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31/10/18

Halloween e Pão por Deus


Tomem lá este mascarado do Halloween que caíu dos ceus, trick or treat, booo! 

A maioria de nós não acha gracinha nenhuma ao Halloween, -"Halloween" vem da expressão "All Hallows Eve", isto é, Véspera de Todos os Santos - essa estranha tradição (americana) com raízes celtas, levada para ali no séc. XIX pelos imigrantes irlandeses nos bons tempos em que o país abençoava a sua chegada sem reticências. 

Em Portugal há antipatia generalizada pelo Halloween, porque "não é nossa tradição", mas adoptou-se sem reservas o Pai Natal, aquele velhote diabético e cheio de gota que ficou obeso de tanta Coca-Cola que bebeu. Aguardem: ele está quase a estoirar por aí, é vê-lo a trepar às varandas por cordas e escadas como um desastrado assaltante! O Pai Natal também não é uma invenção portuguesa, esse, o barbudo simpático, vestido de bota preta e fato vermelho: vagamente aparentado com a figura religiosa de São Nicolau, bispo da Turquia, ele foi criado por um publicitário para a marca Coca-Cola. Spoiler alert! Em rigor o Halloween também não é uma invenção americana: sem emigração europeia ele não existiria. 
O Halloween, esse festim consumista de guloseimas, festival de decorações de interiores e exteriores e um desfile de todo o tipo de máscaras, já foi, nos EUA, mais consensual do que é hoje. Todos os anos vejo fotos de mascarados e algumas são imensamente criativas, outras, banais. E o que dizer de catálogos onde o vale tudo comercial levou a que a Branca de Neve, ícone das crianças, fosse apropriada pelo universo dos adultos transformando-se numa gaja sedutora e engatatona? Como eles dizem: WTF?! Os animais de estimação, pobres deles, também não escapam à mascarada. Os "disfarces" tanto podem ser de figuras da galeria de personagens do horror clássico como da Guerra das Estrelas ou da Disney. O Halloween já não é sinónimo de sustos e personagens medonhas apenas. Há menos tempo para o disfarce feito em casa, uma actividade que juntava as famílias em torno de um projecto, e ganhou o pronto-a-usar, potencialmente alérgico, plástico, usa e deita fora, made in China. Aquele jogo em que os miúdos tentam apanhar só com os dentes uma maçã dentro de uma taça cheia de água, que também tem origem celta, joga-se talvez hoje no smartphone: não é a mesma coisa. Também ninguém mais aceita bolinhos confeccionados em casa receando o pior: os adultos estão prisioneiros de histórias de terror que vêem na TV e assim tornaram as crianças reféns das gulodices industrializadas. Num momento em que se luta contra a obesidade infantil trava-se a batalha para convencer a trocar os doces do trick or treat por alternativas saudáveis: não pega. Se havia um certo valor em sair de casa e falar com gente desconhecida da vizinhança na negociação do trick ou treat!, mesmo se a regra era não aceitar doces de desconhecidos, hoje os receios levaram à invenção do trunk or treat em que os pais decoram as bagageiras dos automóveis e ficam num parque de estacionamento de uma escola ou de uma igreja à espera das crianças mascaradas.


Não somos apenas nós que não encontramos na tradição do Halloween piada alguma. Muitos Americanos detestam-no. Dizem sentir em relação a ela a mesma pressão e desconforto que os acomete pela passagem de ano, em que parece ser obrigatório passar um bom bocado. Em Outubro as TV americanas vomitam séries, filmes e anúncios inspirados pela temática; as festas de Halloween estão em todo o lado, são palcos de exibicionismo cerrado onde todos querem ser fotografados para aparecer no Instagram e no Facebook: o convívio é secundário. Tudo é negócio: a tradicional mistura de canela, gengibre, cravinho, noz moscada e pimenta da Jamaica é explorada até ao enjôo em todo o tipo de produtos. Perdidas na noite dos tempos ficaram a origem e o significado das lanternas de nabos esculpidos originalmente na Irlanda, que na América eram raros e por isso foram trocados por abóboras. Hoje, claro, disputam as decorações com as de plástico. Os tempos medievais da escuridão das densas florestas europeias e de medos que ali moravam deram lugar à luz bruxuleante das cidades: em contexto urbano o Halloween tornou-se menos fantasmagórico e muito mais carnavalesco.

Também na  Inglaterra há queixas contra o Halloween que parece competir com a Bonfire Night, que a 5 de Novembro festeja a sobrevivência do rei Jaime I, protestante, à conspiração da pólvora encabeçada por Guy Fawkes, católico, que pretendeu fazer explodir o parlamento. Tradicionalmente os jardins enchiam-se de fogueiras, os céus de fogo de artifício, as ruas com desfiles. As crianças faziam efigies de Guy Fawkes para queimar nas fogueiras, recolhiam madeira e até a roubavam, e pediam dinheiro de casa em casa,- a "penny for the Guy" - cantando "Don't you Remember,/ The Fifth of November,/ 'Twas Gunpowder Treason Day,/ I let off my gun, /And made'em all run./And Stole all their Bonfire away!" Mas isto sucede cada vez menos, parecendo estar em declínio, e mesmo a ser contaminado pelo Halloween Americano. Tornam-se populares os bailes de mascarados e de porta em porta pede-se "dinheiro para o Guy" à mistura com doces. Em Outubro as lojas são decoradas em tons laranja, preto  e roxo, com abóboras, fantasmas e bruxas. Se muitos consideram esta moda uma intrusão e o resultado do imperialismo cultural norte-americano, outros sentem-se menos incomodados invocando que as raízes do Halloween se encontram na Irlanda e na Escócia e referem que  a Rainha Vitória celebrou o Halloween na residência real na Escócia, Agatha Christie publicou "Festa de Halloween", - por cá, Poirot e o encontro juvenil, - uma história sobre um assassinato de uma criança numa festa de Halloween que é investigado por Poirot, Robert Burns escreveu um poema sobre o Halloween, etc.

Mas ingleses e irlandeses tinham uma tradição, o "souling", em tudo semelhante ao nosso "Pão por Deus": "A soul! a soul! a soul-cake!/Please good Missis, a soul-cake!/ An apple, a pear, a plum, or a cherry,/Any good thing to make us all merry./ One for Peter, two for Paul/ Three for Him who made us all." Os "Soul-Cake", - ver a receita no link - ou Bolos de Alma, eram originariamente dados a crianças e pobres que iam pedir de porta em porta, cantando e dizendo orações em agradecimento. Acredita-se que possa estar na origem do trick ou treat, a pergunta por "doçuras ou travessuras" que as crianças fazem à porta das casas, no Americano Halloween. Esta tradição manteve-se até ao século passado. Em 2009, Sting incluiu uma bela canção, "Soul Cake", no seu álbum "If on a Winter's Night", explicando a sua origem : é uma antiga canção inglesa dos "pedintes". 

Em várias regiões do nosso país era costume que no Dia de Todos os Santos as crianças saissem bem cedo à rua com sacos de pano para pedir o "Pão por Deus" de porta em porta, recitando versos e recebendo, em troca, pão, broas, bolos, frutos secos, ou dinheiro. Depois do regresso a casa e almoço, iam com a família aos cemitários colocar flores nas campas dos queridos falecidos.

A 1 de Novembro de 1755, Lisboa foi atingida por um terramoto que destruiu grande parte da capital. Milhares de pessoas assistiam às missas do Dia de Todos os Santos. No dia em que se cumpria o primeiro aniversário do terramoto, a população aproveitou a solenidade do Dia de Todos os Santos para desencadear por toda a cidade um peditório para minorar a situação de pobreza em que tinham ficado: qualquer esmola seria boa, nem que fosse pão, "Pão, por Deus", era assim a súplica. Nas décadas de 60 e 70 do séc. XX, criaram-se regras - desconheço quem - e apenas podiam pedir o "Pão-por-Deus", crianças até aos 10 anos de idade e até ao meio-dia. A partir dos anos 80 a tradição foi gradualmente desaparecendo e, actualmente, raras são localidades onde se pratica esta tradição.

Na zona de Coimbra, em vez de "Pão por Deus", na véspera de 1 de Novembro, as crianças, com uma caixa de cartão ou uma abóbora vazia, com dois buracos, no lugar dos olhos, pediam "Bolinhos, Bolinhós":  entoavam a canção (escutar no link) :

Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós,
Para dar aos finados
Que estão mortos e enterrados
À porta da bela cruz
Truz! Truz! ( bate-se à porta)
A senhora que está lá dentro
Sentada num banquinho
Faz favor de vir cá fora
P´ra nos dar um bolinho (ou um tostãozinho)

Se lhes dessem um bolo, guloseimas ou dinheiro cantavam:

Esta casa cheira a broa,
Aqui mora gente boa.

ou

Esta casa cheira a vinho,
Aqui mora um santinho.

E se nada obtivessem:

Esta casa cheira a alho
Aqui mora algum bandalho.

ou

Esta casa cheira a unto,
Aqui mora algum defunto.

Para terminar, sugiro a leitura da entrada Coca, na Wikipedia, onde, entre muitos outros factos curiosos, se refere a utilização de uma abóbora escavada, iluminada por uma vela. E porquê? Porque, afinal parece que até a própria abóbora luminosa já era feita em Portugal muito antes de ter sido "inventada" na América. Parece que esculpir abóboras com rostos é uma tradição milenar na Península Ibérica que remonta ao tempo dos celtiberos. Ou seja, o Halloween será talvez muito menos americano do que muitos julgam e até o Pão por Deus menos português do que todos gostaríamos de acreditar. 

"Nesta mesma cidade de Coimbra, onde hoje nos encontramos, é costume andarem grupos de crianças pelas ruas, nos dias 31 de Outubro e 1 e 2 de Novembro, ao cair da noite, com uma abóbora oca e com buracos recortados a fazer de olhos, nariz e boca, como se fosse uma caveira, e com um coto de vela aceso por dentro, para lhe dar um ar mais macabro."Em Coimbra o peditório menciona «Bolinhos, bolinhós», e o grupo traz uma abóbora esvaziada com dois buracos a figurarem os olhos de um personagem e uma vela acesa dentro[...]outro exemplo da utilização da abóbora ou cabaço como figuração humana, nas máscaras dos embuçados das esfolhadas de Santo Tirso de Prazins (Guimaräes), que depois, estes passeiam, alçadas num pau e com uma vela dentro, e deixam espetados em qualquer sitio mais ermo, para meterem medo a quem passa." 

25/10/18

Guerra aos contos de fadas, disse ela


Num conto de fadas tradicional uma personagem vai debater-se com dificuldades e ganhar a cruzada: o final feliz que sempre acompanha o “era uma vez” é, quem sabe, a razão de ser da sua longa preferência e popularidade junto das crianças. A acção desenrola-se no plano da fantasia embora consigamos identificar ali exemplos bem concretos de moral e os eternos conflitos entre o bem e o mal. Não é novidade para ninguém a tese de que nestes contos a marca da supremacia do masculino sobre o feminino é visível nos papéis que são ali distribuidos às personagens femininas e nas tarefas que elas ali desenvolvem. A evidência é que os contos de fada são obras literárias - adaptados, posteriormente, a filmes animados -  que foram produzidas num tempo próprio, como, aliás, todas, e por adultos, logo, estão informados por esse contexto histórico-social, por uma ideologia e uma certa moral, a cristã, porque era a dominante em França, por exemplo, ao tempo de Perrault.

Charles Perrault (1628-1703) não é autor dos contos, ele adpatou-os para serem lidos na corte de Luís XIV (1638-1715). Depois os Irmãos Grimm também colecionaram contos e publicaram-nos. Tratava-se de folclore de tradição oral, histórias habitualmente contadas pelos camponeses e outros trabalhadores oriundos da classe menos favorecida de uma sociedade de classes, que não tinham acesso a outra literatura mais erudita, reservada para os nobres. Existiam em França, mas também em todos os países. Alguns eram violentos, tinham por objectivo transmitir determinados valores e normas sociais de forma convincente, e, por isso, eram até impróprios para crianças, tendo sido adaptados pelos colecionadores. O conto Bela Adormecida é, na sua origem, menos encantado e mais aterrorizador e chocante do que muitos imaginam. O responsável pela sua recolha foi Giambattiste Basile. De acordo com essa versão, a jovem adormecida é violada pelo rei e é mãe de dois gémeos, sendo que um a acorda ao remover um pedacito de linho do seu dedo, enquanto o chupa. Perrault e Grimm suavizaram em muito esta história que se tornaria uma das mais queridas entre as crianças. Não será isso que hoje também se pretende quando se critica o conteúdo dos contos de fadas? Infelizmente há quem esteja a exigir que esses livros sejam banidos, por exemplo, das escolas, em vez de se servirem das histórias para promover um maior diálgo sobre aquilo que consideram ser errado. Ou então desencantam ideias do arco da velha, como, por exemplo, afirmar que o conto A Bela e o Monstro, promove a violência doméstica porque o Monstro retém a Bela no seu castelo...

A ascensão da burguesia e a afirmação do modo de produção capitalista, por um lado, mais a moral sexual que adoptaram, que via na célula da família burguesa o espaço privilegiado para viver a sexualidade e a sociabilidade,  a clara educação por sexos, é, igualamente, um dado adquirido. As crianças foram educadas segundo normas e valores orientados pelo seu sexo. Mas a sociedade não é algo estático, alterou-se, e os novos tempos trouxeram a valorização da igualdade entre mulheres e homens. Surgiu então uma necessidade de desenvolver ou educar para valores como a igualdade e a solidariedade, a tolerância e a liberdade, o respeito pelos outros e pela diferença.

No início da década de 70, anglo-saxónicas feministas começaram a usar a palavra "gender" para destacar que as diferenças e desigualdades entre mulheres e homens eram social e culturalmente construídas e não biologicamente determinadas pelo sexo: não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres, disse Beauvoir. O Segundo Sexo, título do seu livro, remete para o papel secundário a que a sociedade patriarcal teria remetido a mulher.Talvez tenha começado aí a caça às mensagens perniciosas dos contos de fadas para a formação das crianças que hoje fazem títulos em sites de notícias com frequência e suscitam ondas de comentários exaltados. A sociedade do patriarcado, um sistema que já produzia influência na Mesopotâmia, onde se fizeram leis que subordinavam a mulher ao homem, (Wikipedia), em que o poder é principalmente exercido por homens adultos, foi e é injusto e igualmente opressivo para mulheres e homens, e igualmente colocado em prática quer por uns quer por outros. Este sistema terá moldado a condição da mulher para que ela se conformasse com o seu papel de mãe e dona-de-casa, subordinada ao homem que tudo providenciava.

Distingue-se entre sexo e género para colocar em evidência a personalidade e comportamento que são ditados pela interiorização de normas, crenças, opiniões que depois se vão repercutir na forma de agir e comunicar de uma pessoa. O feminino e o masculino não são meramente ditados pelo biológico em exclusividade, como se defendeu em tempos, mas pela vivência em sociedade, pelas aprendizagens, pelos exemplos observados, pelos discursos de poder, etc. É nesta ordem de entendimento que se afirma que as crianças ao serem expostas às narrativas dos contos de fadas seriam contaminadas pela lógica da discriminação feminina neles patente, cerceadas na sua liberdade, podendo interiorizá-la e repercuti-la em discursos e comportamentos futuros.

Os contos situam-se no plano do imaginário, usam uma linguagem simbólica, mas representam ainda qualquer coisa de real. Os seus criadores verteram neles algo seu contemporâneo e a criança de hoje vai apropriar-se desse conteúdos e projectar ali a realidade que conhece, mas também absorver dali mensagens. Ao contactar com os contos e os livros começam a formar-se os leitores do futuro. Se não bastasse isso para defender a sua pertinência, a simplicidade da narrativa dos contos parece ser muito útil para o desenvolvimento da criança, apresenta-lhes sentimentos como a inveja, a rivalidade, o amor, que elas começam a descobrir, ou  receios e medos, medo de ser abandonada pelos pais, de animais ferozes, do escuro, etc, e ajuda-as a debater-se com eles num plano seguro, e a sentir, à sua maneira, que pode vencê-los. Bruno Bettlheim, autor do livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, foi um dos que defendeu a qualidade terapêutica deste tipo de história: os contos, com a sua estrutura simples, de poucas personagens, e um binarismo evidente em quase tudo – palácio ou cabana , anões ou gigantes, pobres e ricos, bem e mal - familiar e mágica, teriam em si um potencial para a  resolução de conflitos internos da criança.

Os contos de fadas estão hoje debaixo de fogo. De acordo com as leituras das estudiosas do género, no conto a A Bela Adormecida, por exemplo, são observados papéis e valores atribuidos de forma binária a cada um dos seus intervenientes: a personagem feminina, passivamente, aguarda para ser despertada para a vida social, e mesmo sexual, pela masculina, o príncipe, que detém a faceta de herói, de agente salvador, de bravura, qualidades que tipicamente caracterizam o ideal masculino; o ideal de felicidade feminina é aqui encontrar um marido perfeito e casar como se disso dependesse a felicidade futura da mulher. Além disso, a Bela Adormecida tem uma beleza invejável, sendo que  é  esse o atributo que devia caracterizar a mulher perfeita, etc.

O que se quer evitar ao propor a desconstrução deste modelo é que as crianças venham a perpetuar este quadro ao interiorizarem, através da leitua, ideias sobre o que é certo e errado, bom ou mau, e oferecer outras perspectivas, evitando que ela pense que ou se é bela e se consegue ser feliz, ou se é feia e isso é péssimo, ou que se é dócil então não se pode ser valente, ou que se é um homem de coragem então não se pode ser terno, ou que uma mulher é notoriamente frágil e um homem, forte, sendo que ser de forma diferente diminuirá cada um deles. Muitas directrizes são emanadas actualmente pelas mais diversas instituições para que para pais, educadores, professores atentem nos modelos tradicionais veiculados pelos contos que todos lemos na infância e os problematizem e desconstruam para que a criança possa crescer sem interiorizar esses modelos, estereótipos e ideias de inferiorização da mulher. Surgem cada vez mais na literatura infantil histórias que refletem esta tendência da modernidade e propôem alternativas. Por exemplo, The Paper Bag Princess, é uma obra de Robert Munsch, que retrata as aventuras de princesa moderna e onde os papéis tradicionais foram revistos:
"A princesa Elizabeth planeia casar-se com o príncipe Ronald, que é praticamente perfeito. No entanto, chega um dragão que destrói seu castelo, sequestra Ronald e queima todas as suas roupas: a sua única opção é um saco de papel. Elizabeth segue o dragão e Ronald, procurando resgatar seu noivo. Desafia o dragão a queimar florestas com fogo e a voar pelo mundo. O dragão completa as tarefas, mas depois de voar pelo mundo uma segunda vez fica cansado e adormece. Elizabeth resgata Ronald, que é ingrato e lhe diz para ela voltar quando se parecer mais com uma princesa. Elizabeth  rejeita-o porque ele não  vale nada e vai viver a vida à sua maneira. "(Wikipedia)
Não creio que problematizar e tomar em consideração estas questões vá causar algum desmando ao mundo, pode mesmo enriquecer a leitura das histórias; mas continuo renitente em aceitar algumas das afirmações que se fazem acerca do impacto destes contos na identidade infantil e totalmente contra quem os quer banir. Observo que em algumas situações esta preocupação está a conduzir a afirmações muito descuidadas que acabam por ter o efeito contrário de afastarem a nossa atenção de um núcleo problematizante que até faz sentido pensar. Miguel Torga tem um poema onde se lê: “Brinca no mundo da imaginação/Que nenhum outro mundo contradiz! /Brinca instintivamente/Como um bicho!” Não poderá o mundo da imaginação e da fantasia dos contos, em alguma parte ainda que desactualizado da nossa visão actual das relações entre homens e mulheres, não chegar a contradizer, efectivamente, a nova realidade,  seja porque se referem a um tempo irreal do Era uma vez... e espaços fantásticos, e modelos simplesmente datados, como sucede em tanta da literatura dos adultos, seja, até, porque o olhar, conhecimento, e experiência de leitura de uma criança não é a nossa? Ou estarão os pais e as mães que sejam omissos em relação a estes cuidados a comprometer em definitivo a educação para a igualdade de tratamento das suas crianças? Afinal a vida é, hoje, ostensivamente diferente das lógicas binárias dos contos, e isso é perceptível para cada vez mais crianças, e muito mais complicada do que é ali representado. Todos sabemos que a literatura e a sua época andam de mãos dadas e isto é algo que deve desde logo ser explicado às crianças. Além do mais as crianças também não vão ser exclusivamente preparadas para a vida apenas pela sua leitura, podendo até ser que ela funcione como pura evasão, divertimento, sem  foco pedagógico. Por isso, seja qual for o partido que se tome quanto a esta questão, que haja bom senso na escolha das batalhas ou ainda se acaba por perder a guerra.

24/10/18

Gabriela Moita diz que a Bela Adormecida foi violada!


A actriz Kristen Bell - voz da Princesa Anna, no filme Frozen - referiu há dias que a história da Branca de Neve passa um mau exemplo às crianças no que toca à forma de lidar com estranhos - pelo facto da Branca de Neve ter aceitado uma maçã de uma estranha, a bruxa - e quanto ao consentimento - pelo facto de o príncipe ter beijado a Branca de Neve durante o sono sem ela ter autorizado o beijo. Mas porque não lê Kristen às filhas a versão dos Irmãos Grimm onde o príncipe leva uma bela princesa aparentemente morta dentro de um caixão de vidro para casa? A caminho, pela estrada de campo, o caixão ressalta na carruagem e solta-se da garganta da donzela o pedaço de maça! Ela sai do caixão removendo a tampa, até faz lembrar a Beatrix Kiddo, que após quatro anos de coma acorda em busca de vingança, não?

E Gabriela Moita, em entrevista no Público, também não gosta da Bela Adormecida, diz que "de facto, as princesas até são violadas. Então a Bela Adormecida? Ela não consentiu o beijo que lhe é dado!" E depois continua: "São histórias belíssimas que todos ouvimos na infância. Isto está tão bem montado que todos nós estamos sempre a pisar em armadilhas cor-de-rosa. E é através desta subtileza da nossa educação que nós nem percebemos quando estamos a fazer manutenção deste mesmo sistema."

Uma busca por Bela Adormecida no Google, quando procurava uma imagem da Bela, revelou-me um caso, em Inglaterra, onde uma mãe também está contra a narrativa. que passa uma mensagem sexual inapropriada, a história ensina aos menores que é aceitável beijar uma mulher quando ela está a dormir. "Enquanto tivermos este tipo de narrativas na escola, nunca vamos mudar as atitudes que estão enraízadas no que toca ao comportamento sexual", refere Sarah Hall. Ela pretendia que a escola removesse o livro das leituras na sala.

Os beijos nos contos de fadas têm sobretudo um significado mágico, embora estejam ligados a sentimentos vários, afeição, até mesmo romântica, compaixão, etc, eles muitas vezes libertam as personagens de feitiçarias maldosas, no caso da Bela e da Branca de Neve são príncipes que que agem, mas o inverso também existe, personagens femininas, donzelas, princesas que beijam monstros, animais, que se libertam assim, por magia, dos feitiços e retomam a sua forma humana: invariavelmente vivem felizes para sempre, pois, o que é beijado e o que beija. É tudo irrealista e fantasioso. Faz parte da estrutura dos contos: uma situação sem solução é facilmente resolvida através da fantasia, neste caso, o beijo. Custa-me acreditar - porque cresci a ler todas estas histórias e ainda há poucos anos comprei uma coleção destes contos lindamente ilustrada, para mim - que as crianças que crescem neste quadro de leituras estigmatizantes - segundo as opiniões destas senhoras e muitas outras, em especial a partir da efervescência causada pelo movimento MeToo - ficam prisioneiras destas aprendizagens e não conseguem, depois, pensar a realidade e tomar decisões maturas e justas quando chegar o tempo. No conto, ao contrário da vida, é tudo simples e quase a "preto e branco": o espaço, as personagens - pobres ou ricas, boas ou más, a solução mágica, etc. Esses contos não protegem as crianças de receios, pelo contrário, mostram situações de horror, conflito ou violência, obrigando-as a lidar com o medo e a insegurança num ambiente seguro porque de fantasia. E no final promovem uma solução reconfortante que deixa a criança feliz. Mas com que idade é que uma criança começa a distinguir entre reinos das fadas, dos monstros e dos dragões e vida real? Diria que muito cedo e hoje cada vez mais cedo as crianças são estimuladas e se desenvolvem precocemente.  Mas não sou pedagoga. O que me intriga é como aceitar o argumento de que estes elementos mágicos dos contos e esta sua mensagem - um beijo não consentido acorda uma princesa adormecida por 100 anos! - irão impactar de forma negativa e decisiva a formação da criança levando a que mais tarde, adulta, considere que uma violação não é grave porque uma mulher está inconsciente? O que faz uma afirmação destas por esta problemática? O que esclarece? O que fundamenta? Nada, mas faz-nos duvidar da razoabilidade de juizos de quem a proferiu. Safa! Até parece que os beijos estão amaldiçoados: a semana passada era o beijo no avô, agora o beijo na princesa adormecida. Com mais tempo voltarei a este assunto.

21/10/18

Não sou dona do corpo da minha criança!



Ainda Daniel Cardoso. Fiz uma pesquisa pouco científica no Google e encontrei uma publicação que originou, nos EUA, uma polémica quase tão grande quanto a afirmação dele nos Prós e Contras.

Atentem na última afirmação, de Jennifer Lehr, e no grau de complexidade que ela assume que uma criança será capaz de fazer ao ser instruída por um progenitor para dar um beijo no avô: "A mensagem que uma criança recebe é que o estado emocional de alguém é da sua responsabilidade e que ela deve sacrificar o seu próprio corpo para alimentar o ego de outra pessoa ou ainda satisfazer seu desejo de amor ou afeição. " Onde estão estudos científicos ao nível da pedagogia e da psicologia infantil  de onde uma tal conclusão se possa inferir já não digo com certeza absoluta mas com alguma probabilidade? Não estamos no campo das ciências exactas, claro. Para reflectir.

O assunto parece ter começado a ganhar alguma tracção a partir de uma publicação de Kattia Hetter. Em 2015, a psicóloga norte-americana Irene van der Zande defendeu num artigo de Kattia Hetter, intitulado I don't own my child's body , que embora uma criança deva tratar as pessoas com respeito, ela não precisa oferecer afeição física para lhes agradar. E quanto mais cedo ela aprender que é dona de si e se tornar responsável pelo seu corpo, melhor para ela. "Quando forçamos as crianças a submeterem-se a afeição indesejada, a fim de não ofender um parente ou ferir os sentimentos de um amigo, ensinamos-lhes que seus corpos não lhes pertencem porque têm que deixar de lado seus sentimentos sobre o que lhes parece certo. Isso faz com que crianças sejam abusadas sexualmente, meninas adolescentes se submetam a comportamentos sexuais para que "ele goste de mim" e a que crianças sofram com o bullying porque todos"se estão a divertir".

Ursula Wagner , uma terapeuta, é citada por aquela: "Forçar as crianças a tocar as pessoas quando elas não querem, deixas-as vulneráveis ​​a abusadores sexuais, a maioria das quais são pessoas conhecidas pelas crianças que abusam." Continua. " Às vezes uma criança pressente algo estranho no seu cunhado que ninguém se apercebeu."

Sharon Silver da Parenting Coach opina que "é algo dentro da criança que diz quando qualquer coisa está errada. Treinar seu filho para prestar atenção a esses instintos pode protegê-lo no futuro. "

Jennifer Lehr, autora do livro Parent Speak, questiona se gostaria que sua filha fizesse sexo com o namorado simplesmente para o fazer feliz. E diz que os pais que justificam ordenar aos filhos que beijem a avó podem dizer que esse tipo de obrigação é diferente, mas de facto não é. Pedir às crianças para beijar ou abraçar um adulto que elas não querem tocar ensina as crianças a usar o corpo para lhe agradar ou a outra pessoa com autoridade, ou, na verdade, a qualquer pessoa. A mensagem que uma criança recebe é que o estado emocional de alguém é da sua responsabilidade e que ela deve sacrificar o seu próprio corpo para alimentar o ego de outra pessoa ou ainda satisfazer seu desejo de amor ou afeição. Certamente nenhuns pais gostariam que seus filhos adolescentes ou jovem adultos se sentissem pressionados a retribuir avanços sexuais indesejados, mas muitos ensinam seus filhos desde tenra idade que é sua missão usar os seus corpos para fazer os outros felizes."


A pensar nisto tudo, e porque se aproxima a quadra natalícia, aqui vos deixo mais uma razão de preocupação. Em Dezembro, quando forem ao centro comercial, parem, escutem, olhem e evitem o homem de vermelho. Foi retirado da página Safe kids, thriving families: "Não é engraçado ou fofo quando seus filhos choram ao sentar no colo do Pai Natal. Eles estão a expressar o desconforto que sentem quando as fronteiras ​​do corpo são ultrapassadas. Algumas crianças podem gostar deste ritual festivo. Outras claramente não. Usem esta oportunidade para mostrar às crianças que SEMPRE as escutam quando se sintam inseguras.

20/10/18

Quando o beijinho nos avós destrona o beijo de Judas em polémica!


Discutia-se na TV, parece, o consentimento sexual, num programa sobre assédio sexual e Movimento Metoo, quando Daniel Cardoso, professor universitário na área da comunicação, afirmou qualquer coisa como:"É preciso falar de educação de forma concreta. A educação é quando a avozinha ou o avozinho vai lá a casa e a criança é obrigada a dar o beijinho à avozinha ou ao avozinho. Isto é educação, estamos a educar para a violência sobre o corpo do outro e da outra desde crianças. Obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa como obrigação coerciva é uma pequena pedagogia que depois cresce. Sim. Estou a dizer que obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa, com obrigação coerciva, é uma pequena pedagogia... E agora vem o Foucault, com as microfísicas do poder... É uma pequena pedagogia que depois cresce e depois vemos os estudos em que 49% dos jovens adolescentes acham aceitável que o namorado ou a namorada lhes controle os telemóveis."

Não vi o programa Prós e Contras mas vi o excerto do programa onde ele faz esta afirmação, e agora li uma entrevista no Diário de Notícias onde o mesmo se defende, mas mal, da polémica que gerou. Refira-se que esta peça é tendenciosa, toma o partido do entrevistado nas questões e elimina o ponto mais polémico da afirmação, quanto a mim o mais questionável.

Vem alguém à TV dizer que aquilo que entendemos como educar para os afectos é educar para a violência. É natural a polémica: eis que o beijinho no avô destronou o beijo de Judas em polémica! Além do mais a personalidade e actividades de Daniel Cardoso prestam-se a que não se queira sequer dar uma hipótese de análise à mensagem que transmitiu. Não vamos tapar o sol com uma peneira: DC não é um aglutinador da maioria, é um herói das minorias. Por outro lado ainda, sendo formado em Comunicação, sabendo que está na RTP, a ser visto por uma população que não tem obrigação de conhecer as suas teorias, que são, para muitos, marginais, foi desastrado na formulação e no tom das suas afirmações, no uso de diminutivos que soaram, efectivamente, redutores da função familiar dos avós quando é reconhecida a sua função no seio familiar e se acarinha, cada vez mais, o benefício inter-geracional, o seu papel e contributo auxiliar no desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens.

Não é difícil alinhar com DC quanto à ideia de não forçar as crianças a demonstrarem afecto que não sentem por uma questão de mera boa educação. Importará muito mais perceber porque não querem beijar o avô e isso talvez seja apenas porque não existe uma relação de afectividade cultivada pelo adulto com a criança desde o berço. Se a vê pouco, se é uma pessoa fechada, sem interesse pelos netos. Nestes casos, que outra reacção esperar? Por outro lado, se a criança é naturalmente tímida ou reservada, será natural levar em conta o seu carácter. Se nenhuns pais razoáveis vão transformar um momento de saudação numa guerra familiar, intimidar, usar de força ou violência para obrigar ao beijo,  também não irão permitir uma birra de má educação. Creio mesmo que a maioria usará de bom senso, de acordo com o que é usual no seio da família, os seus rituais, os seus códigos.

Já é, no entanto, complicado entender que os pais possam estar a colocar os filhos em perigo ao fazer com eles o que se aprenderam com seus pais. Dar beijos aos avós é uma tradição, tem a ver com a identidade cultural, a nossa cultura, a nossa forma de saudar e demonstrar afectos. Em alguns países os pais dão beijos aos filhos na boca, - até mesmo quando eles já são grandinhos, - por cá esse comportamento seria constrangedor: não é esse o nosso hábito. Noutros a cultura do toque é repudiada.

Ninguém quer aceitar sem luta que está a educar mal as suas crianças ao praticar algo que é habitual e ninguém quer aceitar, sem fundamento, que um estranho lhe venha dizer que está errado. Resistir a uma ideia diferente por ser diferente, é normal. É preciso tempo e abertura para conhecer e reflectir sobre a novidade e nem sempre se está para aí virado. Estar preso à nossa maneira de entender as coisas porque ela nos dá segurança e é confortável, também atrapalha. E nem sempre nos conseguimos colocar no lugar do outro, perspectivar a situação do lado de lá. Mas a regra velha e sábia é ensinar às crianças que não falem com estranhos, não aceitem nada de estranhos,  até usando de intimidação para que ela aprenda o que é certo. E certo é também que ensinar a criança a falar com os familiares e a acarinhá-los: é educação para a afectividade. Porque o abuso parte muitas vezes de pessoas que são próximas às crianças não é razão para temer instrui-las de forma diferente, o abuso será uma excepção. Mas dizer que pais educam para a violência sobre o corpo do outro quando forçam a criança a dar um beijo ao avô e que esta coerção  irá  transformar a criança em abusador no futuro ou torná-la vulnerável ao abuso é uma grande volta, assim como é colocar em pé de igualdade o poder parental - que legitima o uso da coerção em justa medida no interesse do menor - com quaisquer outros poderes capazes de levar ao abuso.

Os pais têm um poder-dever de educação no interesse dos filhos. Diz Daniel Cardoso na entrevista ao DN "A criança permite às pessoas exercer aquilo a que se chama a tirania dos pequenos poderes. Porque a criança precisa de protecção acrescida e de competências que ainda não adquiriu, há a utilização desse dever parental para a imposição de obrigações que vão muito para além do cumprimento desses direitos e desses deveres. " A palavra “poder” remete para uma relação de domínio mas os pais são, no geral, hoje menos autoritários que no passado. Está em curso uma nova  forma de encarar o poder paternal, exercido no interesse dos filhos. Retirou-se o carácter de subjugação da criança na célula familiar, ela tem maior participação ali e por isso fala-se antes de "responsabilidade parental" . Também o termo "paternal" tem vindo a ser preterido desde que a mãe passou a ter um papel equiparável ao do pai. Cada vez mais, as relações entre pais e filhos assentam na igualdade de tratamento e em deveres mútuos de colaboração, na abertura ao diálogo e no respeito da personalidade dos envolvidos. O rumo que tomou a vida moderna, todavia, parece dificultar em vez de contribuir para a prática este entendimento, empurrando progenitores e filhos para fora de casa por longas horas, ou para enredos em vidas virtuais, jogos e ecrãs, minando a qualidade de relações de proximidade e fazendo rarear o diálogo nos olhos.

Forçar a criança a fazer algo que ela não quer acontece em muitas situações no seio familiar. Ora, forçar é exercer poder. Se a obediência coerciva for exercida no interesse do menor não está ainda dentro do dever de educar? Educar é, sem dúvida, mais ensinar e corrigir do que forçar. Fruto da evolução da concepção da criança pela sociedade, ela é hoje encarada como pessoa e verdadeiro sujeito e titular de direitos, de acordo com a sua idade e capacidades, desfruta de uma certa autonomia. Está longe o tempo dos Romanos em em que os filhos eram propriedade do pai (pater familias). Mas por vezes terá se ser forçada a adoptar certos comportamentos pois não haverá forma de aprender. A resistência é uma reacção típica a tudo o que não dá prazer e algumas crianças, mais do que outras, não querem ser contrariadas e muitas vezes tratar-se-á de aprendizagens essenciais para que se desenvolvam em pleno: é no seio da família que ocorre a socialização dos filhos, ou seja, a transmissão de normas, valores, modelos de comportamento, a cultura e identidade dos progenitores, é aí que se opera a maturação emocional desta pessoa em transformação e se molda o seu carácter para que se torne um ser humano activo e responsável no futuro. Será muito difícil educar sem respeitar o não da criança, mas Daniel Cardoso, que não é nem psicólogo nem pedagogo sequer, é peremptório: "Se ensinarmos às crianças que não se respeita um não e - atenção a isto - que pela utilização da violência ou da coerção ultrapassamos este não, estamos a dar um exemplo. E é um exemplo que elas vão levar ao longo da vida toda. E esse exemplo diz que se tiveres poder suficiente, podes passar por cima do não do outro."

Mas como medir o impacto desta aprendizagem no desenvolvimento da criança se não será nunca uma aprendizagem isolada? Não será contrabalançada por outras no que possa ter de negativo? E o que dizer de tanto determinismo? Como acreditar que a criança se transformará numa pessoa abusadora e incapaz de reconhecer os limites do outro porque a contrariamos no seu não e a obrigamos a dar um beijo? Parece ser uma enorme presunção pensar que insistir no cumprimento dos avós com um beijinho vá conduzir ipsis verbis a que a criança aceite ou tolere contactos físicos ou outros não desejados no futuro por parte de quaisquer adultos, ou mesmo na adolescência, por outros adolescentes. Uma criança tem de aprender a distinguir muito bem o que é carinho e o que é abuso. Até concordo que esta pode ser uma oportunidade para ensinar às crianças sobre sexualidade e consentimento, o direito à decisão sobre o próprio corpo e o direito que o outro tem sobre o seu corpo. Mas julgo que, se não for feito, será menos o trauma de um beijo forçado no avô e mais a ausência de diálogo esclarecido e atempado dos progenitores com ela sobre o corpo, o que seja intimidade, afectividade e sexualidade, que a irá tornar presa fácil de manipulação e violência diversa ou agente abusador. Por outro lado, o que se perderá se, por receios de má formação da criança,  eliminarmos os beijos e o toque das nossas relações afectivas? Para não me alongar mais, deixo como pista a opinião de Ashley Montagu, pensador social humanista, essencialmentepreocupado com a relação entre os fatores sociais e a evolução física e comportamental do Homem, sobre os actos de comunicação de afecto:
"Não são tanto as palavras quanto os actos de comunicação de afecto e envolvimento que as crianças, e realmente os adultos também, precisam. As sensções tácteis tornam-se percepções tácteis segundo os significados dos quais foram investidas pela experiência. Experiências tácteis inadequadas resultarão numa falta dessas associações e numa consequente incapacidade de criar relacionamentos fundamentais com outras pessoas. Quando o afecto e o envolvimento são transmitidos pelo tacto, são com estes significados, além dos de provimento de segurança através de satisfações, que o tacto passará a estar associado. Este é, portanto, o significado humano de tocar."
Para terminar, do que percebi da minha leitura rápida de Foucault, que DC invocou, mas sem explicar, no Google: o poder deve materializar-se por meio de diferentes formas de disciplina. É necessário que passe a integrar parte do próprio ser de cada indivíduo. O dominado deve considerar natural ser subjugado. O poder volta-se para o corpo do indivíduo, não com a intenção de reprimi-lo, mas de domesticá-lo. A“verdade” é produto de várias coerções causadoras de efeitos regulamentados pelo poder dominante. É criado um discurso que se apresenta como "natural". Este tenderá a bloquear o surgimento de outros que questionem a sua verdade. Na moderna sociedade o Estado já não concentra em si o poder como em tempos passados. O poder está em todo o lado, o seu grande objectivo é controlar o comportamento humano, limitar a liberdade do homem, reforçar a lógica de uma sociedade opressora, retirar capacidade crítica ao indivíduo. O indivíduo interioriza normas e nem questiona o seu sentido: se é norma, então cumpra-se. A sociedade quer-se disciplinada e então todos actuam como agentes da disciplina sobre alguém transformando as relações do quotidiano em malhas opressoras.

O exercício do poder paternal, ou da parentalidade, parece incomodar realmente Daniel Cardoso que nessa entrevista do DN diz também que a discussão (a que se referia a sua afirmação na TV) é sobre " a parentalidade vista como um último reduto de relações verticais de poder naturalizadas". Não sei se o Prof. Doutor não será o exemplo de um homem intelectual, algo exótico, que vive muito nas páginas dos livros e de teorias e experimentações sociais avançadas e pouco no mundo real, no mundo das pessoas mais concretas e dos afectos. Foucault, do livro Microfísica do poder, que procurei resumir acima, para meu próprio esclarecimento, fez-me acabar por não perceber se o que Daniel Cardoso afinal defende não será  o fim da opressão das crianças pelos progenitores em nome da liberdade, a extinção do tal reduto de "relações verticais de poder". Isto lembrou-me o filme de Truffaut, O menino selvagem, e o que ele disse a propósito: "Recebemos a natureza por herança, mas a cultura não nos pode ser dada senão pela educação."

16/10/18

Debate #metoo no Prós & Contras: o ridículo!

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Ahhh, vergooooooonha! Grandes opressores que são todos esses pais e mães que por esse mundo fora obrigam, coagem, limitam a liberdade física das criancinhas fazendo-as dar beijinhos aos vovôs e às vovós! (Cara impagável da Fátima do P & C.) Por educação, estão a ver, é assim que as nossas crias ficam amestradas e aceitam a opressão sexista futura. Cenas emprestadas da microfísica do poder, do Foulcault, mixadas com umas pequenas pedagogias, explicam - ou não - o discurso. Fui ver quem era o jovem orador. Pensei que fosse um artista do improviso. E é, fez um filme cuja sinopse reza assim: "Esta é a estória de um caralho-sem-caralho e de uma cona-sem-cona, tudo-em-um. Um projecto amador inspirado pelo filme La jetée de Chris Marker, e pelo Manifesto Contrasexual de Beatriz Preciado, esta curta explora a ambiguidade tecnologicamente mediada do que é ter um caralho ou uma cona, procurando acima de tudo foder com o género." Matéria original, quiçá merecedora de um Oscaralho, mano! Mas, respeito, o Daniel Cardoso é também um doutorado e professor de comunicação na Lusófona. Não aprofundei esta faceta, banal, porque hoje qualquer caralho dá qualquer coisa numa qualquer universidade. Li ainda que o trabalho de investigação desta poliamorosa criatura se centra principalmente sobre questões de género e sexualidades, com particular ênfase nas não-monogamias consensuais e no poliamor. Deve ser, sem dúvida, um ser muito avançado, eu, retrógrada de plantão, que já não consigo descodificar estas teorias modernas que nos dizem que beijos no avô é que não, porque "educação para a violência", que me reduza ao meu lugar marginal. Mas, lembrei-me então de quando, na minha infância, era obrigada a ir beijar um Menino Jesus deitado numa almofada púrpura, na igreja, já não sei se por altura do Natal, devia, ser! Por analogia subitamente percebi que foi assim que, hoje, aceito outras dominações. Eis-me, pois, apenas mais uma fêmea submissa a viver atolada no lodo do patriarcado sem disso sequer ter consciência. E tudo por culpa dos beijinhos na cabecinha de faiança desta estatueta a que era obrigada, conduzida igreja fora pela mão de ferro da minha mãe. Coitada dela! Se eu lhe falasse disto, ela ia achar que a filha, que já não tem por muito sã da cabeça, tinha endoidado de vez.

09/10/18

Dia Mundial dos Correios: CTT, privatização, degradação



Hoje é Dia Mundial dos Correios.  Correios. Um tópico que se tornou ingrato desde a privatização. Alguns já não querem saber disso, divergiram para alternativas. Os poucos que continuam fiéis aos CTT acumulam razões de queixa sobre o serviço. A unanimidade da sua degradação conclui qualquer conversa sobre o tópico. O número de estações tem vindo a diminuir embora os CTT afiancem que "a estratégia não coloca em causa o serviço de proximidade às populações e aos clientes, uma vez que existem outros pontos de acesso nas zonas respectivas que dão total garantia na resposta às necessidades face à procura existente".

Foi há pouco notícia que estão a encerrar estações nas sedes de concelho,- algo contrário ao acordado com a ANACOM, - por exemplo, em Aguiar da Beira, Fornos de Algodres, Manteigas, no distrito da Guarda, e também na área da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Douro, que agrega 19 municípios distribuídos pelos distritos de Bragança, Guarda, Vila Real e Viseu. Não me surpreendia se um destes dias o serviço dos CTT passasse a ser feito na caixa de um supermercado. Por outro lado algumas estações dos CTT já parecem um mini-mercado: vendem-se livros, souvenirs, produtos diversos. Talvez um dia lá encontremos água, barritas energéticas, pilhas recarregáveis ou mesmo laranjas, isto se não forem encerradas antes em virtude da tal adequação da rede postal às necessidades. Não quero prender-me a preciosismos ou ignorar que novos tempos e circunstâncias não possam ditar outra ordem de necessidades e soluções, mas se pagamos um serviço postal, a nossa experiência devia ser satisfatória. Não parece ser assim.

Na cidade onde vivo somos afortunados: há estação de CTT.  E quando vou ali à minúscula papelaria levantar encomendas até fico satisfeita pois é mais perto da minha casa do que a estação dos CTT. Mas a vantagem parece ficar por aí. Encontrar o pacote que está acondicionado algures na pequena loja, numa pequena arrecadação ou a um canto, no chão, em caixotes, é sempre moroso e difícil. Espreito por cima da cabeça da funcionária e examino os embrulhos e envelopes almofadados, tento ajudar: é um volume A4, um livro. Após algum corropio, o objecto postal é localizado pela funcionária que se ergue de mão na testa. Tonturas - diz ela. Provável, tonturas  fruto do tempo passado a vasculhar de cabeça voltada para baixo, dobrada pela cintura, nos caixotes. Já ao balcão, olho a pequena loja cheia de gente e atrevo-me ainda a pedir selos. Acabaram- diz a moça, encolhendo os ombros. - Só logo à tarde. Solicito então dois envelopes verdes e três azuis. Mas o tamanho pretendido por mim não existe no caso dos verdes. Pressinto um alívio dos clientes do tabaco, da Raspadinha e do Totoloto, do jornal, da Activa e de outros produtos que estão bem arrumados, em stock e à vista nas prateleiras, bem à mão da funcionária, e que entretanto, lá fora,  estacionaram as suas viaturas em cima do passeio e que já fazem fila que sai pela porta. Encaram-me como se não tivesse o direito de ali estar quando saio da loja com a impressão de ter sido mal servida. Meto os pés ao caminho para ir à estação dos CTT, abastecer-me do que me falta. Feliz Dia Mundial dos Correios.