12/30/16

Um Bom Ano


O Cartão de cidadão


Depois de ter sido enxovalhada várias vezes por ter o meu Bilhete de Identidade caducado há muito tempo, muito mesmo, decidi-me a resolver o assunto no pior dia possível, ontem, esquecida de que a tolerância da véspera e o período de férias de Natal ditariam uma avalanche de gente aos serviços. Na Conservatória, onde cheguei bem antes das 14 horas, dirigi-me à máquina de onde saquei um 83. No monitor percebi que estavam a tratar do 41. Saí para um café e uma nesga de sol que o edifício do Tribunal não deixa chegar àquele recanto mas quando voltei o contador mal tinha somado mudanças. Acomodei-me num banco na esperança de desistências em cadeia. Impunha-se matar o tempo. Tinha levado um livro na mochila mas esquecido os óculos. A maioria dedilhava smartphones, é um desporto que não pratico. Resignei-me e entretive-me a contar macacos porque ovelhas podiam fazer-me adormecer e lá deixava eu passar a minha vez. Foi com mágoa que finalmente me sentei na mesa e conferi os meus dados. Respirei fundo e mentalizei –me: então era ali o momento em que tinha de dizer adeus ao meu Bilhete de Identidade. Fiquei até contente por mo terem devolvido com dois furos. Já guardei no arcão da memorabilia. O meu BI foi um grande companheiro de viagem e a fotografia a cores da loira sorridente era sempre muito elogiada em rodadas de copos entre amigos, a prova de que qualquer mulher pode ser camaleónica mesmo sem ser a Madonna. Foram muitos anos a conferir-me alguma personalidade. Isso acabou. Agora tenho um CC: um coiso multifuncional em formato de smart card e com chip integrado. Cinco números em Um! Wow! É o progresso, estúpida. Porque tens sempre de estar a rezingar com tudo? Será que não vês que é só vantagens? Sim, vantagens e letras e números miúdos. Devia trazer uma lupa integrada também. Mas o pior, o pior mesmo, é, 1º, terem-nos retirado a liberdade de sorrir abertamente e mostrar os dentes; 2º, terem cancelado a cor das fotografias minúsculas. Tornaram-nos um exército de cidadãos sérios e uniformizados em tons de cinza, não sei se 50 ou menos, uma sombra do que somos. Nunca conheci ninguém que possuísse um Cartão de Cidadão com uma fotografia decente. Chegue-se à frente o primeiro. Não sei se é devido ao tempo de espera. É difícil mostrar boa cara quando se tem 40 pessoas à nossa frente e se enfrenta por fim a máquina de revelar almas. Também não tem a ver com a idade, não, não pensem que os novos escapam a este aziago desenlace: o meu sobrinho é um jovem e a máquina transformou-o num membro de um gang de bairro. A minha irmã ganhou o aspecto de uma gestora de casino ilegal, já o meu pai assumiu a face de um internado em alguma prisão de alta segurança. Eu, que tinha esperança de conseguir brilhar, já me conformei com a boca de esguelha, os olhos à camaleão, um para cada lado, a cabeça enterrada entre os ombros e o cabelo – porque desisti da ida ao cabeleireiro para a ocasião, ademais, não teria feito diferença, - uma ponta para norte outra para sul. É o retrato sério de uma pessoa com distúrbios mentais. Se por acaso algum dia desaparecer de casa sem explicação esta foto acabará talvez publicada nos media e demais orgãos de comunicação – “over my dead body” - e não deixará dúvidas: olhai lá mais uma despenteada mental cruzada de maluca e com tiques de psico-louca cujo paradeiro se deconhece. Os vizinhos dizem que apesar de tudo é inofensiva, não se deixem levar pelo ar endoidado e expressão vazia, por favor informem o Correio da Manhã se lhe botarem os olhos, a mulher deixou 150 gatos num TêZero a miar de preocupação. Um grupo de amigos dos animais abriu entretanto uma página no Facebook e uma subscrição para os alimentar. Façam Like. E foi para isto que esperei duas horas na Conservatória do Registo Civil. RIP Bilhete de Identidade #Fuck2016

Parque jurássico




Esta semana decidi retomar as minhas caminhadas como se não soubesse que nada irá impedir as danadas das calorias de fazerem um autêntico réveillon à volta da minha cintura durante a última semana do ano. Pensando no festim até promovi o passo rápido a corrida lenta. Troquei a estrada rente ao azul do mar pelo caminho verde do parque porque o verde é sinónimo de esperança, esperança de que uma pessoa consiga evoluir no terreno sem lhe saírem os pulmões pela boca ou lhe caírem as panturrilhas ao chão. Comecei por fazer os tradicionais alongamentos, bebi água, pluguei-me num som do telemóvel. O plano não estava a correr mal. A manhã desfolhava-se ao sol e eu ganhava terreno. Um homem apontava em pose de Storm-Trooper uma ruidosa máquina de soprar às folhas secas que o desafiavam em volteios no ar à sua frente. Uma mulher ajuntava as insolentes para dentro de sacos pretos. Suspendi a respiração para atravessar este intervalo de ar outonal perfumado a fumos de gasóleo emanados do motor do soprador de folhas. Para trás de mim tinha ficado lixo espalhado à volta de um contentor e pássaros a banquetearem-se nos restos aromáticos. Sentia que o meu coração poderia estourar a qualquer instante enquanto me focava no controlo da respiração repetindo, como se de um mantra poderoso se tratasse, que correr era bom, bom, era mesmo bom, era isso e cinema, vinho e sexo, era, era bom de morrer por mais.Tudo corria bem, quase se podia dizer que tudo corria sobre rodas. Ali estava eu a trucidar calorias como se o mundo não fosse acabar amanhã e ainda houvesse muito mundo para gastar e troco para receber. Foi depois de ter atravessado a estrada que avistei na relva o que me pareceram dejectos de ave. Só podia ser isso: caca de passarinho. Cocó de passarinho é facilmente identificável. É uma matéria sobre a qual tive de me debruçar quando o meu canário adoeceu há um anito atrás. As aves não fazem xixi, não possuem bexiga, sai tudo pela cloaca e as impurezas são transformadas em ácido úrico e surgem nas fezes como uma pasta branca muito característica. Caca de passarinho na relva do parque, pois, mas não de um passarinho qualquer, um vorompatras, um Man Friday! (Enquanto observava a relva eu continuava a correr, sem sair do lugar, como faço quando os semáforos estão vermelhos e não posso avançar, bem vistas as coisas, aquela visão era de parar o trânsito.) Os vorompatras não sabem voar, mas sabem correr. Medi as alturas a uma palmeira tal como na história de H. G. Wells, Butcher, o coleccionador de ovos de Aepyornis, terá feito. Era evidente que correr pela vida, na triste eventualidade de ser perseguida por um vorompatras, não me levaria a lado algum. Butcher, surpreendido por um milagre numa das suas expedições, um ovo chocado mercê de conjugações extraordinárias, acabaria a partilhar a sua vida numa ilha deserta com um desses vorompatras, o equivalente do Wilson para o Chuck Noland, do filme Náufeago, mas com imensas penas e três metros de altura. Baptizado de Man Friday, em homenagem ao célebre personagem do livro do Daniel Defoe, o pássaro revelou-se um companheirão. Mas o pássaro Homem Sexta-Feira cresceu em tamanho e feitio, e, aos três metros, todos os dias de Butcher passaram a ser Sexta-feira 13. Perscrutei o parque verde até aos seus limites. Não se avistava nenhuma criatura extinta mas também podia estar dissimulada entre o arvoredo, facilmente confundiria as suas pernas com duas árvores. Apreensiva mas não tanto que não tivesse conseguido tirar esta fotografia para vos mostrar a prova do segredo mais bem guardado de Portugal- temos, na Figueira da Foz, um Parque Jurássico, -afastei-me em vertiginoso sprint para longe do guano branco com receio de acabar os meus dias ingloriamente confundida com uma minhoca. O que a gente afinal precisa para voar é tão só de uma motivação extra.


O Natal está fraco

O meu Natal está mesmo fraco. Não tenho cheta para comprar presentes nem futuros. Os passados estão em saldo mas os descontos não são interessantes. Estou ainda sem árvore. Não me decido. Fiz um download de um estudo de 200 páginas sobre o impacto ecológico da compra de um pinheiro natural versus o de cloreto de polivinila. Vou na página 10. E ainda nem toquei no bolo-rei. A etiqueta na embalagem tem uma lista de corantes e conservantes maior que a minha agenda de contactos telefónicos. Pensei até que fosse a receita, mas não. Trouxe antes uma broa de milho. A cadela mascou-me um post-it onde tinha anotado as boas acções para o mês de Dezembro. Andei aturadamente a tomar notas o ano inteiro para não me esquecer. Agora não sei se consigo refazer a lista assim do pé para a mão. Já ninguém escreve cartões de Natal, nem mesmo eu que até os desenho para vender, perceba-se agora porque estou sem cheta. Troquei o “Do céu caíu uma estrela” pelo “Deadpool”, o “Last Christmas” pelo “Cheap Thrills”. Hoje pela manhã, o sr. da Chronopost foi o primeiro a desejar-me um Feliz Natal este ano. “A sério?, perguntei, Política da empresa, respondeu ele. A encomenda era um livro ilustrado: Kinder-und Hausmärchen. Numa nota apressada na folha de guarda lê-se: “Frohe Weihnachten! Porque sempre me lembro o quanto gostas de bonecos”. A Zita, uma ex-amiga de longa data a viver em Wuppertal desde que me esqueci dela, não se lembrou que não sei uma palavra de alemão.Também se esqueceu que fui eu quem lhe deu este livro quando a filha fez anos. Comprei-lho de um alemão de Bremen, em 2ª mão, no Ebay, porque reciclar é viver. Ontem fui à praia e estava uma tarde sublime: morna, morninha. Dizem que o frio aproxima as pessoas mas já nem o frio quer colaborar com o espírito natalício. Está mesmo fraco, o meu Natal.

(7 de Dezembro)

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