1/27/16

O regresso dos Ficheiros Secretos à televisão


O regresso dos Ficheiros Secretos à televisão provocou-me um empolgamento maior do que a estreia do Star Wars, que ainda não vi. Quando anunciaram as filmagens com os actores originais e Chris Carter no comando, não fiquei por aí além entusiasmada. Não li nada sobre o assunto, não quis saber nem mesmo quando a RTP Memória recomeçou a exibir o grande êxito dos anos 90, em Outubro passado. Isto há coisas que eu acredito terem o seu tempo próprio. Os Ficheiros são uma delas.Os criadores dizem que é o tempo ideal para mais histórias bizarras pois o mundo actual tornou-se ainda mais estranho. Sim, as teorias da conspiração passaram de coisa rara a menu do dia. Basta abrir o Facebook. Só que ao tempo da estreia Os Ficheiros eram um OVNI no panorama televisivo. Hoje a competição é grande.

Ontem à noite eu tinha tudo em ordem para, à hora prevista, me sentar no sofá e ligar a TV. Só faltou ir vestir a minha t-shirt dos X-Files que tem sobrevivido às doações de roupa ano após ano, qual relíquia. Já passaram 14 anos sobre o fecho da série e para o fim eu era uma telespectadora relutante – foram quase 200 episódios, 9 temporadas 16 Emmys, 5 Globos de Ouro e um prémio Peabody. Nem todos os episódios eram perfeitos, houve muitos altos e baixos. Acabei algo perdida entre a trama que percorria a série e os episódios soltos. Por fim, o desinteresse venceu. Lembro ainda a decepção que foi o filme de 2008.
Em 1993 o território da ficção estava povoado por histórias de polícias e advogados e comédias convencionais. A série foi um acontecimento televisivo não apenas pelo teor do seu conteúdo mas também por uma certa qualidade cinemática que não era usual. Era ousada e diferente, tinha piada, desde logo porque tomava a palavra do maluquinho dos discos voadores e fazia dela uma tese: nós não estamos sós e o Governo não anda a contar-nos a verdade. Os Ficheiros Secretos fecham um ciclo; são a série que antecede uma nova era da ficção em televisão. Daí em diante diversas cadeias apostam na exploração de uma forma específica de linguagem para televisão, a primeira série a tornar-se fruto disso foi a histórica e emblemática Os Sopranos.

Nos anos 80 e 90 eu ainda via muita televisão. A recém criada TVI foi a estação que nos apresentou Mulder e Scully . Curiosamente eu lembro-me de ter visto o primeiro episódio de The X-Files e de não ter gostado particularmente. Nunca me interessei pelo sobrenatural ou pelo horror na ficção mas na minha adolescência eu adorava ler sobre OVNI e vida extraterrestre. Por isso a série despertou a minha atenção. A cada novo episódio o relutante casal, cujo romance sempre viveu em banho-maria, sem nunca ebulir, confrontava o desconhecido na forma das mais variadas actividades paranormais. Mas Mulder parecia-me quase sempre um pouco sonâmbulo e Scully algo hipotensa. Desapego ou sangue frio pareciam atributos essenciais para lidar com o oculto! Funcionava. Lentamente fui sendo envolvida na conhecida tensão entre a voz da ciência e da razão (Scully) e a da crença (Mulder). Mas se o tema de fundo eram os homenzinhos verdes de olhos amendoados, não faltando também monstros e criaturas, a série explorava intrinsecamente ideias muito abrangentes como a globalização, a perda de identidade, o perigo da clonagem, a solidão existencial, a falta de confiança nas instituições democráticas, ou mesmo a destruição ambiental, o capitalismo e a vocação da humanidade para a destruição e o mal. Não sei quantos episódios foram necessários para me converter ao culto. O meu cepticismo inicial cedeu e tornei-me telespectadora compulsiva. Adorava assitir ao intro que dava o mote para o episódio apresentando algo intrigante e/ou chocante antes dos créditos iniciais.
E agora a mini-série de seis episódios de 45 minutos que estreou ontem. Scully é médica e eu já nem me lembrava. Mulder surge primeiro com um look  à Hank Moody mas rapidamente entra na linha, aparecendo devidamente fardado, fato e gravata, como me lembrava. Quando o primeiro episódio terminou dei por mim bastante desapontada. Não vi grande centelha criativa. Eu estava à espera de qualquer coisa excitante, porque afinal era a estreia d’Os Ficheiros Secretos do séc. XXI e porque muitas séries depois - eu gostei de Torchwood - a gente aprendeu que ainda é possível fazer televisão excitante e porque tinha de ser. Mas nada disso. Somos brindados com uma recapitulação breve dos antecedentes que tornaram Mulder Mulder e depois assistimos à revisão das suas ideias, enquanto levamos um banho de ovnilogia que culmina nesta afirmação de proporções cósmicas: são os homens e não os extraterrestres que têm conspirado. Mulder foi manipulado, induzido em erro, e mais, a conspiração tem por objectivo conquistar a América. Não sei se os Americanos se terão mijado a rir quando Mulder o disse. Eu não me mijei porque nem para rir isto deu.

Entretanto vamos para intervalo a Fox ia desfilando publicidade a carros de luxo e coisinhas crocantes de frango prontas a ir ao forno. O pensamento que tomou conta da minha mente enfadada foi que Os Ficheiros Secretos, a série dos anos 90, deviam ter ficado por lá. Ah, e como ser possível agora admitir que depois de tanta peripécia Scully continuasse céptica? E o Homem do Cigarro? Não estava morto ou a morrer? Como é que viveu 14 anos? Ah, espera, tem ADN extraterrestre ou qualquer coisa assim. Vamos descobrir isso mais adiante. Uma pessoa percebe que está mais presa à nostalgia do que supunha quando tem estes pensamentos e se sente desconfortavelmente como que a trair-se a si mesma. Eu quero acreditar. Acreditar no que estamos a ver mesmo que não faça grande sentido é por vezes um mal menor se encontrarmos uma qualquer outra compensação. Mas no presente caso, além do facto de ter gostado de ouvir a musiquinha inicial e de rever o par de agentes com química intacta, não havia muito mais. Felizmente o segundo episódio começou e abafou os meus pensamentos menos próprios. E esse compensou amplamente o desatino que foi o primeiro, fazendo-me crer que ainda é possível acreditar. Para a semana há mais. Entretanto, não confiem em ninguém.

1/26/16

That Sugar Film - o açucar é o mau da fita


Em That Sugar Film Damon Gameau é cobaia de uma experiência! Durante dois meses ele irá ingerir diariamente o equivalente a 40 colheres de chá açucar – segundo ele é essa a média de açucar que os australianos ingerem – e filmar os efeitos daí decorrentes no organismo. Faz-se seguir por uma equipa que controla as alterações produzidas ao longo do regime açucarado e que verifica o seu aumento de peso e também o  princípio de doenças metabólicas – com apenas 18 dias o seu fígado já apresenta gordura. Além disso Damon queixa-se de alterações de humor, letargia, dores de cabeça e náuseas. Tudo isto e ele nem toca em fast-food. Ele ingere alimentos que a maior parte dos australianos consome e que julgam fazer parte de um regime alimentar saudável: iogurte, sumos, molhos, cereais. Antes de conhecer a namorada Zoe Truckwell-Smith, Damon confessa que vivia de chocolate, pizzas caseiras e cigarros. Depois, com a motivação certa - queria impressioná-la - ele mudou para um regime alimentar que considera saudável. Por isso todos podem mudar. É encontrar a motivação certa e ter informação adequada. Esse foi o seu objectivo ao realizar That Sugar Film, ou seja, mostrar de forma acessível e cativante informação capaz de ser utilizada pelos adolescentes, o evidente público deste filme, para agir.

Para tornar a informação atraente e conseguir motivar os mais jovens, Damon convida estrelas como Hugh "Wolverine" Jackman e Stephen Fry para animarem o início do filme, coloca os entendidos a falar nos rótulos dos produtos, transforma a equipa em super-heróis, usa animações educativas diversas, por exemplo para explicar o metabolismo do açucar no fígado, humor, rima, e ainda termina com um video musical que podia ser concorrente ao Prémio do Mais Foleiro do Ano em qualquer continente e não apenas down under. Há um evidente paralelo entre esta escolha e a utilização do açucar nos produtos com baixo teor em gordura. Por um lado tornam o filme mais engraçado e de fácil digestão, mas por outro distraiem daquilo que é central. Outra forma de nos cativar é a forma descontraída e casual como Damon assume a narrativa do filme envolvendo-se e à sua família nos acontecimentos. Tudo bem misturado e o filme desce olhos abaixo que nem um Smoothie até ao nosso estômago! Mas quando chega ao cérebro as coisas já não são tão doces porque algumas passagens, algumas afirmações, levantaram questões que achei suportadas com pouca evidência. Li depois um artigo - ver abaixo  - sobre o painel de especialistas que Damon convocou e fiquei ainda mais amarga. No entanto isso não invalida que educadores, animadores, professores ou até qualquer pai ou mãe preocupados com a velocidade com que os Oreos desaparecem da despensa não mostrem este filme ao adolescente. Educar contra  excessos é sempre uma mais-valia e limitar o consumo de açucar na nossa dieta não é nem uma má ideia nem uma ideia nova. Nem educar o paladar para sabores menos processados e mais naturais. That Sugar Film é um bom ponto de partida para a conversa sobre um tema algo ingrato - afinal, como aprender a recusar algo que sabe tão bem? Certo é que consegue cativar o interesse do espectador - vi-o com o meu sobrinho de 13 anos e ele achou piada.


Uma declaração bombástica que retive foi que se retiraramos das prateleiras de um supermercado comum os produtos alimentares que contêm açucar restarão apenas 20 % de produtos. Há um par de anos eu fiz uma experiência - passar um mês sem comer carne nem peixe. Desde essa ocasião dedico muita atenção aos rótulos e isto é verdade: o açucar está nas batatas fritas, na mostarda, no pão de forma e em muitos mais produtos. Um apontamento histórico sobre a morte do Presidente Eisenhower, de insuficiência cardíaca, informa-nos da existência de duas teses acerca do sucedido, uma que culpava a gordura e outra o açucar. Mas nos anos 70 e após o esforço de várias entidades – Governo de braço dado com a indústria e cientistas - para branquearem a má sina do açucar, a vilã incontestada passou a ser a gordura e tem início a vaga dos produtos com baixo teor em gordura. Para compensar a sua falta e a consequente perda de sabor, a indústria alimentar deitou mão ao açucar e a tendência permanece até aos nossos dias.

That Sugar Film também apresenta um momento choque: Damon viaja até ao Kentucky para nos mostrar a “Mountain Dew mouth”. Isso é o resultado da ingestão - em excesso e desde muito tenra idade, 3 e 4 anos - do popular refrigerante pelas crianças das comunidades daquela região,  o que resulta em dentições  apodrecidas quando chegam à adolescência. Damon mostra também como é difícil encontrar alternativas ao fast –food enquanto percorre as estradas da America ladeadas por grandes sinais de restaurantes como McDonalds, Kentucky Fried Chicken e Burger King. O acesso a uma alimentação mais saudável nem sempre é simples, por vezes comer bem não depende somente da nossa escolha. Outro momento perturbador é a visita que Damon faz a Amata, uma comunidade de aborígenes australianos. A comunidade era saudável antes do aparecimento do supermercado local, vivia dos produtos que cultivava e da caça. Ficamos a conhecer John Tregenza, The Chainsaw, um homem que diz ter este apelido porque “ cuts through the bullshit”. Ele é o mentor de um projecto intitulado MAI WIRU – Good Food que tem como objectivo incutir hábitos de alimentação saudável na comunidade. Para ele o açucar é o responsável pelas doenças e mortes prematuras dos aborígenes.

Para terminar  That Sugar Film lança a ideia de que o capitalismo é alimentado pelo açucar pois ele é o motor de grande parte da sociedade de consumo na associação complexa como trabalha no nosso corpo, mente e coração.  Mais ou menos isto. Até dá medo, não? 

1/25/16

A lógica da batata?

Esta foto de uma bela batata valeu ao artista 1 milhão de Euros. Primeiro ainda pensei que se tratava de um asteróide. Ou mesmo o 9º planeta de que tanto se fala. Mas o caso não é recente e consta dos créditos de Kevin Abosh mais conhecido por fotografar executivos e celebridades em segundos. O fundo preto tornou-se um símbolo de status junto dessa elite e desde 2015 decerto que também entre a elite das batatas. Mr. Potato Head já tem sessão fotográfica agendada com este antigo biólogo que justifica o seu êxito com a paixão, dotes criativos com que a Natureza o beneficiou e alguns momentos-chave da sua carreira. Tudo sobre este insólito, aqui.

1/24/16

A insustentável doçura do açucar


Finalmente a DGS quer reduzir para metade o conteúdo dos pacotinhos de açucar que são distribuidos nos cafés e similares. Além disso pretende-se que não sejam entregues de imediato mas apenas a pedido do consumidor. Quer-se diminuir o açucar na vida dos portugueses e esta é apenas uma parte desta operação ANTI-AÇUCAR que o diretor do Programa Nacional de Alimentação Saudável, Pedro Graça, anunciou há umas semanas.

Ao contrário dos tremoços que deviam vir obrigatoriamente incluidos com a cerveja, mas que nunca vêm, ou da casca de limão e gelo que deviam vir casadíssimos com a água tónica, os pacotinhos de açucar são um extra questionável, embora excelente veículo publicitário. Não me lembro de alguma vez ter usado um deles inteiro numa bica. Antes de banir por completo o açucar das bicas, leite, galão e maioria dos chás - o que aconteceu há 12 anos - eu abria o pacote, retirava uma colherita de açucar, enrolava diligentemente o açucar que restava e acomodava o pacotito  no pires. Não o fazia por questões de dieta ou de saúde mas simplemente porque um pacote de açucar transformaria o meu café numa xaropada enjoativa. Depois passei a trazer o açucar para casa e acabei por me transformar em involuntária coleccionadora de pacotes de açucar. Sempre vi um enorme desperdício na distribuição dos pacotes - e lembro-me de em alguns cafés serem dois e não apenas um! Cheguei a falar nisso com donos de cafés e também esta ideia quer era a utilização de  um dispensador de açucar para combater esse desperdício. O que é que querem? O desperdício incomoda-me.  E já agora, reparem, andamos todos a pagar 8 gr de açucar quer utilizemos 1 gr ou nenhum. Com esta inovação também não sei se vão mexer no pacote "tudo incluído" já que pretendem não distribuir os pacotitos de imediato. Será que quem não quer açucar vai ter direito a um abatimento no preço da bica? Era bem vindo. Qualquer bebericador de café já fez certamente contas às bicas tomadas e sabe que no final do mês é uma renda! (Vai ser o princípio de uma revolução: a seguir será a vez do bolinho com ou sem guardanapo. É que há sempre quem limpe as mãos às calças.)

Abaixo o açucar! Estamos a viver dias de grande exaltação em torno do açucar. Isto tudo tem a sua época. Abaixo o tabaco, abaixo o café, abaixo o vinho, abaixo a manteiga. Ora, abaixo o abaixo. Uma história nunca vem só. Aparece uma a condenar e invariavelmente outra nos é vendida como alternativa porque a sociedade de consumo é tudo menos burra. Acenam-nos com uma cenoura e como é colorida e saudável, a gente trinca. Lá enchemos os bolsos de alguém mas, feitas as contas, o saldo nem sempre nos é favorável. Há prova irrefutável de que a vaga dos cigarros light, dos cigarros electrónicos, dos descafeinados ou dos produtos magros very light - no vinho ainda não conseguiram mexer-   nos tenham garantido melhor sabor e mais saúde? Eu continuo fiel à minha regra. Não tem base científica mas assegura que não fico maluca com tanto estudo científico que hoje diz e amanhã desdiz. Dou a quem a quiser levar e não preciso que me citem ou linkem: pouco de tudo. E em relação ao açucar faço o mesmo.

Infelizmente o açucar sabe bem e tem uma capacidade de viciar que não pode ser ignorada. Porque gordura ainda não é formosura muita gente olha para ele de esguelha. Mais difícil será  odiá-lo por razões históricas mas a exploração da cana de açucar terá sido uma das responsáveis pelo deshumano tráfico de escravos. Se por acaso é daquelas pessoas que come e volta a comer e nunca engorda, talvez seja um argumento a que se possa agarrar! A gordura não é o único problema. Os pediatras e nutricionistas andam doidos com uma constatação: aparecem nos consultórios crianças magricelas a sofrer de diabetes tipo 2, hipertensão, colesterol e ácido úrico elevados que são causados pelo consumo excessivo de açucares. Isso é o quadro que antecede problemas cardio-vasculares. É quase inacreditável que os miúdos estejam a sofrer de doenças que afectam os adultos. Será que um destes dias vamos ter crianças a cair no recreio vitimadas por insuficiências cardíacas provocadas por ingestão de demasiado açucar?! É um pensamento diabólico. A minha mãe  mandava-me lavar os dentes depois de comer um bolo por causa das cáries dentárias, mas os pais modernos têm agora argumentos bem mais preocupantes. Mudam-se os tempos, mudam-se as doenças. Só fazendo análises é que se podem constatar estas alterações. Se a criança não está gorda está saudável? Não. É preciso estar atento. E porquê? Porque quando eu era criança era fácil evitar o consumo do açucar. Mesmo assim os doces eram guardados para assinalar ocasiões festivas e momentos excepcionais. As sobremesas eram fruta e ao Domingo podia haver pudim caseiro ou pão de ló. A crescer desta maneira foi-me fácil transitar para a vida adulta sem grandes vícios alimentares. Mas as crianças de hoje - e os jovens e os adultos - vivem de pão de forma, cereais embalados, bolachas, refrigerantes, carnes frias, barras de cereais, batatas-fritas, enlatados, margarina, há uma variedade incrível de apelos e as formas de veiculação publicitária são também diversas e omnipresentes. O açucar dos pacotinhos de açucar - sacarose - é no meio de tudo isto um detalhe. Mas pode ser uma excelente bandeira para a campanha. Façam a experiência. Peguem em produtos nas prateleiras do supermercado  e observem os rótulos. É raro aquele onde não constam palavras como glucose, sacarose, frutose, dextrose, sorbitol, poliglicitol, galactose, etc. Tudo isto é açucar. E nesse casos não se pode comer só metade ou retirá-lo do produto. Aqui o açucar é unha com carne com o produto. E já agora aqui vai outra das minhas regras feitas em casa: produtos saudáveis são produtos sem rótulo.

Uma imagem que dispensa explicações.

O que nos deixa um problema amargo. Uma história nunca vem só. Há uma que corrre em paralelo a esta.  É verdade que  muita gente não se alimenta de forma muito saudável. Uma parte porque não sabe comer melhor, outra porque se está nas tintas para isso e outra, importante, porque não pode.  Mais do que ler rótulos, os consumidores examinam e comparam os preços. Os bróculos - que eu adoro - têm oscilações de preço perfeitamente estúpidas. E o preço do feijão-verde? E o preço do azeite? E, porque não, o dos frutos secos? Ou mesmo um queijo? E o preço turístico das frutas em Agosto? Uma outra história que corre e depressa demais é a da rotina de grande parte das famílias. Ninguém tem tempo para nada e então em vez de se privilegiar o fogão privilegia-se a prateleira do hiper ou a tulha dos pré-cozinhados. Como é fácil de ver o açucar não é o único responsável por tudo quanto vai mal no reino da alimentação. Tenhamos atenção aos cristais brancos e seus derivados mas sem perder o contexto ou estaremos apenas a mudar sintomas. E deixemos também de pensar que a nossa vida muda por decreto. Nós mesmos, os indivíduos, temos o poder de mudar alguma coisa. Vamos tentar?





Com todo o respeito



Entre o caos e o desassossego,
Eixos do mal,
Desordem mundial,
Há tanta gente quilhada.
Com todo o respeito

Andamos por aí
Sempre a mandar vir
Como é que é
Entre a cerveja e o café
Contestatários inatos.
Com todo o respeito

Temos de pagar pelo material de guerra.
Desaparecem os blindados.
A república sabe receber bem,
Gasta milhões que, por acaso, não tem.

O papa deu um grande passo em frente
Até já concorda com a camisa,
Mas só em casos fatais
Com todo o respeito

Este parque automóvel corta a respiração
Muito acima da nossa realidade
Alguém vai ter de pagar
Com todo o respeito

Os centros comerciais engolem a gente
Alguns vão comprar, outros só vão olhar
E há quem consiga roubar
Com todo o respeito

Enquanto os sem-abrigo se vão arrumando, entre
Recordações e algumas mantas,
Outros cuidam da sua aparência
E droga circula à nossa frente

Tanta corrupção neste país,
Arrogância e ganância sempre impunes
E a sopa dos pobres, lá estão!
Com todo o respeito

Os impostos disparam, apertamos o cinto.
Isto é para toda a gente, salvo raras exceções
Até alguém dizer: chega
Com todo o respeito

Falta virem taxar-me pelo ar que respiro,
Pelo passo que dou, cada vez que espirro.
Hão-de arranjar maneira
Com todo o respeito

E tu, meu amor, que gostas tanto de mim
Juraste ser leal, até ao fim.
Tivemos tantos sonhos, fizemos projetos
Alguns tiveram quase sucesso.

Dizias, meu amor, que eu era tudo para ti,
Mas nunca me falaste do teu amante
Só para me evitares o desgosto
Com todo o respeito

Eeeh! Pra me evitares o desgosto
Com todo o respeito

1/22/16

Anomalisa - pequena crítica do filme


Não há nada em Anomalisa, filme de Charlie Kaufman e Duke Johnson, que não pudesse ser feito com actores de carne e osso. Então porquê darem-se ao trabalho de fazer um filme de animação em stop-motion?Eu sou uma admiradora incondicional deste tipo de cinema. Mas no inícío de Anomalisa nem estava a gostar do que via: a artificialidade, a névoa, a paleta desmaiada, o marasmo. Os bonecos. O ritual familiar de um check-in num hotel nunca me tinha parecido tão absurdo! Entretanto encontrei um sentido nisso tudo: o que acontece a uma vida engolida pela apatia dos gestos rotineiros? Não transforma qualquer um numa figurinha mecânica que se move num cenário cada dia mais impessoal até à completa alienação mental e física? Ainda assim, Anomalisa, podia ser mais curto.

O filme mostra-nos um dia na vida de Michael Stone. Ele vai a Cincinatti fazer uma palestra sobre satisfação do cliente. Stone escreveu um livro que se chama “Como te posso ajudar a ajudá-los”, livro que se tornou uma bíblia para quem quer chegar ao seu público de forma ganhadora. E a grande ironia é que Michael, que parece ter desvendado a fórmula do êxito desta comunicação, não consegue estabelecer no mundo que o rodeia uma conexão significativa, tudo o que tenta fazer dá para o torto, seja rever uma antiga namorada, seja comprar um presente para o filho: “É tudo uma maçada, uma enorme maçada”, exclama ele ao telefone, para casa, após ter feito o check-in. Michael está imerso num poço de solidão, enfado e questões para as quais não encontra resposta: “o que significa o sofrimento? O que significa estar vivo?” Ele toma comprimidos, ele bebe. Não está bem, mas a gente desconfia que talvez não seja de forma completamente inocente que chegou a este estado. Michael não ganha a nossa empatia com o seu pouco tacto, jeito petulante e tiques narcisistas. É um homem de meia-idade, bem sucedido, que não sabe como apreciar a vida que conquistou e a quem falta algo que ele não consegue identificar.

Todos os que rodeiam Michael sôam de forma igual - a voz de todas as personagens é a de um mesmo actor! – e todos os bonecos parecem ter sido criados pelo mesmo molde, como se fossem bonecos de gengibre saídos da linha de produção da empresa de produtos alimentares onde Lisa é representante de vendas. Os rostos semelhantes, como que formados por peças encaixadas, os movimentos mais ou menos mecânicos, levam-nos a pensar em robots.Mas quando ele conhece Lisa ela sôa-lhe de forma única e ele acredita que pode haver uma saída. O filme podia ser dividido em duas partes, antes de Lisa e depois de Lisa. O seu aparecimento introduz no filme alguma esperança. Mas a melancolia e tom iniciais perduram pois Lisa também não é sem defeito. Ela tem uma cicatriz no rosto, marca que a embaraça e que procura a todo o custo dissimular, uma marca e um símbolo para um passado de infortúnios. Mas a sua baixa-auto-estima não a impede de ser luminosa, ela “quer ser aquela que brilha ao sol”. A sua vida não é menos banal do que a de Michael mas aos olhos deste ela é uma anomali(s)a, a chave para escapar à vida onde não via sentido, algo que ela não entende, pois toda a gente prefere a amiga com quem partilha o quarto de hotel. O seu entusiasmo pelas palavras e pelas linguagens é encantador. Ela é face da humanidade que ainda não tínhamos visto em lugar algum de Anomalisa. E já agora ficam a saber: a Lisa adora Português e sabe que é a língua que se fala no Brasil. E quando ela canta Cyndi Lauper que ninguém no cinema se atreva a fazer um ruído. Quando nos apercebemos das intenções de Michael só nos apetece dizer a Lisa que fuja para longe daquele autêntico buraco negro, temendo que ele a arraste consigo no seu lamento existencial! Mas Lisa é uma sobrevivente!

No tempo que dura esta estranha interação entre os dois aprecie-se o brilhante trabalho das vozes (Jennifer Jason Leigh e David Thewlis) que são os veículos de todas as emoções que afloram ao écrã. Dizer que ao ver Anomalisa nos esquecemos de estar a ver um filme de animação não é inteiramente verdadeiro. Não por falta de esmero nos cenários, vestuário e restantes detalhes, ou na construção dos diversos ambientes. O realizador não quis atingir essa normalidade nem mesmo quando filma uma cena de sexo explícito, verdade, explícito, entre Lisa e Michael, mas de uma forma tão notável que em caso algum vai suscitar risos. Não sei se nos tempos do mais curriqueiro uso do sexo em videos, novelas, séries, internet e tudo o mais que mexe nos ecrãs, grandes e pequenos, que nos rodeiam ainda haja quem vá ao cinema atraído por cenas mais quentes. Mas no presente caso é justificado!

Dizer que Anomalisa prova que o cinema de animação não é só para crianças já é mais correcto, obviamente não pela cena de sexo, mais pela história de desamor inerente. Que Anomalisa não é sequer um filme para todos é o que tenho por mais certo. Oferece uma experiência cinemática diferente, de pendor artístico, que se reparte entre o tédio inicial e o espanto, e algum humor de sentido absurdo. É uma anomalia no contexto da generalidade dos filmes em exibição que recompensará a paciência cinéfila dos mais aventureiros nestas coisas do celulóide.

Apontamentos:

Anomalisa é uma ideia que demorou 10 anos a ser concretizada. O filme foi em parte financiado através de um projecto lançado na rede Kickstarter

Kaufman adora a língua portuguesa


1/14/16

Oscars 2016 - a lista de principais nomeados

Lista total das nomeações no site dos Oscars,  aqui.
Melhor Filme

A Queda de Wall Street
Ponte de Espiões
Brooklyn
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Renascido
O Caso Spotlight
Room

Melhor Realizador

Adam McKay -  A Queda de Wall Street
George Miller -  Mad Max: Estrada da Fúria
Lenny Abrahamson - Room
Alejandro G. Iñarritú - O Renascido
Tom McCarthy  - O Caso Spotlight

Melhor Actor

Bryan Cranston - Trumbo
Matt Damon -  Perdido em Marte
Michael Fassbender - Steve Jobs
Leonardo DiCaprio - O Renascido
Eddie Redmayne - A Rapariga Dinamarquesa

Melhor Actriz

Cate Blanchet - Carol
Brie Larson - Room
Charlotte Rampling - 45 Anos
Saoirse Ronan -  Brooklyn
Jennifer Lawrence -  Joy

Melhor Actriz Secundária

Jennifer Jason Leigh - Os Oito Odiados
Rooney Mara - Carol
Alicia Vikander - A Rapariga Dinamarquesa
Kate Winslet - Steve Jobs
Rachel McAdams - Spotlight

Melhor Actor Secundário

Christian Bale - A Queda de Wall Street
Tom Hardy - O Renascido
Mark Ruffalo - O Caso Spotlight
Mark Rylance - Ponte de Espiões
Sylvester Stallone - O Legado de Rocky

Melhor Argumento Original

Ex Machina
Ponte de Espiões
Divertida-mente
O Caso Spotlight
Straight Outta Compton

Melhor Argumento Adaptado


A Queda de Wall Street
Brooklyn
Carol
Room
Perdido em Marte

Melhor Filme de Animação

Anomalisa
Divertida-mente
A Ovelha Choné
Boy and The World
When Marnie Was There

Filme em Língua Estrangeira

Embrace of the Serpent (Colômbia)
Mustang (França)
Filho de Saul (Hungria)
Theeb (Jordânia)
A War (Dinamarca)

Melhor Fotografia

Carol
Os Oito Odiados
Mad Max: Estrada da Fúria
O Renascido
Sicario - Infiltrado

Melhor Documentário

What Happened, Miss Simone?
Winter on Fire
Cartel Land
The Look of Silence
Amy

Canção Original

Earned It - As 50 Sombras de Grey
Manta Ray - Racing Extinction
Simple Song #3 - A Juventude
Til It Happens To You -The Hunting Ground
Writing’s On The Wall - Spectre

1/11/16

Good-bye Major Bowie




"Partia da música para, com liberdade e inquietação, transcender linguagens –algures entre a música, a arte, a moda, o design gráfico ou aperformance –, mostrando que a cultura popular podia ser reveladora."
Texto completo do jornal Público, aqui.
Últimas fotografias do músico, aqui.



1/9/16

Perdido em Marte e O renascido - Histórias de sobrevivência em filme

Drama de fazer revolver as entranhas? Comédia com um toque dramático? O que prefere? Estão nos cinemas duas histórias de sobrevivência e aventura que não deixarão ninguém levantar-se do lugar para ir comprar pipocas. Por motivos diferentes. Refiro-me a The revenant (O renascido) e The martian (Perdido em Marte). Ambos os filmes adaptam livros, o primeiro da autoria de Michael Punk, adaptado com ampla liberdade, e o segundo escrito por Andy Weir. Enquanto Hugh Glass - o explorador americano do séc. XIX interpretado por Leonardo DiCaprio - existiu, Mark Watney – o astronauta da NASA a cargo de Matt Damon - é pura ficção.

Diverti-me imenso a ver Perdido em Marte. É um filme de entretenimento, é a pipoca dourada dos popcorn movies do ano transacto, tudo nele foi estudado ao pormenor para deixar o espectador satisfeito. É um filme pró-ciência, pró-humanidade, pró-NASA, pró-cinema. É o filme mais cor-de-rosa de Ridley Scott! Do início ao fim sofre de um optimismo contagiante e de uma capacidade de esperança a toda a prova. É um filme explicadinho onde nem nós nem as personagens têm margem para se perder em divagações existenciais ou hesitações. Não sei se o livro fornece maior detalhe sobre as personagens mas aqui não há campo para grande exploração psicológica,  o tempo urge e o foco é na acção de resgate, nada mais. Mas a história é habilmente bem contada. De problema em problema, de solução em solução, ela pula e avança, surpreendendo com sentido de humor e, pontualmente, alguma gravidade. No final é o grande abraço e o aplauso do mundo, a vitória do trabalho de equipa dentro e fora do filme.

Em sentido inverso, O renascido  vai certamente indispôr quem tenha estômago fraco. O meu não se revolta com facilidade mas ainda estremeceu, aguentando-se apenas mercê dos treinos regulares - num pequeno filme de 2014 intitulado Backcountry ,um volumoso urso também fazia estragos. Pois é, o filme de Iñárritu é um filme brutal - e é raro eu usar este adjectivo -, cru. A história é básica, uma de sobrevivência e vingança, o que não quer dizer que faltem justificações para assistir mais não seja pelo espectáculo visual, este é, sem dúvida, um dos mais belos filmes do ano. E é oportunidade para ver mais um brilhante desempenho de DiCaprio, - talvez seja desta que lhe dão o Óscar. Ou talvez não. Que o mereceu antes, sem dúvida; que gostei mais de o ver em O lobo de Wall Street, sim. As duas interpretações não podiam ser mais díspares - aqui ele quase não fala, o corpo e olhos dizem tudo. Tom Hardy, também ele a vestir a pele de um outro sobrevivente, Fitzpatrick, é igualmente bom como um homem ganancioso e destemperado de sentimentos. Apesar de conhecer a lenda, a resistência quase sobrehumana de Glass pareceu-me por vezes exagerada. As personagens são lineares, quando não sustentam uns certos estereótipos culturais. Quando a fita termina a questão que fica connosco é a de Fitzpatrick: valeu a pena? A tagline do filme, - Blood lost. Life found,- devia ter um ponto de interrogação.

A história marciana também não é profunda: basicamente O náufrago encontra Apollo 13 - um filme de que gosto imenso - e temos Perdido em Marte. Mas em vez de foi Tom Hanks, foi Matt Damon o (bem) escolhido, ele até parece estar a especializar-se em papéis de astronauta - em Interstellar também andava a explorar terreno ingrato num qualquer calhau do universo enfiado num super-fato.

Eis-nos então a braços com dois náufragos, ou seja, filmes de um homem só, ou quase, um no espaço, inadvertidamente deixado para trás pelos seus companheiros após uma tempestade de areia, outro nas entranhas do selvagem continente americano, deliberadamente deixado para morrer numa cova depois de ter sido atacado por um urso. Cada um esboçará o seu plano de sobrevivência, o primeiro apoiando-se no conhecimento científico para solucionar problemas, o segundo na experiência de vida. Cada um encontra forças à sua maneira para superar o medo, a solidão e a incerteza da situação em que se encontra: se o astronauta parece possuir baterias inesgotáveis de puro apetite pela vida, já Hugh Glass sustenta um inato instinto de sobrevivência que parece apenas possível porque forjado na Natureza e na adversidade. Mas se ao vencer cada sol (dia em Marte) o marciano nunca deixa de exibir uma certa fragilidade, já o explorador-guia torna-se mais e mais empedernido, alimentado pelo desejo de vingança para ultrapassar cada noite.

Perdido em Marte e O renascido são ambos demonstrações de grande competência técnica, mas o filme de Alejandro González Iñárritu abre incomparavelmente melhor numa sequência estonteante e inesquecível em termos de direcção, acção e cinematografia. A cinematografia é a grande estrela deste filme e Emmanuel Lubezki foi o mago de serviço. Li que foi todo filmado -  aproveitando apenas a luz natural, - no Canadá e na Argentina, não apenas nos EUA, mas ali devemos constatar toda a beleza e grandiosidade do oeste americano, a sua dureza sem piedade, a sua esmagadora vastidão de uns 50 tons de cinza, neve, gelo, pedra, que Glass atravessou, ferido, ao longo de uma inacreditável viagem de 300km. (Note-se que o terreno original era pradaria e não este, de montanha! É a tal liberdade de adaptação que incomoda muitos.) Horas depois do filme ter terminado eu ainda ouvia a água a correr dentro da minha cabeça. Lembrei-me de Aguirre. Mas também o Marte imaginário, de montanhas e desfiladeiros a competir com o Grand Canyon ou com as planícies avermelhadas do México, de cores ferrugentas e quentes, se revela uma paisagem quase desejávelmente habitável, permitindo a nossa imersão em imagens maravilhosas e inesquecíveis, uma parte do encanto que o cinema nos pode reservar. Talvez seja a primeira vez que Marte foi humanizado no cinema. Da última vez que apareceu nas salas escuras, chamava-se Barsoom e John Carter andava por lá aos saltos, a fugir da horda dos Tharks, guerreiros verdes, com seis braços e três metros de altura!

Apontamentos:

Nove tecnologias que a NASA já desenvolve e que aparecem no filme Perdido em Marte (Inglês)

A viagem a Marte: missões análogas em curso pela NASA (Inglês)
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A man in the wilderness  - filme de 1971 baseado na vida de Hugh Glass

Hugh Glass: The Truth Behind the Revenant Legend (Inglês)

'Revenant' filmed it, but he 'lived' bear attack - and wrote about it in 1954 (Inglês)





Hugh Glass: The Truth Behind the Revenant Legend

1/3/16

O meu 2015 em filmes


Há dias comentava com alguém que tinha visto poucos filmes em 2015. Entretanto, e como a minha memória já teve melhores dias, resolvi procurar um site que me permitisse fazer o registo dos filmes que irei ver em 2016, pois é, mais uma coisa para perder tempo! Eis alguns sites que oferecem esta possibilidade - o IMDB, o Metacritic, o Rotten Tomatoes, o Criticker ou o iCheckMovies. Queria um bem simples e acabei por me decidir por Letterboxd. Podem encontrar-me lá sob o nome Maria Fernandes, nestes sites americanos Belinha parece ser um diminutivo difícil - costumam tratar-me por Belina, Berlina, Belinah, Beliah, entre outros, esta é uma solução prática, espero que facilite a confraternização com outros devotos cinéfilos! 

Entretanto aproveitei para registar os filmes vistos o ano passado e eis o print screen.  Afinal não é tanto o não ter quase visto filmes que marca 2015, é o não ter visto muitos filmes memoráveis. Por vezes não se consegue ver o que se quer, vê-se o que se pode! 

Alguns dos filmes de que mais gostei em 2015 não foram estreia o ano passado, Man with a movie camera, por exemplo, é um filme russo de 1929. Era uma lacuna grave, aconselho vivamente a visualização a quem goste de cinema. Também Ne le dis à personne , filme muito nomeado aos Césars, já é de 2007.

Das oito dezenas de filmes que vi  esta é a lista de favoritos, sendo a ordem aleatória. Escrevi sobre alguns, poucos, aqui no blogue, pode ser que ainda escreva sobre outros vistos após o verão, época em que começam as estreias menos bombásticas mas mais interessantes. Mesmo a terminar o ano foi quando vi O Marciano, um dos mais bem conseguidos de Ridley Scott, depois dos menos bons Exodus e Prometheus - eu não vi The counselor - , que bem merece um textito.

- Ex Machina - Mistress America - Sicario - About time - Inside Out - Mad Max - The Martian - The Duke of Burgundy - Frequencies - Mr. Holmes - Man with a movie camera - Tell no one/Ne le dis à personne - A most violent year - Layer Cake - Mr. Turner - Results - Locke - Lust/Caution (revi)

É raro perder-me em resoluções para o ano seguinte mas uma das minhas para 2015 era ver menos cinema e ler mais livros. Comecei então a pensar quanto tempo tinha dedicado aos filmes porque é esse tempo que divido com os livros, tentando perceber porque não tinha lido mais. Os livros acabaram por ficar quase todos por ler. Mas os filmes não ficaram por ver. Ora bem, Ex Machina tem 1,48 m, Mistress America tem 1, 26 m, Sicario tem cerca de 2 h, About time tem 1, 23 m...Imaginando uma média de hora e meia para cada filme que vi, chego à conclusão de que terei passado uns 7470 minutos a ver filmes, ou seja, perspectivando a façanha de forma ininterrupta, terão sido mais ou menos cinco dias e cinco noites consumidos em cinefilia. Uma vez acusaram-me de ver filmes a mais, - "o que tu tens é muito tempo livre"-  disseram-me. Estes filmes foram todos vistos nos fins-de-semana, nas sextas, sábados e domingos à noite, um filme ou dois por noite. Excepcionalmente, em dias em chego à noite exausta, também vejo filmes como forma de relaxar em outros dias, mas é raro. Cada maluco com sua mania: não gosto de ir ao cinema - ou de ver filmes em casa - durante o dia. Uma coisa que resulta para conseguir ver tanto filme, diria eu a esse senhor, é passar menos tempo no Facebook. A cada maluco, o seu passa tempo.

Enquanto pensava em tempo e números lembrei-me de ir ver a definição de longa metragem. Não sabia. Nem sequer sabia que o valor não é unânime. No Brasil a obra tem de ter pelo menos 70 minutos; nos EUA os valores diferem consoante os organismos - Academy of Motion Picture Arts and Sciences e American Film Institute referem 40 minutos de mínimo; a Screan Actors Guild duplica o número! O British Film Institute ,na Inglaterra, segue a regra dos 40 minutos como mínimo. Já em França quem dita a norma é o Centre national du cinéma et de l'image animée e para eles uma longa metragem tem de ter um mínimo de 58 minutos e 29 segundos (o equivalente a uma bobine de filme de 35mm standard, 1600 metros.) E o trivia fica por aqui. Para 2016 mantenho a resolução de ler mais e ver menos cinema. Vamos ver.

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