1/6/17

Não há cá Sherlocks das redes sociais

A investigação criminal cabe exclusivamente às autoridades, não há cá Sherlocks das redes sociais. É isso. Já devem ter visto o apelo desta mãe e de um amigo para que partilhemos muito um video porque assim vamos, todos juntos, ajudar a encontrar os responsáveis do ataque selvagem que o rapaz sofreu. Expliquem-me lá como é que eu vou ajudar a fazer justiça partilhando o video. Dizem-me vocês que fundadamente o processo encalhou. Acreditarei ou não. Mas divulgar a história não chegava? Era preciso divulgar um video com este teor cujo único alcance é prejudicar sobretudo a vítima? Não sei quantos de nós, se agredidos desta maneira, iriam agradecer ter as imagens da nossa brutal agressão a dar a volta a Portugal. Não sei se se recordam de um caso algo semelhante que aconteceu em 2015, aqui na Figueira. Eu partilhei esse video mas aprendi alguma coisa ao observar o desenvolvimento do caso e hoje não o faria. Esse video também deu a volta ao mundo. Pois dou uma volta pelo feed e lá tropeço agora no video rapaz espancado que imagino deva hoje sentir-se pior do que em Novembro, quando sofreu o ataque, porque a reviver a situação vezes sem conta e a ler alguns comentários menos abonatórios. Ou seja, a agressão soma e segue: agora está a ser agredido duplamente através da exposição viral nas redes e TV e ainda é acusado de não saber estar à altura, certamente por gente de grande envergadura física e moral, imagino. E quem promoveu este duplo assalto? Os bem intencionados que querem fazer justiça com a ampla divulgação das imagens. Só que a justiça para o caso não chega através de repúdio virtual em massa e de insultos generalizados ao grupo de jovens monstros e às famílias - que todos afirmam sem dúvida disfuncionais e sem princípios, - nem através desta solidariedade viral e virtual que nada repara, apenas contribui para tornar a ferida mais aberta. Não sei o que hei-de chamar a quem assim partilha imagens obtidas de forma ilícita e que ferem a sensibilidade do visado. Talvez me possam ajudar nisso: ingénuos? Ninguém quer saber do direito à imagem porque é a imagem dos outros, não a sua, que anda por aí em looping. O direito à imagem faz parte do cardápio dos direitos, liberdades e garantias, mais, é protegido penalmente. Não vale filmar contra a vontade de alguém, e é o caso, sem dúvida, não é preciso que se trate de uma cena íntima e privada: é crime. Vocês acham mesmo que o jovem, se tivesse tido voz, autorizava a passagem deste video nas redes? Tenho muitas dúvidas. Justifiquem-me também de que forma aproveita ao interesse público de informar e ser informado a passagem deste video. O meu direito a ser mantida adequada e verdadeiramente informada não podia ter sido satisfeito por outra via que não através da transmissão destas imagens violentas? Os extremosos da informação do site noticioso onde tive o prazer de visionar o video fizeram ainda questão de redigir o passo-a-passo comentado do mesmo num texto onde não faltava nem a reprodução dos diálogos, parece que uma imagem não vale, afinal, mais do que mil palavras. A liberdade de transmitir não deveria implicar além do direito de informar o de não ceder a esta forma apoucada de tratar as vítimas? É que a vítima actualmente perdeu todo o estatuto de pessoa, a vítima é uma coisa que serve para ganhar Likes, shares de audiências, vender jornais e depois arquiva-se, sem remorsos, imaginando que um psicólogo há-de lá ir a casa para ajudar a lidar com o trauma, devolver-lhe a dignidade e a auto-estima perdidas. Não perpetuar esta delapidação cabe-nos também, não venham depois dizer que os jornalistas são uns abutres. Já agora, e para terminar, imagens captadas de forma ilícita só podem ser usadas para incriminar quem lhe deu origem. Não podem ser usadas para condenar alguém que até pode ter praticado um crime se não foram colhidas dentro do legalmente previsto.

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