12/30/17

Jovens de rua abrigados em lavandaria parisiense




Esta não é para rir. A beleza de ser humano mostra-se hoje também nos comentários do Facebook e similares. Nunca devemos perder a oportunidade de nos sentirmos irmanados nesta centelha humanitária que nos aporta calor no frio mundo virtual. Assim é que no dia 24 as pessoas gastaram os dedos a teclar palavras cheias de luz: é paz e amor para todos, votos de Boas Festas às pasadas, frases benignas para amigos reais e virtuais, animais de estimação incluidos, desejos de paz na terra e aos homens de boa vontade; partilharam-se postais com os Reis Magos a dizer “vamos fazer deste mundo um lugar melhor todos os dias” e ainda “que o espírito do Natal nos ilumine agora ao longo dos 365 dias do ano”, organizaram-se cabazes e jantares para os mais necessitados, enfim, todos sabemos como é, e a matéria está ainda bem revista e fresca. 

Eis senão quando no dia 29 aparece uma fotografia no Twitter, uns putos desgraçados, - porque o são ou não estariam dentro de máquinas numa lavandaria, a tentar abrigar-se do frio ou até a fazer horas, - quer dizer, nenhum de nós, aqui, ousaria dizer dos amigos do seu feed fotografados em idêntica pose que não teriam caído em desgraça, condoendo-se da sua sorte, fosse qual fosse a razão porque tivessem sido assim fotografados. Mas os outros, aquela paisagem humana cinzenta que só interessa para a estatística, e certos uns em especial, o que pode variar consoante a nossa particular paleta de exclusões, são sempre o alvo fácil do comentário leviano. A culpa do seu azar é sempre só deles e de mais ninguém. A razão de ser da desgraça que pode ser o crime ou o desenraizamento social e familiar, ou a doença mental, ou o desemprego, ou a perseguição política ou étnica, ou a pobreza social e intelectual é uma coisa que está lá longe e à qual nos julgamos imunes. Podemos, então, gozar à vontade no conforto da nossa segurança. São inúmeras as possibilidades que podem interferir no futuro de um ser humano, fazer com que se transforme num acossado, em suma, um desgraçado, umas vezes para isso contribuindo, outras para isso sendo inelutavelmente arrastado. 

Ao vermos pessoas caídas somos rápidos a fazer leituras e nem sempre abonatórias, nem para elas, mas, e sobretudo, nem para nós. A acompanhar a foto que saíu 5 dias depois da grande noite da boa vontade em que somos todos irmãos, o que se pode ler nos comentários vai desde o básico voltem para Marrocos que lá está calor, até inutilidades porque não há cérebro nem coração para melhor que isso, parecendo óbvio que o espírito do Natal já foi com os cães, se é que alguma vez existiu, e não passa de uma construção fantasiosa tão poderosa como é a do Pai Natal. 

Escrevia então um ser iluminado que esta situação era uma tremenda parvoice, porque se não se fechar a porta às máquinas elas nem sequer trabalham. E, em modo esclarecedor, - porque os outros são sempre bué de estúpidos – afirmava que eram máquinas de lavar e que os jovens não tinham sabido ver sequer a diferença entre um aparelho de lavar e de secar; e que era preciso meter a moedinha e fechar a porta quer a uma, quer outra, para funcionarem. Ou seja, imagino que esta pessoa achasse que os rapazes deviam ter colocado o dinheiro na ranhura e enfiado os corpinhos nas máquinas para se lavarem ou para se aquecerem ou as duas coisas, uma a seguir às outras. Esta alma boa terminou a sua sagaz observação do caso com um LOL – Laughing out loud. 

Eu também me podia estar a rir agora, dizem até que quem ri por último ri melhor. Só que estou é furiosa como se a falta de humanidade que nos rodeia e a falsidade com se apregoam bons sentimentos e valores fossem uma coisa rara! Devo ter sido é vítima da lavagem cerebral da quadra porque regra geral não sou assim tão atordoada. Não fui ver a página da criatura mas aposto que lá encontraria os tais chavões natalícios, velas a arder por um mundo melhor, o postalinho do menino Jesus nas palhinhas deitado, porque nessa época não havia ainda lavandarias ou o seu berço bem podia ter sido uma. Podemos, e é impossível não julgar e avaliar as acções dos outros, mas fazê-lo em relação a pessoas de quem não sabemos nada, revelando total insensibilidade, de forma gratuita, - e duvido até que esta comentadora tenha aberto o link e lido a breve notícia, - é também uma grande desgraça, tão grande quase como ter sido atirado para os subúrbios de Paris ambicionando um futuro que nunca se tornará realidade, ou não saber sequer como lutar por ele, ou ainda tendo tido tudo na mão e deitado tudo a perder porque não se soube ou quis ser melhor. E pronto, era isso, hoje estou sem graça, aturem-me.

Remédios Literários ou o poder da biblioterapia

Depois da iogurtoterapia, a biblioterapia: prescrição de um livro, ou vários, para lidar com situações de sofrimento físico ou de comoção espiritual. Diz a Bertrand: "Por vezes, é a história que encanta, outras vezes é o ritmo da prosa que trabalha na psique, aquietando ou estimulando, ou é uma ideia ou uma atitude sugerida por uma personagem que está num dilema ou num sarilho semelhantes". Mais de 750 remédios, isto é, romances, para curar ou aliviar a sua maleita! Aqui há de tudo como na farmácia e sem efeitos colaterais. Esqueça a máscara com pressão positiva, o dispositivo de avanço mandibular. Quer deixar de ser um roncopata? Para eliminar o ressonar estão aqui listados os melhores romances. Isto não é novidade para mim: se leio, não durmo, se não durmo, não ressono. É um alívio para o meu parceiro que, mesmo assim, ainda se queixa que o acordo com o raspar irritante das folhas no lençol quando eu mudo de página. Sem dúvida que neste livro também haveria ele de encontrar literatura de peso, a mais indicada para quem sofre de sono leve. De igual forma para combater os pesadelos basta ler um bom livro que nos mantenha acordados. Tudo soluções muito empíricas: eu já comprovei. Há também neste compêndio de bulas medicamentosas literárias uma lista dos melhores romances «para parecer um bom leitor». Desconfio nas entrelinhas que se trate de uma falácia simpática que não vai curar a ignorância, aposto, apenas dar a possibilidade de exibir alguns sinais exteriores de cultura, afinal apenas uma espécie de paracetamol que atenua os sintomas da doença mas não a cura. Ano Novo, Livros Novos! Compre já na sua farmácia, digo, livraria de eleição, e comece a colher os benefícios da biblioterapia.

Fim de ano por Lisboa



Cheguei ontem para marcar lugar na Praça do Comércio. Como dizem os ingleses, passaroca que chega primeiro é quem apanha a minhoca, neste caso um bom lugar. Sendo eu uma mulher baixinha gosto de estar na linha da frente de qualquer evento onde é garantido ver tudo ao detalhe e primeiro. Mas nestas andanças dos concertos há sempre alguém que me passa a perna, um chico-esperto que apanha o melhor lugar. Tentei negociar um nadinha da garupa com o D. José mas o homem não se comoveu. O único lugar sentado já era. Não insisti pois o Zé ficou meio instável depois do atentado, aliás, acabou mesmo por ficar maluco, e olhando assim cá de baixo não conseguia descortinar se ele tinha tomado a medicação ou não...



É agora que os fotógrafos de aves que sigo no Facebook se vão roer de inveja.Desde que me comecei a interessar por aves descobri que uma gaivota nunca é apenas uma gaivota. São, se a minha inexperiência não me trai, 16 espécies que andam por aí a cruzar os céus de Portugal, todas iguais, todas diferentes. Hoje não posso olhar para uma sem me perguntar de imediato se é uma gaivota-argêntea, ou um alcatraz, ou uma tridáctila, ou uma gaivota-risonha, etc, etc. Estava eu no Terreiro de Paço, puta da vida com a frieza do histórico José, quando encarei com este exemplar, uma gaivota-de-cartola, ave raríssima, ocorre como migradora de passagem no continente, sempre em épocas festivas. Depois de me passar a comoção causada pelo registo, recordei avistamentos em festas académicas de anos longínquos quando a vida era banal e uma gaivota era apenas uma gaivota.



Hoje estou em modo Lisbonita. Não estranhem, isto nunca dura muito. Estamos então na rua Augusta. Havia esta grata moldura humana que abraçava a música que o rapaz afinava, concentrado, um semáforo humano que fazia parar e avançar os peões. Na rua palco, a tempos subtraída ao mecânico trânsito pedonal, mais que a audição era o coração rendido que ficava preso ao chão enquanto o silêncio não abria para prosseguirmos a marcha. O tilintar metálico no estojo não chegou a pagar os breves instantes de perfeição oferecidos a quem tinha começado a subir a rua de pensamento carregado, eu, após ter visto tanta polícia e tão bem artilhada no Terreiro do Paço. É uma visão de prevenção que nunca me fez sentir segura e que actualmente logo me transporta para cenas televisivas de atentados, silvos de balas e gritos de gente em fuga. A subir ainda a Rua Augusta e antes de virar em direcção ao Metro acomete-me uma súbita resolução de Ano Novo. A de 2017 deu o seu fruto com duas dezenas de livros lidos. E aproveito para referir dois escritores: Nuno Camarneiro, figueirense, cujos livros não consegui parar de ler antes de chegar ao fim; e António Tavares, que vive na Figueira mas não nasceu ali, um homem sereno que conheci há muitos anos quando dirigia A linha do Oeste, um jornal, e que escreveu em O coro dos defuntos uma metáfora do nascimento da democracia em Portugal, com certo humor e revisitando Aquilino Ribeiro. Quem diria que santos da terra fazem milagres. Caminhava então lenta e enroupada por entre multidão ruidosa a pensar que tinha mesmo de ir a alguns concertos clássicos em 2018. Tinha. Para ver madeiras de violinos e violoncelos, pianos, metais brilhantes de clarinetes e oboés! Para ver os músicos a tocarem estes instrumentos. Para viver mais a música. Estava decidido: sinal vermelho ao streaming em 2018! Ou pelo menos um amarelo intermitente. Agendados estão alguns tradicionais concertos de Ano Novo onde poderei testar a muito curto prazo a força desta resolução. E onde posso até esperar que não me seja pedido que abra a mochila à entrada, ou me seja feita revista com raquetas que detectam armas; e onde não tenha de encarar com polícia fortemente armada a lembrar-me que o mundo é um lugar menos perfeito que este amável semi-círculo de peões encantados ao redor de um músico na Rua Augusta, em Lisbonita.

12/23/17

Natal no supermercado



Cheguei há pouco do supermercado e nem vos digo os valores registados na escala de Natalli – que mede a intensidade do espírito de Natal a partir dos seus efeitos sobre as pessoas e sobre as estruturas construídas e naturais - nas filas das caixas. A habitualmente cordial operadora estava com um ar meio crispado, ainda achei que podia ser do fresco do ar condicionado, mas com tanta ginástica de braços só se estivesse morta. Muita gente em fila e com cara de poucos amigos, a esticar o pescoço que nem galinha de forma a perscrutar o volume de compras de cada um, numa ânsia desmedida de mudar para uma posição mais favorável no poleiro - por si só uma típica coreografia natalina; todos de sobrolho carregado e a lastimar-se como todos deixam tudo para a última hora, até eles mesmos - por si só um típico coro de natal. 

Dei a vez a uma senhora de muita idade sem ela ter implorado. Só trazia uma garrafa de vinho na mão e eu senti-me de imediato solidária, quem sabe se não seria a sua única companhia à refeição, introspectei de coração apertado. Ela agradeceu-me, aliviada, enquanto me dizia que o marido estava à sua espera lá fora, às voltas no lotado parque de estacionamento onde lugares nem vê-los.O vinho era para ele, ela não bebia. A empertigada moça atrás dela olhou-me então com notório desdém: era jovem e trazia um carrinho bem recheado. Após relance indiscreto ao luxuriante conteúdo, imaginei no mínimo um marido, dois filhos de tenra idade, um gato e um amante. Há gente tão lisa de sensibilidade que não consegue relaxar da mona, nem durante a quadra da máxima conspiração do amor. Cheguei a casa contente, com a dopamina a bombar fruto da boa acção, evidentemente que só faço estas coisas porque sou uma viciada em endorfinas. Confesso que as faço todo o ano, como qualquer drogada competente já não luto contra o vício. 

Arrumadas as compras sentei-me na secretária e liguei o computador. Achei que era serviço público vir aqui de rajada lembrar-vos que não guardem para amanhã as compras que puderem fazer já hoje, imagino que amanhã o espírito de Natal vá bater records na escala de Natalli em todos os super da terra, acautelem-se, portanto. E basicamente era isso. Estou aqui coladinha ao radiador e agarrada às minhas bolas anti-stress de Natal, aperta que aperta, são tão macias, o seu toque agradável transporta-me de imediato para um patamar de serenidade. Há muitos anos que me são indispensáveis para passar pela quadra sempre com um sorriso nos lábios. As bolas anti-stress ajudam-me a lidar com os podres, enfim, tudo aquilo que estraga o Natal todos os dias. São verdadeiramente milagrosas, aconselho a todos experimentar. Ah, e também muito indicadas para o fortalecimento dos músculos dos dedos e das mãos porque no Natal nem tudo é paz e amor, momentos há que dá vontade de meter a mão na massa e fazer umas broinhas de Natal com frutos secos ou coisa assim.

12/19/17

Boas Festas e poinsétias


Talvez conheçam o nome Pulquéria porque o leram em algum livro de Machado de Assis, ou então associam-no à Imperatriz bizantina devota do culto mariano. A mim chegou-me pela primeira vez em conversas familiares ouvidas entre a minha mãe e avó, em criança, sobre a querida amiga Pulquéria, e marcou-me para sempre. Não vislumbrando sequer um diminutivo carinhoso de menina, jovem e senhora capaz de amparar a desafortunada no convívio com a desdita de tal escolha pela vida adiante, imaginava com horror ser nomeada assim, ter o nome bordado a azul a ponto pé-de-flor no uniforme da escola primária, ou, mais tarde, nos atoalhados de banho, ou, pior ainda, ostentá-lo na caixa de correio à porta de casa ou em placa na porta do escritório, desconhecendo por longo tempo que pulquéria, palavra com origem latina, é sinónimo de bela e bonita. Quando o descobri não fiquei todavia mais pacificada e agradeci que os meus progenitores me tenham bendito com um nome clássico e não com um que soa a punição, e, no caso, perpétua e por falta ainda não cometida, uma injustiça sem nome. Imagino que tenha origem em pulcher, latim não é o meu forte. Nem certamente o forte do AGIR ou hoje andaríamos todos a cantarolar Ela é pulquéria sem makeup. Isto foi só um aparte pois está a tocar na radio, é uma das dez músicas seguidas sem parar, seguidas e antecedidas de vinte minutos de bela publicidade a compras de Natal sem parar.

E vem isto a propósito da mais bela das Euforbiácias, (Euphorbia pulcherrima) uma conhecida planta que está por toda a pequena, média e grande superfície nesta época do ano a disputar o lugar com as decorações plásticas vermelhas made in China. A bela planta floresce exatamente no solstício de Inverno que coincide com o Natal no hemisfério norte e daí ser a flor do Natal. Noutras paragens recebe nomes menos festivos como rabo-de-arara, bico-de-papagaio, folha-de-sangue, flor de São João, coroa dos Andes, etc. Pela primeira vez trouxe uma estrela-de-Natal para casa e como não tenho mão verde optei por investir o mínimo, comprei a mais pequenita, desconfiando que a poinsétia não lograsse um longo futuro aos meus cuidados. E então não é que foi por um triz. A ignorância mata. Ausente de casa três dias e três noites deixei a infeliz estacionada à janela, prevendo os banhos de sol mas esquecendo os severos arrefecimentos nocturnos. A planta é tipicamente tropical, sendo pouco tolerante com o frio e geadas. Quando regressei tinha perdido a tesura, as folhas viçosas que antes se abriam estelarmente agora faziam lembrar um salgueiro-chorão e auguravam um prognóstico reservado à mais bela das Eufórbias. Lá fui consultar o Dr. Google pois impunha-se um tratamento de choque. Luminosidade, rega, solo. Qual seria a conjugação de cultivo ideal para a plantinha vingar? Daí a pouco já estava munida de luvas e à procura de um vaso maior, a remexer num saco de terra e a sujar toda a varanda como se não houvesse mais nada a pedir a minha atenção na secretária. Mas isto era uma emergência: quem salva uma vida salva o mundo inteiro. Diagnóstico: a pobre estava ou transida de frio ou sequiosa ou faminta ou tudo isso e mais. E era evidente que a porção de terra no vasito preto era quase criminosa para tanta vontade de crescer, as raizes já não tinham por onde enraizar. Depois de transplantada foi ensacada à laia de estufa e colocada num lugar mais quente. No dia seguinte uma grata estrela-do-Natal espreguiçava-se de novo para mim e eu respirei de alívio por não ter morto a planta antes do seu tempo chegar, o que teria sido uma injustiça sem nome. 

Verdade seja dita, não salvei o mundo inteiro mas a poinsétia já cresceu desde que a trouxe e com ela também cresceu o meu conhecimento. Se o significado de pulcherrima me era familiar descobri agora o porquê destas plantas serem chamadas “poinsétias”. Joel Robert Poinsett, um estadista norte-americano, foi nomeado embaixador para o México, de onde é nativa a flor de folhas rubras, entre 1825 e 1829. O sujeito envolveu-se de forma abusadora nos assuntos daquela nação, de tal maneira que o termo “poinsettismo” passou a fazer parte do dia-a-dia dos mexicanos e a designar aquele comportamento abelhudo. Botânico amador, Poinsett introduziu a planta nos EUA, junto de amigos e botanistas, e a flor-do-Natal acabou por se popularizar com o seu nome graças a um deles que assim o quis honrar. Se quisermos ir à raíz da questão há que saber que em Nahuatl, a língua dos astecas, a poinsétia era chamada Cuitlaxochitl (de cuitlatl, resíduos e xochitl, flor) o que a mim me soa a nome de medicamento e não anda longe pois os astecas usavam-na como antipirético além de pigmento. A poinsétia apresenta uma característica curiosa: o que parecem ser as pétalas das flores são brácteas, isto é, folhas modificadas. As flores da planta são insignificantemente discretas, brancas e pequenas, não ostentam cores e formas atraentes para os polinizadores. As brácteas coloridas que surgem ao redor das flores da poinsétia têm a função de atrair os insectos e aves responsáveis pela sua polinização. 

Desejo a todos umas Boas Festas de Natal e um Ano Novo em Beleza. Em 2018 aproveitem todas as ocasiões para se cultivarem e crescer: não permitam que esmoreça a vossa estrela. Lembrem-se: a ignorância mata.

11/20/17

Os pénis estão em alta na internet. E até nos céus.



Os pénis estão em alta na internet. (Quase me atreveria a dizer que, por estes dias, andam na boca de toda a gente. Mas corria o risco de ser mal interpretada, além de estar a corromper uma das mais famosas frases publicitárias de que há memória.É melhor não.) E nos céus também. Pensando eu tratar-se de um pratinho de lascívia a que nem faltava o aviso para o conteúdo explícito das imagens, apressei-me a ler este relato da Fox News sobre o piloto que desenhou um pénis nos céus da ilha de Whidbey. Deambolando na minha taradice e enquanto cantarolava “Penis in the sky with diamonds”, imaginava já um festim de genitálias masculinas, tipo um fogo de artifício ou qualquer coisa em 3D. Mas tudo se resumiu a uma galeria de meia dúzia de fotos de uma garatuja de vapor de água desenhada nos céus, talvez alguma fuligem ou dióxido de enxofre também, se quisermos ser rigorosos, mas nada mais porco do que isso. Afinal um rabisco tão infantil quanto aqueles que havia gravados a canivete nas portas de madeira escura dos wc da minha escola primária. Coisa mais pura não pode haver. Lembremo-nos que Picasso retratou a jovem amante num quadro a que chamou O sonho e desenhou-lhe um pénis no rosto descansado. Ninguém diz que tal coisa é uma obscenidade. É isso. Vão ver que o piloto estava no seu período azul. Que dias americanos estes em que já não se pode ser um Picasso aéreo sequer. O desgraçado – ou desgraçada - está de castigo, impedido de esvoaçar e vai responder pela sua conduta sem ética, imprópria dos valores da Marinha que até pediu desculpas. Uma mãe transtornada por tal visão é que não se percebe de todo: não saber como explicar às suas criancinhas o que estava ali a desenrolar-se nos céus é muita falta de imaginação e, em último recurso, um caso para o Dr. House.

11/19/17

Ficheiros nada secretos: o caso Maçães.

 A) Preliminares: quando quer acasalar o pinguim-gentoo oferece uma pedra de textura macia à sua amada no intuito de conquistar o seu coração. Os pinguins podem passar horas a calcorrear as praias da Antártica à procura do seixo perfeito. Quando o pinguim macho encontra a pedra ideal, apresenta-a à fêmea como uma oferta de amor. Se a fêmea gostar do que vê leva a pedra para o ninho e há truca-truca.

B) Corpo do delito. Uma jornalista arruivada e jeitosa, de nome Lily Lynch, botou a boca no trombone. Maçães, um obscuro, creio eu, ex-secretário de Estado para os Assuntos Europeus, teria sustentado com ela conversas virtuais ameaçadoras e intimidatórias (!) nos idos de Outubro de 2016, e cereja no topo do Twitter, mandou-lhe um instantâneo da perna do meio. Não se conheciam pessoalmente. Tão tolinha ela quanto ele, ela porque deu trela ao sr. secretário, alimentado conversetas que não lhe estavam a cair bem, ele, porque tendo inclusivé a noção de que estava a pisar o risco, confessando receio pela sua carreira política se tal novela pseudo-erótica viesse a público, persistiu e ainda coroou a sua bravata daquela explícita forma gráfica. Foi quanto bastou: o Maçães foi agora apanhado nas malhas do sexting. 

Há uma linha ténue que separa a brincadeira sexual aceitável do assédio e da exposição não consensual de material íntimo, abusiva. O jogo tem a sua piada mas o jogo tem regras, que bem podem até ser não escritas, e há consequências quando se quebram. Saber jogar implica não ser ingénuo digital, e, antes disso, não ser um idiota. O jogo não é novo, é apenas uma adaptação às novas possibilidades tecnológicas, longe vão os anos 80 e o arquitecto Tomás Taveira e as suas cassetes video caseiras. Mas que fiquem tranquilos os Maçães que me têm enviado fotos da perna do meio ao longo dos meus anos nas redes pois não vou agora e na onda do recente hashtagmetoo começar a acusar ninguém de me ter enxovalhado ou intimidado, de me ter sentido abusada ou assediada. Se me fizeram sentir assim terão sabido na hora e ouviram o que era devido. Não costumo deixar os assuntos ingratos a marinar, isso apenas faz com que o seu sabor desagradável se intensifique. 

O jogo do engate e da sedução mudou-se das palavras para as imagens e esta forma de viver o erotismo conquistou todos quantos andam com ele na mão. Ele, o smartphone, claro. As fotos de falos e nudes tornaram-se cartões de apresentação, desbloqueadores de intenções, uma nova normalidade. Este caminho que parece seguir o trilho triunfante dos emoji é mais um sinal da atrofia crescente do uso da escrita nos relacionamentos. A isso nos conduziu a vertigem do quotidiano moderno apoiada na muleta da tecnologia. Carregar em teclas e escolher imagens para expressar os nossos desejos mais íntimos e sentimentos é rápido e uma imagem vale mais que mil palavras. Gesto empobrecedor para quem sofra, como eu, do sindroma de Roxana, assumo que nisto dos galanteios sou mais depressa seduzida por Cyranos poetas do que por belos Cristianos sem dom de palavra, a quem esta tendência moderna deve sem dúvida sorrir. Ai, Maçães, Maçães, estás bem Lynchado.

11/12/17

Panteão Party

Panteão Party. Os monumentos devem realmente ser vividos mas há certos espaços que servem para convidar à solenidade, a uma certa introspecção e ao recato, ao respeito pela memória histórica, se é que vale alguma coisa a memória dos que lá repousam, começo a duvidar, e assim deviam permanecer. E esta justificação que li, dos restos mortais de Humberto Delgado, porque fundador da TAP, sepultados no Panteão, terem ajudado à opção pelo local? Pensava eu que isto da Summit tinha mais a ver com o futuro, o movimento para a frente, bem sabendo que não há geração espontânea, nem de micróbios nem de ideias. O Minho fica longe, sai caro deslocalizar uma janta que o país é enorme, e, azar, Nuno Peres move-se por lá, e ainda não morreu, e ninguém sabe nada de nada sobre materiais bidimensionais, como os dicalcogetos de metais de transição, em que os mais interessantes são os semicondutores, para aplicação na indústria eletrónica, mesmo que meio mundo esteja de olhos postos nisso. Não tendo sido a primeira jantarada na nave do Panteão, reafirmada a banalização do espaço, fico à espera da festança do Réveillon, este ano já não vou ao Mosteiro São Bento da Vitória. Vai ser de arromba, um evento de fazer mortos rolar na tumba. E aguardo em pulgas pelo baile de máscaras da noite do Aluine de 2018 na boa companhia dos espíritos de presidentes, artistas, escritores, pedagogos e poetas, afinal, gente do outro mundo. Ah, e futebolistas, estava-me a esquecer. Viva a era da total mercantilização sem escrúpulos, onde tudo tudo pode ter um preço e nada tem valor.

10/18/17

Pinhal do Rei - Afonso Lopes Vieira


Pinhal do Rei

Catedral verde e sussurrante,
aonde a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o "Lavrador" que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...


Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.

Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar
e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhe deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a terra e olhando os novos astros,
ó gótico Pinhal navegador,
em naus, erguida, levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar!

Na sussurrante e verde catedral
oiço rezar a alma de Portugal:
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
sonâmbulos de surda ansiedade,
no roxo da tardinha,
abre a flor da Saudade;
ela aí vem, sozinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva de seus bens
e pálida de amor,
arribada de todos os aléns
de este mundo de dor;
ela aí vem, sozinha,
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espalha e esconde,
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar.

Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma, 1917

Sugestão de leitura: 

Cidadãos da Marinha Grande enviam queixa à Procuradoria Geral da República- Grupo de pessoas quer investigação ao incêndio que devastou Mata Nacional de Leiria. Para ler aqui.


Constança diz adeus ao MAI após fim de semana quente


A culpa dos incêndios é evidentemente do Governo, é dos partidos do Governo, é da oposição, é dos portugueses porque somos nós que elegemos Governos, é dos anteriores Governos e sobretudos dos desGOVERNOS, dos anteriores ministros e presidentes, é da cedência cega às politicas da UE que hipotecaram o futuro da floresta, da agricultura e atrofiaram o interior. A culpa dos incêndios é de não existir uma política da floresta e antes uma floresta de políticos onde predomina a monocultura do partido a que pertençam. A culpa é central e é local, a culpa não tem cúpula. A culpa é dos graus de temperatura média anual a mais que somam e seguem, e somarão, dos fenómenos atmosféricos episódicos extremos, dos que incendeiam por loucura, oportunismo, negócios escuros, dos incautos das queimadas, dos desleixados que não limpam, do desGOVERNO total a que se tem votado a floresta ao longo de décadas. A floresta é um assunto sazonal, são dossiers que vão de férias em Outubro e que só regressam depois da mudança da hora. A floresta só é lembrada quando dá dinheiro e quando arde, e até para o cartaz turístico do país é remetida sempre para segundo plano. A floresta é um assunto tão pouco importante que qualquer Zé comenta na TV durante meia hora mas os especialistas, engenheiros florestais, biólogos e outros, ficam em casa a ver e a rir-se para não chorar. A culpa é das árvores, se fossem antes estas e não aquelas isto já não acontecia. A culpa, a culpa. A culpa é ramificada, são muitos ramos e raminhos, raízes fundas cujas extremidades a custo se alcançam. A culpa vai tão longe que já ninguém lhe consegue deitar a mão. Em suma, e para acabar, a culpa é do fogo porque o fogo queima. 

E então não vamos demitir nem permitir a demissão da ministra porque isso nada resolve: não expia a culpa dos incêndios porque a culpa é maior do que aquela por que ela alguma vez poderá responder e procedendo assim estamos a fazer de Constança mais uma vítima dos incêndios; demitir Constança não traz os mortos de volta, não devolve a seiva às árvores queimadas, não repovoa os terrenos em cinzas, não há nenhum efeito útil nisso. Todavia gostaríamos, se pudéssemos, de chamar todos os anteriores que falharam na resolução do problema floresta e de os fazer pagar por isso. Constança é que não: deixemo-la continuar a fazer o que de melhor sabe fazer mesmo quando a senhora implora para sair após Pedrogão. 

O problema dos incêndios não se resolve com a demissão da ministra mas Costa que diga e também aqueles que andam a afirmar isto, porque acham que se resolve com a sua manutenção no lugar: porque o mais fácil é sair? Mas que resposta é esta?!! Exempliquem-me o que ela fez desde Pedrogão, o que fez Constança e o MAI por que dá a face? E, já agora, o que se fez antes de Pedrogão? Ela chegou em 2015. Em 2016 ardeu no Porto, em Aveiro, em Viseu e na Madeira. O período crítico de incêndios foi até prorrogado pelo Governo devido às condições meteorológicas. Segundo li, a área ardida em 2016 mais do que duplicou em relação a 2015, tendo os incêndios florestais consumido, até 30 de setembro, 150.499 hectares, embora em contrapartida, o número de ocorrências de fogo tivesse descido quase 25 por cento face ao mesmo período de 2015. Isto é bom? Isto é excelente?  A Protecção Civil comunicou que 35 por cento dos grandes incêndios tiveram origem intencional, 26% tiveram causa negligente e 29% desconhecidas. Também se verificaram mortes. Lembram-se? Ou foram poucas para serem lembradas? 

Do que recordo Constança encomendou estudos sobre o SIRESP, a que continuamos presos e a ver falhar nos momentos de crise, falou-se em meter reclusos a catar mata. Digam-me que mais andou Constança a urdir, eu também não andava de olho na senhora, mas entretanto fiquei a saber que não gozou férias: tem de haver mais qualquer coisa. Algures durante o verão o ministro da Defesa, Costa e Constança concordaram que a Força Aérea devia voltar ao combate das chamas, em Agosto ela não possuía meios aéreos que permitissem a realização de missões de combate a incêndios, agora é Outubro e também não tem. Porquê? Porque tudo demora o seu tempo. Correcto, aceito. Mas eu pergunto se o processo já foi sequer iniciado. Foi?

Constança não é nenhuma idiota. É uma jurista capaz com fama de trabalhadora. Não é lá muito hábil nas declarações que presta, não duvido da sua dedicação ao posto, mas, sobretudo, onde está a mudança que se espera a cada novo verão? E se a estrutura de liderança da Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) foi alterada quase por completo desde que o Governo entrou em funções, com a substituição de sete dos oito membros, - porque os que lá estavam foram avaliados como incompetentes, foi isso? - se em cima da época de incêndios houve também muitas mudanças na estrutura de comando operacional,  - em nome da melhor obtenção de resultados? - e se depois de Pedrogão houve duas demissões pelo menos na Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) em virtude das falhas que terão sido cometidas durante o incêndio mais mortífero de sempre e ninguém se manifestou contra, agora Constança não pode ser demitida pois estamos a fazer dela um bode expiatório? E porque será substituída por um clone dela mesma... e nisto eu acredito.

Não entendo nem a obstinação de Costa em relação ao deferimento do seu pedido de demissão nem à remodelação do MAI, nem a de muitos que pelas redes fora se manifestaram como se ela fosse um elemento insubstituível. Onde estão os resultados impactantes da sua acção na criação de uma política de preservação e continuidade da floresta portuguesa? Some-se ao que disse as  resoluções do MAI para este fim-de-semana quente ou a sua ausência. Se esses muitos que defendem Constança fossem responsáveis por grandes empresas e nomeassem uma pessoa para um lugar de responsabilidade e confiança, e ela vos falhasse, continuariam a ser assim tão magnânimos? Dar-lhe-iam mais uma oportunidade? Devo ser muito insensível então. Por muito capacitada na área jurídica e trabalhadora, pura e simplesmente Constança e o seu MAI não estavam a dar a resposta que é esperada e ter mantido Constança obstinadamente desde Pedrogão  foi apenas alinhar com o rol de subjectividades que todos desejamos combatidas. 

10/16/17

Um dia de fogo na Marinha Grande - 15 de outubro de 2017














Muitas questões a lavrar-me por dentro. Temos o conhecimento mas ainda não interiorizámos rotinas de prevenção e alerta. Persistimos em comportamentos de risco fruto de hábitos antigos, tradições, vícios de carácter. Os tempos mudaram e o tempo mudou. O clima mudou. Temos de mudar muito e muita coisa. Não temos é coragem para assumir tamanha empresa. E enquanto isso o país espera que não aconteça o pior. Mas acontece. O país arde e morre gente. Se é algo complexo, que demora a ser feito, então vamos iniciar a tarefa quanto antes, agora, já. Do mais fácil para o mais difícil, de possível em possível. Que todos os que concorrem na responsabilidade se impliquem na solução. Que se chame quem sabe a pensar e a fazer o que pode ser feito antes que Portugal desertifique e se transforme no norte de África. E já agora que se coloque quem sabe à frente da tomada de decisões importantes. E que se pare de distribuir lugares de responsabilidade pela cor dos lindos olhos. E se apurem falhas porque gerir estes assuntos não pode continuar a ser um rega-bofe: quem aceita ou mostra estar à altura ou responde pelo desaire, em Lisboa ou na província. Até parece que quanto mais importante o posto mais desculpáveis os erros. Tudo isto é coisa que vem de longe, de muitos verões passados. Não me digam não ser agora o tempo de julgar e criticar, que as vítimas exigem o recolhimento e o infortúnio pede o luto: o tempo já era ontem e ontem já era tarde. Sim, continuo irada pelo que assisti e pelo que antevejo ainda.E também porque não posso fazer nada a não ser vociferar e gesticular para o ar como uma idiota. E também por saber que nada me garante que quem está à frente dos nossos destinos não falhe de novo. Errar é humano mas não aprender com os erros é descrédito. E isso é pior que falhar de novo. Se isto não é o inferno é, todavia, um ciclo infernal que Portugal não merece, ninguém merece esta desolação. Não nos entreguemos sem luta à conformação de que não se pode fazer melhor.

Sugestão de leitura: 

"Paulo Fernandes, perito da Comissão Técnica Independente, alerta que poderiam ter sido tomadas medidas perante o elevado risco metereológico. Furacão Ophelia elevou o perigo de incêndio para recordes nacionais" Ler o texto integral, aqui.

10/12/17

A mancha do Photoshop

Ontem de tarde passei cerca de meia hora a tentar apagar uma mancha numa layer do Photoshop. Tinha para cima de 200 layers empilhadas, o que até pode parecer muito mas nem é nada. Seleccionava uma e outra sem remédio. Depois de ter tentado todas as soluções e até de ter googlado por mais, sem perceber o que mais poderia fazer para eliminar a mancha, porque não existe grande ciência no assunto, e preparando-me para contornar trabalhosamente o problema, ocorreu-me ir fazer um chá verde que dizem ajudar a prevenir doenças do coração. É que eu estava prestes a ter um ataque de. Nesse afã me encontrava quando tocaram à campaínha. Era a vizinha do 7º andar que vinha rogar o favor de eu lhe dar as boxers castanhas que tinham caído nas minhas cordas, estavam por um fio, sorte era não haver vento. Tenho um acesso de hospitalidade convido-a para entrar para a cozinha enquanto me estico à janela para apanhar as ditas. E como o bule está mesmo ali a olhar para nós da sua alva beleza sugiro que se me junte no chá verde que descansa. Ela aceita e vamos para o escritório onde nos sentamos informalmente à mesa onde trabalho, daí a pouco as duas a fazer música com a colher contra a porcelana das chávenas, ela a dissolver dois torrões de açucar, eu apenas a fazer ondas. Insisto que prove as bolachas de aveia integral que entretanto fui buscar para vestir o estômago, saudáveis, digo eu. O ecrã do computador ficara entretanto em modo de economia, negro, mas primo a tecla e faço um enter orgulhoso para lhe mostrar o trabalho. Explico o processo, as ferramentas, elaboro sobre a magia do Photoshop. Ela diz que não percebe nada do assunto, tecnologia, informática, finge que está interessada sem disfarçar. Assim que pressente uma pausa no meu discurso pergunta-me pela receita das bolachas. Concluo, sem espanto, que o meu entusiasmo em relação ao Photoshop não a contagia e a resposta de que as bolachas vieram do Jumbo esgota a conversa. O meu olhar já está de novo cativo na mancha infecta, que não consigo remover. Não temos muita convivência, eu e esta vizinha. Descemos e subimos no elevador, emprestadei-lhe um limão ou outro, um ovo. No dia em que o rei faz anos traz-me uma fatia de bolo de aniversário, muito enjoativo, e, que me perdoem todas as crianças que passam fome no mundo, que eu nunca consigo terminar. Nunca sequer diz quem é o aniversariante, sempre apressada pois tem a casa infestada de visitas, tão stressada como quando sobe no elevador comigo, de compras nas mãos, ou desce, com os sacos do lixo. Eu também não pergunto. Deus me livre de perguntar e acabar por ser convidada para uma festa de bolos e bebidas hipercalóricas e outros atentados alimentares semelhantes. Ir lá acima para ver comer -que é muito diferente de comer com os olhos, - ter conversas agri-doces com estranhos, fintar os jovens explicandos a quem ela prepara nas matemáticas, aturar duas crianças hiperativas, as cadelas com o cio, emprestar o meu ombro ao pai dela que está deprimido e não sabe porquê, aturar o ex- a reviver o casamento falhado, ele que será sempre um amigo do peito para ela, mais a prima ruiva que não deixaria escapar a oportunidade de me tentar recrutar para a Yves-Rocher mais uma vez, conheço-os todos não de gingeira mas porque ela me apresentou a toda essa fauna no elevador, esse espaço ingrato de convivência social, - mencionei rever os outros vizinhos todos com quem partilho o elevador de uma assentada e acabar a discutir questões de condomínio? – ou no inescapável hall de entrada. E depois descer, e decerto com a fatídica fatia de bolo de três camadas num prato, olhar aquela temível flor de açucar vermelha e a folhita de hóstia esverdeada, saber que não vou conseguir comer até final: é demasiado para engolir de bom grado. E a cereja no topo, ter de comprar um inimaginável presente. Há muitos anos que deixei de praticar intimidades com a vizinhança assim como nunca durmo com colegas de trabalho. Regras são regras. Mas nem sempre nem nunca. E fosse porque me sentisse vencida pela insolência daquela mancha que se ria para mim no ecrã ou porque cansada de tanta higiene mental no que toca a interações sociais, cedi a uma momento de fraqueza e partilhei a minha frustração: apontei-lhe, inconsolada, a mancha. A minha vizinha, que nada percebe de computadores e Photoshop, levou mecanicamente as mãos ao peito e subiu os óculos pendurados do pescoço até à cana do nariz. Com olhar médico aproximou o rosto do computador que examinou por breves instantes. Sem hesitar molhou o dedo indicador no chá verde e esfregou-o contra o polegar. Apenas me disse: Posso? E dito isto moveu a polpa do dedo sapudo até à superfície do ecrã onde descreveu pequenos círculos suaves. Alarmada pelo vermelho escarlate da sua bem desenhada unha de gel abri muito os olhos porque não tive tempo de abrir a boca e impedi-la. A minha descompostura facial ficou-se por isso porque a mancha desapareceu como que por magia, digo-vos que até parecia Photoshop! Ensaiei uma piadola com o Quincy Magoo não para a fazer rir, mas para minorar o meu desconforto e levei a chávena de chá à boca, terminando a bebida de um trago. Ela não sabia quem era o velhote pitosga dos desenhos animados. Estavamos num impasse, eu agora titubeante que nem o Porky Pig, entre o agradecido e o embaraçado, a chávena dela quase cheia sobre a mesa dizia-me que o tempo sobejava para o muito que não havia a dizer. E então ela exclamou o estridente, costumeiro e hoje providencial, vizinha estou cheia de pressa, e levantou-se de um salto. Ainda tinha a louça do almoço por meter na máquina, disse, graças a deus, pensei eu. Que nódoa.

10/11/17

Madonna vai à bola com Portugal

Ahah, esta Madonna, concedam, uma pessoa tem de gostar um bocadinho dela. Olhai só este instantâneo da material girl a festejar o golo da selecção nacional, Portugal olé, Portugal olé. Em Roma, sê romano. A mulher foi ao estádio da Luz e tudo. Comove-me ver como até levanta os bracinhos em exultação pelo golo marcado por quanto eu nem a TV liguei e não me estou a imaginar a viver em Chicago e a aplaudir os Bulls. Paradoxos, eu, nascida em Lisboa, nem lambuzada em pastéis de Belém consigo disfarçar o meu amor pelo Porto. E agora a Madonna, uns mesitos em Lisboa, até já é muito mais portuguesa que eu. Que era uma artista camaleónica, eu sabia, mas isto supera tudo. Eu cresci com a Madonna, todas nós crescemos, e lembro-me de ter gozado com um amigo quando ele me mostrou o LP de estreia dela, acabado de comprar, dizendo-me, "ela vai ter muito sucesso". Eu desdenhei da virgem, claro. Balanço feito, viria a comprar dois CD (já tentei vender um mas ninguém o quer) e um CD single da senhora, o livro que escreveu para cachopos, vi um ou dois DVD's de espectáculos ao vivo, os filmes terríveis onde ela entrou, todos de evitar menos o Evita, esse escapa, mas só porque eu gosto de musicais. Agora a Madonna está a um passo de gravar um CD de fados com o Camané ou com o Marco Rodrigues, ou até de plagiar uma modinha do Tony Carreira. E se não tiver cuidado ainda acaba candidata a algum orgão do poder local. Preocupante mesmo é não conseguir uma casita. Mesmo se os invernos aqui não são rigorosos, tenho pena das crianças. O Palácio Sotto Mayor está desocupado e acho que até fechado a visitas, era uma hipótese para a rainha da pop morar, longe do bulício low-cost de Lisboa. Mas ainda ninguém lhe falou da Cascais de Coimbra, porque é o segredo mais bem guardado de Portugal, em breve haverá aeroporto a 50 km e tudo, útil para ela ir num pé à TV americana dar entrevistas ao Jimmy e voltar no outro. Além de não encontrar casa em Lisboa, Madonna parece também não ter ainda conseguido encontrar um cabeleireiro de confiança que lhe trate daquelas raizes profundas. Observando bem, as raizes até combinam com os óculos escuros, talvez seja uma tendência da estação. Uma estação chamada desleixo. O desleixo não lhe fica de todo mal, em mim ficar-me-ia pior porque eu não sou a Madonna. Aguardo que, depois das nossas autoridades administrativas lhe terem dado um visto em circunstâncias especiais, as culturais lhe façam idêntica demonstração de consideração, por exemplo, oferecendo-lhe uns óculos da colecção pessoal da Amália, - já se percebeu que Madonna aprecia óculos grandes, - após o que ela, em agradecimento, mudará o nome para Madália e fará juras de os usar até que a voz lhe doa.

9/25/17

Percevejos invadem Portugal

Percevi, depois de passar os olhos por diversas fontes informativas, que estamos a ser invadidos de forma silenciosa por criaturas que se infiltram nos colchões e nas roupas de cama em busca escuridão e calor humano. Vêm à boleia em malas e não pagam bilhete. Os moradores dos centros urbanos mais afectados consideram tratar-se de mais uma atribulação, desta vez sanguinária, do recente boom turístico. Como explorar proveitosamente esta vaga de turismo de pé descalço coloca, todavia, os operadores turísticos perante um desafio ímpar. Enquanto isso as empresas de desinfestação festejam o oportunismo. Os jornalistas tentaram contactar os principais visados mas eles não perceveram a questão e nada comentaram, rastejando calmamente para longe do foco da sua atenção. A Madonna ainda não se manifestou.

Serviço público: saiba como lidar com os percevejos turistas

9/17/17

Casamento por conveniência



The Unequal Couple, Lucas Cranach, the Elder, 1530. Um exemplo de como o FB só me faz perder tempo. Abro o FB e vejo que o Rui B. acaba de publicar uma fórmula onde se explica a diferença entre gostar de alguém, estar apaixonado e amar alguém. Leio. Gosta-se quando a gente se apega a alguém e se começa a apreciar a pessoa; apaixonamo-nos quando achamos que a pessoa em questão é perfeita e finalmente amamos essa pessoa quando, concluindo que a pessoa não é perfeita, aprendemos a amar os seus defeitos. Ora, era informação de que não precisava, mas é sempre bonito rever conhecimentos adquiridos. 

Continuo a fazer scroll pelo feed e outro Rui (V.) acaba de publicar uma pintura de um cavaleiro - é o nome da mesma, foi assim que soube -, um homem de cabelos ruivos, barba penteada e um acrobático bigode que se abre de par em par sob o aquilino nariz. Gosto e começo a examinar a obra prima. Na cabeça um chapéu preto marginado a penas que lhe tomba para o lado direito. Tem o pesçoço atormentado por um colarinho dourado, mais propriamente uma feminina gargantilha que parece não pertencer à camisa pregueada que salta à vista do amplo decote quadrangular da vestimenta e onde assenta uma corrente dourada com uma pequena medalha. O tronco está bem cingido por essa peça que mais parece um vestido, desta forma o seu peito é quase um coração tal a sufocante cintura de vespa que depois se alarga, mas não muito. Ficamos pelo meio corpo, o pintor não se abalançou a mais, os olhos vão-se-nos nas mangas de verde escaravelho tufadas até ao cotovelo, dali em diante bem justas até culminar nas mãos, uma na anquinha, outra na espada. A expressão do cavaleiro é a que eu devia fazer em miúda quando ia obrigatoriamente fazer as radiografias toráxicas no âmbito escolar e o radiologista me dizia: não mexe, não respira. O peito do homem também parece estar repleto de ar e pronto a estoirar. 

O autor deste retrato é o fantástico Lukas Cranach (the Elder, porque existiram filhos), assim que vi o nome lembrei logo que pintou o retrato de Lutero. À semelhança da fórmula romântica, também não precisava de ter visto esta pintura hoje, mas já que vi uma, porque não ver mais alguma? É coisa para que estou sempre pronta. A memória já não me assiste como dantes pelo que no Google comprovei que era, de facto, o pintor amigo do Lutero. Fiquei depois a deleitar-me com mais algumas obras do artista germânico que ficou conhecido por muitas razões, uma delas porque foi um dos melhores do seu tempo, grande retratista, autor de pintura religiosa e secular, etc,etc. Além do retrato do Lutero eu sempre o associei às divertidas pinturas dos homens velhos que se perdem de amores, ou luxúria, pelas mulheres mais jovens. Era um tema recorrente na pintura da época. Nas paredes dos lares da Renascença penduravam-se estas lições de moralidade, a da jovem mulher que seduz um homem mais velho e tonto por dinheiro. O pintor retrata por vezes o acto de forma descarada, a jovem com a delicada mão na bolsa das moedas mesmo nas barbas do homem seduzido. Estas mulheres da Renascença eram o demónio de saias. E os homens, coitados, tinham de ter estes lembretes pendurados na parede porque ainda não havia post-it. 

Mostro-vos um exemplo mais recatado, vejam como a jovem da pintura irradia vida e beleza: ainda pode dar à luz um filho, mais não, que a esperança média de vida naquela época era apertadinha. O homem já está mais com os pés para a cova que outra coisa, mas, coberto de peles, é um rico homem. Fiquei entretanto a magicar em que fase da fórmula que descrevi acima se encontraria a mulher, I,II ou III. Sem dúvida que a mulher gosta dele: vejam como ela está apegada à mão do pobre homem e como lhe devolve o sorriso desdentado. Sem dúvida que o casaco de peles é perfeito, quem é que não se apaixonava por um casaco daqueles. E sem remorsos pois no séc. XVI ainda não havia PETA. E a casa com vista para o mar? Perfeita! E sem dúvida que a senhora ama do coração cada fio prateado daquela moribunda barba: só de pensar no que vai herdar! E o pequeno detalhe do idoso já não ter dentes é uma gracinha: é como embalar de novo um bebé nos braços. Ah, aquele Cranach era mesmo terrível!

8/25/17

Incendiário



"AMBULÂNCIA VIAJA DE LISBOA AO PORTO PARA LEVAR INCENDIÁRIO A CONSULTA DE AVALIAÇÃO PSIQUIÁTRICA

O Hospital Prisional de Caxias no Concelho de Oeiras, requisitou alegadamente hoje aos Bombeiros de Paço de Arcos uma ambulância que conduziu hoje um alegado incendiário detido naquele hospital prisional, à delegação do Instituto Nacional de Medicina Legal no Porto, para uma consulta de avaliação psiquiátrica que teve a duração de sensivelmente 10 minutos."
https://www.facebook.com/observatoriodeprotecaocivil


O incendiário vai de ambulância, o bombeiro vai de comboio combater o fogo. Quem se lembra da notícia deste Maio:"Este verão, 90 bombeiros vão deslocar-se de Lisboa e para os incêndios em Viana do Castelo de autocarro e de comboio. O objetivo, explicou o secretário de Estado da Administração Interna, é evitar que as corporações cheguem "cansadas" aos teatros de operações e, ao mesmo tempo, "evitar o desgaste" das viaturas de serviço e os acidentes." Até pode ser que tenha sido uma boa ideia, os bombeiros é que o saberão dizer. Mas comboios e autocarros que eram bons para o bombeiro não serviam para o incendiário, e desconfio que os carros prisionais devam ter sido requisitados pelo turismo para algum circuito temático. Assim, foi de ambulância não fosse chegar atrasado e/ou alterado à consulta e assim resultar falseada a avaliação psicológica. Imagine-se ser-lhe mostrada uma mancha de Rorschach e o incendiário dizer que aquilo é um pinhal que foi abrasado em cinzas, coisas sem nexo algum. Começo a desconfiar que o que dizem da violência nas prisões - ou hospitais prisionais ou lá o que é - é verdade. Para ir de ambulância é porque deve estar com os ossinhos todos partidos, é mesmo chato uma pessoa ter o grande azar de ir presa e acabar coberta de gesso. Outra situação similar são as deslocações dos ministros, secretários e subs em viaturas de negro funéreo brilhante e de alta cilindrada a qualquer provinciano destino nas entranhas deste país, longe do seu centro nevrálgico, Lisboa, - onde há excesso de políticos mas parece que faltam psicólogos - para fazerem o rescaldo do fogo, com palavras, é certo, que pegar na enxada faz calos nas mãos, mas quem dá o que tem a mais não é obrigado. É assim a igualdade de tratamento: o direito a chegar fresquinho ao destino é para todos os alegados culpados. E no fim de tudo bem avaliado psicologicamente a conclusão a tirar poderá muito bem ser que o grande incendiário é o eucalipto. (P.S. A sessão durou 10 minutos. Não podiam ter feito isso por Skype?!!)

8/23/17

Aos homens constipados


Aos homens constipados

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

Poema de António Lobo Antunes, In 'Sátira aos Homens quando estão com Gripe'

8/17/17

João Quadros ou João Quadrado?

Percebi agora que um tal humorista Quadros anda nas bocas do mundo por ter chamado skinhead ou cabeça rapada ao Passos, assim criticando um discurso algo xenófobo que este fez, e que eu não li, mas, com aquela voltinha de trazer à colação na piada a mulher dele, doente oncológica, e, claro, para muitos o cancro é um dos assuntos que tem de ficar fora do humor, compreensível pelo sofrimento e impacto da horrível doença tanto no paciente como nos que lhe são próximos. Mas esta lista de assuntos que têm de ficar à margem do humor é uma coisa que me incomoda. Não é por fazer de conta que um problema não existe que ele cessa de existir: vamos excluir do humor temas como a doença, a deficiência, etnias, religiões, classes sociais, a sexualidade e outros? Ou marcar-lhe limites? E impor limites é atacar a liberdade de expressão? É um grande e apaixonante debate que esteve bem aceso nas redes aquando das mortes no Charlie Hebdo.

Não há dúvidas que o visado da piada em causa é PPC, não a esposa. É um ataque bem forte a PPC, uma crítica política vexatória mas certeira. Pior por acarretar um dano colateral ao envolver a esfera pessoal e emocional de PPC: daqui nasce o ultraje pois Quadros explorou uma sua vulnerabilidade, a fatalidade da esposa. Compreensível que as pessoas rejeitem um e outro, o primeiro por serem da cor política de PPC, o segundo, por entenderem que têm de existir limites para o humor negro, muitas vezes cruel e muito incómodo.

Eu não sigo os tweets do Quadros, só sei quem é pelas fotos que por aí circulam de um tipo guedelhudo, ar nicotinado e noctívago. Com frequência leio sobre ele comentários na maioria desprestegiantes, tipo imbecil, ordinário, besta. Mas não tenho opinião formada. Mas sei que nem todos somos Charlie, alguns de nós são  Charlie Brown. O humor nem sequer tem que gerar unanimidade mas convinha não perdermos a cabeça pois desatar a desejar a morte ao homem e familiares com todas as letras não faz de nós seres humanos mais sensíveis do que ele próprio, não é?

Despacito


Dei um saltinho à praia de Buarcos e no regresso deparei-me com estes senhores a tocar um medley dos Abba para uma grande plateia na esplanada do jardim. Cheguei a meio e quando me estava a sentir uma verdadeira Super Trouper, com vontade até de dançar com um dos turistas presentes que sabia todas as letras, acabou o medley. Trazia os ouvidos cheios de coisas como Si te vas yo también me voy/Si me das yo también te doy/Mi amor/Bailamos hasta las diez/Hasta que duelan los pies, tinha vindo pela marginal fora a cantarolar o Despacito, sonoridades ainda frescas na ponta da língua, patrocinadas pelos animados vizinhos de praia que hoje me couberam, quando ouvi a banda. Junto ao mar a minha tolerância dilata-se e os meus níveis de implicação derretem sob o sol, pelo que até curti os ritmos calientes e, já agora, o vigor da linguagem juvenil pontuada a alhos e folhas, o tratamento carinhoso ímpar. Ah, escusam de me vir dizer que quando eu era jovem também falava assim, eu ainda me lembro, apesar das brancas. Foi uma fase, ou talvez tenha sido uma frase, ou duas, isso já não asseguro. Mas a fase destes jovens é de muitas frases, muitas mesmo, embora repetitivas, tudo bem, meu caralho, vamos ao mar, ó minha grande vaca, sai mazé da minha toalha, minha gorda, ó meu boi, páaaara quieto, puta, tu passa o bronzeador, evidentemente que estão de férias, o linguajar colorido é que não está.  A meio da conversa uma das miúdas dizia à outra do grande escândalo: a não sei quantas foi para Humanidades. Mas ela nem sabe falar! Como podem ver já cheguei a casa e o vento mudou: isso nota-se perfeitamente pelas notas soltas de intolerância e de implicação. Ah, esta foi a última foto que fiz com a minha máquina de trazer no bolso: a puta deu o definitivo peido mestre. Ou entrou um grão de areia na engrenagem ou então fundiu-se devido à conjugação da alta temperatura com os ritmos calientes. Que merda, só me apetece falar mal.

8/13/17

Incêndio florestal - a praga do verão em Portugal




Nunca entendi o que move alguém a meter-se no carro para ir ver um fogo florestal. Esta atracção, que considero doentia, não é de hoje mas ontem não existia a motivação acrescida de filmar e partilhar o evento nas redes, o objectivo mais ou menos secreto de conseguir a glória fugaz de uma imagem viral. Onde, afinal, a estranheza quando pessoas ateiam os próprios gases para filmarem a breve flama e depois partilharem proeza com o mundo ávido de imagens insólitas?! Há uns anos largos houve um incêndio na serra da Boa Viagem e o instrutor de condução orientou-me na direcção da elevação, de onde se desprendia um penacho de fumo. - Mas está a arder, disse eu. - E então? Vamos lá ver. Segui a contragosto, com vontade de me negar, afinal o volante era meu. Mas a posição de subalternidade, o pouco à-vontade e experiência incipiente ao leme das quatro rodas venceram o meu sentido cívico e até temor. Tivemos de atravessar a ponte sobre o rio e a cidade. Já na subida da serra fomos ultrapassados por um carro de bombeiros e pelo som perfurante da sirene. - Chegue-se para a borda! Não viu que vinha lá um veículo em serviço de urgência? É surda? - gritou, subitamente alarmado. Lançou então a mão ossuda ao volante e guinou o veículo para a berma direita, para a orla das árvores. O carro imobilizou-se, uma nuvem de pó elevou-se ao redor e a mim deu-me uma valente travadinha. Eu, que nem queria estar ali, acabara de levar roda de incauta e empata. Acesa de raiva, a suar de calor e vergonha, de forma ágil e com precauções tomadas - como se já dominasse toda a faena rodoviária-, fiz uma rápida inversão de marcha. - Mas o que é que está a fazer? - perguntou ele. - Vamos regressar à escola. Acabou a aula. O instrutor meteu os olhos no pequeno Nokia cinzento com que usualmente brincava de uma mão para outra. Sempre enviava e recebia mensagens de forma frenética assim quebrando o marasmo de cada hora de condução. Não disse mais nada naquele dia, como que se tivesse extinguido a vontade de falar a par do fogo da sua curiosidade pela destruição.


P.S. Este instructor não era má pessoa, não quero que fiquem com má impressão do sujeito. Ensinou-me a conduzir. Infelizmente chumbei no exame de condução por excesso de velocidade entre outros erros, e tive de repetir! Já não sei como se chamava e nunca mais o voltei a ver. A fotografia é de ontem, tirada da varanda, só para não fugir à desditosa trend pirónoma dos últimos dias.
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"Os Bombeiros que são manifestamente poucos, para tantos incêndios, não podem chegar a todo o lado. Estão sempre rodeados de populares, o que é bom. Só que, ao invés de ajudarem a esticar e recolher mangueira e material de combate, apagarem pequenos reacendimentos, limitam-se a registar vídeos, e fotos para mais tarde publicarem nas redes sociais. Não sou contra mas, antes, ajudem os Bombeiros que nos dias que correm, estão a atingir a exaustão e não chegam a todo lado. Amigos um incêndio florestal não é um espectáculo circense, mas sim um drama irreparável para a sobrevivência humana.
Vão até nós, mas, por favor, não levem os carros para não atrapalharem o nosso dificil trabalho. "

Acácio Monteiro, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Brasfemes

8/5/17

O equidna vai à praia




Quando logo mais forem à praia e não se lembrarem de adivinha melhor para contar à miúda que acabaram de conhecer, podem usar esta: que animal tem bico e põe ovos mas não é ave, tem bolsa mas não é canguru? Resposta: o equidna. Eu testei uma outra adivinha sobre o bicharoco em causa com um cinquentão bem apessoado mal acabado de conhecer, foi uma espécie de ice-breaker, enquanto devorávamos um ouriço ali para os lados da Ericeira: não é homem mas animal e tem título real. Que bicho é? Ele não fazia ideia. É uma espécie de equidna da Indonésia que recebeu o nome de Sir Attenborough, o naturalista, - disse-lhe eu. Devolveu-me a cultura animal com um negro laudo sobre uma tal Equidna, o corpo metade jovem mulher, a outra metade, uma serpente. Vivia numa caverna no ventre profundo da terra, longe do olhar dos homens e da atenção dos deuses. Casou com o deus Tifão, tornando-se a mãe de todos os monstros, por exemplo, Cérbero, o cão de três cabeças, que guardava as cavernas e grutas mais profundas e os cantos mais terríveis do reino de Hades, o mundo dos mortos, ou Éton, o abutre que comia diariamente o fígado do condenado Prometeu. Equidna e suas crias possuíam uma natureza terrível e adoravam devorar viajantes inocentes. Fiquei depois a saber que o homem era professor de História com uma paixão bicuda por mitologia clássica. Um clássico. Ele ficou desapontado quando lhe disse que não, eu não era bióloga e antes jurismamífera de formação e cheia de paixões bicudas por tudo e por nada.



Foquemos agora neste trôpego video de verão: o equidna foi à praia. E porque não? O equidna até sabe nadar. Esperem tudo deste peculiar animal um pouco ave, um pouco ouriço, um pouco canguru. São monotremados, é assim que se chama a esta ordem de animais que têm cloaca por onde excretam e também saem embriões envoltos em casca que depois ficam a viver na bolsinha da mãe: terminado o choco são do tamanho de um feijão. Já agora, “trema” quer dizer abertura. Não confundir com monotramados: os “monos tramados” somos nós, macacos deslumbrados e cegos com as luzes da cidade. Regressando aos equidnas, os pobres são meio ceguetas mas equilibram o défice de visão com audição aguçada - já Diogenes dizia que nós temos dois ouvidos e uma língua para que possamos ouvir mais e falar menos - e olfacto perspicaz. Têm uma língua muito comprida e pegajosa, mesmo ajeitadinha para caçar formigas e térmites e minhocas. Vêm trilhando o seu caminho desde tempos pré-históricos, passo a passo, perna entroncada e curta, garras longas, aguçadas, e corpo espinhoso semelhante ao de um ouriço comum. Quem sabe por ser um bichinho solitário que não se mete na vida dos outros - já Sartre dizia que o inferno são os outros - é assim, longevo, chamam-lhe um fóssil vivo. Os testículos dos equidna ficam na região abdominal e o pénis encontra-se na cloaca. Pode parecer uma experiência laboratorial algo exótica ou controvertida da mãe Natureza mas funciona porque eles povoaram a Tasmânia, a Austrália, a Indonésia e a Nova Guiné. A estranheza não se fica por aqui. Estas curiosas bolas espinhosas – se ameaçados têm duas tácticas, ou se enrolam numa bola hermética, escondendo o focinho bicudo e a barriga vulnerável, ou se enterram rapidamente no chão, pois são uma espécie de mini TBM animal, TBM, são aquelas máquinas perfuradores de túneis, do género das que operaram o milagre de unir a ilha inglesa com a França, - não têm mamilos e antes glândulas mamárias para a produção do leite. O líquido sai por poros e escorre nos pelos da região abdominal das fêmeas. Imaginem esta solução nos humanos! Se amamentar em público já é censurável e abjecto para tantas boas almas e o líquido sai de um par de tetas bem acabadas, imaginem, imaginem, se conseguirem, leite a escorrer dos nossos poros e nossas crias humanas a lamber da pele que nem gataria sôfrega. A Natureza quis proteger-nos de imagens potencialmente chocantes mas nós, sempre brilhantes na nossa perversão, fomos logo encontrar defeitos na perfeição. Pobres equidnas, que espectáculo pegajoso que não deve ser, uma porcaria pegada. Mas, por outro lado, devem ficar com a pele bem macia da proteína do leite. Boa praia e boas adivinhas.

7/2/17

O casamento do Bruno Ornelas

Vocês sabem lá o que me sucedeu ontem. Cheguei aos Jerónimos atrasada - o taxi chocou com um tuk-tuk e ficou de tal ordem amachucado que eu acabei por terminar a corrida no tuk-tuk - e, como se isso não bastasse, não pude entrar no casório do Bruno Ornelas. À entrada da igreja de Belém estava um detetor de metais para verificar se alguém levava consigo armas ou objetos perigosos para a integridade de noivos e convidados. O segurança teve a lata de me dizer que tinham enviado mensagem a todos os convidados, alertando para as caprichosas medidas de segurança, mas é mentira, eu nada recebi. Por momentos pensei que me tinha perdido e que estava no aeroporto, ou coisa assim: é sabido que em Lisboa eu não me oriento. Aquilo desatou a apitar e a fazer luzes e foi uma vergonha. Por mais que eu afiançasse que não tinha granadas comigo, nem mesmo o corta-unhas, eles já não me deixaram entrar. Regressei a casa no Expresso das 18.30 horas: não tive problemas para entrar no autocarro mas até já estava a roer as unhas de nervoso quando entreguei o bilhete ao motorista. E encomendei eu esta pecinha da Amazon de propósito para a ocasião! Agora resta-me esperar pela Primeira Liga. Nas Antas serão decerto mais compreensivos.

7/1/17

Carro de compras com rodinhas electrónico: preciso!

Há uns tempos vi aqui na internet uma geringonça electrónica com rodinhas que nos seguia para todo o lado, uma espécie de mala do futuro. Mas é óbvio que os supermercados têm de copiar a ideia. É que costumo encostar o cesto das compras aqui e ali para ir fazer a minha prospecção de víveres em modo mãos livres, e, não raro, acontecem cenas tristes: já por diversas ocasiões andei a deitar as minhas compras no cesto dos outros. Hoje, quando dei por mim junto da caixa e já com parte das compras a deslisar no tapete em direcção às mãos da operadora, verifiquei que me tinha apoderado de um cestinho alheio, de homem: um creme de barbear e um pack de pilhas aguardavam no fundo. Fui tomada por uma aflição súbita como se tivesse roubado aqueles dois produtos! A menina desenvolta começou a registar os meus brócolos, os tomates já corriam para ela com velocidade nunca vista pelo tapete de borracha adiante e eu queria um botão vermelho de Stop mas não há. Então sorri acanhadamente e menti em voz baixa, como que para emprestar seriedade às minhas palavras, que era só um minuto, já voltaria: tinha deixado a carteira nas frutas. Lá fui a serpentear pelo supermercado, sem esperar pela resposta, a puxar o atrelado velozmente que nem o cavalo do Messala pela biga do nobre romano, no Ben Hur. O problema é que a zona das frutas e legumes é uma de vários obstáculos a contornar, uma verdadeira gincana. Às voltas, tentava lembrar-me onde tinha estacionado a minha biga e ao mesmo tempo ia deitando o olho aos cestos que circulavam por ali de forma algo negligente, e a outros estacionados na berma. Observei que os homens às compras, poucos, não ostentavam nenhum sinal de particular aborrecimento. Onde estaria o meu cestinho com rodas? Ó Nossa Senhora do Abacate! Só agora me ocorria que talvez a namorada extremosa do homem, a esposa diligente ou a filha simpática fossem as compradoras. Bolas, bolas. Apurei a vista e perto da zona dos congelados identifiquei uma jovem senhora de túnica, e ar-de-quem-ainda-iria-à-praia-hoje se encontrasse o cesto das compras, a olhar friamente na minha direcção. Um arrepio percorreu-me o cérebro despertando-me para a solução: era isso. Encontraria decerto o meu cesto perto da tulha dos peixes aonde eu tinha estado a comparar preços antes de ter ido pesar as frutas e os brócolos. Devia ser esse o epicentro do imbróglio! Fiz marcha atrás e contornei os produtos biológicos já em excesso de velocidade. Com sorte não derrapei mas dali consegui ver um cesto verde esperançosamente à espera. Aproximei-me de manso e reconheci o gengibre: ó felicidade! Ali estavam as minhas restantes compras. Troquei de cesto com a naturalidade e a destreza de um espião da guerra fria habituado a andanças comprometedoras. Passei então rapidamente pela jovem da túnica cuja voz, toda sorrisos, podia ouvir ao telefone: o seu olhar era agora temperado. Apressei-me a alcançar a caixa onde uma pequena mas incomodada fila de duas almas, um cestinho e um carro de compras, me aguardava. Desculpas depois e despachada dali ainda fui tomar um café retemperador e quando saía do hipermercado vi que descia um jovem magricela em calções de ganga pelo joelho e t-shirt preta na passadeira rolante, mesmo à minha frente. Numa das mãos levava as chaves do carro, e na outra, um saco de laranjas, um creme de barbear e um pack de pilhas.

6/26/17

Anedota do Bocage



A política portuguesa anda a ficar cada vez mais descuidada. Certo dia estavam João Marques e Passos numa festa quando este emitiu uma flatulência. Muito desconcertado viu o amigo João Marques e dirigiu-se-lhe rogando que assumisse a culpa pelo sucedido, para limpar o ar. Prontamente João ofereceu-se para assumir o acto. E então chegou-se ao centro da sala, bateu palmas, e disse em voz alta:
- Minhas senhoras e meus senhores. Quero pedir muitas desculpas. O peido que o Passos deu, não foi ele, não: fui eu! 
Bocage não teria dito melhor.

6/22/17

Fazer a monda nas redes sociais



Agnes Arabela Marques e Castelo Branco são como ervas daninhas, plantas que crescem fora de contexto e de forma indesejada. Competem pelo espaço mediático, pela luz, a nossa atenção é água para elas. Se permitirmos podem ofuscar as outras com os seus comportamentos exóticos e viçosos, assim dando por cumprida a sua missão na Terra. Existem diversas técnicas para lidar com estas pessoas daninhas: a monda manual é a melhor opção para eliminar as suas manifestações das redes sociais e do terreno pantanoso de alguns jornalecos online. Ó meus amores: indignem-se, soltem interjeições mas não façam eco, não partilhem estas florações patéticas. É tanta a mediocridade que assim trazemos para o nosso jardim! Se não podemos impedir que germinem evitemos a proliferação.Eduquemo-nos para ser sábios:ignoremos já que não podemos punir e muito menos educar estas formas de vida. Não lhes demos mais luz, por favor. Elas acabarão por secar, no seu contexto e morrer, sim?

6/21/17

A politiqueirada portuguesa é...


"Pensar o meu país. De repente toda a gente se pôs a um canto a meditar o país. Nunca o tínhamos pensado, pensáramos apenas os que o governavam sem pensar. E de súbito foi isto. Mas para se chegar ao país tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Será que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que não. Nós é que temos um estilo de ser medíocres. Não é questão de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. Não é questão de se ser estúpido. Temos saber, temos inteligência. A questão é só a do equilíbrio e harmonia, a questão é a do bom senso. Há um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. Há um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado é o ridículo, a fífia, a «fuga do pé para o chinelo». O Espanhol é um «bárbaro», mas assume a barbaridade. Nós somos uns campónios com a obsessão de parecermos civilizados. O Francês é um ser artificioso, mas que vive dentro do artifício. O Alemão é uma broca ou um parafuso, mas que tem o feitio de uma broca ou de um parafuso. O Italiano é um histérico, mas que se investe da sua condição no parlapatar barato, na gritaria. O Inglês é um sujeito grave de coco, mas que assume a gravidade e o ridículo que vier nela. Nós somos sobretudo ridículos porque o não queremos parecer. A politiqueirada portuguesa é uma gentalha execranda, parlapatona, intriguista, charlatã, exibicionista, fanfarrona, de um empertigamento patarreco — e tocante de candura. Deus. É pois isto a democracia?"

Vergílio Ferreira, “Conta Corrente II” (1982-1985)

6/15/17

Recrutamento



Um "prestigiado cliente" quer vendedores em part-time para trabalhar na Foz, no Porto. Solicita que tenham como habilitação MÍNIMA a licenciatura, experiência anterior em vendas é factor preferencial, também elevada resistência ao stress, sentido de responsabilidade e boa capacidade de comunicação. Eu até me candidatava porque é no Porto, aquela cidade que eu adoro, mas sei que não faltam por aí pessoas habilitadas com mestrados que anseiam por desafios profissionais gratificantes, tenho a certeza que era logo arredada na primeira varredura do recrutamento. Esqueci-me de mencionar que é para vender pipocas apesar de não pedirem que as pessoas saibam fazer pipocas, ah, pois é, devem dar formação no posto de trabalho.

6/2/17

Arnold Schwarzenegger contesta escolha deTrump sobre clima




O Arnold surpreendeu-me. Eu e o meu datado preconceito de que o cérebro dele mirrou na proporção em que os músculos incharam e de que não pode vir de lá grande coisa. Já devia ter vergonha. Trump a invocar que o Acordo de Paris é um mau negócio para os EUA e que o quer renegociar é hilário. Do que sei, o Acordo não passa de uma espécie de “acordo de cavalheiros” em que os países não se obrigam propriamente a agir, é uma declaração de intenções. A meu ver isso não lhe retira grandeza. A honra de cada Estado aderente seria então demonstrada, primeiro, pelo reconhecimento da necessidade de agir e depois, liberto do cumprimento forçado através de multas e outros mecanismos, pela escolha de fazer o que é melhor para o futuro dos seus cidadãos. Em verdade num mundo perfeito não deveriam ser precisas medidas punitivas para forçar o cumprimento. Quantas vezes as leis são violadas sem pejo e pagas as multas apenas para se seguir nova reincidência. Se a perfeição é uma quimera então aprendamos todos a fazer da imperfeição o combustível para alcançar aquela e não a chama em nos imolamos. Sair de um Acordo voluntário para o renegociar quando é mais fácil estar à mesa para o fazer do que pedir para me sentar nela de novo, não parece fazer grande sentido. A não ser que Trump não queira renegociar nada e antes fazer o que bem lhe apetece, ele e o seu círculo de amigalhaços investidores. Infelizmente as cidades mineiras dos EUA onde as pessoas entretêm os dias a matar o tempo olhando pela janela não serão ressuscitadas por esta sua decisão. Tenho realmente pena dessas pessoas. São apenas seres humanos como eu que só votaram em Trump porque sonhavam com uma mudança e nem sou capaz de as censurar. Mas a mudança não passa por reanimar cidades mineiras ou continuar a esventrar a terra em busca de petróleo e antes por reconverter todas as indústrias sujas e poluentes em alternativas mais limpas quer durante o processo de extracção quer durante a utilização. Isto é tão básico que nem era preciso admitir o aumento do aquecimento global ou dos gases de estufa para o tornar mais necessário ou mesmo urgente. Apostar nisso é que seria entregar a essas pessoas um suplemento de vida, um futuro para os que desesperam nessas zonas economicamente deprimidas e seus descendentes. Há 30 anos atrás a minha avó que nasceu em 1914 e que trabalhou nos campos e que conhecia bem o ciclo das estações e das colheitas já me dizia que o clima estava a mudar. Ela não leu relatórios científicos mas interpretou os sinais da Natureza. Se os tivesse lido teria percebido melhor. A evidência é, passados 30 anos, maior. Se a subida do nível dos oceanos é até certo ponto inevitável é, todavia, imperioso fazer o impossível para abrandar esse processo. Vivo numa zona de costa, a erosão já é muito grande em algumas zonas e muito provavelmente, aqui, e noutras cidades costeiras de todo o mundo, num futuro mais ou menos próximo, vai acontecer o que hoje acontece em Miami Beach onde a água do mar tomou conta das ruas e se gastam fortunas em obras para manter a cidade seca, uma solução que durará, segundo os engenheiros locais, 500 anos. Leram bem: 500 anos. Mas se até um actor de cinema que ganhou notoriedade à conta da sua massa muscular consegue fazer um filme mais limpo sobre o futuro, não tardará que todos estes fósseis que permanecem reféns do carvão e da indústria do petróleo sejam condenados à extinção. É a evolução natural das coisas. O assunto merecia uma argumentação mais apaixonada mas hoje não posso. Ouçam o Arnold. (Cliquem)

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