2/28/17

Livros em segunda mão e extraterrestres


Os extraterrestres estão entre nós. Andam disfarçados de pessoas mas é fácil perceber quando estamos na presença de um. Quando se cruzarem com alguém que passa parte da sua curta vida no Planeta Terra a encaralhar processos: bingo! Isto é verificável em todas as áreas da vida, todas mesmo, e tristemente frequente. Estou certa de que entre meia dúzia de nós encontrávamos material para um vasto compêndio sobre vida alienada em poucos minutos, evidências ultra-científicas. Portanto não vos estou a transmitir nada de novo.

Tudo começou quando a 25 de Fevereiro decido comprar um certo livro em língua inglesa, não interessa o título, é uma tradução de um autor português de renome. Como é hábito começo por procurar nas ofertas em segunda mão, online, porque desconfio que uma batida às lojas aqui da cidade não dará resultado algum, nem novo nem velho, e porque gosto de comprar livros usados: poupo dinheiro, prolongo a vida útil do livro, faço bem ao Planeta. A sorte boceja-me, como disse Jesus, e encontro o livro à venda. Examino tanto quanto me é possível e parece-me em boas condições. Envio uma mensagem ao potencial vendedor, sucinta e explícita:

- Boa tarde! Estou interessada em comprar o livro. Se ainda o tiver pode enviar-me o seu NIB para eu proceder à transferência? Depois eu envio o papel do Multibanco e quando o receber faz o envio do livro. Pode ser assim? Possivelmente só vou ao Multibanco na segunda-feira. Aguardo resposta.

Um dia depois lá chega a mensagem semi-encriptada e oriunda de uma galáxia far, far away mas eu ainda não sabia:
- Olá Isabel. Tal como mencionado no anúncio, preferia em mão, pois tenho de pagar para me dirigir aos correios e tenho de lá ir 2 vezes, pois cada livro tem o seu peso e esse é pago pelo comprador.Onde se encontra a Srª? Eu estou na zona de (...) estando longe aceito a transferência, mas não necessita enviar o talão, eu só envio o livro quando consulto o depósito. :)obrigada.

Compreeendo. Ir aos CTT é sempre uma chatice porque agora a gente já nem escreve cartas, já nem compra selos, já nem sabe onde fica a estação dos mesmos e, quando dá com ela, a loja vende de tudo. É de tal forma que não raro nos sentimos perdidos, por vezes é difícil perceber se entrámos na estação dos CTT ou antes no shopping do bairro. E, pois é, a deslocação. No mínimo gastam-se calorias para ir aos CTT, água, mas também a gasolina, ou energia solar, ou o hidrogénio ou o óleo de fritar batatas na nave especial. A deslocação e o tempo, porque tempo é dinheiro. Por obséquio, cobre lá isso, inclua no preço do livro, mas não faça é disso um bicho de sete cabeças. Quando vou comprar as batatas ao Jumbo elas também não rebolaram sózinhas até lá, pago também pelo passeio das batatas. É pena mas o teletransporte ainda não funciona a partir do desktop, o livro tem mesmo de ser levado aos CTT.

Habituada a estas andanças, e à semelhança do que costumo fazer com os potenciais vendedores, atrevo-me a sugerir uma alternativa para poupar  voltinhas inúteis ao sujeito:
- Olá. Não precisa de ir duas vezes. Eu tenho comprado muita coisa neste site e faço sempre assim: pago o que os vendedores pedem pelo objecto. Faço a transferência e envio o talão. Os vendedores vão aos CTT - depois de terem o talão ou verem o depósito - e fazem a expedição da encomenda: pesam e dizem-me só depois quanto é. Eu então pago os portes quando recebo a encomenda. É só uma ida aos CTT. Os livros pagam muito pouco pois têm uma tarifa especial - deve pedir essa tarifa. Por isso mesmo que eu não lhe pagasse os portes - coisa que não farei - não teria muito prejuizo. Também não preciso do livro com urgência pelo que se tiver uma altura mais conveniente para ir aos CTT - dentro de 3 dias , uma semana - pode dizer-me e eu aguardo. Mais que isto não posso fazer. Mas o sr. é que decide. Aguardo. Vivo na Figueira da Foz e não conheço ninguém na (....) que possa servir de intermediário.

Daí a um ror de tempo a resposta materializa-se na minha caixa de email e é aí que tenho a certeza que topei com um extraterrestre das vendas em segunda mão online. A Figueira fica longe mas este ser vive noutra galáxia. Era por demais uma chatice pagar para se deslocar e ter de ir duas vezes aos CTT mas eis que subitamente o longe se fez perto. Porquê? Porque o livro é grosso. Ora vamos lá saber quanto é que custa fazer a expedição do Atlas Klencke!

-Sim, a Figueira fica longe :) Eu vou saber qt custa enviar o livro e assim q souber eu digo-lhe e sim, pela tarifa especial a q os livros têm direito. Assim qd fizer a transferência acrescenta esse valor (este livro é grosso) Obrigada :)

Pronto. Está tudo grosso. Emburro em frente ao ecrã. A minha cabeça explode em impropérios mentais como uma supernova, o equivalente a pelo menos duas linhas de emoticons de várias cores,10 GIFs e mais uma linha de Trash Doves! Respiro fundo, recomponho-me. Ok, Belinha, afinal tu nem tens pressa no livro. Seja lá como o marciano quiser.
-Então está bem. Como lhe disse não tenho pressa. Faça conforme lhe for mais conveniente, está bem?Aguardo.

Fui surpreendida por um rápido retorno à negociação, tipo notícia de última hora:
- :) Fiquei a saber q ainda hoje tenho de enviar um outro livro e assim pergunto pelo seu :)Obrigada

E daí a pouco, novo episódio de comunicação, quiçá motivado pela nova venda no horizonte interestelar:
-Olá. Entretanto lá consegui ir. Pesando só o livro é 1.04€, mas o Sr disse q varia de grama p grama, por isso embrulhar numa folha de jornal + o cordel deve dar uns 1.10€. Assim o total passa para 9.10, pode ser? Obrigada.

“Varia de grama para grama”. Ah pois varia. É um facto que o peso varia de planeta para planeta: um livro na Terra pesa X, em Marte pesa Y. Atentei na forma como o vendedor fez uma estimativa à “folha de jornal” “mais” “o cordel” para chegar ao valor de 0, 06 CÊNTIMOS pelo papel e cordel. Pareceu-me um valor excessivo obtido através de um cálculo muito amador. Pensei exigir no mínimo uma fotografia da folha de jornal e do cordel no prato da balança da cozinha e competente leitura no visor digital em nome do rigor. Mas...espera lá: FOLHA DE JORNAL?! Por muito que partilhe do seu fervor de salvar o Planeta e poupar recursos, ó sr. extraterrestre, estamos a falar de um livro, um objecto sensível: para esta bibliófila nada menos do que três voltas de plástico com bolhas a protegê-lo na viagem de longo curso desde Marte até à minha porta, por favor! Mmmm...será peso a mais para a viagem?

E acrescenta o vendedor em novo email, agora era às mijinhas:
- Caso aceite o meu nib é: (...) o nome é (...) e não se esqueça que preciso da sua morada. Obrigada :)

Diário de bordo: corre o dia 28 de Fevereiro do ano 2017 da graça de nosso senhor Jesus Cristo. Passaram três dias desde o contacto. Várias ideias cruzaram a minha mente à velocidade da luz quando acordei para mais este email. Por exemplo pedir antes ao vendedor que usasse uma folha de couve, sempre era mais resistente do que a folha de jornal e biodegradável. Lembrei-me sugerir o Correio Verde, afinal que melhor alternativa ecológica à folha de couve. Mas isso podia abrir mais uma era espacial de negociações entre mim e o marciano e deixei cair a ideia. Será que o vendedor estava a brincar? A fazer humor? Mas com livros não se brinca, a não ser que sejam daqueles plastificados que os bebés levam para o banho. Aiiiiiii...deu-me cá um buraco negro! Abri o Google e fui ver na livraria do costume, ora, ora, porque não comecei por lá? Eu e esta minha mania de “fazer circular os bens sempre que possível entre os humanos porque é bom para o Planeta”.

Comuniquei o facto ao vendedor com lisura mas secamente:
- Bom dia (...)
Vou desistir da compra. A Bertrand está a vender por 10.00 euros, novo. Não compensa comprar o seu. Peço desculpa pelo tempo que lhe fiz perder. Agradeço a sua atenção.

Pensei que o extraterrestre das vendas em segunda mão online já não comunicasse de volta mas ainda botou faladura:
- Em inglês? Obrigada pela informação.
- Sim, claro, em inglês, -respondi.

Chatos dos extraterrestres. Fim da transmissão.

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