal do séc. XXI: tenho muita luz para oferecer. Prepare-se para provar que não houve preferência de tratamento do candidato seleccionado só porque ele tem uma pila. Isto vai ser o fim da sua história radiosa, sua bola de pelo cruzada com um semáforo de trânsito! Pedirei uma indemnização por danos patrimoniais e não patrimoniais pela afronta sexista e exigências absurdas: uma fotografia de rosto, outra de corpo inteiro e cinco cartas de recomendação? Horas para conseguir preencher o curriculum vitae no formulário online do site oficial! E os dois dias que passei no Centro Médico para tratar do atestado de robustez física e psicológica? E as longas semanas a estudar geografia mundial, a santa história de S. Nicolau, a vida no árctico, a biologia dos cervídeos? A srª. sabia que a sua espécie se encontra ameaçada de extinção? E a lista interminável de catálogos de brinquedos infantis que tive de decorar? E o curso intensivo obrigatório dos 50 idiomas básicos para ler cartas das crianças e conversar com elas? Mais a formação, paga por mim, em psicologia infantil que tive de frequentar! E depois disto tudo uma  entrevista relâmpago online em que pergunta qual é o meu maior defeito?! Tenho brevet de voo e disponibilidade para viajar para a Lapónia amanhã. Ainda podemos resolver isto sem recurso ao tribunal. Já não bastava toda uma história de opressão patriarcal, agora, em pleno séc. XXI, inaugurar-se a história da opressão renal é muito má publicidade para o Natal, srª. Rudolfo!

Tema da semana: O Pai Natal decidiu reformar-se e as entrevistas começam esta semana. Descreve uma dessas entrevistas na perspectiva do recrutador de recursos humanos: A Rena Rudolfo.

19/12/19

Christmas is Coming: Porque gosto do Natal



Não ia escrever mais sobre o Natal mas ontem dei uma pequena voltinha por blogues do Sapo e estavam mega-super-hiper natalícios. Acho que fiquei com inveja! Então resolvi escrever mais uma postagem do Desafio que a Cat criou para espalhar um pouco do espírito natalício na blogosfera. A Cat nem nos deu margem de manobra, a hipótese de não gostarmos do Natal nem se coloca, pois o tema que ela deu é: Porque gosto do Natal.

Durante muito tempo dizer que não se gostava do Natal era um quase crime. Depois ocorreu o inverso: passou a ser tendência criticar o Natal com ligeireza. Tudo é motivo para detestar a chegada do "dia N". A lista é tão grande quanto se queira. Um motivo é que não se sabe quando nasceu Jesus Cristo e que festejar o nascimento a 25 se trata de uma farsa. Mas não é uma farsa. É uma mera convenção. Jesus nasceu em Dezembro, na Judeia, em Belém, mas em que dia é realmente um mistério. Dá jeito, ou não, que se tenha convencionado um dia? Podia ser de outra maneira? Não! Parem lá de ser picuinhas e glória a Deus nas maiores alturas! E na terra paz entre homens de boa vontade!

Outra razão invocada para detestar o Natal é a aborrecida programação da TV repleta de filmes de Natal e de retrospectivas de tudo o que de melhor e pior se passou no ano. Ó gente: não acredito que isso ainda seja um problema, não hoje, tempo de reinado do Netflix, Youtube e não sei quantos canais MEO.  E as canções de Natal tocadas até ao infinito - já escrevi sobre elas aqui. Outra é a sempre referida obrigação de dar presentes: "Ah, eu gosto de dar, mas não gosto de dar obrigada." Mas quem é que obriga alguém a dar presentes no Natal, ó Deus meu?Alguém alguma vez apontou uma arma à cabeça de alguém a 24 de Dezembro dizendo: o presente de Natal ou a vida? Não querem dar, não dão. (A verdade é que a maioria das pessoas que diz isto nunca daria presentes, NUNCA, se não fosse disso lembrada. Conheço algumas. ) Mas... e a pegada ecológica do Natal? Árvores de plástico, decorações, papel, caixas, embalagens e plásticos, materiais que nem sempre são devidamente separados para a reciclagem... E todas aquelas escolhas de produtos pouco úteis e pouco duráveis, nada sustentáveis, "simbólicos" , de que depois ninguém gosta verdadeiramente, com que se cumpre a tradição? A lista de motivos continua.

Nunca tantos criticaram os excessos do Natal: o consumismo, a mesa de empanturrar, a solidariedade de ocasião. Mas se a tradição já não é o que era, não está nas mãos de quem critica mostrar que  a mudança é possível? Porque os outros estragaram o Natal, vou deixar de gostar do Natal? Não será  o Natal muito mais do que o mau uso que alguns fazem dele? Afinal, quem é que faz o meu Natal: os outros ou eu mesma? Quem lhe dá sentido? As ser assim, porque não hei-se gostar do Natal? Se não pode mudar o mundo, mude o seu mundo! Não é o que se diz? Nós somos e fazemos a mudança. (Agora parecia uma candidata política em campanha!)

O que me parece é que o Natal apenas correu atrás dos tempos. E como são os tempos? São velozes. Levamos cada semana, durante o ano inteiro, desde a odiada segunda-feira ao ansiado final de semana, a correr. A pressa é tanta que nem há tempo de pensar em ajudar o próximo, de visitar aquele familiar de mais longe ou de ouvir as razões dos outros. São exibicionistas, o ter é mais importante que o ser:  partilhamos online cada compra que se fez, gostamos de ostentar as melhores marcas, o telemóvel mais cool, o prato gourmet no restaurante mais in. A pressa dura todo o ano, o exibicionismo consumista, também. De repente é Natal : toca a comprar novas decorações, montar a árvore, postar online para todos verem. Toca a insistir com as crianças para escreveram ao Pai Natal a pedir as prendas que querem receber este ano. Depois, marcar os jantares de Natal, - empresas, amigos, família -  despachar as compras no shopping,  viver o stress da fila para os embrulhos. Queixar-se da pressão da solidariedade como se ela fosse um evento tão anual como o Natal e que não se pudesse ter resolvido em qualquer outra ocasião do ano, como devia ser. Quando o Natal chega já vem imbuído de tudo aquilo que foi o ano comum: o corre-corre, o exibicionismo, o consumismo. Como podia ser de outra maneira?

Dou mais razão àqueles que criticam menos os excessos e mais o facto de existir muita gente infeliz e sozinha para quem se torna difícil passar por este período de festividades sem se sentir alienada. Dos anúncios de TV e internet  que sempre mostram gordas reuniões de famílias felizes, aos presentes embrulhados nas mãos dos transeuntes, ou montras e ruas decoradas, onde uns vêem festa, eles apenas tristeza. Nem todas as famílias são numerosas e exemplares: há quem ande de costas voltadas há anos e nem nesta ocasião esteja para festas, assim como há casos de reuniões familiares que não são pacíficas, antes meros actos de fingimento para cumprir a tradição, ou para agradar a um ou a outro membro da família a quem não se pode dar um desgosto, ou às crianças. Há, também, famílias que sofreram perdas, por vezes perfeitamente naturais, fruto da passagem do tempo, que abriram feridas dificilmente saráveis e que esta época torna mais vivas. E há toda uma multidão de pessoas que luta com problemas da mais diversa índole e para quem esta época é um mais que justificado transtorno sobretudo emocional. Assim sendo e sendo assim, porque haveria eu de gostar do Natal?

1. Festa é festa! É sempre bom haver um motivo para festejar!


Ora, eu não sou religiosa mas tenho razões para a festa. Detesto a escuridão e o Natal começou por ser a festa da luz, a celebração do solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de Dezembro. Hoje sabemos que a data do solstício de Inverno é 21 ou 22 de Dezembro, não 25. A partir daí, como se costuma dizer, os dias crescem. É aí que começa a caminhada dos dias até ao meu amado Verão. Podem, por favor, deixar-me ser um bocadinho pagã como o eram os romanos tantos, e tantos anos, antes da vinda de Cristo, e festejar isto? Todas as antigas civilizações faziam desta data uma festança, possivelmente com dança, comida e abundante bebida, sexo, e luz, muita luz, fogo. Anos depois chega o Cristianismo e ao verem a popularidade destes cultos, apropriaram-se da ocasião, por conveniência, ou seja, paganizou-se um bocadinho. Foi Aureliano, Imperador da Roma, quem estabeleceu o dia do nascimento do Sol em 25 de Dezembro como "Natalis Solis Invcti", ou Dia do Nascimento do Sol Invencível. Assinalava-se o nascimento de Mitra-Menino, Deus da Luz, pagão. Nesta noite também tinha início o Solstício de Inverno, segundo o Calendário Juliano, que seguia a "Saturnalia" (17 a 24 de Dezembro), festa em homenagem a Saturno. Mas depois vem Constantino, o Imperador de Roma que, por decreto, torna o Cristianismo a religião oficial do império romano. Ele próprio adorava o Mitra, o Deus Sol, mas depois converteu-se e fez do 25 de Dezembro uma festa cristã.



2. Árvores de Natal enfeitadas de toda a maneira e feitio!


O pinheiro de Natal é um dos maiores símbolos natalícios. Não sei quantas pessoas conhecem que têm uma árvore de Natal montada em casa todo o ano. Eu tenho uma pequena árvore sempre em exibição. Em Dezembro gosto de fazer uma maior. Acho realmente bonita esta tradição de enfeitar as árvores. É uma tradição que vem de longe. Os pinheiros sempre foram celebrados pelos povos antigos pois têm folhas perenes sendo natural que causasse espanto no mais rigoroso Inverno ver uma árvore perfeita. Isso seria um atributo mágico ou sagrado em tempo de cultos de divindades e da Natureza. Ramos de pinheiro eram trazido para casa acreditando-se que tinham o poder de espantar maus espíritos, doenças e infortúnios. 

Existem muitas histórias sobre a origem da árvore de Natal, tal como hoje a conhecemos, o mais certo é que seja a Europa o berço dessa tradição, pagã, claro. Mas uma lenda bonita tem uma sugestão mais mística: numa colina junto ao estábulo de Belém erguiam-se três árvores: uma oliveira, uma palmeira e um pinheiro. Quando o menino nasceu cada um quis ofertar o que de melhor tinha para dar: a oliveira deu os seus frutos, a palmeira a protecção da sua sombra mas o pinheiro nada tinha para dar. Então as estrelas do céu vieram em seu auxílio e uma chuva delas caiu nas ramagens enchendo a árvore de luz.

Também no exterior eu abdicaria da maioria das decorações luminosas pois o que mais gosto de ver são, mais uma vez, árvores simplesmente decoradas com luzes à roda dos seus troncos ou na copa. Este ano, uma araucária com 32 metros de altura, que a Câmara da Figueira da Foz resolveu mandar decorar, transformando-a em árvore de Natal, tornou-se atracção turística. Criticam-se as verbas gastas pelas autarquias neste departamento das iluminações que, li algures, já somarem 10 milhões de euros no todo nacioanl. Não haveria um melhor uso para todo este dinheiro, pergunta-se? Só que depois das luzes se acenderem todos gostam de passear nas ruas enfeitadas e as reticências desaparecem. Por mim, aceitaria de bom grado que fossem retiradas as decorações se me assegurassem que esse dinheiro era melhor utilizado. Mas eu já não acredito no Pai Natal. Além disso, é um negócio como outro qualquer, presente ainda em romarias e outras festas. E porque não desenvolverem alternativas mais ecológicas e económicas destas decorações? Essas propostas facilmente venceriam os concursos autárquicos, estou certa. Todos os anos aparecem árvores de Natal feitas com plásticos reaproveitados que são realmente fantásticas. São apenas um exemplo de como com engenho e criatividade tudo é possível.

3. As ilustrações dos cartões de Natal e as cores verde e vermelho

Tenho uma caixa cheia de cartões de Natal recebidos ao longo dos anos. Os que me enviaram em criança são mesmo especiais pois esse tipo de ilustração já não se faz. Adoro abri-la por esta altura do ano, ler alguns e rever todas aquelas maravilhosas ilustrações. É também uma forma de relembrar  pessoas que já não estão na minha vida. Nunca existiu tanta variedade de cartões como hoje mas a internet quase acabou com esta tradição, que também é desincentivada em nome da pegada ecológica! Para minha felicidade, penso que nos últimos anos o hábito está em retoma. Envio e recebo muito poucos cartões, em comparação com o que sucedia no passado. No entanto são muito mais significativos agora pois tornaram-se uma quase raridade. Também desenho alguns, sobretudo encomendados por clientes, ou para oferecer, como aquele que mostro acima, feito para o filho de um amigo meu. Outra coisa que gosto no Natal é a omnipresente combinação de verde e vermelho!




4. Fantasias de Natal de Chocolate e gulodices da época!

Reunir pessoas à mesa devia ser sempre uma festa, seja Natal ou não. Natal à mesa, para mim, é sinónimo de aletria e de rabanadas.  Também gosto de "mexidos", um doce do norte! Este ano vou fazer bolo inglês e aletria. Não, não me vou empanturrar. Lembram-se dos "excessos"? O Natal não deixa de ser Natal por ser simples. E é esse o segredo. Umas pequenas grandes protagonistas da época são as fantasias de chocolate: não podem faltar na árvore e desaparecem rapidamente! Embora não seja preciso qulaquer pretexto para comer chocolate, elas são uma forma divertida de regressar à infância que o chocolate nos permite nesta época!



5. O presente do "espírito do Natal"


O Natal é, para os religiosos, um tempo de culto. Não renegam os presentes, a árvore, a ceia em família, mas sabem que isso é acessório. O importante é o nascimento do menino Jesus e a sua adoração. Ora, se fosse religiosa,  decerto que iria à missa, diria as minhas orações, montaria um presépio. Não faço nada disto mas aceito o presente do espírito de Natal que esta época me trás. Os não crentes também podem receber este presente. E ele é tudo o que um bom presente deve ser: é útil, é durável, é sustentável. Trata-se, por um lado, de um convite a que renovemos a nossa fé na humanidade, na força do perdão, no poder da generosidade e da partilha. Por outro, um incentivo a que nos esforcemos por crescer como pessoas todos os dias do ano. Como? Essencialmente respeitando os outros e sendo justos e fraternos. É esta a magia do Natal de que tanto se fala. Difícil é realmente colocá-la em prática por mais que um mês no ano. Mais fácil, é tentar de novo a cada novo Natal.

O milagre do Natal


16/12/19

Marriage story: o surpreendente Adam Driver !


“Somebody to crowd me with love / Somebody to force me to care / Somebody to let me come through.

Acredito que nada do que lerem vos dará uma boa pista para o que este filme é. E, possivelmente, nada do que vou escrever aqui. Imaginem que a vida familiar de um casal está na rota de um furacão.  Nicole e Charlie sabem que estão no caminho da separação. Não sabem é que vão ser eles o furacão. Nada fica por tocar. As vidas de ambos são revolvidas, mas, para surpresa de todos, ou não, esse vendaval raivoso também nos mostra o amor. O amor persiste no olho do furacão onde tudo está calmo. Ele está ainda lá, por pouco tempo, talvez, enquanto à volta tudo rui, tudo se despedaça e rasga. Então é preciso que fujam de si mesmos. Não há outra via. E assim esse amor será poupado.

Vi o filme Kramer contra Kramer nos anos 80, já bem depois de ter estreado, e quando começaram circular rumores acerca do grande filme que era Marriage Story, - e também o poster do filme -  lembrei-me de imediato do trio Kramer: eram Justin Hoffman, Meryl Streep e um puto lourinho. Nessa altura toda a gente vira ou falava de Kramer contra Kramer. Foi um enorme êxito e tornou-se um clássico do cinema. No filme, Joanna deixa o marido e este tem de cuidar do filho, sozinho. Se há males que vêm por bem, aqui foi bem assim: um pai que não sabia ser nem marido nem pai adapta-se à sua nova vida e revela-se capaz, descobrindo o que estava a perder. Entretanto instala-se uma batalha legal quando a mãe, arrependida, regressa tempos depois para se bater pela custódia do filho.

Agora que já vi Marriage Story, houve, de facto, coisas similares, mas não têm nada a ver com cópia ou inspiração. O realizador já tinha feito um filme sobre o divórcio - Squid and the whale, - inspirado pelo dos seus pais. Agora diz-se que parece ter sido o seu próprio o material sobre que trabalhou para este. No primeiro, o divórcio era visto pelo olhar dos filhos jovens, este, é-o pelo de ambos os intervenientes e Noah Baumbach esforçou-se bastante para que seja muito difícil tomar o partido por algum deles. Vejam, e depois digam-me se tomaram partido por alguém. Não sendo uma história nunca contada, é, mesmo assim, um bom filme. Começa onde tudo acabou, mostra-nos o amor que existia entre Charlie e Nicole, e que ainda existe, enquanto se desenrola o tumultuoso processo de divórcio, conduzido pelos inevitáveis advogados: é desconcertante pois é como se os dois perdessem o controlo das suas vidas a partir do momento em que contratam estas personagens sinistras. Preparem-se para momentos comoventes, dramáticos e também hilariantes, embora o filme seja realmente um drama. Preparem-se porque eu não estava preparada para ser arrastada para dentro desta contenda de emoções.

À semelhança de Charlie, em Marriage Story, também Ted, em Kramer, o marido, um publicitário, andava sempre obcecado com o trabalho. E há uma cena de Charlie a jantar com o filho, ou mesmo os sofás e as plantas do novo apartamento que tem de arrendar em LA, que me recordaram o velho filme. Em Kramer, é também a mulher que pede o divórcio, uma mulher que vivia para os seus afazeres domésticos e que se sente invisível, ansiando por uma vida a que acha que tem direito, um pouco como Nicole, em Marriage Story. Diferentemente do que sucede aqui, em que os dois elementos do casal têm idêntica voz, Joanna mal aparece no filme de 1979. Um dos problemas em foco no  filme era o de saber se uma mulher é melhor que um homem a cuidar de um filho em virtude do seu sexo. Tal como em Marriage Story ambas as personagens tinham motivos válidos para fazer valer a sua pretensão de querer a custódia do filho perante o juiz que encarnava a posição mais tradicional: os filhos devem ficar com as mães. E tal como em Marriage story, o casal vive entre o carinho que ainda nutrem um pelo outro e a decepção. Ganhou uma meia dúzia de Oscars. O que mais gostei então foi a história da redescoberta de ser pai que existe dentro desta história sobre o divórcio, creio que  ainda  hoje será bem bonita de redescobrir pelo público. Vejam. Ou então não vejam e vejam antes Marriage Story, que também é um filme de histórias, a pouco e pouco reveladas: a do casal Nicole e Charlie. 

Inicialmente Nicole e Charlie parecem ser um par protagonista de uma qualquer comédia romântica. Mas rapidamente a vida em comum que partilharam vai passar à história: o amor e o respeito vão ceder à quase selvajaria (verbal, sobretudo). Por instantes  pensei que fosse haver mortes, mas não, o mais grave que sucede é um murro na parede. Os aleijões são menos superficiais que profundos: o filme torna visível a dor destas pessoas, o seu sofrimento, e sempre sem lamechismos ou escolhas fáceis, e sem nos manipular. A dor chega em doses brutais enquanto se redescobrem um ao outro,  e dá  a volta ao amor que sentiam em menos de nada. A questão crucial de todo este turbilhão de emoções é a disputa do filho de 8 anos, agora que a mãe passa a viver em LA e o pai em Nova Iorque. E as suas  armas não vão ser outras que não as palavras. As suas, ou as dos seus implacáveis advogados, que se encarregam de re-escrever a história de ambos, no melhor interesse dos seus clientes.

O filme investe fortemente sobretudo diálogos bem escritos. E monólogos. Os diálogos são batalhas onde não há vencedores nem vencidos. Nesta luta quebram os dois, reconfortam-se os dois.  Há uma intensidade nestas interpretações, quer nos momentos de crise quer nos mais contemplativos, e uma autenticidade que dificilmente deixará quem assista indiferente. Todavia, Marriage Story não se resume a boas interpretações de todos os envolvidos, incluindo os secundários. Funciona bem no todo. Nada é avulso. Outras cenas menos emotivas são ainda ricas em significados, até mesmo as que nos mostram como pai e filho vivem o Halloween. Preparem-se ainda para uma insinuante banda sonora romântica. Além dela, há duas canções de Sondheim cantadas por Nicole e Charlie. Se não sabem quem é, ele é o autor de Sweeney Todd e West Side Story, entre outros musicais da Broadway. Ainda há pouco o filme Joker usava Send in the clowns e agora Marriage Story também se lembrou dele: uma boa lembrança, algo teatral mas no bom sentido, num filme onde as duas personagens principais trabalham no teatro, mas, no caso de Charlie,  também contribuindo por uma das cenas mais emblemáticas do filme.

Comecei a ver Marriage Story sem grande interesse, pensando, WTF, mais um Kramer contra Kramer! Mas acabei rendida ao filme. E é verdade que foi assim a modos que uma espécie de Kramer contra Kramer! Além disso, ao contrário, parece, da maioria, nunca fui muito apreciadora da Scarlett Johansson. À semelhança do que se passa com muitos outros actores e actrizes, isso nunca  é motivo para não ver um filme, apenas nunca é motivo para ver. Há alguns filmes onde ela entra de que gosto muito: Under the skin, Vicky Cristina Barcelona, Lost in translation. Fico-me por aí. Pois bem: este soma-se à lista. Ela realmente brilha neste papel, mas quem é surpreendente é Adam Driver. Talvez porque o realizador tenha sido mais simpático com a sua personagem? Lembram-se de eu ter escrito que se o Joaquin Phoenix não ganhasse o Oscar este ano eu nunca mais ia ao cinema? Pois bem: a competição vai ser renhida. ( E ainda não vi todos os actores nomeados.) E eu gostei tanto de ver o Adam Driver a ser Charlie que até já me conformei se ele levar a estatueta. Quanto a Adam Driver, com a sua carreira mais curta que a de Scarlett, gostei especialmente dele em Paterson ou BlacKkKlansman, ou mesmo como o padre jesuita em Silence, de Scorsese. É um bom actor.  No entanto não esperava algo assim. Foi uma surpresa e uma das razões fortes para recomendar este filme.

15/12/19

Migrantes: de Marrocos ao Algarve num barco de madeira?!


De El Jadida a Monte Gordo, 700 km em linha recta

As migrações fazem parte da história do mundo. A breves dias do 1º aniversário da aprovação final do Pacto de Marraquexe, - Pacto mundial para as imigrações seguras, ordenadas e regulares - que teve lugar no dia 19 de Dezembro, na sede da ONU, em Nova Iorque, e onde Polónia, Hungria, Estados Unidos, Israel e República Checa votaram contra, eis que chegaram marroquinos à costa algarvia. Tal facto já não acontecia desde 2007. O Pacto não é vinculativo e fundamenta-se em valores de soberania do Estado, de partilha de responsabilidades e não-discriminação dos direitos humanos. Os Estados signatários comprometem-se a melhorar a cooperação na migração internacional, cabendo a cada país aprovar internamente a legislação mais adequada aos seus interesses e também determinar a melhor política migratória segundo o direito internacional. Uma acção conjunta, de perspectiva e planeamento, é desejável parar tentar resolver ou minorar o que tem acontecido: um mar de mortes, caos e uma sensação generalizada de medo e insegurança em grande parte da Europa. As migrações contribuem para o desenvolvimento económico mas actualmente são sobretudo vistas como ameaça à ordem pública e à identidade nacional. 

A chegada de um grupo de oito jovens à praia de Monte Gordo, na passada quarta-feira, disseram eles depois de uma viagem de 700 km, de 4 dias, num barco de madeira de sete metros, com motor, frequentes na costa marroquina, parece, pois, ter despoletado o medo da invasão dos "estrangeiros barbudos e criminosos" e a discussão costumeira sobre o "fim que assim se anuncia da nossa civilização" . Ora, nem todos os estrangeiros são vis e em grande parte, se a nossa civilização ruir, não será apenas porque nos estão a invadir aos poucos, mas também porque todos os dias provamos ser corruptos, gananciosos, egoístas, e, podem crer, se não conseguimos defender-nos de nós próprios é certo que não nos conseguiremos defender dos outros, no que de pernicioso nos aportarem. Quando vi o barco onde navegavam logo imaginei um barco maior de traficantes a largá-los naquele mais por perto. Esses traficantes, esses, é que são indiscutivelmente criminosos. Sempre. A caminho da costa do Mediterrâneo muitos migrantes são forçados também a pagar pela sua segurança a organizações criminosas e terroristas que chegam a atacar campos de refugiados para os colocar em fuga e lucrar com isso. Os "passadores" lucram com a pouca sorte desta gente que depois mandam para a morte em embarcações sem qualquer segurança.

O Jornal do Algarve mostrou um vídeo onde, num barco, estão alguns dos rapazes do grupo, e outros, que não se sabe onde param. E ainda outro vídeo, de celebração à chegada a Monte Gordo.

Foto cedida pelo Jornal do Algarve

Ora, os jovens da foto disseram ser marroquinos, o que depois parece ter sido confirmado, ter entre 16 e 26 anos, e ter partido de El Jadida. Curiosamente, a cidade de El Jadida é a antiga Mazagão que foi fundada por portugueses, no séc. XVI. Abandonada por nós, foi depois re-nomeada para El Jadida, que significa "a nova". A nossa marca ainda pode ser admirada de pé: igrejas, uma fortaleza em cujo interior muralhado é possível percorrer ruas com nomes portugueses, e uma curiosa cisterna. Se não tivéssemos aprendido isso nas aulas de História, talvez o nome nos fosse familiar em virtude da canção do Rui Veloso, "À sombra da tamareira", do LP Auto da Pimenta: À sombra da Tamareira, encontro o meu refrigério/ Cavo a minha trincheira, aliso o meu cemitério/ Aqui cheguei era alferes, tinha goma no jibão/ Vim defender as muralhas da praça de Mazagão. "

O destino era a costa de Espanha e não a nossa. Depois de terem tomado banho, comido - tinham-se alimentado de fruta e amêijoas vivas na viagem - e pernoitado, já estavam mais inclinados a ficar por aqui mesmo. Se os deixarem, claro. Olhando para o barco parecia impossível terem feito tal viagem e agora há suspeitas de que possam ter sido desembarcados a partir de um maior. Não vinham muito agasalhados e até sobrava combustível. Certo é que foram avistados por pescadores e encontrados escondendo-se nas dunas, com fome e frio. Não ofereceram resistência à polícia. Suspeita-se, claro, de imigração ilegal. Disseram-lhes o que o futuro lhes reservava e eles atiraram o barro à parede: fizeram o pedido que que lhes fosse concedido estatuto de asilo ou protecção subsidiária, o que está agora em análise, havendo um prazo para as autoridades deliberaram sobre a sua sorte. Uma empresa de construção civil já se mostrou interessada em lhes dar trabalho. 

Já não recordava o caso dos 23 homens e mulheres que desembarcaram na ilha da Culatra, em Olhão, em 2007, provenientes de uma ilha ao largo de Rabat, e que foram repatriados. Mas tenho bem presentes as imagens da lancha que chegou a uma praia espanhola o ano passado. As pessoas desembarcaram e espalharam-se pelo areal cheio de banhistas em várias direcções. Como frequento muito a praia, de imediato dei por mim a pensar o que faria se assistisse a algo assim. Se ficaria com medo, se alertaria as autoridades, se os tentaria abordar. De Rabat até ao Algarve de barco são menos de 700km, mas não muito menos. Não sei se quanto a esse grupo foi confirmado que vieram nesse precário transporte. Demoraram quatro dias a chegar. Na eminência do repatriamento várias associações protestaram invocando não se tratar de criminosos mas de pessoas que estavam a ser limitadas no seu direito à mobilidade, que apenas procuravam um futuro melhor, sendo essa barreira uma afronta aos direitos humanos, havendo directivas comunitárias, convenções internacionais, e instrumentos legais portugueses que obrigavam à garantia de protecção destes imigrantes, que sendo expulsos arriscariam de novo a vida, pelo que fazer isso seria condená-los a mais uma hipótese de morte nas águas. Quando foram, efectivamente, repatriados, o que mais desejavam era poder tentar de novo como se a jornada empreendida tivesse sido fácil. Foram detidos à chegada a Marrocos, metidos na prisão no seu país e aí mesmo alvo de injustiças diversas. E, depois disso, libertados para continuarem a viver em condições de pobreza e no medo de serem perseguidos pelos traficantes que desconfiavam ter sido denunciados. Alguns voltaram a tentar a viagem alcançando finalmente Espanha, onde tinham família.

Este grupo que agora chegou a Monte Gordo, teve a possibilidade de beneficiar de uma lei que não existia à data dos migrantes de 2007. Ao requererem a protecção internacional, nos termos da lei 27/2008 de 30 de junho ("Concessão de asilo ou protecção subsidiária"), estão autorizados a permanecer em território nacional até à decisão sobre a admissibilidade do pedido pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

A lei fala de condições que se devem verificar para essas pessoas poderem beneficiar do estatuto de refugiado ou de pessoa que, por outros motivos, necessite de protecção internacional. O direito de asilo é atribuído somente a quem for perseguido ou gravemente ameaçado de perseguição, em consequência de actividade exercida no Estado da sua nacionalidade ou da sua residência habitual em favor da democracia, da libertação social e nacional, da paz entre os povos, da liberdade e dos direitos da pessoa humana. Ou ainda a pessoas que, receando com fundamento serem perseguidas em virtude da sua raça, religião, nacionalidade, opiniões políticas ou integração em certo grupo social, não possam ou, por esse receio, não queiram voltar ao Estado da sua nacionalidade ou da sua residência habitual. A lei define o que se entende por actos de perseguição que fundamentam o direito de asilo: aqueles que pela natureza ou reiteração, se traduzam em grave violação de direitos fundamentais, ou medidas que, pelo seu cúmulo, natureza ou repetição, afectem o estrangeiro ou apátrida de forma semelhante à que resulta de uma grave violação de direitos fundamentais. Exemplos: actos de violência física ou mental, inclusive de natureza sexual, medidas legais, administrativas, policiais ou judiciais, quando forem discriminatórias ou aplicadas de forma discriminatória, actos cometidos especificamente em razão do género ou contra menores, etc.

O estatuto de "protecção subsidiária", é o reconhecimento de que um estrangeiro ou um apátrida é elegível para concessão de autorização de residência por protecção subsidiária. Isto pode acontecer no caso de não ser elegível para asilo. É concedida autorização de residência por protecção subsidiária a quem for impedido ou se sinta impossibilitado de regressar ao país da sua nacionalidade ou da sua residência habitual, quer atendendo à sistemática violação dos direitos humanos que aí se verifique, quer por correr o risco de sofrer ofensa grave, isto é, a pena de morte ou execução, tortura ou pena ou tratamento desumano ou degradante no seu País de origem; ou ainda, em caso de ameaça grave contra a vida ou a integridade física, resultante de violência indiscriminada em situações de conflito armado internacional ou interno ou de violação generalizada e indiscriminada de direitos humanos. A lei enumera ainda condições impeditivas da atribuição destes estatutos o que sucede, por exemplo, se as autoridades competentes do país em que tiver estabelecido a sua residência considerarem que tem os direitos e os deveres de quem possui a nacionalidade desse país ou direitos e deveres equivalentes ou existirem suspeitas graves de que praticou crimes de vários tipos, contra a paz, ou outros, crime doloso de direito comum.

A apreciação do pedido tem em conta um conjunto vasto de dados, além das declarações do requerente:os factos pertinentes respeitantes ao país de origem, obtidos junto de fontes como o Gabinete Europeu de Apoio em matéria de Asilo, o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) e organizações de direitos humanos relevantes, à data da decisão sobre o pedido, incluindo a respectiva legislação e regulamentação e as garantias da sua aplicação, a situação e circunstâncias pessoais do requerente, por forma a apreciar, com base nessa situação pessoal, se este sofreu ou pode sofrer perseguição ou ofensa grave, se as actividades do requerente, desde que deixou o seu país de origem, tinham por fim único ou principal criar as condições necessárias para requerer protecção internacional, por forma a apreciar se essas actividades o podem expor a perseguição ou ofensa grave, em caso de regresso àquele país, etc.

Ora, eu pensava que os Portugueses gostavam dos marroquinos em geral. São nossos vizinhos, mas nem isso os safa. O mau vento não sopra apenas de Espanha. Afinal parece que só gostam deles quando  vão passar férias a Fez e ficam hospedados em bons hotéis ou quando vão comer kebab: 90% dos comentários sobre o assunto revelavam total falta de empatia pelos jovens. Alguém escreveu que num país a sério estes rapazes seriam imediatamente colocados num avião e mandados de volta para o seu país, aconselhando todos os que com eles estivessem solidários a meter a fraternidade no cu. Outro lembrava que esses migrantes poderiam atacar, matar, degolar, e violar mulheres, que é gente que vive no ódio e que deve ser corrida daqui. Estas são apenas duas opiniões que li proferidas logo após a notícia quando ainda nada de sabia sobre quem eram os ocupantes do barco: e se fossem saharauí ? E se fossem marroquinos cristãos, que, sim, também os há, e por vezes perseguidos? Notem que ao escrever isto não pretendo iludir que a imigração ilegal é um problema sério a combater. Mas, por outro lado, Portugal está vinculado a receber refugiados. Por isso, antes de julgar é preciso, todavia, avaliar os dados e perceber o que está em causa.

Desde quarta-feira que ficámos todos com medo de ser invadidos por mar por estas criaturas bárbaras, inúteis e sem cultura. Mas os marroquinos já cá estão. Há anos que eles chegam, por vezes através de Espanha, e não por mar. Trabalham nas pescas, na construção civil, na restauração, na agricultura. Mas, sobretudo, costumam estar de passagem. Por um lado, o país agrada-lhes, mas a Espanha agrada mais, fruto da língua, que muitos falam, e de um passado histórico partilhado, para o bem e para o mal. Aí, sem dúvida que enfrentam a intolerância dos nacionais mais do que eu esperava observar por cá. Mas, mais do que Espanha, são a França, a Holanda, a Bélgica ou outros países avançados, mais poderosos economicamente do que Portugal, que são o sonho do migrante marroquino. Não pensem que eles não sabem que Portugal é apenas um pequeno país entre gigantes Europeus. E, talvez por isso, não se assista mais vezes a esta chegada de embarcações às nossas costas. 

Não são apenas refugiados que se lançam às águas: não é preciso haver guerra para as pessoas se colocarem em marcha. O crescimento da população e as alterações climáticas irão despoletar migrações, como sempre sucedeu, em maior ou menos escala. Uma boa percentagem dos migrantes que chegam à Europa dos mais diversos países africanos não são gente que foge da guerra, e muitos têm estudos, aliás, alguns até têm empregos, mas estes não pagam o suficiente e por isso eles querem vir para a Europa de onde esperam enviar dinheiro para as famílias. Portanto, mesmo que cessassem todos os conflitos étnicos ou militares e perseguições em África, o fluxo para a Europa continuaria. E continuará, enquanto os países de partida não conseguirem resolver os seus problemas internos de forma a poderem dar mais oportunidades aos seus naturais: uma tarefa impossível. ( Leiam este estudo: Scaling Fences: Voices of Irregular African Migrants to Europe) Apesar de terem beneficiado do desenvolvimento isso não foi ainda suficiente e daí encetarem estas perigosas viagens até à Europa e um futuro incerto. A maioria são jovens que se sentem desapontados pela sua circunstância e que partem à aventura. É evidente que os países europeus até precisam de pessoas para manterem o seu estatuto de desenvolvimento. Mas não podem ser ilegais.

Existem várias rotas de migração bem definidas: a Oriental, da Turquia para a Grécia, a central, da Tunísia e da Líbia para Itália, e a ocidental, que leva a Espanha através de Marrocos e, por vezes, da Argélia. Medidas para deter o fluxo migratório conduziram à criação de centros de detenção que rapidamente passam de temporários a definitivo, sem condições de salubridade, ou à acusação de ONG de cumplicidade com tráfico de pessoas, ou de voluntários, que podem ser até acusados de apoio à imigração ilegal e tráfico humano porque ajudaram no resgate de pessoas do mar. É uma das tragédias do nosso tempo, mas não tem o impacto de um atentado: está a decorrer agora mesmo e só quando o ano finda e se escrevem relatórios e se somam os números é que se conclui o horror. Espreitem este site (Missing Migrants).

A União Europeia tem apoiado Marrocos no combate à imigração ilegal de todas as nacionalidades.  As outras vias de acesso à Europa foram enfraquecidas ou são demasiado perigosas e o fluxo agora passa por ali. O país orgulha-se dos seus esforços para suster o trânsito de ilegais para a Europa mas há denúncias de que essas acções e medidas não respeitam os padrões internacionais subscritos pelo reino marroquino. Basicamente acontecem raids policiais indiscriminados aos bairros de refugiados e imigrantes no norte e junto da costa, metem-nos em autocarros, e levam-nos para o sul, para campos de detenção sem quaisquer condições. Quando o Papa visitou Marrocos, estas pessoas alimentaram esperanças de ser notícia e de que assim o mundo reparasse nelas. Podem vir da Guiné, do Mali, do Senegal, etc. Ficam anos em acampamentos provisórios que não têm quaisquer infra-estruturas. Marrocos fica assim bem visto pela Europa e daí extrai dividendos: dinheiro, armas, prestígio. E a velha Europa fica, desta forma, na mão de Marrocos. Se precisamos deles para estancar o fluxo migratório, eles têm aqui uma vantagem negocial sobre nós. Enquanto isso, demitem-se de examinar possibilidades e criar oportunidades para acolher eles mesmos estas pessoas. A população até parece receptiva aos que chegam mas ficar não é facilitado. É mais lucrativo pactuar com a Europa e tratar estas pessoas como indesejáveis.

André Ventura veio dizer que Portugal está a cometer "um erro de proporções históricas" que pode "desviar os fluxos migratórios do mediterrâneo para o nosso país". Ora, isso bem pode acontecer seja qual for o sinal enviado pela decisão que venha a ser tomada em relação ao pedido dos jovens. Será mais decisivo o facto das outras rotas deixarem de ser uma possibilidade. André Ventura também está muito preocupado com o facto deste caso - uma afronta ao Estado marroquino - poder pôr em causa as boas relações internacionais que mantemos com o reino de Marrocos. Seria o mesmo que dizer que Marrocos não respeita os Direitos Humanos. A verdade é que Marrocos não é flor que se cheire.  E, volto a dizer, mesmo que este caso seja  imigração ilegal, que deve ser combatida, porque é que ele vem citar apenas casos de marroquinos que por cá passaram e se dedicaram a actividades criminosas depois? Em Espanha, para onde migram há anos, quantos serão os marroquinos criminosos? Dos que estão a viver em Portugal, quantos são criminosos? Os marroquinos são todos gente de má índole?  E Marrocos é que é um estado respeitador, Ventura? Marrocos só aparentemente é uma democracia. Talvez a nossa funcione um pouco melhor, é verdade, mas  as liberdades individuais, de manifestação e expressão não são cerceadas de alguma forma no reino das tajines.? E Marrocos mantém um território na situação em que a Indonésia mantinha Timor há um ror de anos. Toda a gente fala do "muro do Trump". E então o muro do rei de Marrocos, de quase 3 mil quilómetros? É o maior do mundo! E como se não bastasse há minas anti-pessoais para impedir o acesso do povo saharauí à sua terra e recursos naturais. Há anos que são vítimas das maiores injustiças. Marrocos ocupou o território em 1975 aquando da retirada e abandono de Espanha, há anos que os Saharauis querem a sua independência e auto-determinação. Marrocos retira dali dividendos, claro, e com a cumplicidade de Espanha e de França. Não é verdade que esteja tudo em paz. Em El Aaiún, em 19 de Julho passado, saharauis celebraram a vitória da equipa Argelina na Copa das Nações Africanas mas acabaram na exigência da autodeterminação, ao que se seguiu o ataque da polícia contra as famílias que saíram à rua. 
A minha questão é: será que o Ventura tem razão e devo ficar preocupada porque acolhemos uns putos marroquinos e vamos chatear o rei de Marrocos? Mas, a ser assim, sua majestade  vai fazer o quê? Expulsar os portugueses do território? Impedir o turista tuga de ir até lá e prescindir dessa fonte de receita dos seus vizinhos? Aumentar os impostos nas tâmaras que importamos de lá? Deixar de enfiar migrantes nos autocarros como faz agora para os deixar vir até nós? E como é que era com todo o dinheirinho que ele recebe da União para reforçar o combate à imigração ilegal se ele se começasse a desleixar no combate aos ilegais? O rei sabe que somos uns pobres de Cristo! Não tem como tirar partido deste torrão! Tudo isto é movido a dinheiro, sempre o dinheiro.

Escrevo acreditando que os nossos serviços não vão deixar ficar os putos marroquinos por cá se não houver razão sólida para isso.  Portugal está vinculado pelo dever internacional de receber refugiados mas também ao combate à imigração ilegal. Só assim é que se podem defender os imigrantes da exploração contra as máfias que se aproveitam das suas fragilidades. A possibilidade da aceitação da avaliação deste pedido ser um sinal, só por si,  capaz de tornar atractiva uma possível nova rota atlântica, entre Marrocos e o Algarve, para o tráfico humano e a imigração ilegal, parece-me uma coisa exagerada. Mas posso estar enganada: isto são tudo suposições. Todavia, se acontecer, estou certa que o André Ventura será o primeiro a deixar tudo para trás, a deslocar-se  ao reino dos Algarves, e a arregaçar as mangas e a desancar nos criminosos dos marroquinos com os seus punhos nús para me defender nas areias douradas...

Sugestão de leitura:

Pacto Global para a Migração adoptado formalmente em Marrocos, para ler, aqui.
Marroquinos que desembarcaram no Algarve: “Viemos para Portugal para trabalhar arduamente

Sarauís: o povo que vive em "cenário de guerra" e que todos esquecem, para ler aqui.

Imigração: activista marroquino denuncia pressão da UE sobre países do norte de África para controlo do fenómeno, para ler aqui.

Imigrantes marroquinos no limbo, para ler aqui.

Imigrantes no Marrocos sonham com Europa, para ler, aqui.

A maioria dos migrantes no Marrocos é formada por homens da África subsaariana entre 18 e 59 anos, informou Miguel Hernández García, coordenador de um programa da Associação Direito e Justiça, que dá assistência jurídica aos refugiados e solicitantes de asilo. “Alguns estão em contato com membros de suas comunidades que chegaram à Europa e dizem que as condições de vida não são a que costumavam ser no passado. A imagem de viver na Europa está mudando e alguns deles preferem ficar no Marrocos enquanto podem ter acesso aos direitos. Não é um país superdesenvolvido, mas tampouco é um país extremamente pobre”, disse à IPS.


Ex-campeão marroquino de taekwondo atirou medalha ao mar num barco de migrantes, para ler, aqui
O ex-campeão marroquino de taekwondo, Anouar Boukharse, foi um dos 30 migrantes a chegarem à ilha espanhola de Lanzarote numa embarcação. Durante a viagem, que durou quatro dias, o vencedor da Taça do Trono na categoria de -63 kg captou em vídeo o momento em que atirou ao mar a medalha conquistada na competição do seu país enquanto diz que a mesma "não serve para nada".