3/29/16

DIY - Varão de guarda-fatos


Há umas semanas o varão do meu guarda-fatos caíu arrastando consigo as vestimentas todas. O sol ainda não tinha nascido quando ouvi o barulho sem perceber bem do que se tratava, embalada que estava na sonolência. Só quando necessitei de um trapo e abri as portas do dito é que descobri a avaria. O varão tinha cedido pelo meio, e era compreensível pois tratava-se de um mero tubo metálico, relativamente fino. Cedeu ao peso das peças do inverno, que obedecem a um ritual semelhante ao da mudança da hora. No início do inverno acomodam-se ali, no recuo do inverno desaparecem e dão lugar às maravilhas diáfanas e leves que o clima temperado nos permite. Para terem a ideia da fragilidade do varão, eu, que não consigo nem partir um palito sem suar, ainda me dei ao trabalho de o forçar à forma original, vitoriosa, pensando que se aguentaria, ingénua. Depois e com muito jeitinho voltei a colocar as peças de roupa no lugar, tão cientificamente distribuidas quanto possível, fazendo cálculos de cabeça, medindo intervalos entre cabides e pesando cada uma a olho, de forma a repartir o esforço equitativamente. Quando terminei fechei as portas do guarda-fatos, toda contente comigo, pensando que era esperta. Nem cheguei a alcançar a porta do quarto. O mesmo ruído abafado que ouvira de madrugada, repetia-se. Arremessei para o ar uma mão cheia de asneiras em crescendo. Nada a fazer. Tinha de substituir o varão.

Parece coisa pouca mas este pequeno drama  rapidamente se transforma num dramalhão, se deixarmos. Se eu quiser quem faça desentupimento de canos é só tirar um cartão do monte que me deixam na caixa do correio, aparece logo um tipo todo artilhado que até tem equipamento para filmar interiores de tubagem! Se eu quiser alguém para limpar a chaminé, idem. Reparações de toda a ordem com orçamentos grátis é só ligar, mas depois cobram mais pela deslocação do que pelos dez minutos que demora a substituir um interruptor! A regra é esta: se eu quiser alguém para apagar um fogo que se veja, esse alguém existe, por regra até está disponível 24 horas; mas se eu quiser quem me ajude a apagar um fósforo, esse alguém não existe. Coisas que sejam menos do que um biscate, coisas que esat gente acha que cabem no departamento da bricolage também não são bem recebidas. Mas então a senhora está-me a ligar para eu lhe ir mudar uma lâmpada no tecto falso?! Olhe, podia voltar a ligar para a semana? É que eu agora estou aqui a  instalar um comando de iluminação por detecção de movimento, sabe? E depois já sei que me vou esquecer, sabe como é. Sei. Sei como é. Mas a verdade é que não faz bricolage quem quer, faz quem pode. E por aqui, no fundo de uma gaveta emperrada ainda se esgravatam uns pregos e buchas, uns parafusos e porcas, uns martelos e uns alicates de vários modelos, mas pouco mais do que isso.

É nestas alturas que a gente se arrepende de não usar os encontros imediatos no elevador para conhecer melhor os vizinhos. Existiria alguém hábil e solícito q.b. no rol de condóminos que pudesse resolver-me o berbicacho? Fiz uma recapitulação rápida daquilo que sei acerca dos meus vizinhos e cheguei a uma edificante conclusão: só sei que nada sei. Mas não me cheira a que por aqui viva gente com jeito de mãos, a não ser para fumar cigarros, carregar compras, lavar o automóvel ou despejar o lixo.

Como se impõe nos tempos modernos fui então bater à porta do Google. Procurava casas de decoração ou marcenarias que pudessem cortar um varão de madeira à medida ou então empresas de caixilharia de alumínio, qualquer coisa que ficasse num raio confortável, que me permitisse ir buscar o maldito varão. Identificadas algumas casas enviei os respectivos emails pois não tinha tempo para estar a telefonar e a falar com cada uma. E então acontece fenómeno que sempre me deixa sempre perplexa. As empresas têm um site na internet com design mais ou menos actual, procuro o campo para contacto e encontro facilmente. E aí faço o envio do meu pedido desesperado e aguardo. Aguardo, aguardo e aguardo.

Eu já sabia, eu já sabia. Assim que desliguei o computador eu já sabia que no meu regresso não haveria nada para ler ali. E por isso, ao fim da tarde, por entre deambulações várias, ocorreu-me uma ideia luminosa: um varão telescópico improvisado a partir de um daqueles cabos que se usam para vassouras e outros resolveria o transe!  Fui a um supermercado e não havia. Então fui à loja dos chineses e eles lá estavam. Em menos de 10 minutos a situação estava resolvida. Paguei 1, 35 euros pelo cabo telescópico. Cheguei a casa, retirei as roupas a monte e instalei o cabo à medida. Do lado mais fino servia perfeitamente no suporte, do outro lado tive de apertar o tubo metálico com um alicate, coisa pouca. Feito. Distribuí as roupas alegremente e dei o caso por encerrado. E foi assim que apaguei o fósforo. Aqui fica o relato pois pode ajudar alguém a dar boa conta do recado. É fácil, é barato e não custa milhões.

Ah. Só para que fique claro nem nesse dia nem no seguinte obtive qualquer resposta das empresas que contactei. Já estão na minha lista negra e por isso não lhes vou fazer publicidade, nem mesmo negativa.

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