8/25/17

Incendiário



"AMBULÂNCIA VIAJA DE LISBOA AO PORTO PARA LEVAR INCENDIÁRIO A CONSULTA DE AVALIAÇÃO PSIQUIÁTRICA

O Hospital Prisional de Caxias no Concelho de Oeiras, requisitou alegadamente hoje aos Bombeiros de Paço de Arcos uma ambulância que conduziu hoje um alegado incendiário detido naquele hospital prisional, à delegação do Instituto Nacional de Medicina Legal no Porto, para uma consulta de avaliação psiquiátrica que teve a duração de sensivelmente 10 minutos."
https://www.facebook.com/observatoriodeprotecaocivil


O incendiário vai de ambulância, o bombeiro vai de comboio combater o fogo. Quem se lembra da notícia deste Maio:"Este verão, 90 bombeiros vão deslocar-se de Lisboa e para os incêndios em Viana do Castelo de autocarro e de comboio. O objetivo, explicou o secretário de Estado da Administração Interna, é evitar que as corporações cheguem "cansadas" aos teatros de operações e, ao mesmo tempo, "evitar o desgaste" das viaturas de serviço e os acidentes." Até pode ser que tenha sido uma boa ideia, os bombeiros é que o saberão dizer. Mas comboios e autocarros que eram bons para o bombeiro não serviam para o incendiário, e desconfio que os carros prisionais devam ter sido requisitados pelo turismo para algum circuito temático. Assim, foi de ambulância não fosse chegar atrasado e/ou alterado à consulta e assim resultar falseada a avaliação psicológica. Imagine-se ser-lhe mostrada uma mancha de Rorschach e o incendiário dizer que aquilo é um pinhal que foi abrasado em cinzas, coisas sem nexo algum. Começo a desconfiar que o que dizem da violência nas prisões - ou hospitais prisionais ou lá o que é - é verdade. Para ir de ambulância é porque deve estar com os ossinhos todos partidos, é mesmo chato uma pessoa ter o grande azar de ir presa e acabar coberta de gesso. Outra situação similar são as deslocações dos ministros, secretários e subs em viaturas de negro funéreo brilhante e de alta cilindrada a qualquer provinciano destino nas entranhas deste país, longe do seu centro nevrálgico, Lisboa, - onde há excesso de políticos mas parece que faltam psicólogos - para fazerem o rescaldo do fogo, com palavras, é certo, que pegar na enxada faz calos nas mãos, mas quem dá o que tem a mais não é obrigado. É assim a igualdade de tratamento: o direito a chegar fresquinho ao destino é para todos os alegados culpados. E no fim de tudo bem avaliado psicologicamente a conclusão a tirar poderá muito bem ser que o grande incendiário é o eucalipto. (P.S. A sessão durou 10 minutos. Não podiam ter feito isso por Skype?!!)

8/23/17

Aos homens constipados


Aos homens constipados

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

Poema de António Lobo Antunes, In 'Sátira aos Homens quando estão com Gripe'

8/17/17

João Quadros ou João Quadrado?

Percebi agora que um tal humorista Quadros anda nas bocas do mundo por ter chamado skinhead ou cabeça rapada ao Passos, assim criticando um discurso algo xenófobo que este fez, e que eu não li, mas, com aquela voltinha de trazer à colação na piada a mulher dele, doente oncológica, e, claro, para muitos o cancro é um dos assuntos que tem de ficar fora do humor, compreensível pelo sofrimento e impacto da horrível doença tanto no paciente como nos que lhe são próximos. Mas esta lista de assuntos que têm de ficar à margem do humor é uma coisa que me incomoda. Não é por fazer de conta que um problema não existe que ele cessa de existir: vamos excluir do humor temas como a doença, a deficiência, etnias, religiões, classes sociais, a sexualidade e outros? Ou marcar-lhe limites? E impor limites é atacar a liberdade de expressão? É um grande e apaixonante debate que esteve bem aceso nas redes aquando das mortes no Charlie Hebdo.

Não há dúvidas que o visado da piada em causa é PPC, não a esposa. É um ataque bem forte a PPC, uma crítica política vexatória mas certeira. Pior por acarretar um dano colateral ao envolver a esfera pessoal e emocional de PPC: daqui nasce o ultraje pois Quadros explorou uma sua vulnerabilidade, a fatalidade da esposa. Compreensível que as pessoas rejeitem um e outro, o primeiro por serem da cor política de PPC, o segundo, por entenderem que têm de existir limites para o humor negro, muitas vezes cruel e muito incómodo.

Eu não sigo os tweets do Quadros, só sei quem é pelas fotos que por aí circulam de um tipo guedelhudo, ar nicotinado e noctívago. Com frequência leio sobre ele comentários na maioria desprestegiantes, tipo imbecil, ordinário, besta. Mas não tenho opinião formada. Mas sei que nem todos somos Charlie, alguns de nós são  Charlie Brown. O humor nem sequer tem que gerar unanimidade mas convinha não perdermos a cabeça pois desatar a desejar a morte ao homem e familiares com todas as letras não faz de nós seres humanos mais sensíveis do que ele próprio, não é?

Despacito


Dei um saltinho à praia de Buarcos e no regresso deparei-me com estes senhores a tocar um medley dos Abba para uma grande plateia na esplanada do jardim. Cheguei a meio e quando me estava a sentir uma verdadeira Super Trouper, com vontade até de dançar com um dos turistas presentes que sabia todas as letras, acabou o medley. Trazia os ouvidos cheios de coisas como Si te vas yo también me voy/Si me das yo también te doy/Mi amor/Bailamos hasta las diez/Hasta que duelan los pies, tinha vindo pela marginal fora a cantarolar o Despacito, sonoridades ainda frescas na ponta da língua, patrocinadas pelos animados vizinhos de praia que hoje me couberam, quando ouvi a banda. Junto ao mar a minha tolerância dilata-se e os meus níveis de implicação derretem sob o sol, pelo que até curti os ritmos calientes e, já agora, o vigor da linguagem juvenil pontuada a alhos e folhas, o tratamento carinhoso ímpar. Ah, escusam de me vir dizer que quando eu era jovem também falava assim, eu ainda me lembro, apesar das brancas. Foi uma fase, ou talvez tenha sido uma frase, ou duas, isso já não asseguro. Mas a fase destes jovens é de muitas frases, muitas mesmo, embora repetitivas, tudo bem, meu caralho, vamos ao mar, ó minha grande vaca, sai mazé da minha toalha, minha gorda, ó meu boi, páaaara quieto, puta, tu passa o bronzeador, evidentemente que estão de férias, o linguajar colorido é que não está.  A meio da conversa uma das miúdas dizia à outra do grande escândalo: a não sei quantas foi para Humanidades. Mas ela nem sabe falar! Como podem ver já cheguei a casa e o vento mudou: isso nota-se perfeitamente pelas notas soltas de intolerância e de implicação. Ah, esta foi a última foto que fiz com a minha máquina de trazer no bolso: a puta deu o definitivo peido mestre. Ou entrou um grão de areia na engrenagem ou então fundiu-se devido à conjugação da alta temperatura com os ritmos calientes. Que merda, só me apetece falar mal.

8/13/17

Incêndio florestal - a praga do verão em Portugal




Nunca entendi o que move alguém a meter-se no carro para ir ver um fogo florestal. Esta atracção, que considero doentia, não é de hoje mas ontem não existia a motivação acrescida de filmar e partilhar o evento nas redes, o objectivo mais ou menos secreto de conseguir a glória fugaz de uma imagem viral. Onde, afinal, a estranheza quando pessoas ateiam os próprios gases para filmarem a breve flama e depois partilharem proeza com o mundo ávido de imagens insólitas?! Há uns anos largos houve um incêndio na serra da Boa Viagem e o instrutor de condução orientou-me na direcção da elevação, de onde se desprendia um penacho de fumo. - Mas está a arder, disse eu. - E então? Vamos lá ver. Segui a contragosto, com vontade de me negar, afinal o volante era meu. Mas a posição de subalternidade, o pouco à-vontade e experiência incipiente ao leme das quatro rodas venceram o meu sentido cívico e até temor. Tivemos de atravessar a ponte sobre o rio e a cidade. Já na subida da serra fomos ultrapassados por um carro de bombeiros e pelo som perfurante da sirene. - Chegue-se para a borda! Não viu que vinha lá um veículo em serviço de urgência? É surda? - gritou, subitamente alarmado. Lançou então a mão ossuda ao volante e guinou o veículo para a berma direita, para a orla das árvores. O carro imobilizou-se, uma nuvem de pó elevou-se ao redor e a mim deu-me uma valente travadinha. Eu, que nem queria estar ali, acabara de levar roda de incauta e empata. Acesa de raiva, a suar de calor e vergonha, de forma ágil e com precauções tomadas - como se já dominasse toda a faena rodoviária-, fiz uma rápida inversão de marcha. - Mas o que é que está a fazer? - perguntou ele. - Vamos regressar à escola. Acabou a aula. O instrutor meteu os olhos no pequeno Nokia cinzento com que usualmente brincava de uma mão para outra. Sempre enviava e recebia mensagens de forma frenética assim quebrando o marasmo de cada hora de condução. Não disse mais nada naquele dia, como que se tivesse extinguido a vontade de falar a par do fogo da sua curiosidade pela destruição.


P.S. Este instructor não era má pessoa, não quero que fiquem com má impressão do sujeito. Ensinou-me a conduzir. Infelizmente chumbei no exame de condução por excesso de velocidade entre outros erros, e tive de repetir! Já não sei como se chamava e nunca mais o voltei a ver. A fotografia é de ontem, tirada da varanda, só para não fugir à desditosa trend pirónoma dos últimos dias.
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"Os Bombeiros que são manifestamente poucos, para tantos incêndios, não podem chegar a todo o lado. Estão sempre rodeados de populares, o que é bom. Só que, ao invés de ajudarem a esticar e recolher mangueira e material de combate, apagarem pequenos reacendimentos, limitam-se a registar vídeos, e fotos para mais tarde publicarem nas redes sociais. Não sou contra mas, antes, ajudem os Bombeiros que nos dias que correm, estão a atingir a exaustão e não chegam a todo lado. Amigos um incêndio florestal não é um espectáculo circense, mas sim um drama irreparável para a sobrevivência humana.
Vão até nós, mas, por favor, não levem os carros para não atrapalharem o nosso dificil trabalho. "

Acácio Monteiro, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Brasfemes

8/5/17

O equidna vai à praia




Quando logo mais forem à praia e não se lembrarem de adivinha melhor para contar à miúda que acabaram de conhecer, podem usar esta: que animal tem bico e põe ovos mas não é ave, tem bolsa mas não é canguru? Resposta: o equidna. Eu testei uma outra adivinha sobre o bicharoco em causa com um cinquentão bem apessoado mal acabado de conhecer, foi uma espécie de ice-breaker, enquanto devorávamos um ouriço ali para os lados da Ericeira: não é homem mas animal e tem título real. Que bicho é? Ele não fazia ideia. É uma espécie de equidna da Indonésia que recebeu o nome de Sir Attenborough, o naturalista, - disse-lhe eu. Devolveu-me a cultura animal com um negro laudo sobre uma tal Equidna, o corpo metade jovem mulher, a outra metade, uma serpente. Vivia numa caverna no ventre profundo da terra, longe do olhar dos homens e da atenção dos deuses. Casou com o deus Tifão, tornando-se a mãe de todos os monstros, por exemplo, Cérbero, o cão de três cabeças, que guardava as cavernas e grutas mais profundas e os cantos mais terríveis do reino de Hades, o mundo dos mortos, ou Éton, o abutre que comia diariamente o fígado do condenado Prometeu. Equidna e suas crias possuíam uma natureza terrível e adoravam devorar viajantes inocentes. Fiquei depois a saber que o homem era professor de História com uma paixão bicuda por mitologia clássica. Um clássico. Ele ficou desapontado quando lhe disse que não, eu não era bióloga e antes jurismamífera de formação e cheia de paixões bicudas por tudo e por nada.



Foquemos agora neste trôpego video de verão: o equidna foi à praia. E porque não? O equidna até sabe nadar. Esperem tudo deste peculiar animal um pouco ave, um pouco ouriço, um pouco canguru. São monotremados, é assim que se chama a esta ordem de animais que têm cloaca por onde excretam e também saem embriões envoltos em casca que depois ficam a viver na bolsinha da mãe: terminado o choco são do tamanho de um feijão. Já agora, “trema” quer dizer abertura. Não confundir com monotramados: os “monos tramados” somos nós, macacos deslumbrados e cegos com as luzes da cidade. Regressando aos equidnas, os pobres são meio ceguetas mas equilibram o défice de visão com audição aguçada - já Diogenes dizia que nós temos dois ouvidos e uma língua para que possamos ouvir mais e falar menos - e olfacto perspicaz. Têm uma língua muito comprida e pegajosa, mesmo ajeitadinha para caçar formigas e térmites e minhocas. Vêm trilhando o seu caminho desde tempos pré-históricos, passo a passo, perna entroncada e curta, garras longas, aguçadas, e corpo espinhoso semelhante ao de um ouriço comum. Quem sabe por ser um bichinho solitário que não se mete na vida dos outros - já Sartre dizia que o inferno são os outros - é assim, longevo, chamam-lhe um fóssil vivo. Os testículos dos equidna ficam na região abdominal e o pénis encontra-se na cloaca. Pode parecer uma experiência laboratorial algo exótica ou controvertida da mãe Natureza mas funciona porque eles povoaram a Tasmânia, a Austrália, a Indonésia e a Nova Guiné. A estranheza não se fica por aqui. Estas curiosas bolas espinhosas – se ameaçados têm duas tácticas, ou se enrolam numa bola hermética, escondendo o focinho bicudo e a barriga vulnerável, ou se enterram rapidamente no chão, pois são uma espécie de mini TBM animal, TBM, são aquelas máquinas perfuradores de túneis, do género das que operaram o milagre de unir a ilha inglesa com a França, - não têm mamilos e antes glândulas mamárias para a produção do leite. O líquido sai por poros e escorre nos pelos da região abdominal das fêmeas. Imaginem esta solução nos humanos! Se amamentar em público já é censurável e abjecto para tantas boas almas e o líquido sai de um par de tetas bem acabadas, imaginem, imaginem, se conseguirem, leite a escorrer dos nossos poros e nossas crias humanas a lamber da pele que nem gataria sôfrega. A Natureza quis proteger-nos de imagens potencialmente chocantes mas nós, sempre brilhantes na nossa perversão, fomos logo encontrar defeitos na perfeição. Pobres equidnas, que espectáculo pegajoso que não deve ser, uma porcaria pegada. Mas, por outro lado, devem ficar com a pele bem macia da proteína do leite. Boa praia e boas adivinhas.

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