12/19/17

Boas Festas e poinsétias


Talvez conheçam o nome Pulquéria porque o leram em algum livro de Machado de Assis, ou então associam-no à Imperatriz bizantina devota do culto mariano. A mim chegou-me pela primeira vez em conversas familiares ouvidas entre a minha mãe e avó, em criança, sobre a querida amiga Pulquéria, e marcou-me para sempre. Não vislumbrando sequer um diminutivo carinhoso de menina, jovem e senhora capaz de amparar a desafortunada no convívio com a desdita de tal escolha pela vida adiante, imaginava com horror ser nomeada assim, ter o nome bordado a azul a ponto pé-de-flor no uniforme da escola primária, ou, mais tarde, nos atoalhados de banho, ou, pior ainda, ostentá-lo na caixa de correio à porta de casa ou em placa na porta do escritório, desconhecendo por longo tempo que pulquéria, palavra com origem latina, é sinónimo de bela e bonita. Quando o descobri não fiquei todavia mais pacificada e agradeci que os meus progenitores me tenham bendito com um nome clássico e não com um que soa a punição, e, no caso, perpétua e por falta ainda não cometida, uma injustiça sem nome. Imagino que tenha origem em pulcher, latim não é o meu forte. Nem certamente o forte do AGIR ou hoje andaríamos todos a cantarolar Ela é pulquéria sem makeup. Isto foi só um aparte pois está a tocar na radio, é uma das dez músicas seguidas sem parar, seguidas e antecedidas de vinte minutos de bela publicidade a compras de Natal sem parar.

E vem isto a propósito da mais bela das Euforbiácias, (Euphorbia pulcherrima) uma conhecida planta que está por toda a pequena, média e grande superfície nesta época do ano a disputar o lugar com as decorações plásticas vermelhas made in China. A bela planta floresce exatamente no solstício de Inverno que coincide com o Natal no hemisfério norte e daí ser a flor do Natal. Noutras paragens recebe nomes menos festivos como rabo-de-arara, bico-de-papagaio, folha-de-sangue, flor de São João, coroa dos Andes, etc. Pela primeira vez trouxe uma estrela-de-Natal para casa e como não tenho mão verde optei por investir o mínimo, comprei a mais pequenita, desconfiando que a poinsétia não lograsse um longo futuro aos meus cuidados. E então não é que foi por um triz. A ignorância mata. Ausente de casa três dias e três noites deixei a infeliz estacionada à janela, prevendo os banhos de sol mas esquecendo os severos arrefecimentos nocturnos. A planta é tipicamente tropical, sendo pouco tolerante com o frio e geadas. Quando regressei tinha perdido a tesura, as folhas viçosas que antes se abriam estelarmente agora faziam lembrar um salgueiro-chorão e auguravam um prognóstico reservado à mais bela das Eufórbias. Lá fui consultar o Dr. Google pois impunha-se um tratamento de choque. Luminosidade, rega, solo. Qual seria a conjugação de cultivo ideal para a plantinha vingar? Daí a pouco já estava munida de luvas e à procura de um vaso maior, a remexer num saco de terra e a sujar toda a varanda como se não houvesse mais nada a pedir a minha atenção na secretária. Mas isto era uma emergência: quem salva uma vida salva o mundo inteiro. Diagnóstico: a pobre estava ou transida de frio ou sequiosa ou faminta ou tudo isso e mais. E era evidente que a porção de terra no vasito preto era quase criminosa para tanta vontade de crescer, as raizes já não tinham por onde enraizar. Depois de transplantada foi ensacada à laia de estufa e colocada num lugar mais quente. No dia seguinte uma grata estrela-do-Natal espreguiçava-se de novo para mim e eu respirei de alívio por não ter morto a planta antes do seu tempo chegar, o que teria sido uma injustiça sem nome. 

Verdade seja dita, não salvei o mundo inteiro mas a poinsétia já cresceu desde que a trouxe e com ela também cresceu o meu conhecimento. Se o significado de pulcherrima me era familiar descobri agora o porquê destas plantas serem chamadas “poinsétias”. Joel Robert Poinsett, um estadista norte-americano, foi nomeado embaixador para o México, de onde é nativa a flor de folhas rubras, entre 1825 e 1829. O sujeito envolveu-se de forma abusadora nos assuntos daquela nação, de tal maneira que o termo “poinsettismo” passou a fazer parte do dia-a-dia dos mexicanos e a designar aquele comportamento abelhudo. Botânico amador, Poinsett introduziu a planta nos EUA, junto de amigos e botanistas, e a flor-do-Natal acabou por se popularizar com o seu nome graças a um deles que assim o quis honrar. Se quisermos ir à raíz da questão há que saber que em Nahuatl, a língua dos astecas, a poinsétia era chamada Cuitlaxochitl (de cuitlatl, resíduos e xochitl, flor) o que a mim me soa a nome de medicamento e não anda longe pois os astecas usavam-na como antipirético além de pigmento. A poinsétia apresenta uma característica curiosa: o que parecem ser as pétalas das flores são brácteas, isto é, folhas modificadas. As flores da planta são insignificantemente discretas, brancas e pequenas, não ostentam cores e formas atraentes para os polinizadores. As brácteas coloridas que surgem ao redor das flores da poinsétia têm a função de atrair os insectos e aves responsáveis pela sua polinização. 

Desejo a todos umas Boas Festas de Natal e um Ano Novo em Beleza. Em 2018 aproveitem todas as ocasiões para se cultivarem e crescer: não permitam que esmoreça a vossa estrela. Lembrem-se: a ignorância mata.

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