1/27/16

O regresso dos Ficheiros Secretos à televisão


O regresso dos Ficheiros Secretos à televisão provocou-me um empolgamento maior do que a estreia do Star Wars, que ainda não vi. Quando anunciaram as filmagens com os actores originais e Chris Carter no comando, não fiquei por aí além entusiasmada. Não li nada sobre o assunto, não quis saber nem mesmo quando a RTP Memória recomeçou a exibir o grande êxito dos anos 90, em Outubro passado. Isto há coisas que eu acredito terem o seu tempo próprio. Os Ficheiros são uma delas.Os criadores dizem que é o tempo ideal para mais histórias bizarras pois o mundo actual tornou-se ainda mais estranho. Sim, as teorias da conspiração passaram de coisa rara a menu do dia. Basta abrir o Facebook. Só que ao tempo da estreia Os Ficheiros eram um OVNI no panorama televisivo. Hoje a competição é grande.

Ontem à noite eu tinha tudo em ordem para, à hora prevista, me sentar no sofá e ligar a TV. Só faltou ir vestir a minha t-shirt dos X-Files que tem sobrevivido às doações de roupa ano após ano, qual relíquia. Já passaram 14 anos sobre o fecho da série e para o fim eu era uma telespectadora relutante – foram quase 200 episódios, 9 temporadas 16 Emmys, 5 Globos de Ouro e um prémio Peabody. Nem todos os episódios eram perfeitos, houve muitos altos e baixos. Acabei algo perdida entre a trama que percorria a série e os episódios soltos. Por fim, o desinteresse venceu. Lembro ainda a decepção que foi o filme de 2008.
Em 1993 o território da ficção estava povoado por histórias de polícias e advogados e comédias convencionais. A série foi um acontecimento televisivo não apenas pelo teor do seu conteúdo mas também por uma certa qualidade cinemática que não era usual. Era ousada e diferente, tinha piada, desde logo porque tomava a palavra do maluquinho dos discos voadores e fazia dela uma tese: nós não estamos sós e o Governo não anda a contar-nos a verdade. Os Ficheiros Secretos fecham um ciclo; são a série que antecede uma nova era da ficção em televisão. Daí em diante diversas cadeias apostam na exploração de uma forma específica de linguagem para televisão, a primeira série a tornar-se fruto disso foi a histórica e emblemática Os Sopranos.

Nos anos 80 e 90 eu ainda via muita televisão. A recém criada TVI foi a estação que nos apresentou Mulder e Scully . Curiosamente eu lembro-me de ter visto o primeiro episódio de The X-Files e de não ter gostado particularmente. Nunca me interessei pelo sobrenatural ou pelo horror na ficção mas na minha adolescência eu adorava ler sobre OVNI e vida extraterrestre. Por isso a série despertou a minha atenção. A cada novo episódio o relutante casal, cujo romance sempre viveu em banho-maria, sem nunca ebulir, confrontava o desconhecido na forma das mais variadas actividades paranormais. Mas Mulder parecia-me quase sempre um pouco sonâmbulo e Scully algo hipotensa. Desapego ou sangue frio pareciam atributos essenciais para lidar com o oculto! Funcionava. Lentamente fui sendo envolvida na conhecida tensão entre a voz da ciência e da razão (Scully) e a da crença (Mulder). Mas se o tema de fundo eram os homenzinhos verdes de olhos amendoados, não faltando também monstros e criaturas, a série explorava intrinsecamente ideias muito abrangentes como a globalização, a perda de identidade, o perigo da clonagem, a solidão existencial, a falta de confiança nas instituições democráticas, ou mesmo a destruição ambiental, o capitalismo e a vocação da humanidade para a destruição e o mal. Não sei quantos episódios foram necessários para me converter ao culto. O meu cepticismo inicial cedeu e tornei-me telespectadora compulsiva. Adorava assitir ao intro que dava o mote para o episódio apresentando algo intrigante e/ou chocante antes dos créditos iniciais.
E agora a mini-série de seis episódios de 45 minutos que estreou ontem. Scully é médica e eu já nem me lembrava. Mulder surge primeiro com um look  à Hank Moody mas rapidamente entra na linha, aparecendo devidamente fardado, fato e gravata, como me lembrava. Quando o primeiro episódio terminou dei por mim bastante desapontada. Não vi grande centelha criativa. Eu estava à espera de qualquer coisa excitante, porque afinal era a estreia d’Os Ficheiros Secretos do séc. XXI e porque muitas séries depois - eu gostei de Torchwood - a gente aprendeu que ainda é possível fazer televisão excitante e porque tinha de ser. Mas nada disso. Somos brindados com uma recapitulação breve dos antecedentes que tornaram Mulder Mulder e depois assistimos à revisão das suas ideias, enquanto levamos um banho de ovnilogia que culmina nesta afirmação de proporções cósmicas: são os homens e não os extraterrestres que têm conspirado. Mulder foi manipulado, induzido em erro, e mais, a conspiração tem por objectivo conquistar a América. Não sei se os Americanos se terão mijado a rir quando Mulder o disse. Eu não me mijei porque nem para rir isto deu.

Entretanto vamos para intervalo a Fox ia desfilando publicidade a carros de luxo e coisinhas crocantes de frango prontas a ir ao forno. O pensamento que tomou conta da minha mente enfadada foi que Os Ficheiros Secretos, a série dos anos 90, deviam ter ficado por lá. Ah, e como ser possível agora admitir que depois de tanta peripécia Scully continuasse céptica? E o Homem do Cigarro? Não estava morto ou a morrer? Como é que viveu 14 anos? Ah, espera, tem ADN extraterrestre ou qualquer coisa assim. Vamos descobrir isso mais adiante. Uma pessoa percebe que está mais presa à nostalgia do que supunha quando tem estes pensamentos e se sente desconfortavelmente como que a trair-se a si mesma. Eu quero acreditar. Acreditar no que estamos a ver mesmo que não faça grande sentido é por vezes um mal menor se encontrarmos uma qualquer outra compensação. Mas no presente caso, além do facto de ter gostado de ouvir a musiquinha inicial e de rever o par de agentes com química intacta, não havia muito mais. Felizmente o segundo episódio começou e abafou os meus pensamentos menos próprios. E esse compensou amplamente o desatino que foi o primeiro, fazendo-me crer que ainda é possível acreditar. Para a semana há mais. Entretanto, não confiem em ninguém.

2 comments:

Anonymous said...

Eu gostei dos dois episódios talvez porque nunca tinha visto a série. Para quem viu é deiferente, acho eu. É verdade que há muitas séries de Tv com coisas parecidas, Fringe, Sobrenatural, Heroes e outras. Eu não vejo muito este tipo de series, prefiro comédias. Mas os Ficheiros comecei a ver porque são uma serie de culto.

Ruthiel said...

Eu também gostei dos novos episódios, exceptuando o ep3 que achei um pouco rebuscado...

Mas também não vi as temporadas anteriores... E ando meio confuso à cerca do filho! Hehe.

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