3/3/17

La La Land mostrado antes de Moonlight, em Londres!



Esta brincadeira no Rio Cinema, em Londres – que passou uns segundos do La La Land antes de projectar Moonlight - trouxe-me à memória um episódio que teve lugar talvez ainda em 1999 ou já em 2000. Por essa altura havia sessões de cinema nesta vetusta colectividade figueirense, o Grupo Caras Direitas, que já tem mais de 100 anos. Lembro-me de ter lá visto Estranhos prazeres, A raiz do medo, City Hall, Ed Wood, Casa de Doidas e muitos outros filmes. Talvez fosse um sábado ou domingo quando me dirigi à bilheteira onde comprei o ingresso uns minutos antes do início da matinée. Os bilhetes eram uns rectângulos de papel em azul ou rosa, pró menino e prá menina, talvez também noutras cores. Tinham escrito “Volte sempre” – evidentemente que só por causa disso é que eu voltava; e “conserve este bilhete”- obviamente que por causa disso é que ainda os guardo. Havia também uns feios folhetos de tipografia que eu adorava porque mostravam a lista de filmes para todo o mês e me punham logo a fazer planos. Lia-se em alguns deles “Serviço de bar” e "Pipocas Popcorn USA” e “Sala equipada com Dolby Stereo Digital”. O importante a reter é que os bilhetes não tinham impresso o nome do filme, aliás, havia espaços a serem preenchidos que ficavam sempre em branco: a data, o preço. Apareciam por vezes uns números sumidos carimbados no espaço a seguir a Sessão, dois pontos. E era tudo. Fiquei de bilhete na mão, em pé, no hall da colectividade, a fazer tempo, mesmo atrás de mim estava afixado um grande cartaz do Magnolia, mas havia outros. Acaso estão recordados das cenas iniciais deste deste filme? Um narrador elabora sobre acasos e coincidências, sobre tudo estar interligado e fazer parte de um todo? E que a vida é estranha e tal, tão estranha quanto pode ser este caso de uma mãe que mata o filho quando ele se prepara para cometer suicídio? Bem, estava ansiosa por ver a sequência inicial de que todos falavam, era o novo filme do Paul Thomas Anderson sobre gente patética de perdida, viciados e misóginos...e a chuva de sapos. Entretanto aparece o sr. Gaspar, o então presidente da colectividade, por quem eu tinha imensa simpatia, e ali ficámos a conversar sobre o filme espectacular que eu ia ver, os dez minutos foram consumidos em segundos pelo entusiasmo com que todos os cinéfilos falam destas coisas nestes momentos cruciais que antecipam a grande revelação, isto é, que já se viu todos os filmes do tipo, que alguns dos nossos actores predilectos estão lá, que alguns críticos nos jornais dizem que a história é densa, que um amigo achou o filme muito alucinado, que uma amiga adora a banda sonora. E como para bom entendedor meia palavra basta, ninguém entrou em detalhes. Esgotado o tempo, despedi-me do caro cinéfilo, subi as escadas e fui a correr sentar-me no balcão onde as cadeiras eram novas e de um vermelho confortável, não de madeira histórica e de estofos forrados de napa. Não me recordo se havia mais alguém no balcão, fecharam-se as luzes. Ali o filme começava logo após a abertura das cortinas, se é que as cortinas eram corridas como manda a tradição, creio que sim, não havia cá 20 minutos de trailers nem aquele recado para desligarmos telemóveis pois ainda não tinham chegado os tempos da modernidade, eram poucos nos bolsos e ainda sem internet móvel para os animar, por lá ficavam, afinal era o ano de 1999 mas a Lua ainda estava na nossa órbita, ou talvez fosse 2000 mas a odisseia no espaço estava adiada muito além de 2001. E então tem início a ansiada projeção e surgem imagens de Boys don’t cry, do que lembro, nocturnas mas posso estar a inventar fruto da má memória. O que não estou a inventar foi o sentimento de estranheza que me tomou. Supus estar a ver o trailer do próximo filme a ser exibido. Uma pessoa arranja sempre a melhor desculpa possível quando quer iludir a realidade! Infelizmente o trailer não terminava porque não era o trailer, era mesmo o filme com a Hillary Swank, - muitos anos antes de ser a mulher do milhão de dólares - que estava a ser exibido! Nem sequer me tinha passado pela cabeça ver aquela fita pelo que, contrafeita, lá assisti até final à história da miúda que se fez passar por miúdo e que deu mal, um argumento inspirado em factos verídicos que lhe valeu o Oscar da melhor interpretação feminina. Quando o filme terminou saí da sala completamente desconsolada: ninguém me tinha trocado as voltas, mas eu tinha trocado alguma coisa, e, hoje, tantos anos passados, ao relembrar a abertura do Magnolia continuo sem perceber o que porquê de um tal equívoco, se nada acontece por acaso.

Cartaz Magnolia

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