2/2/18

Na ressaca do Aniversário

Obrigada por me terem enviado tantas mensagens maravilhosas desde a meia-noite! Aproveito para esclarecer que só nasci por volta das quatro e tantas da tarde. Não foi no verão do amor mas usei muitas flores na cabeça. Esse foi o ano que viu nascer o sucesso de Dustin Hoffman enquanto um jovem seduzido pela Sra. Robinson. Infelizmente a arte da sedução acabaria por ditar a morte do artista, em vida e nos nossos dias, como sedutor/assediador. É isso, o mundo é um lugar estranho. Mas alguém escreveu: "Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança".

A música era boa nesse tempo do amor. O video ainda não tinha morto as estrelas da radio e nasceram para a música grandes artistas. Foi quando David Bowie lançou David Bowie, o camaleão que haveria de me seduzir irremediavelmente na adolescência; também Jimi Hendrix, Velvet Underground, Doors, Pink Floyd lançaram álbuns de estreia neste hiato temporal. E a Aretha Franklin pediu respeito: "r-e-s-p-e-c-t: find out what it means to me." Em Portugal seria decerto o Cinema Novo que estava a despontar. E eu teria gostado mas era cedo: ainda teria de crescer com os Meninos Rabinos e o Serapico. O que andavam a ler os crescidos em Portugal não sei. Mas Guy deu à luz a sua Sociedade do Espectáculo e ainda hoje todos vivemos para a representação, todos somos artistas, é a vitória da irrealidade real, da mediação da imagem.

E coisas há também neste lugar estranho que podiam mudar. Só que não mudam: chegou o carteiro, das nove p'ras dez. A vizinha do lado, de roupão enfiado, chegou-se à janela em bicos de pés e logo gritou: "Traz carta p'ra mim?" Não, não era nem carta para ela nem pacote para a criada. Eram um pacote e um cartão de parabéns para mim. Com os CTT caídos em desgraça por razões absurdas, a competir ingloriamente contra a eficácia das SMS e frenéticos emails, o que pensar de quem ainda inventa tempo no seu tempo para escolher presentes e desenhar caligrafias, selar e enviar correspondência, desafiando a lógica para nos dar prazer? Que são seres raros, claro. Por uma vez também gostava que as empresas fossem raras e me enviassem emails com cupões e vales de desconto sem asterisco. "No seu dia especial aqui vão 10 euros com asterisco para, 5 euros com asterisco para..."Nem no meu dia especial as fulanas do marketing me pouparam à tirania do asterisco e ao malabarismo das letras miudinhas. Isso é bom para olhos jovens, não para vistas cansadas. Podem meter os asteriscos no olho cego.

Amigos e amigas, de todos os géneros, cores e feitios, nacionalidades, crenças, birras, vegetarianos e crudivoristas, carnívoros e outros: agradecidos ficaram assim os vossos mimos enquanto estava ainda na posse plena dos sentidos já que depois do meio-dia passei o resto do meu dia especial a drogar-me com géneros açucarados e a regar cada fatia de perdição com um bom vintage. Não garantia estar à altura da vossa dedicação e carinho lá mais para o fim da festa!

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