3/12/18

Traumatismos e depressões



A Mariana encontrou o Andriy na farmácia, já era quase hora de jantar. Andriy estava a comprar Ben-u-ron e Benzitrat. Interessada, ela quis saber quem estava doente lá em casa e ele contou que o filho tinha dado uma queda e partido uma perna. Estava em repouso, depois da vinda do hospital, pois tinha feito também um traumatismo craniano. Andriy veio para Portugal ainda antes da independência da Ucrânia e fala a língua portuguesa de forma quase confiante. Tem um pequeno restaurante onde a Mariana vai com frequência e tratam-se com grande familiaridade. No regresso a casa a Mariana cruzou-se com o João nas bombas de gasolina. Almoçam quase sempre no restaurante do Andriy, preferido por ser perto da Câmara Municipal, onde trabalham na seccção urbanística. Ela mantém com ele um romancelho de fim-de-semana quando calha e julga que ninguém sabe, a não ser toda a gente que trabalha na Câmara Municipal. Vê lá tu que o filho do ucraniano arranjou um traumatismo craniano e partiu uma perna, gritou-lhe antes de subir a janela do carro, para se proteger da chuva miúda que começava a cair. Arrancou dali a derrapar e foi à sua noite. O João abasteceu-se e quando estava a fazer o pagamento à menina apática do guichet fluorescente apareceu o Manuel, um sem-abrigo que costuma por ali cirandar. Enquanto a trave de riscas branco e vermelho não sobe e não desce para dar caminho, há toda uma janela de oportunidade para cravar uma moeda e um cigarro aos ocupantes dos veículos. Estava molhado no cabelo e nos ombros impermeáveis, e trazia, a coberto do abotoado, um braço ao peito, Hoje pedia uma ajuda para os medicamentos, soerguendo no ar o seu melhor argumento. O João, que é muito boa gente, apressou-se a esgravatar nos trocos, enquanto perguntava como é que ele tinha arranjado aquele braço de gesso. Sei lá eu, sr.! Tropecei no degrau quando ia a sair de casa, foi só um toque no chão e parti esta porra. Osteoporose, sabe, coisas da idade, disse-lhe o João, com ares de médico. Contou-lhe então de como o mundo se anda a tornar um lugar escorregadio: o ucraniano do restaurante que ele frequentava habitualmente tinha caído, partido uma perna e feito um traumatismo craniano. O Manuel ouviu de esguelha com os olhos tão embaciados como o tino que já ia longe, por perto do café onde costuma ir matar a sede, mas de coração singelo embebido pelo mal alheio, um pouco também o seu. A cancela subiu e o João partiu na chuva veloz, o Manuel numa asa de vento. Quando o sem-abrigo chegou ao café encontrou o Vasco e a Catarina, um casal amigo. Os dois estavam bastante quentes e logo o convidaram a entrar na roda para esquecer a invernia e a depressão Félix. A roleta da conversa corria sem parança e, à vez, cada um dizia o que em pensamento lhes calhava, faltas do futebol, anedotas do Joaquim que fora para o lar, cusquices da Lila que tinha feito implantes mamais, ódios aos ladrões da política, e, inconveniências do temporal Félix. Manuel, à espera que o medicamento, copo a copo, surtisse algum efeito e lhe aliviasse as dores, lá ia girando no carrossel da conversa. Mas só à terceira ou quinta volta é que contou aos amigos a novidade do dia: também o Andriy tinha dado uma queda e estava com um traumatismo ucraniano numa perna. Todos beberam mais uma rodada à saúde do dono do restaurante onde tantas vezes iam comer quando a fome lhes comia o dinheiro que não tinham para beber. Puta que pariu esse tal Félix.

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