9/17/17

Casamento por conveniência



The Unequal Couple, Lucas Cranach, the Elder, 1530. Um exemplo de como o FB só me faz perder tempo. Abro o FB e vejo que o Rui B. acaba de publicar uma fórmula onde se explica a diferença entre gostar de alguém, estar apaixonado e amar alguém. Leio. Gosta-se quando a gente se apega a alguém e se começa a apreciar a pessoa; apaixonamo-nos quando achamos que a pessoa em questão é perfeita e finalmente amamos essa pessoa quando, concluindo que a pessoa não é perfeita, aprendemos a amar os seus defeitos. Ora, era informação de que não precisava, mas é sempre bonito rever conhecimentos adquiridos. 

Continuo a fazer scroll pelo feed e outro Rui (V.) acaba de publicar uma pintura de um cavaleiro - é o nome da mesma, foi assim que soube -, um homem de cabelos ruivos, barba penteada e um acrobático bigode que se abre de par em par sob o aquilino nariz. Gosto e começo a examinar a obra prima. Na cabeça um chapéu preto marginado a penas que lhe tomba para o lado direito. Tem o pesçoço atormentado por um colarinho dourado, mais propriamente uma feminina gargantilha que parece não pertencer à camisa pregueada que salta à vista do amplo decote quadrangular da vestimenta e onde assenta uma corrente dourada com uma pequena medalha. O tronco está bem cingido por essa peça que mais parece um vestido, desta forma o seu peito é quase um coração tal a sufocante cintura de vespa que depois se alarga, mas não muito. Ficamos pelo meio corpo, o pintor não se abalançou a mais, os olhos vão-se-nos nas mangas de verde escaravelho tufadas até ao cotovelo, dali em diante bem justas até culminar nas mãos, uma na anquinha, outra na espada. A expressão do cavaleiro é a que eu devia fazer em miúda quando ia obrigatoriamente fazer as radiografias toráxicas no âmbito escolar e o radiologista me dizia: não mexe, não respira. O peito do homem também parece estar repleto de ar e pronto a estoirar. 

O autor deste retrato é o fantástico Lukas Cranach (the Elder, porque existiram filhos), assim que vi o nome lembrei logo que pintou o retrato de Lutero. À semelhança da fórmula romântica, também não precisava de ter visto esta pintura hoje, mas já que vi uma, porque não ver mais alguma? É coisa para que estou sempre pronta. A memória já não me assiste como dantes pelo que no Google comprovei que era, de facto, o pintor amigo do Lutero. Fiquei depois a deleitar-me com mais algumas obras do artista germânico que ficou conhecido por muitas razões, uma delas porque foi um dos melhores do seu tempo, grande retratista, autor de pintura religiosa e secular, etc,etc. Além do retrato do Lutero eu sempre o associei às divertidas pinturas dos homens velhos que se perdem de amores, ou luxúria, pelas mulheres mais jovens. Era um tema recorrente na pintura da época. Nas paredes dos lares da Renascença penduravam-se estas lições de moralidade, a da jovem mulher que seduz um homem mais velho e tonto por dinheiro. O pintor retrata por vezes o acto de forma descarada, a jovem com a delicada mão na bolsa das moedas mesmo nas barbas do homem seduzido. Estas mulheres da Renascença eram o demónio de saias. E os homens, coitados, tinham de ter estes lembretes pendurados na parede porque ainda não havia post-it. 

Mostro-vos um exemplo mais recatado, vejam como a jovem da pintura irradia vida e beleza: ainda pode dar à luz um filho, mais não, que a esperança média de vida naquela época era apertadinha. O homem já está mais com os pés para a cova que outra coisa, mas, coberto de peles, é um rico homem. Fiquei entretanto a magicar em que fase da fórmula que descrevi acima se encontraria a mulher, I,II ou III. Sem dúvida que a mulher gosta dele: vejam como ela está apegada à mão do pobre homem e como lhe devolve o sorriso desdentado. Sem dúvida que o casaco de peles é perfeito, quem é que não se apaixonava por um casaco daqueles. E sem remorsos pois no séc. XVI ainda não havia PETA. E a casa com vista para o mar? Perfeita! E sem dúvida que a senhora ama do coração cada fio prateado daquela moribunda barba: só de pensar no que vai herdar! E o pequeno detalhe do idoso já não ter dentes é uma gracinha: é como embalar de novo um bebé nos braços. Ah, aquele Cranach era mesmo terrível!

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