12/30/16

Um Bom Ano


O Cartão de cidadão


Depois de ter sido enxovalhada várias vezes por ter o meu Bilhete de Identidade caducado há muito tempo, muito mesmo, decidi-me a resolver o assunto no pior dia possível, ontem, esquecida de que a tolerância da véspera e o período de férias de Natal ditariam uma avalanche de gente aos serviços. Na Conservatória, onde cheguei bem antes das 14 horas, dirigi-me à máquina de onde saquei um 83. No monitor percebi que estavam a tratar do 41. Saí para um café e uma nesga de sol que o edifício do Tribunal não deixa chegar àquele recanto mas quando voltei o contador mal tinha somado mudanças. Acomodei-me num banco na esperança de desistências em cadeia. Impunha-se matar o tempo. Tinha levado um livro na mochila mas esquecido os óculos. A maioria dedilhava smartphones, é um desporto que não pratico. Resignei-me e entretive-me a contar macacos porque ovelhas podiam fazer-me adormecer e lá deixava eu passar a minha vez. Foi com mágoa que finalmente me sentei na mesa e conferi os meus dados. Respirei fundo e mentalizei –me: então era ali o momento em que tinha de dizer adeus ao meu Bilhete de Identidade. Fiquei até contente por mo terem devolvido com dois furos. Já guardei no arcão da memorabilia. O meu BI foi um grande companheiro de viagem e a fotografia a cores da loira sorridente era sempre muito elogiada em rodadas de copos entre amigos, a prova de que qualquer mulher pode ser camaleónica mesmo sem ser a Madonna. Foram muitos anos a conferir-me alguma personalidade. Isso acabou. Agora tenho um CC: um coiso multifuncional em formato de smart card e com chip integrado. Cinco números em Um! Wow! É o progresso, estúpida. Porque tens sempre de estar a rezingar com tudo? Será que não vês que é só vantagens? Sim, vantagens e letras e números miúdos. Devia trazer uma lupa integrada também. Mas o pior, o pior mesmo, é, 1º, terem-nos retirado a liberdade de sorrir abertamente e mostrar os dentes; 2º, terem cancelado a cor das fotografias minúsculas. Tornaram-nos um exército de cidadãos sérios e uniformizados em tons de cinza, não sei se 50 ou menos, uma sombra do que somos. Nunca conheci ninguém que possuísse um Cartão de Cidadão com uma fotografia decente. Chegue-se à frente o primeiro. Não sei se é devido ao tempo de espera. É difícil mostrar boa cara quando se tem 40 pessoas à nossa frente e se enfrenta por fim a máquina de revelar almas. Também não tem a ver com a idade, não, não pensem que os novos escapam a este aziago desenlace: o meu sobrinho é um jovem e a máquina transformou-o num membro de um gang de bairro. A minha irmã ganhou o aspecto de uma gestora de casino ilegal, já o meu pai assumiu a face de um internado em alguma prisão de alta segurança. Eu, que tinha esperança de conseguir brilhar, já me conformei com a boca de esguelha, os olhos à camaleão, um para cada lado, a cabeça enterrada entre os ombros e o cabelo – porque desisti da ida ao cabeleireiro para a ocasião, ademais, não teria feito diferença, - uma ponta para norte outra para sul. É o retrato sério de uma pessoa com distúrbios mentais. Se por acaso algum dia desaparecer de casa sem explicação esta foto acabará talvez publicada nos media e demais orgãos de comunicação – “over my dead body” - e não deixará dúvidas: olhai lá mais uma despenteada mental cruzada de maluca e com tiques de psico-louca cujo paradeiro se deconhece. Os vizinhos dizem que apesar de tudo é inofensiva, não se deixem levar pelo ar endoidado e expressão vazia, por favor informem o Correio da Manhã se lhe botarem os olhos, a mulher deixou 150 gatos num TêZero a miar de preocupação. Um grupo de amigos dos animais abriu entretanto uma página no Facebook e uma subscrição para os alimentar. Façam Like. E foi para isto que esperei duas horas na Conservatória do Registo Civil. RIP Bilhete de Identidade #Fuck2016

Parque jurássico




Esta semana decidi retomar as minhas caminhadas como se não soubesse que nada irá impedir as danadas das calorias de fazerem um autêntico réveillon à volta da minha cintura durante a última semana do ano. Pensando no festim até promovi o passo rápido a corrida lenta. Troquei a estrada rente ao azul do mar pelo caminho verde do parque porque o verde é sinónimo de esperança, esperança de que uma pessoa consiga evoluir no terreno sem lhe saírem os pulmões pela boca ou lhe caírem as panturrilhas ao chão. Comecei por fazer os tradicionais alongamentos, bebi água, pluguei-me num som do telemóvel. O plano não estava a correr mal. A manhã desfolhava-se ao sol e eu ganhava terreno. Um homem apontava em pose de Storm-Trooper uma ruidosa máquina de soprar às folhas secas que o desafiavam em volteios no ar à sua frente. Uma mulher ajuntava as insolentes para dentro de sacos pretos. Suspendi a respiração para atravessar este intervalo de ar outonal perfumado a fumos de gasóleo emanados do motor do soprador de folhas. Para trás de mim tinha ficado lixo espalhado à volta de um contentor e pássaros a banquetearem-se nos restos aromáticos. Sentia que o meu coração poderia estourar a qualquer instante enquanto me focava no controlo da respiração repetindo, como se de um mantra poderoso se tratasse, que correr era bom, bom, era mesmo bom, era isso e cinema, vinho e sexo, era, era bom de morrer por mais.Tudo corria bem, quase se podia dizer que tudo corria sobre rodas. Ali estava eu a trucidar calorias como se o mundo não fosse acabar amanhã e ainda houvesse muito mundo para gastar e troco para receber. Foi depois de ter atravessado a estrada que avistei na relva o que me pareceram dejectos de ave. Só podia ser isso: caca de passarinho. Cocó de passarinho é facilmente identificável. É uma matéria sobre a qual tive de me debruçar quando o meu canário adoeceu há um anito atrás. As aves não fazem xixi, não possuem bexiga, sai tudo pela cloaca e as impurezas são transformadas em ácido úrico e surgem nas fezes como uma pasta branca muito característica. Caca de passarinho na relva do parque, pois, mas não de um passarinho qualquer, um vorompatras, um Man Friday! (Enquanto observava a relva eu continuava a correr, sem sair do lugar, como faço quando os semáforos estão vermelhos e não posso avançar, bem vistas as coisas, aquela visão era de parar o trânsito.) Os vorompatras não sabem voar, mas sabem correr. Medi as alturas a uma palmeira tal como na história de H. G. Wells, Butcher, o coleccionador de ovos de Aepyornis, terá feito. Era evidente que correr pela vida, na triste eventualidade de ser perseguida por um vorompatras, não me levaria a lado algum. Butcher, surpreendido por um milagre numa das suas expedições, um ovo chocado mercê de conjugações extraordinárias, acabaria a partilhar a sua vida numa ilha deserta com um desses vorompatras, o equivalente do Wilson para o Chuck Noland, do filme Náufeago, mas com imensas penas e três metros de altura. Baptizado de Man Friday, em homenagem ao célebre personagem do livro do Daniel Defoe, o pássaro revelou-se um companheirão. Mas o pássaro Homem Sexta-Feira cresceu em tamanho e feitio, e, aos três metros, todos os dias de Butcher passaram a ser Sexta-feira 13. Perscrutei o parque verde até aos seus limites. Não se avistava nenhuma criatura extinta mas também podia estar dissimulada entre o arvoredo, facilmente confundiria as suas pernas com duas árvores. Apreensiva mas não tanto que não tivesse conseguido tirar esta fotografia para vos mostrar a prova do segredo mais bem guardado de Portugal- temos, na Figueira da Foz, um Parque Jurássico, -afastei-me em vertiginoso sprint para longe do guano branco com receio de acabar os meus dias ingloriamente confundida com uma minhoca. O que a gente afinal precisa para voar é tão só de uma motivação extra.


O Natal está fraco

O meu Natal está mesmo fraco. Não tenho cheta para comprar presentes nem futuros. Os passados estão em saldo mas os descontos não são interessantes. Estou ainda sem árvore. Não me decido. Fiz um download de um estudo de 200 páginas sobre o impacto ecológico da compra de um pinheiro natural versus o de cloreto de polivinila. Vou na página 10. E ainda nem toquei no bolo-rei. A etiqueta na embalagem tem uma lista de corantes e conservantes maior que a minha agenda de contactos telefónicos. Pensei até que fosse a receita, mas não. Trouxe antes uma broa de milho. A cadela mascou-me um post-it onde tinha anotado as boas acções para o mês de Dezembro. Andei aturadamente a tomar notas o ano inteiro para não me esquecer. Agora não sei se consigo refazer a lista assim do pé para a mão. Já ninguém escreve cartões de Natal, nem mesmo eu que até os desenho para vender, perceba-se agora porque estou sem cheta. Troquei o “Do céu caíu uma estrela” pelo “Deadpool”, o “Last Christmas” pelo “Cheap Thrills”. Hoje pela manhã, o sr. da Chronopost foi o primeiro a desejar-me um Feliz Natal este ano. “A sério?, perguntei, Política da empresa, respondeu ele. A encomenda era um livro ilustrado: Kinder-und Hausmärchen. Numa nota apressada na folha de guarda lê-se: “Frohe Weihnachten! Porque sempre me lembro o quanto gostas de bonecos”. A Zita, uma ex-amiga de longa data a viver em Wuppertal desde que me esqueci dela, não se lembrou que não sei uma palavra de alemão.Também se esqueceu que fui eu quem lhe deu este livro quando a filha fez anos. Comprei-lho de um alemão de Bremen, em 2ª mão, no Ebay, porque reciclar é viver. Ontem fui à praia e estava uma tarde sublime: morna, morninha. Dizem que o frio aproxima as pessoas mas já nem o frio quer colaborar com o espírito natalício. Está mesmo fraco, o meu Natal.

(7 de Dezembro)

9/29/16

Status do dia: em maré de azar


Um céu tão azul como o mar, um sol tão dourado como a areia, uma brisa morna. Toca a aproveitar que isto já são os saldos do verão, os minutos finais do prolongamento. Pelos meus cálculos ia estar um dia de praia à maneira. À chegada topei com um insólito. Um homem tisnado aprontava-se para jogar golfe no areal. Em tronco nú e calças caqui, de cócoras, segurava o taco numa mão e com a outra remexia a areia onde havia pelo menos uma dúzia de bolas. Indo pela passadeira fora, ultrapassei-o, disfarçando a perplexidade. Só com vergonha é que não tirei uma foto para não dizerem que eu invento estas coisas. O medo coibiu-me. E se ele vinha atrás de mim com o Sandwedge? A gente nunca sabe! Uns metros adiante olhei para trás e já todo ele era swing. 
A passadeira de madeira leva-nos da marginal até metade do percurso até ao mar. Subitamente termina. Ontem o vento soprou fortemente e varreu o areal de forma impecável deixando-o liso como papel. Inscritos na superfície da areia, dali seguiam alguns rastos de pessoas. É como uma prancha dos navio por onde faziam os marinheiros prevaricadores caminhar para a morte. Ainda ninguém morreu por se atirar aos restantes metros de areia sem a ajuda daquela muleta mas a pressa com que retiram as passadeiras móveis diz tudo da forma como se encara a época balnear à boca do Mondego.
 

Na praia gosto de manter as coisas simples. Não dou voltas salgadas à procura do sítio ideal para estender a toalha, e, em especial quando a praia é quase toda minha, eu sigo em linha recta e se ninguém tiver ocupado o chão, ali, naquele ponto o mais pertinho da água que for possível, faço daquele metro e meio o meu divã sem hesitar. O mar de Setembro tem estado algo bruto e já cavou um desnível significativo na areia. Aí sentados temos até a impressão de estar num primeiro balcão de uma sala de espectáculos. O filme estava a agradar mas acabei por me espreguiçar na toalha e já estava assim há um bom pedaço de moleza quando uma onda mais atrevida galgou por ali fora e me veio dar um toque. Cutucar, como dizem no Brasil. A maré estava a encher mas confiei. Pelos meus cáculos nem de tarde ela chegaria ali mas de repente fui rodeada por água fresca e borbulhante! Apenas tive tempo de num gesto rápido atirar o saco para longe. Levantei-me num salto. Ali estavam os óculos, além o protector solar, uma sandália para cada lado e a toalha completamente encharcada. As minhas mamas também tinham saltado para fora do bikini cai-cai. À minha volta as pessoas riam-se e lá ao fundo vislumbrei outra vítima de similar imprevisto. Ri-me também. E comecei a torcer a toalha que pesava no mínimo 5 quilos. Força de braços não é o meu forte e teria ficado grata a algum dos cavalheiros presentes por uma mão. Só que no presente século os homens tomaram consciência de que ser cavalheiro é ser machista e então nenhum se chega à frente. Ó amores! Sou sexo fraco, fracote, fraquíssimo até, se isso ajudar a que alguém me venha ajudar a espremer a toalha, sim? Pouco cavalheiros e nada gentis, eu torcia, torcia enquanto via os mais prevenidos pegaram nas suas tralhas balneares e mudarem-se para alguns metros acima. 


Depois de ter transformado o areal na "aldeia da roupa branca", impedida de me voltar a deitar na toalha molhada que, pelos meus cálculos, estava agora bem afastada do mar, encaminhei-me para a orla inclinada. De lá vinha uma senhora queixosa que tinha sido atirada ao chão pela ondaça maluca e que também se apressou a transplantar o guarda-sol para zona segura. Mergulhámos na conversa, duas estranhas à beira do mar, o sol a aquecer-nos as costas e as ondas a fazerem tropelias a nossos pés. Não falámos daquele video do homem chinês que foi atingido duas vezes por um raio no mesmo dia e que sobreviveu mas isso passou-me pela cabeça já não sei em que momento da manhã. E a razão de tal lembrança foi apenas porque esta façanha do mar que vos acabo de contar se repetiu de novo e com mais água. Desta vez as minhas maminhas não galgaram para fora do bikini cai-cai e a D. Fernanda veio ajudar-me a torcer a toalha que estava longe de mim quando vi a onda ladina a correr pelo areal acima. A vossa Hilda lançou-se que nem um Bolt na direcção dela mas em vão. A água avançou e desapareceu sob os meus pés. E se da primeira vez esta gracinha da Natureza até tinha dado vontade de rir desta outra nem por isso. Actualização de status para o dia de hoje no Facebook: “em maré de azar”. 

Porque era hora do almoço o estômago pedia reforço e não havia forma da roupa enxugar rapidamente. Em desespero espalmei a tshirt em cima do guarda-sol da D. Fernanda: pelos meus cálculos sempre ficava mais perto do sol, talvez a evaporação fosse assim mais rápida. Ao contacto com o algodão imaginei a minha pele envolvida por um burkini molhado. Bah! Se há excesso de água na roupa e se a roupa não está na água isso só pode ter um nome: acidente. Com a minha cabeça a passear por culturas exóticas veio-me felizmente à ideia a loja chinesa em frente à praia. Passaria por lá e compraria uma tshirt bem sequinha feita com mão de obra escrava algures em Guangdong. Pelos meus cálculos tinha dinheiro para isso. Na praia eu mantenho as coisas simples: algumas moedas para uma emergência, não mais. Na marginal despedi-me da D. Fernanda e transformei-me numa relutante Miss Tshirt Molhada Figueira da Foz. Atravessei o jardim apressadamente e entrei na loja chinesa. Atrás do balcão encontrei o dono a quem expliquei a minha necessidade e o meu problema: queria comprar uma tshirt mas só tinha 2.50 euros. “Não tem”,”Não tem”, repetia ele. “Esta está encharcada. Fui apanhada por uma onda.” Ele olhou para mim desconfiado. Estes chineses são tão complicados! Mas, de facto, ver para crer não se aplicava aqui. O diabo da tshirt não aparentava estar molhada! “Não tem”, “Não tem”. Não tem? Não tem nada balato senhole? Não acledito! Amanhã eu venho cá pagale o que falta. Não posso ile assim pla casa. “Pode ser.” Pode ser! Estes chineses são um amor. E lá fui buscar uma tshirt aos cabides. Corri para o vestiário mais contente do que se estivesse numa loja Prada. O meu saco era um peso de algodão e turco molhados e salpicados de areia. Quando virei o porta-moedas sobre o balcão de vidro, água e moedas de vários tamanhos e cores espalharam-se ali de forma marota. O homem passou-lhe um pano devagar enquanto me olhava de forma grave. Pelos meus cálculos não acreditou numa palavra da minha história.

4/29/16

Cães com trela na via pública, por favor



Uma notícia desta semana dava conta da sentença proferida no caso do Simba, o cão de raça leão-da-rodésia que foi abatido a tiro por um indivíduo em Monsanto, o ano passado. O cão pertencia a um casal, tinha sido prenda do marido à esposa, por ocasião de um aniversário. Tinha 5 anos quando foi abatido na propriedade ao lado da quinta deles, arrastou-se ferido até aos pés da mulher e acabou por morrer. O homem escreveu, por essa altura, no Facebook: "Indagado por mim num estado de perfeito nervosismo, o autor do disparo, que diz ter sido de aviso...para o ar, negou...negou tudo, negou ter morto o meu cão, negou ser um assassino, negou ser cruel, negou não possuir uma réstia de amor pela vida animal, respeito pela vida dos outros, respeito pela minha mulher que minutos antes o cumprimentara ao chegar a quinta enquanto este podava uma parreiras, na presença da GNR, ontem e hoje, tudo negou." Outro excerto: "Ontem perdi o meu melhor amigo nesta vida, perdi um vizinho que ate permitia que me tirasse água de um poço e que por duas vezes o esvaziou porque se esquecia da rega ligada, perdi parte da minha mulher que não consigo consolar, perdi a minha fé no homem, ganhei um novo folego como crente em Deus porque só Ele me apertou e tranquilizou ontem enquanto soluçava a enterrar o meu cão rodeado dos meus cavalos que lhe vieram prestar uma ultima homenagem e do meu irmão também ele destroçado por ver o seu caçula em tamanha aflição."

O autor dos disparos foi condenado a 240 dias de multa a oito euros por dia (1920 euros) pelo Tribunal de Idanha-a-Nova. Também a pagar uma indemnização de quatro mil euros por danos patrimoniais e não patrimoniais, decorrente de um processo cível. Foi ainda condenado a uma pena acessória de um ano de interdição de uso e porte de arma. Já o dono do cão, foi condenado por cinco crimes de injúria e um de ameaças e terá de pagar 1500 euros de indemnização à outra parte e 2100 euros de multa. No final o juiz deu um sermão ao dono do cão por não considerar exemplar o mediatismo que este caso alcançou nas redes sociais e porque o homem tinha descurado a vigilância do cão, deixando-o à solta. Ao autor dos disparos, nada disse. Note-se que a norma é que o juiz se dirija à parte considerada culpada.

Perante esta notícia,  deixa ir colar um post-it no frigorífico a ver se não me esqueço. Se alguém fizer mal à Luna, (a nossa Canis lupus familiaris) qualquer um de nós, que a acolhemos, temos de nunca perder a compostura, ser polidos, usar de toda a cortesia  e gentileza para com o malfeitor, tratá-lo nas palminhas, ou ainda incorremos em crimes, multas e agravos vários. E depois de termos visto reconhecida a culpa do agressor em Tribunal ainda temos de aturar o todo poderoso do juiz a dar-nos nas orelhas, lá porque não tem simpatia pelas redes sociais - é, quiçá, um analfabeto digital ou tem fobia a computadores ou acha que isso das redes é divertimento da plebe - ou pelos julgamentos feitos pela opinião pública, como se isso fosse capaz de afectar o seu mister.

Mas já agora, e a propósito do facto deste dono ter deixado o cão à solta (segundo o relato do juiz) , - o que não desculpa quaisquer maltratos - aproveito para contar que os últimos três dias têm sido muito aborrecidos porque alguém deixa dois cães à solta e eles vêm para a nossa vizinhança, que tem parque. Às 7.30 h da matina, hora em que a Luna deve ir à relva, os bichos aparecem vindos sei lá eu de onde e correm que nem doidos para nós. Parecem querer brincadeira e são amistosos connosco, mas o maior, (Airedale Terrier) no primeiro dia tentou acercar-se do pescoço da Luna e no segundo abocanhou mesmo, com facilidade, pois é mais alto, tivemos de lhe limpar a saliva do pelo. 

Das duas vezes o passeio teve de ser adiado pois os cães não saiam da porta do prédio. Existem mais cães nas redondezas e quando acontecem estes encontros todos ladram. Estão a imaginar a cara dos vizinhos quando nos cruzamos com eles no elevador? Eu digo-vos como ela é: é a cara que eu teria se estivesse deitada a tentar aproveitar os últimos minutos de sono e acordasse com tamanho chinfrim canino. Isto para dizer que donos há que se fazem esquecidos das responsabilidades inerentes ao facto de terem um cão. Ficam em casa no bem bom, de pijama e robe, abrem a porta para os cães irem defecar na rua pela manhã, alguém que junte o lixo deles, porque daí o dono lava as mãos, ele é mais fotos com o cão no Facebook. Este dono também parece ignorar que está a colocar os seus animais em perigo. Estará ele assim tão certo de que os cães não comam porcarias? Ou que não causem um acidente ao atravessar-se à frente de um automóvel? Que não fiquem eles feridos no processo? Ou que não fujam das imediações atrás de uma cadela com o cio? Ou que não sejam roubados? Ou que não sejam perseguidos por cães territoriais?(O que já aconteceu com estes). Ou que não invadam propriedade privada? Ou que não derrubem uma criança ainda que por brincadeira? 

O dono, (ou dona) seja ele quem for, diria certamente sobre este episódio que eles não fazem mal, que só querem brincar. É sempre o que me dizem quando eu saio com a cadela pela trela e algum cão solto se vem meter com ela. Mas em dois tempos o bicho rosna, ela ladra, eu repreendo, o outro investe, eu invisto contra o cão e contra o dono, que nem sequer apressa o passo para se nos juntar! E depois o pascácio diz que está tudo bem, que o cão não morde, que só quer brincar, que não percebe porque há-de usar a trela, que ele só quer brincar...e no entretanto nem sequer chama o animal de volta, eu que me desenrasque a pacificar o animal dele!

NÃO PODE SER. A brincadeira não diverte ninguém. Em resumo: é pura falta de bom senso e de noções de convivência social, é também não perceber as necessidades dos próprios animais, pois trata-se da sua segurança também. 

A lei é de 2003 e diz que na via pública todo o cão deve andar na trela. Que eu saiba ainda está em vigor. Pequeno ou grande, de raça ou rafeiro, perigoso, semi-perigoso, potencialmente perigoso, nada perigoso, o que for, é NA TRELA. Hoje os dois cães não apareceram mas fizeram-nos levantar ainda mais cedo. Vamos a ver amanhã.

Para reter: respeite o seu cão, respeite os cães dos outros e respeite as pessoas em geral. Lembre-se que nem toda a gente gosta de cães, por mais amistosos que eles sejam, pessoas há que têm pavor deles. Coloque-se no lugar delas e avalie se é uma boa experiência ser assaltado na rua pelo seu enérgico e felpudo amigo de quatro patas, aos saltos e a ladrar constantemente!

Obrigatoriedade por lei – O Decreto-Lei nº 314/2003 de 17 de Dezembro (Artigo 7) 

Actualização: 

Ontem, Sábado, os cães voltaram a aparecer! Então escrevemos um bilhete a pedir aos donos que não soltassem os animais e prendemos o bilhete na coleira do cão maior, que afinal é uma cadela, daí não se ter dado bem com a Luna. O par é meigo com as pessoas e formam um conjunto muito patusco. Estão bem tratados e bem educados. Fornecemos contacto mas não houve. Hoje, Domingo, correu tudo bem, os cães não apareceram. Anteontem também encontramos a pequena crosta que se formou no lugar do golpe que os dentes da cadela fizeram no pescoço da Luna. É uma coisa de nada. Mas o que teria acontecido se não as tivéssemos conseguido separar? Amanhã veremos como corre. Durante a semana a preocupação é maior porque se tem de entrar a horas no serviço e se a cadela não pode ir cedo já não vai à relva senão no regresso...Como podem ver facilitar nesta questão de deixar os cães à solta, mesmo se eles são amistosos, é bastante aborrecido.


3/30/16

Como fazer massa para pizza de forma rápida?



Hoje vou directa ao assunto. Ou talvez não. As pizzas entraram há muito na alimentação corrente e são coisa favorita entre os mais jovens. O meu sobrinho adora. Considera-se um especialista, tem opinião feita sobre o assunto e é difícil arranjar argumentos para o contrariar sobre o mérito da massa não sei quantas da Pizza Hut, a massa dourada, a massa alta e fofa, a massa fina e estaladiça, o queijo assim, o queijo assado. Eu fui algumas vezes à Pizza Hut com ele mas nunca achei que a pizza da Pizza Hut fosse a suprema delícia. Ironicamente, a pior pizza que jamais comi... comi-a em Itália, justamente na suposta nação berço da pizza! Digo supostamente porque a pizza não apareceu por geração espontânea em Itália: pensem nos pães árabes actuais e já conseguem conseguem fazer uma ideia. A sua história vem de longe, começou talvez quando os Egípcios inventaram o forno de cozer pão e o fermento; a receita foi-se aprimorando e viajando pelo mundo, desde o Extremo Oriente até Nápoles, onde  acaba por alcançar o formato que lhe deu a fama. O proveito, esse, é do mundo inteiro pois a pizza é dos pratos rápidos mais conhecidos, muito tendo contribuido a emigração italiana para esse resultado.

A pizza era inicialmente um alimento de pessoas humildes, a "picea" - a  palavra “pizza” vem do grego “picea”, pinheiro usado para aquecer fornos  - era um disco de massa  assada com ingredientes baratos por cima, ervas, alho e azeite, e vendida por vendedores ambulantes. Nesta altura a pizza era comida fechada, dobrada ao meio, em "calzone". Hoje também podemos comer a pizza neste formato em algumas pizzarias, também chamada pizza recheada.

A pizza Margherita tem na origem do nome uma história curiosa. Em 1889 dom Raffaele Espósito, um padeiro ao serviço do rei Umberto I e da rainha Margherita, decidiu homenagear a rainha e  inventou uma pizza com as cores da bandeira italiana -  branco, vermelho e verde. Para isso ele utilizou queijo mozzarela, tomate - trazido pelos conquistadores espanhóis da America para a Europa - e manjericão, produtos que ostentam aquelas cores. A pizza agradou tanto à raínha que acabou por receber o seu nome em homenagem. Não sei se é verdade ou não, mas é engraçado e fica sempre bem saber para contarem quando estiverem a trincar um Margherita com os amigos! E se forem a Nápoles, sempre podem espreitar a Antica Pizzeria Port’Alba,  fundada em 1830,  que se diz ser a mais antiga ainda em funcionamento. 

Diferentemente do meu sobrinho eu não cresci a comer pizzas. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que comi pizza porque isso foi um acontecimento. Eram os anos 80, frequentava o Liceu, já não recordo em que ano, e tinha uma amiga cujos pais tinham estado emigrados na Alemanha. A mãe fazia pizza em casa com frequência e quando ela soube que eu era uma "analfapizza", fui de imediato convidada para um almoço. Quando passei a porta da entrada o cheiro característico já tinha tomado conta da casa. A pizza chegou à mesa num tabuleiro quadrado e para acompanhar havia uma saladeira redonda cheia de alface e cebola fatiada. Eu gostei daquilo mas não voltei a comer pizza tão cedo. Uns cinco anos depois começaram a abrir pizzarias por todo o lado.Nunca foi um dos meus pratos favoritos mas não digo que não a uma boa fatia de vez em quando! Eis como preparo a pizza em casa. É muito simples e rápido. Não é preciso comprar massas congeladas.

Receita da massa de pizza para uma base de 30 cm

280 gr de farinha de trigo sem fermento
100 ml de água morna (cerca de meio copo)
7 gr de fermento Royal (eu meto uma colher de chá cheia)
meia colher de chá de sal fino
2 colheres de sopa de azeite

Pré-aquecer o forno a 200º
Deitar todos os ingredientes numa tigela. Misturar com colher até os ingredientes se unirem. Depois amassar à mão em cima da bancada. Este processo demora apenas uns minutos, não sei dizer quantos. A massa fica uniforme e macia.
Formar uma bola com a massa. Untar o tabuleiro/bandeja de levar ao forno com azeite e esticar a massa a partir da bola colocada no centro. Eu começo por usar as mãos para a esticar e depois termino com o rolo. Colocar no forno a 200º durante 5 minutos. Retirar. Untar levemente com azeite e colocar o recheio da vossa preferência.

O recheio

Deitar polpa de tomate e espalhar de forma a cobrir a base da pizza. Polvilhar com oregãos e alho em pó. Juntar os cogumelos laminados bem escorridos, as metades de tomate  cherry e azeitona preta. Polvilhar com queijo ralado e colocar por cima as rodelas de salame. Vai ao forno a 180º-200º durante 15-20  minutos, o tempo depende de vários factores, é melhor ir espreitando para controlar se o queijo já derreteu e se a massa está dourada nas bordas.

N. B. Esta pizza foi aprovada pelo sobrinho!






3/29/16

A elegância do comportamento

Lautrec reine de joie (poster) 1892

A elegância do comportamento - Adaptado de Toulouse-Lautrec por Carlos Augusto Roveri*

Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento. É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples 'obrigado' diante de uma gentileza.

É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto. É uma elegância desobrigada.

É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas, por exemplo. Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros.

É possível detectá-la em pessoas pontuais.

Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.

Oferecer flores é sempre elegante. É elegante não ficar espaçoso demais.

É elegante você fazer algo por alguém, e este alguém jamais saber o que você teve que se arrebentar para o fazer… porém, é elegante reconhecer o esforço, a amizade e as qualidades dos outros.

É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro.

É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.

É elegante retribuir carinho e solidariedade.

É elegante o silêncio, diante de uma rejeição…

Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto.

Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante. É elegante a gentileza.

Atitudes gentis falam mais que mil imagens… Abrir a porta para alguém é muito elegante…
Dar o lugar para alguém sentar… é muito elegante…
Sorrir, sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma…
Oferecer ajuda… é muito elegante…
Olhar nos olhos, ao conversar é essencialmente elegante…

Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pela observação, mas tentar imitá-la é improdutivo. A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: se os amigos não
merecem uma certa cordialidade, os desafetos é que não irão desfrutá-la.


Carlos Augusto Roveri é Administrador de Empresas pela FAAP (1977).

Adaptação de trecho do livro "Educação Enferruja por Falta de Uso" do pintor pós-impressionista francês Toulouse-Lautrec (1864-1901).


DIY - Varão de guarda-fatos


Há umas semanas o varão do meu guarda-fatos caíu arrastando consigo as vestimentas todas. O sol ainda não tinha nascido quando ouvi o barulho sem perceber bem do que se tratava, embalada que estava na sonolência. Só quando necessitei de um trapo e abri as portas do dito é que descobri a avaria. O varão tinha cedido pelo meio, e era compreensível pois tratava-se de um mero tubo metálico, relativamente fino. Cedeu ao peso das peças do inverno, que obedecem a um ritual semelhante ao da mudança da hora. No início do inverno acomodam-se ali, no recuo do inverno desaparecem e dão lugar às maravilhas diáfanas e leves que o clima temperado nos permite. Para terem a ideia da fragilidade do varão, eu, que não consigo nem partir um palito sem suar, ainda me dei ao trabalho de o forçar à forma original, vitoriosa, pensando que se aguentaria, ingénua. Depois e com muito jeitinho voltei a colocar as peças de roupa no lugar, tão cientificamente distribuidas quanto possível, fazendo cálculos de cabeça, medindo intervalos entre cabides e pesando cada uma a olho, de forma a repartir o esforço equitativamente. Quando terminei fechei as portas do guarda-fatos, toda contente comigo, pensando que era esperta. Nem cheguei a alcançar a porta do quarto. O mesmo ruído abafado que ouvira de madrugada, repetia-se. Arremessei para o ar uma mão cheia de asneiras em crescendo. Nada a fazer. Tinha de substituir o varão.

Parece coisa pouca mas este pequeno drama  rapidamente se transforma num dramalhão, se deixarmos. Se eu quiser quem faça desentupimento de canos é só tirar um cartão do monte que me deixam na caixa do correio, aparece logo um tipo todo artilhado que até tem equipamento para filmar interiores de tubagem! Se eu quiser alguém para limpar a chaminé, idem. Reparações de toda a ordem com orçamentos grátis é só ligar, mas depois cobram mais pela deslocação do que pelos dez minutos que demora a substituir um interruptor! A regra é esta: se eu quiser alguém para apagar um fogo que se veja, esse alguém existe, por regra até está disponível 24 horas; mas se eu quiser quem me ajude a apagar um fósforo, esse alguém não existe. Coisas que sejam menos do que um biscate, coisas que esat gente acha que cabem no departamento da bricolage também não são bem recebidas. Mas então a senhora está-me a ligar para eu lhe ir mudar uma lâmpada no tecto falso?! Olhe, podia voltar a ligar para a semana? É que eu agora estou aqui a  instalar um comando de iluminação por detecção de movimento, sabe? E depois já sei que me vou esquecer, sabe como é. Sei. Sei como é. Mas a verdade é que não faz bricolage quem quer, faz quem pode. E por aqui, no fundo de uma gaveta emperrada ainda se esgravatam uns pregos e buchas, uns parafusos e porcas, uns martelos e uns alicates de vários modelos, mas pouco mais do que isso.

É nestas alturas que a gente se arrepende de não usar os encontros imediatos no elevador para conhecer melhor os vizinhos. Existiria alguém hábil e solícito q.b. no rol de condóminos que pudesse resolver-me o berbicacho? Fiz uma recapitulação rápida daquilo que sei acerca dos meus vizinhos e cheguei a uma edificante conclusão: só sei que nada sei. Mas não me cheira a que por aqui viva gente com jeito de mãos, a não ser para fumar cigarros, carregar compras, lavar o automóvel ou despejar o lixo.

Como se impõe nos tempos modernos fui então bater à porta do Google. Procurava casas de decoração ou marcenarias que pudessem cortar um varão de madeira à medida ou então empresas de caixilharia de alumínio, qualquer coisa que ficasse num raio confortável, que me permitisse ir buscar o maldito varão. Identificadas algumas casas enviei os respectivos emails pois não tinha tempo para estar a telefonar e a falar com cada uma. E então acontece fenómeno que sempre me deixa sempre perplexa. As empresas têm um site na internet com design mais ou menos actual, procuro o campo para contacto e encontro facilmente. E aí faço o envio do meu pedido desesperado e aguardo. Aguardo, aguardo e aguardo.

Eu já sabia, eu já sabia. Assim que desliguei o computador eu já sabia que no meu regresso não haveria nada para ler ali. E por isso, ao fim da tarde, por entre deambulações várias, ocorreu-me uma ideia luminosa: um varão telescópico improvisado a partir de um daqueles cabos que se usam para vassouras e outros resolveria o transe!  Fui a um supermercado e não havia. Então fui à loja dos chineses e eles lá estavam. Em menos de 10 minutos a situação estava resolvida. Paguei 1, 35 euros pelo cabo telescópico. Cheguei a casa, retirei as roupas a monte e instalei o cabo à medida. Do lado mais fino servia perfeitamente no suporte, do outro lado tive de apertar o tubo metálico com um alicate, coisa pouca. Feito. Distribuí as roupas alegremente e dei o caso por encerrado. E foi assim que apaguei o fósforo. Aqui fica o relato pois pode ajudar alguém a dar boa conta do recado. É fácil, é barato e não custa milhões.

Ah. Só para que fique claro nem nesse dia nem no seguinte obtive qualquer resposta das empresas que contactei. Já estão na minha lista negra e por isso não lhes vou fazer publicidade, nem mesmo negativa.

3/28/16

Pinga


Pessoa querida quer oferecer-me uma garrafa de vinho mas não sabe distinguir Trincadeira de trinca-espinhas ou Borrado das Moscas de borrado de pulgas. Então resolve de forma bonita: como eu gosto de desenhar escolhe uma garrafa com muitos rabiscos no rótulo. Eu também só sei que com o passar dos vinhos, os anos ficam melhores.

A guerra na Síria explicada em 10 minutos



Com legendas disponíveis em várias línguas. Link.



Bolinhos de feijão-preto au chocolat


Posso saber o que os meus amigos estão a fazer para assinalar o Ano Internacional das Leguminosas? O quê? Nada? Ah, não sabiam? Eu também não sabia se não fosse a promoção do super destinada a lembrar os mais aéreos desta efeméride: na compra de duas latas de qualquer tipo de feijão ofereciam uma caixita de carbo activatus. Assim já posso comemorar sem receios!

Bolinhos! Ei-los acabados de sair do forno: Queques de feijão-preto au chocolat. Com vossa licença, vou-me a eles. Ah, o quê? A receita? Mas acaso pensam que isto aqui é O livro de Pantagruel? Não é, não é. Mas está bem eu digo como se fazem os bolinhos. Como sempre já não sei de onde tirei a receita. Passo as notas da internet para um post-it e depois os papelitos acumulam-se na banca da cozinha presos por uma mola da roupa! Ando há semanas para passar as notas para um caderninho, mas nada. 

Esta aventura começou por correr mal. Pensava eu que tinha uma tabelete de chocolate Pantagruel na despensa, mas quando lá fui só havia um saquinho de chocolate em pó. Foi o que utilizei e parece que deu para safar. 

Já agora, deixem-me enchocolatar mais esta prosa. Sabiam que a marca de chocolate culinário  Pantagruel foi criada pela empresa Imperial em 1982? Pensava que fosse bem mais antiga, do tempo d' O Livro de Pantagruel que foi lançado originalmente em 1945 pela Editorial O Século. O Livro de Pantagruel resulta da recolha de receitas de Bertha Rosa Limpo.  Bertha, nascida em Moçambique, foi uma mulher que estudou música, que viajou pela Europa e que até lançou uma linha de cosméticos. Esta cantora lírica dos anos 30 e senhora da alta sociedade lisboeta, que não sabia estrelar um ovo quando se casou, foi a autora deste fenómeno de vendas, o manual de cozinha mais popular do séc. XX português. Parece que durante as suas tournées era forçada a ir a restaurantes e se gostava do que lhe era servido, pedia e guardava as receitas. Talvez fosse assim ou elas lhe tivessem sido passadas por amigas e familiares. O certo é que se foram acumulando. Mais tarde esse conjunto de receitas terá dado origem ao mais famoso livro gastronómico português. Vejam que já vai na 73ª edição, agora conta com a colaboração dos filhos de Bertha, Maria Manuela Limpo Caetano e Jorge Brum do Canto. As 5000 receitas foram testadíssimas antes de passarem ao papel. Posteriormente a essa colaboração com a mãe, Maria Manuela, com a ajuda dos seus filhos Maria e Nuno Caetano, lançou um novo livro gastronómico com mais de 600 receitas dos cinco continentes: “O Livro de Pantagruel - de Garfo e Faca à Volta do Mundo”.

Pantagruel é também o nome de uma personagem criada pelo escritor francês François Rabelais e presente numa colecção de cinco livros. Filho do gigante Gargântua e de sua mulher Badebec, que morre durante o parto, ele é também um gigante, bondoso e dono de um enorme apetite. A narrativa é simples, de teor fantástico, delirante e grotesco. Os livros de Rabelais foram incluidos pela Sorbonne na lista dos obscenos e censurados e classificados pelo Papa como heréticos. As ilustrações das obras de Rabelais ficaram a cargo de Gustave Doré .

E agora, sem mais delongas, segue a receita dos bolinhos de feijão-preto au chocolat!

INGREDIENTES

100g de chocolate
1 colher (sopa) de azeite
200g de feijão preto cozido/ lata
2 ovos
1 colher (sopa) de vinho do porto/extracto de baunilha/raspa de laranja
 (aromatize com o que for da sua preferência)
50g de açúcar amarelo
50g de açúcar branco
1 pitada de sal
50g de pó achocolatado
1 colher (chá) de fermento
100g de farinha de trigo
Manteiga qb para untar as formas

MODO DE FAZER

Partir o chocolate em pedacitos e meter num tacho com o azeite, para derreter.
Triturar o feijão com a varinha mágica em conjunto com os ovos e o vinho do Porto.
Juntar os dois açucares, sal e pó achocolatado numa taça.  Depois deitar aqui a mistura do feijão acabado de triturar.
Acrescentar o fermento e a farinha e envolver.
Se quiser pode juntar a esta massa frutos secos (nozes, avelãs, amêndoas, em pedaços)
Untar as formas com manteiga e lavar ao forno pré-aquecido a 180º durante 30 minutos. Pode também testar com o palito - pique e se sair sequinho isso é sinal de que a massa já está pronta.
Deixar arrefecer, desenformar e bom apetite! 
A massa é densa e não gordurosa, estas porções deram para 10 bolinhos.

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Leiam também uma entrevista deliciosa com José Quitério.
E vejam uma infografia com factos curiosos sobre as leguminosas.

3/27/16

O milagre das lentes progressivas


A lente que Benjamim Franklin inventou no séc. XVIII, uma lente bifocal, que juntava duas lentes numa só, uma para visão de perto e outra para visão de longe, é história. Mas hoje ainda há quem use lentes bifocais, penso que são aqueles óculos com uma meia lua inscrita em cada lente. Esses óculos não oferecem o conforto e a naturalidade de uma visão restaurada. Essa promessa dá pelo nome de lentes progressivas.

Comecei a usar lentes progressivas em Outubro de 2014. O que antecede uma efeméride desse género é começarmos a ver mal ao perto de forma progressiva. No meu caso, rótulos de produtos nos supermercados! Era a Sra. Dona Presbiopia que vinha chegando. Em duas palavras: os olhos envelhecem e perdem capacidade de acomodação. Na altura comecei também a escrever esta entrada no blogue. Cansei-me de escrever ao fim de duas linhas e meia e a coisa ficou nos rascunhos. O assunto não era festivo, nem mesmo para uma apreciadora de design de óculos, que nunca quis sequer experimentar lentes de contacto, marcada que foi pelo evento traumático de ter de remover uma lente semi-rígida do olho de uma amiga com a unha do dedo indicador. Íamos a caminho da Faculdade, para mais uma jornada de aulas, e ela solta um ai! e foi só. Ficou sem ver nada e a lente, sabe-se lá por que artes, deslisou para cima do globo ocular, enfiando-se bem para dentro da pálpebra. Eu nunca tinha visto nada assim e nunca mais quis ver! Havia também o João que sempre dizia que ou fazia a barba ou colocava as lentes, fazer as duas tarefas e chegar a horas à Faculdade é que não. No meu caso seria, ou colocar a maquilhagem, ou as lentes. Não, obrigada!

Ontem calhou um desconhecido confidenciar ao mundo (do Facebook) ir fazer os seus primeiros óculos para presbiopia. Confidenciar é a palavra certa, mesmo no âmbito do Facebook, porque  gritar aos quatro ventos que se entrou na idade da "vista cansada", o nome comum dado à presbiopia, não deve ser motivo para alarde. Não é a "terceira idade" mas quase. E ninguém festeja a chegada da "terceira idade" pois no máximo ela dá direito a descontos nos comboios e pouco mais. Para mim, que até tenho lidado bem com os sinais exteriores de velhice, rugas e cabelos brancos, banhitas em zonas adjacentes, a presbiopia foi um marco histórico, mas dos trágicos. Fez-me sentir realmente gasta. Duplamente trágico porque eu queria comprar lentes progressivas quando chegasse o momento de ingressar no Clube dos Presbitas e eu já sabia que lentes deste calibre custam os olhos da cara. Até as mais simples delas já custam os olhos da cara. A alternativa económica é uma roda-viva, resume-se a fazer dois pares de óculos, de longe e de perto, e começar a fazer malabarismo com eles, mantendo-os em permanente movimento, pendurando-os ao pescoço,  usando-os na testa, na cabeça, na mão e transportar múltiplos estojos! Não sei se há algum estudo feito a propósito, - porque nos dias de hoje existem estudos para tudo e mais alguma coisa - mas tenho a certeza que a maioria destes óculos malabares acabam esquecidos nos balcões de atendimento, esborrachados em sofás a rabiosque ou em camas a costado, enfim, são bens de desgaste rápido, e, portanto, uma solução que começa barata mas acaba igualmente cara. E há até quem encomende não dois mas três pares de óculos: os óculos de leitura, os óculos de trabalhar no computador, os óculos de ver televisão. Isto é verdade. Mas isto é de loucos sabendo que existe tecnologia milagrosa, lentes com três zonas invisíveis de transição entre si, que nos garantem visão perfeita a todas as distâncias num simples par de óculos! Mas fora a questão monetária, há quem, de facto, quem nunca se adapte a esta maravilha tecnológica e não tenha outro remédio que não seja dedicar-se à acrobacia para o resto da vida.

Logo me apressei a manifestar a minha solidariedade. O futuro presbita vai precisar de um ombro amigo. Salvaguardo que cada caso é um caso e há quem se dê bem desde o primeiro momento. Mas não aconteceu comigo. Recordo que na primeira semana ninguém me aturava. Já desconfiava da competência da minha óptica de confiança de mais de 20 anos! Pelo preço pago eu queria ver, ver tudo direitinho, imediatamente, e até ter visão raio-X, se possível. Em vez disso eu desesperei durante dias em frente ao computador. Um ombro amigo não foi suficiente. Mais meu amigo do que o ombro foi o meu pescoço. Um pescoço amigo. Caso não saibam o segredo para bem usar óculos com lentes multifocais é dar melhor uso ao pescoço e mexer os olhos o menos possível. Entenda-se: mexer o pescoço para fazer mover a cabeça e o olhar nas direcções certas. Mantenham essas pupilas bem tranquilas e sossegadas. Se são daqueles que gostam de controlar a cena pelo canto do olho, aproveitem enquanto podem, pois se a presbiopia chegar não vai haver forma de disfarçar a curiosidade. Mover o pescoço e a cabeça é o segredo, muita ginástica dos ombros para cima.

Tive,pois, uma adaptação difícil e gradual. Primeiro comecei por aprender a usar a visão de perto, depois num nível intermédio e o mais complicado foi habituar-me a usar os nóvos óculos para ver ao longe. E eu até vejo razoavelmente ao longe. Um exercício tortuoso era descer as escadas e caminhar normalmente pela rua. Mas pior ainda era  entrar no supermercado com a lista de compras ou dar uma volta pela livraria Bertrand para procurar um título. A desorientação chegava ao fim de alguns minutos, de tal forma que eu acabava sempre por retirar os óculos e guardá-los, coisa que fui firmemente desaconselhada a fazer: eram para usar de manhã à noite. Sempre. Porque esse é o segundo segredo para uma boa adaptação: não desencavalitar os óculos do nariz por muito doida que uma pessoa se esteja a sentir. Doida não é palavra exagerada. A minha vontade por esses dias era remover os óculos, os olhos...arrancar a cabeça! É preciso insistir e dar tempo ao tempo: o esqueleto tem de aprender a movimentar-se de outra forma e o cérebro também tem aprendizagens diversas a fazer. Os meus eram preguiçosos, está visto. Mas o corpo humano é maravilhoso na sua capacidade de adaptação e a coisa vai, acreditem.

É provável que a solução que apresentem a esta pessoa passe por lentes progressivas ou multifocais. Recapitulando, lentes multifocais ou progressivas, são uma classificação de lentes para óculos. Recebem esse nome porque possuem múltiplos focos, geralmente distribuidos em três campos de visão: longe, intermediário e perto. As lentes multifocais são recomendadas para compensação da presbiopia, especialmente quando associada a outra ametropia. Isto não há como chamar as coisas pelos nomes para as tornar um caso sério. Por isso, aqui vai. A ametropia - ou erro refrativo da refração ocular - causa a perda da nitidez da imagem na retina. Engloba a miopia, a hipermetropia e o astigmatismo, entre outras. Eu já pertenço ao clube dos míopes desde os tempos universitários. Felizmente ela não evoluíu muito, aliás, parou por volta dos 40 anos, o que julgo ser a tendência da Menina. Já a Sra. Dona Presbiopia, popularmente conhecida como "vista cansada", é a anomalia da visão que ocorre com o nosso envelhecimento, ocasionando o endurecimento do cristalino. Não adianta lutar contra ela. Chega por volta dos mesmos 40 anos, ou seja, a menina Miopia cresce e vai à sua vida, chega, então, a Sra.Dona Presbiopia para nos f...a vida. Pode chegar um pouco mais cedo. E depois acompanha-nos até perto dos 60 anos. A seguir deve chegar outra fdp qualquer. Aguardo, cheia de entusiasmo.

N.B. Este texto foi escrito usando óculos com lentes progressivas, yeah!













3/25/16

Boa Páscoa com a Belinha e as Belinhas

A Belinha deseja-vos uma doce Páscoa cheia de Belinhas! Outra coisa! Não se deixem seduzir por esses ovos espalhafatosos e balofos, todos ostentação, que andam por aí. Prefiram sempre as Belinhas porque apesar de modestas no look são sempre bem cheiinhas! Ahahah!

Um delicioso arroz de polvo para a Sexta-feira Santa!

Há coisa de anos já, escrevi aqui sobre as diversas formas de cozer o ingrato do polvo. É uma das postagens com mais visualizações aqui do blogue o que diz bem da dificuldade em alcançar o êxito no preparo do bicho, ahaha, anda por aí muita gente à procura do segredo. Hoje - soem as trombetas! - consegui o arroz de polvo perfeito e foi tão fácil que, à distância, nem percebo como é que pode ter corrido tão mal daquela vez! Asseguro que hoje o molusco ficou mesmo como eu gosto, tenro e saboroso, e o arroz bem encarnadinho. Resolvido o mistério aqui partilho o modus operandi, segui a segunda via da lista que coligi na tal postagem, recorrendo à milagrosa panela de pressão, um fantástico instrumento de poupança de tempo e combustível na cozinha!

Este polvo foi comprado congelado, era grande mas não monstruoso, 800gr, foi pescado à mão, no Perú. Deixei-o a descongelar no frigorífico de um dia para o outro e depois retirei-o da embalagem e lavei-o porque eu tenho a mania de lavar tudo antes de ir para o lume. Mas ele estava limpo. Na panela de pressão meti umas três colheres de sopa de azeite e cebola fatiada fina. Depois acamei ali o polvo, tapei e foi para o lume. Assim que a panela começa a deixar escapar o vapor pela válvula marquei 20 minutos. Ao fim desse tempo, abri e tirei a fotografia que podem ver acima. O bicho estava visivelmente mais pequeno, mas bonito e tinha um cheirinho bom, a  mar e tempero. Retirei-o para uma travessa e cortei em pedacinhos, estava bem vermelhinho por fora e muito branco por dentro, uma delícia. Provei para aferir como estava e fiquei satisfeita: tenro e gostoso. Depois vazei o líquido que se tinha formado para este tacho que podem ver, medindo, uma vez que ia fazer o arroz. Tive de acrescentar água. Colquei ao lume e temperei com sal, alho e  louro em pó, pimenta. Juntei três colheres de sopa de polpa de tomate e uma colher de coentros picados congelados porque não tinha frescos. (A salsa também é boa companheira do polvo!) Daí a pouco juntei o arroz e pouco depois os pedacinhos de polvo que tinha cortado. Lume brando, mas o suficiente para alimentar a cozedura do arroz, mexi duas vezes para o arroz do topo passar para o fundo. Quando o arroz estava quase cozido apaguei o lume, tapei e deixei acabar de cozer no calor e vapor formados. Simples e perfeito!

E agora perguntam-me se preparei o polvo por causa de ser Sexta-feira Santa. Penso que é a Igreja Católica, e não a Bíblia, que recomenda aos fiéis que honrem o sacrificio de Jesus na cruz, assinalado hoje, pela abstinência de carnes à mesa. Eu não sou religiosa e essas convenções nada me dizem. O que faz sentido para mim é manter uma alimentação o mais variada possível, obedecendo à regra de comer pouca quantidade da máxima variedade de alimentos possível, todo o ano. O mais engraçado é que a maioria dos católicos desconhece que essa recomendação da Igreja é para todas as sextas dos 40 dias que antecedem a Páscoa, a Quaresma. Mas, pergunto eu, essa indicação  "carne" não valerá para carne de mamífero como para carne de peixe ou até molusco?! E ovos e leite, não? Tem a ver com a simbologia do derramamento de sangue ou não tem? Algum padre ou crente entendido por entre os meus leitores que queira esclarecer?

À prova de convenções estão os vegetarianos que recusam sacrificar vidas animais, sejam elas quais forem. Infelizmente para os animais eu ainda não me converti à causa vegan. Como pouca carne, nem sou uma sua grande apreciadora, verdade, e pouco peixe, o que prefiro. O que defendo, por enquanto, além da moderação do consumo de carne e peixe, é apenas a melhoria das condições em que são criados e a forma como são abatidos os animais que usamos para a nossa alimentação, e não a sua exclusão da cadeia alimentar. Se dedicarem um pouco de atenção a esse assunto irão descobrir coisas chocantes motivadas pela necessidade de alimentar em massa e pelo menor preço, - ou seja, com margem máxima de lucro a quem se encarrega da produção - as populações. É mau para os animais e mau para a nossa saúde, e, sim, pouco digno para a raça dita racional. Outras coisas que podem fazer em prol de um mundo mais equilibrado para todas as vidas é deixarem de usar produtos de beleza que usam animais nos seus testes e produtos feitos em pele animal. Um passo de cada vez.

Voltando à questão da troca de carne por peixe na Sexta-feira Santa, um gesto, afinal, que pouco tem de penitência, que se resume a um ritual simbólico desprovido de valor maior nos dias actuais, melhor seria se a Igreja deixasse cair estas práticas e incitasse a outras mais proveitosas, por exemplo, oferecer uma refeição completa, rica e saudável a quem não a tem. Entendo que a prática antiga faça parte da ascese a que todos os católicos deviam aspirar, mas que a poucos lembra no quotidiano, na hora de atacar o Big Mac ou o bife com ovo a cavalo. Ironicamente nem precisa de ser lembrada por outros tantos pela simples razão de que passam fome. E entretanto, enquanto o bacalhau, a pescada, a solha, a truta e o rissol de camarão são consumidos hoje com fervor religioso, é notícia o padre Arsénio que desviou dinheiro de instituições de solidariedade social para aquisição de bens de luxoPor estas e por outras é que não tenho grande paciência para Pais nossos. 




3/24/16

Cogumelos Portobello recheados e moussaka de berinjela


Cogumelos Portobello recheados


Moussaka de berinjela

E finalmente as minhas impressões sobre mais duas receitas do livro Cozinha vegetariana para quem quer ser saudável!  que o meu sobrinho me ofereceu. A primeira receita que experimentei foi a das bolachas de gengibre e canela, lembram-se?

As fotos do livro são mais bonitas do que estas!  Já cozinhei estes pratos há umas semanas mas não tenho tido oportunidade de fazer o prometido relato. Ora bem, por onde hei-de começar?

O prato de cogumelos Portobello recheados não foi do agrado de toda a gente. Não gostaram do sabor dos cogumelos, apenas do recheio.  Eu gostei do sabor dos cogumelos e do recheio que leva berinjela, curgete, cebola, alho, azeite, molho de tomate e soja e diversas especiarias. A receita é muito simples de fazer e o recheio pode servir para acompanhar outros pratos. 

Tive dúvidas sobre o tratamento a dar ao cogumelo em termos de limpeza. Vi na internet que não devemos mergulhar os cogumelos na água porque absorvem muita. Devem antes ser lavados em pouca água corrente se estiverem muito sujos; se não, podemos usar um pano húmido para os limpar. A parte de baixo deve ser escovada pois apresenta filamentos castanhos. Depois de secos com papel de cozinha podem então ser preparados. O pé, se vier agarrado, pode ser cortado e incluido no preparado.

Já a moussaka de berinjela agradou a toda a gente mas deparei-me com algumas dificuldades. Este prato leva lentilhas vermelhas, berinjelas, curgete, cebola, alho,  tomate e pimento vermelho - excluí o verde - vinho, natas vegetais, molho de tomate, azeite e especiarias. O meu principal problema foi conseguir dourar as fatias de berinjela - comecei na frigideira e acabei no forno. Não sabia se já estavam no ponto! E ficavam cheias de azeite! O mesmo não sucedeu com a curgete. Também achei que as natas tinham demasiado amido de milho e que lhes tinha deitado pouca especiaria, mas aqui a culpa foi minha, tive receio do sabor ser muito forte. O tamanho da berinjela e da courgete também me levantou dúvidas, pois tem de haver um certo equilíbrio entre o recheio e as camadas dos legumes. 

Posteriormente eu procurei na internet como proceder e encontrei a solução para grelhar convenientemente a berinjela. Primeiro deve-se cortar em rodelas finas e deixar em água para perder o tique amargo. Depois de escorrida ela deve ser colocada directamente numa frigideira Teflon, ao lume. A berinjela chupa condimentos com força assim como chupa azeite. Por isso o azeite não deve ser deitado na frigideira e depois as rodelas lá colocadas. Depois de colocadas as rodelas é que se deita o azeite por cima delas e nos intervalos. Ao fim de um tempo podemos então virar as rodelas até elas ficarem doiradas de forma igual de um lado e de outro. Esse processo não dura mais que 3-4 minutos. Eu teria agradecido saber disso antes de ter deitado mãos à obra, tinha-me poupado tempo e dúvidas. (No caso que vi na internet a berinjela foi temperada com sal, pimenta e colorau e serviu para acompanhar lombo de porco.)

Gostei das receitas mas desta vez acho que a descrição do que fazer ficou aquém das minhas necessidades! Como já sabem a cozinha não é o meu elemento, tem de ser tudo explicadinho! Da próxima vez já irá correr melhor!




3/9/16

Intercâmbio de livros infantis - quer participar?


A iniciativa

Quer participar no intercâmbio de livros infantis? É apenas preciso enviar UM livro infantil a uma criança. O livro pode ser novo ou usado, desde que em bom estado. Desta forma, além de incentivar a leitura, promove-se a reutilização dos mesmos. Deve também recrutar 6 pessoas interessadas em fazer o mesmo. Em resultado, se todos cumprirem, a sua criança (filho/a, primo/a, sobrinho/a, afilhada/o, etc) vai receber 36 livros pelo correio. 

A maioria das crianças gosta de livros. Eu, quando era criança, também gostava de receber coisas pelo correio embrulhadas naquele papel kraft, duro, e atadas com cordel. Desembrulhado esse papel quase sempre aparecia outro, um papel colorido. Eram as amigas da minha mãe que enviavam presentes e também a minha madrinha de baptismo. Muitos desses presentes foram livros. Depois de ter aprendido a escrever, a minha mãe incentivou-me logo a escrever cartas e postais. Receber correio era uma festa. Hoje as crianças já não recebem tanto correio porque já nasceram na era da internet e a comunicação é quase sempre instantânea. Esta iniciativa é engraçada por isso mesmo, porque faz uso do correio postal, e também porque estimula o gosto pela leitura e a reutilização de livros.

Apesar de ser uma coisa antiga, a brincadeira que circula nos blogues e Facebook há já uns meses, tanto na versão livros para crianças, como na de livros para adultos,  gerou alguma desconfiança com pessoas a dizerem que era uma forma dos interessados obterem dados sobre crianças (nome, endereço). São realmente várias as indicações dadas aos pais no sentido de protegerem as suas crianças na internet, por exemplo, não colocando fotografias nas redes sociais. Se a divulgação daqueles dados lhe causa alguma renitência em participar a minha sugestão é a de que dê o seu nome e o endereço do seu trabalho ou de amigos ou de uma loja onde seja conhecido e onde possa, depois, recolher os livros. Ao usar a caixa de mensagens do Facebook ou o email para contactar os potenciais interessados mantém o assunto reservado, também pode optar por escolher apenas os seus conhecidos e amigos. Que não seja por isto que deixa de participar.

Ao entrarem no intercâmbio devem ter consciência de que o funcionamento depende da adesão e cumprimento do mesmo. Pode, acontecer que não sejam recebidos 36 livros. A expecativa de receber uma pequena biblioteca é legítima pois é o que foi divulgado. Mas pode não acontecer. Se a criança receber um livro, é bom, dois é melhor, o que vier é bom. É, sobretudo, bom doar um livro a alguém, é um acto generoso de promoção desse belo objecto que é o livro infantil e desse bem precioso que é a leitura. E isso é um dado certo.

Talvez seja prudente que os adultos não digam às crianças que vão receber um número certo e determinado de livros. Isso pode redundar em frustração se por acaso não se concretizar. Dependendo do carácter para umas será fácil aceitar, para outras nem por isso. Lidar com este assunto pode exigir alguma paciência aos adultos. Se quiserem evitar trabalhos acrescidos, é mais seguro dizer que vão participar numa troca de livros, que vão enviar um livro a uma criança e que poderão vir livros de volta, quantos, não se sabe. Esta gestão fica ao critério de cada um. 

Se estiver interessado contacte-me que eu dou as instruções necessárias: belinhafernandes(at)gmail.com

Texto que poderá usar: 

Quer participar no intercâmbio de livros infantis? É apenas preciso enviar UM livro infantil a uma criança. O livro pode ser novo ou usado, desde que em bom estado. Desta forma, além de incentivar a leitura, promove-se a reutilização dos mesmos. Deve também recrutar 6 pessoas interessadas em fazer o mesmo. Em resultado a sua criança (filho/a, primo/a, sobrinho/a, afilhada/o, etc) vai receber 36 livros pelo correio. Se estiver interessado, envie-me mensagem privada que explico como funciona.


Livro enviado! Agradeço às pessoas que alinharam comigo na iniciativa!
Agora resta esperar.



2/27/16

Ainda o cartaz do Bloco de Esquerda


O pão nosso de cada dia nos dai hoje, assim rezam os crentes. A polémica nossa de cada dia, nos dai hoje, bem podem dizer os adeptos das redes sociais. Um dia é o ABC racista da Ducla Soares, no outro o cartaz blasfemo do Bloco de Esquerda, especialmente criado para as redes, dizem eles. E assim vamos. Uma ramboia pegada que seria até gira se tivesse alguma utilidade. Só que a maior parte das vezes não tem. Quer uma pessoa divertir-se, partilhar fotografias de gatinhos fofos e citações sobre o amor e a gratidão e lá fica presa no comentário do António que acha muito bem, muito libertador, e no da Joana que acha muito mal, muito zombeteiro. E de repente já está também a elaborar a sua tese, que sim, que não, umas vezes de forma elegante, outras à bruta, é conforme o clima.  Uma vez passada tempestade viral é como se nada tivesse acontecido. Em suma, imaginem o tsunami. Vem, passa, arrasa e o mundo fica reduzido a nada. É tão só e apenas isso. Nem se pode falar de bonança.

Há muito, muito tempo, eras tu uma criança, era eu outra criança - como na canção do José Cid - o Hérman José fez um sketch humorístico sobre a Última Ceia e de repente o país parou de circular. Antes das recentes eleições presidenciais o vídeo deste histórico episódio censor circulou nas redes porque o Professor Marcelo, naquela época presidente do PSD, era um dos escandalizados com o facto do serviço público de TV andar a brincar com coisas sérias, capazes de serem ofensivas dos valores da maioria dos Portugueses e da intocável instituição que é a Igreja Católica. Naquele tempo, eram os jornais, a televisão, a rádio e a mesa do café. Aí nascia e aí morria o burburinho maior e o tu-cá-tu-lá era mais contido. Hoje as pessoas já não se sentam à mesa do café, sentam-se à frente do computador - ou emplastram o smartphone à frente do nariz - e vai de meter ordem a eito na gentalha que, perdoai-lhes, que não sabe o que diz, e de dar a benção a quem partilha do seu ponto de vista, benção AKA Like ou Gosto. É quase  nunca um mar de gente serena, cordata, capaz de trocar opiniões e de se enriquecer mutuamente pelo diálogo. Os fiéis mais fervorosos das redes sociais parecem querer levar tudo e todos à frente. Munem-se de insultos, argumentos sem nexo, emoticons, enfim, é um fenómeno tipo vagalhão da Nazaré, mas sem o glamour dessa força da Natureza. Mesmo assim, uma parte do Zé Povo continua a viver o dia como se tudo fosse perfeito e o humor não se tivesse atravessado no caminho da religião outra vez, benza-os deus.

Ontem foi o cartaz do Bloco de Esquerda o causador do reboliço. Algum Zé Povo, a Igreja, alguns políticos e outros opinadores de serviço estão agora a dizer aquilo que o Professor Marcelo disse há 20 anos atrás. Ou seja, o tempo passa, há coisas que mudam, outras há que permanecem, coisas como a religião e o futebol. Ou mesmo a política. Coisas que incendeiam as massas. É como quando nos aproximamos das bombas de gasolina para abastecer: Cuidado! Não fazer lume.  Não se pense que isto é um tique nacional do país de Fátima, - John Cleese teve problemas com A vida de Brian, e nos EUA, pastores que anteriormente ao original BE usaram a frase " Jesus had two parents and he turned out ok" em outdoors também foram alvo de contestação. Portanto, na aproximação a estes assuntos dizem os prevenidos que devemos usar de cuidadinho. Outros mais descontraídos costumam apenas dizer que quem anda à chuva molha-se. E os mais visionários dizem que se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir. (George Orwell); ou  que não concordando com nenhuma palavra do que é dito, ainda assim se defenderá até morrer o direito dela ser dita.(Voltaire)

Creio numa só Liberdade, pois, É nestes momentos de ebulição que o bom e velho princípio da liberdade de expressão é logo recitado na ponta da língua como o Credo em tempos o foi. Este direito é um dos pilares da Democracia, uma conquista civilizacional que nos assegura que possamos expor as nossas ideias livremente e ter acesso a opiniões de sentido contrário.  É ele que permite que nos conduzamos como um vagalhão da Nazaré nas redes sociais  e ao Bloco de Esquerda usar a imagem de Jesus Cristo para fazer humor. Para uns não devemos colocar reticências à liberdade de expressão, não a devemos defender para logo a seguir dizer que no caso da religião devemos ter muito cuidado com o que dizemos. Porque onde começa e onde acabará um tal menu de reticências?  Vamos então para a chuva, molhemo-nos e vivamos com as consequências. Mas se ao darmos expressão a essa liberdade nos tornarmos tão autoritários e inflexíveis que não consigamos medir o alcance danoso dos nossos actos à nossa volta, não será isso sinal de irresponsabilidade e egoísmo? Atender apenas ao meu interesse particular não fará erodir o sentido original dessa liberdade?

A primeira coisa que me ocorreu quando vi o cartaz do Bloco de Esquerda foi a falta de imaginação do mesmo pois já conhecia a "piada". Admitiria a "reciclagem" se a ideia fosse excelente. Só que não é.  Por diversas razões. O Bloco de Esquerda, que é tudo menos inocente, sabia de antemão que a imagem iria gerar polémica desnecessária sobretudo junto dos crentes. (Eu não sou crente e não acho que a escolha tenha sido feliz.)  Ora, o Bloco não está no negócio do espectáculo mas política é, infelizmente, cada vez mais.  um reality show.  O que eu quero dizer é que no presente caso das adopções,  já de si mesmo polémico, o recurso a um humor fracturante que vem dividir o que já é divisão era, portanto, escusado. Parece, afinal, que o riso nem sempre é o melhor remédio. Em que pé fica a responsabilidade do Bloco na representação de certos grupos e da sua luta pelo reconhecimento da igualdade de direitos? De que forma esta provocação humorística os beneficiou? A estratégia parece uma coisa de garotada sem juízo, própria da geração que se fez nas redes sociais e que vive para contar o número de comentários e Likes nas suas postagens e assim medir o seu sucesso, tantas vezes obtido através de conteúdos mais notórios do que assisados.

Além disso, o debate que se instalou nas redes foi todo em torno da religião e da liberdade de expressão e seus limites, não em torno do fim da discriminação da lei da adopção.  Creio até que muita gente nem chegou a ler as letras mais pequenas do cartaz. E o clima que se instalou de celebração não teve nada. Ninguém vai celebrar o desconhecido. A celebração do desconhecido tem nome: é religião. E se há coisa que não devíamos fazer era misturar a religião e os direitos humanos. Uma campanha neste domínio pede situações reais e pessoas de carne e osso e não entidades sobrenaturais sobre as quais não há - nem pode haver - qualquer consenso entre a população. A ideia de recorrer ao conceito mais rebuscado que existe de " família diferente" para fazer uma campanha que celebra a aprovação no Parlamento da lei da adopção por casais do mesmo sexo é rebuscada, assumam, é má comunicação, ponto.  Entendo que queiram transmitir que desde sempre existiram famílias diferentes. Mas, além da ramboia nas redes, que benefício foi gerado para a causa da igualdade de direitos? Estamos mais receptivos? Mais solidários? Mais elucidados sobre a nova realidade que aí vem? Só mostrando a realidade dessas adopções a funcionar é que as pessoas vão compreender se são válidas ou não. Mesmo que nunca aceitem essa nova realidade, é preciso que percebam que há coisas que estão a mudar, que o tecido familiar e afectivo do tempo presente é diferente do de gerações passadas e que pode ser também a normalidade, uma normalidade diferente daquilo a que a maioria está acostumada, por muito que isso lhes custe.

Quem anda à chuva molha-se. Parte da recente respeitabilidade do Bloco de Esquerda no jogo político é capaz de ter ido na enxurrada dos últimos dias. O que lhe vale é que nesta coisa das redes é tudo como Heráclito dizia, tudo flui e nada permanece. Amanhã já teremos nova polémica, no mínimo, cairá neve em Portugal e os ânimos arrefecerão.

2/25/16

Do livro de receitas vegetarianas - Bolachas de gengibre e canela!



Aqui estão elas, as bolachas de gengibre e canela segundo as indicações da Gabriela Oliveira, no livro Cozinha Vegetariana para quem quer ser saudável!

Conforme o prometido aqui estou a partilhar o resultado. Segui a receita do livro mas dupliquei as quantidades. Em vez de 24 bolachas consegui o dobro. Ela aconselhava usar o rolo para estender a massa e usar um cortador. Mas isso tem um inconveniente pois no final temos de voltar a moldar a massa recortada numa bola, voltar a estender e a cortar. A massa amolece um pouco e por vezes cola-se e dá chatice.  Assim tentei moldar cada bolacha na palma da mão, a partir de uma bolinha, e consegui. Coloquei as bolachas num tabuleiro sobre o papel vegetal, ficaram um pouco encostadas para conseguir despachar tudo no mais curto espaço de tempo. Ainda pensei que fossem deformar e agarrar-se umas às outras. Mas não. Cresceram para cima! E ficam estaladiças! São agradáveis e penso que se poderão até juntar mais especiarias para aproximar o gosto destas às bolachas às tradicionais bolachas de gengibre do Natal - é uma experiência que se pode tentar.

Quais são as vantagens destas bolachas? Desde que fiz a minha descoberta do gengibre que fiquei adepta da planta, em especial dos torrões cristalizados. Também as bolachas de gengibre me conquistaram mas elas são caras e ao examinar o rótulo vi que a presença de gengibre se estimava em apenas 1%, pelo menos nas que comprei. Daí ter ficado logo de olho nesta receita assim que li o livro. Por outro lado, mesmo não comprando muitas bolachas, de vez em quando eu gosto de roer uma bolachinha. As bolachas são na sua maioria preparadas com açucar branco e têm intensificadores de sabor e conservantes para se aguentarem nas prateleiras dos supermercados. As da receita levam açucar mascavado, muito mais saudável do que o açucar refinado, branco; também não têm aditivos, não têm ovos, são rápidas de fazer e muito económicas.

A próxima escolha vai recaír sobre um prato principal. Aguardem!

2/22/16

O que é o movimento da Slow Fashion


Quando o Rana Plaza, o edifício em Dakha, no Bangladesh, colapsou, em 2013, mais de 1000 pessoas morreram e mais de 2000 ficaram feridas. O edifício abriu fendas mas os chefes insistiram que os operários do têxtil comparecessem ao trabalho no dia seguinte. Uma tragédia que acordou o mundo para a forma como a moda do pronto-a-vestir persegue o lucro fácil, desrespeitando a mão de obra, a segurança das unidades fabris, a sustentabilidade. Recordo ter lido que edifícios há sem telhado acabado, chão de vigas a descoberto, prontos a crescer à medida do florescimento dos negócios com o Ocidente - é ali que conhecidas marcas como a Primark, Tommy Hilfiger, CA, Disney, GAP, HM, Auchan, Benetton, Carrefour, El Corte Ingles, Inditex, Kappa, Mango, etc, fabricam as suas roupas.Se procurarem as estiquetas da vossa roupa é provável que numa delas se leia Made in Bangladesh.

Encontrei um relatório sobre Direitos Laborais nas Fábricas do Bangladesh - aí se refere que o fundo que se criou para compensar as famílias das vítimas do desabamento não funcionou devidamente. Empresas existem que ainda não pagaram. Mas uma coisa é certa: a laboração não pode continuar a ser feita em desrespeito dos direitos dos trabalhadores - o relatório refere abuso verbal, físico e sexual, tempo de trabalho forçado, falta de pagamento da licença de maternidade, de salários, pressão para não usarem o wc, distribuição de água imprópria para beber - e sem estarem asseguradas condições de segurança. Noutro relatório, é referido que existem mais 5.600 fábricas de pronto-a-vestir no Bangladesh com 1500 a 2000 trabalhadores por fábrica. Ali também se lê que os entrevistados na sua maioria não querem abandonar as operações no Bangladesh. Parece, portanto, infundado o receio de que o trabalho nas fábricas que tirou muitos da pobreza e do qual resultam 80% das exportações do país, abrande. É por isso importante que se mantenha a pressão internacional.
Slow quer dizer devagar. Eu já abrandei há muitos anos atrás. De facto, comecei bem cedo a questionar o que me era vendido nas lojas e por uma razão: a minha mãe era modista profissional e até bem tarde as filhas tiveram o privilégio de vestir roupa feita por medida. Até hoje eu considero isso o maior luxo. Poder escolher o tecido, ter alguém que nos tire as medidas e faça um vestido ou um saia-casaco ou o que quer que seja só para nós é a perfeição. Quando comecei a ir às lojas com as minhas amigas eu era única que voltava as peças do avesso para ver os acabamentos e que refilava com a imperfeição ou a qualidade do tecido. Na realidade eu nunca me guiei muito pelo que a moda ditava e sempre escolhi roupa de acordo com o meu gosto pessoal. Nunca comprei peças para usar durante uma época, se gostava eu queria que durassem e estimava a roupa, lavando com cuidado, pendurando a secar devidamente, usando o ferro na temperatura certa - "quando a gente gosta, é claro que a gente cuida", canta o Caetano Veloso, noutro contexto, mas é isso. Por outro lado, a minha avó ensinou-me a desconfiar das pechinchas. O barato sai caro, dizia ela. A pechincha é uma ilusão, o que devemos procurar é o preço justo. Ela passou momentos difíceis mas quando comprava algo, fosse o que fosse, gostava de comprar bom. Porque ia durar. Poupava para poder comprar. Porque era caro. Prescindia para poder comprar. E por isso comprava pouco. Para que precisas de tantos sapatos, perguntava-me ela? Apenas tens dois pés. A minha avó já era adepta do Slow Fashion. Mas na minha juventude a produção têxtil era mais civilizada do que agora. Hoje o avesso da moda é uma realidade suja. Nunca se produziu tanta roupa em tão curto espaço de tempo. Não se trata apenas de pagar salários dignos aos trabalhadores do têxtil  e garantir que os seus postos de trabalho sejam seguros. Trata-se também de usar os recursos naturais de forma sustentável. Trata-se de equacionar se não estamos a esgotar combustíveis fósseis, reservas de água, a transformar terra fértil em terreiros de pó, se não estamos a contaminar o ambiente com a nossa pressa de obter mais colheitas de algodão, carregando nos pesticidas, ou, se depois, usamos pigmentos venosos no tingimento e vazamos para o grande, sem qualquer tratamento, se não estamos a despejar dióxido de carbono para a atmosfera só para fazer voar roupa - da China, India e Bangladesh - à tonelada até ao Ocidente.

A variedade de propostas do pronto-a-vestir é enorme mas, na realidade, a qualidade não é a nota geral nas lojas mais acessíveis. Quando se quer uma peça mesmo boa temos de procurar bem e pagar mais. Como a nossa mobilidade é maior e as lojas de marca proliferam, a hipótese de andarmos todos vestidos de igual, como se de uniforme da escola primária do meu tempo, é grande. Fazemos parte do grande exército que a moda do pronto-a-vestir equipou. A maioria não arrisca e segue os modelos que viu nas montras, ou nas revistas, que viu na TV, as propostas da pandilha unida dos blogues de moda. Não sei se quem está convencido de ter urdido um estilo muito próprio e original, não estará apenas iludido,  já que a massificação da produção têxtil se tornou a regra. E tal como os carros de um executivo que cessa funções se tornam obsoletos quando entra um executivo recém-eleito, também na época seguinte as nossas escolhas deixam se ser ideais apenas porque entra uma nova moda ao serviço. E tudo recomeça. É absurdo.

O colapso do Rana Plaza não foi o único acidente que tirou vidas a operários da indústria têxtil mas pelo número dramático de mortes que provocou lançou definitivamente a discussão em torno das marcas de grande consumo cujo traço comum é o baixo preço, a baixa qualidade dos materiais empregues e a rápida produção. Muitos são os consumidores que reivindicam desde então uma visão sustentável para uma das mais velhas indústrias do mundo, a par do transparente impacto social e ambiental da sua laboração e que buscam alternativas. É neste quadro que se insere e ganha força o movimento intitulado Slow Fashion. De uma forma simples, o que se pretende é que o consumo de roupa, calçado e acessórios seja feito de forma mais consciente e menos impulsiva.
"A mudança é o traço característico da moda. A cada estação as tendências mudam a cor, a silhueta, o tecido, ditando de forma artificial a obsolescência de uma peça. As tendências mudam agora mais rapidamente graças ao avanço da tecnologia de produção, encurtando o tempo que vai da produção do conceito até à venda na loja. A moda assim produzida é "fast fashion" , costuma ser de baixa qualidade e tem por finalidade ser usada uma única época.
O termo Slow Fashion foi primeiramente utilizado por Kate Fletcher em 2007 (Centre for Sustainable Fashion, UK) e é o oposto a tendências para uso numa só época. O seu objectivo é tentar que a mudança ocorra a um passo mais sustentável. Fazer perceber que não precisamos de comprar novas tendências a cada 6 semanas por sugestão dos retalhistas. Fazer com que tomemos consciência do que é na realidade importante para nós."
Como já devem ter intuido, o Slow Fashion não é um caminho fácil e eu podia agora alongar-me no capítulo das dificuldades para inverter o rumo da fast fashion. Mas considero mais válido concentrar-me em perceber a questão e depois de a ter percebido, tentar fazer alguma coisa, por pequena que seja, por exemplo escrever esta postagem.  Basicamente é-nos pedido que  diminuiamos a compra por impulso, que moderemos o nosso apetite por compras, que disciplinemos cada aquisição. Este processo torna-se mais fácil para quem ousar perceber e descodificar a hábil manipulação a que indústria nos sujeita através da publicidade. No momento da compra devemos preferir peças atemporais, feitas à mão, que utilizam tecidos naturais e duráveis como o algodão,  seda ou linho. As cores suaves indicam por si só tecidos mais limpos e têm menor tendência a tornarem-se datadas. Escolher uma produção em baixa escala que aconteça o mais próximo possível do local onde vivemos e procurar informação sobre criadores nacionais que se dedicam ao movimento Slow Fashion completa o ideário.

Para finalizar, uma síntese para quem desejar iniciar-se  no movimento da Slow Fashion:

- procure questionar-se se precisa realmente de adquirir a nova peça
- opte por comprar menos variedade
- escolha comprar peças que apresentem maior durabilidade seja em termos da matéria prima, seja em termos do seu design
- opte por peças que sejam versáteis e que possa vestir em variadas circunstâncias
- recupere as peças antigas ( por vezes é possível apertar, alargar ou alterar a peça para dar-lhe uma nova vida, ou mesmo desmanchar e criar uma peça nova)
- experimente trocar uma peça do seu guarda-fatos por outra de outra pessoa
- já tentou fazer algumas das suas próprias roupas? Talvez seja menos complicado do que imagina.
- utilize tecidos existentes que estejam em stock, esquecidos e inertes
- misture as peças antigas (vintage) com as recentes e procurar o seu estilo próprio
- desperte a sua sensibilidade para conceitos tradicionais eetnográficos da moda
- perceba que a roupa colorida é resultado de processos quase sempre mais poluentes
- opte por design mais clássico para que não se sinta um pato fora de água
- examine as peças que vai comprar e perceba as suas zonas de esforço - ver se os tecidos são adequados, se essas áreas estão reforçadas ou se podem ser facilmente substituidas (cotovelos, golas, etc) quando gastas
- compre de pessoas que recuperaram técnicas tradicionais que se encontram em vias de extinção
- adquira de pequenos produtores que fazem poucas peças
- compre localmente de produtores locais
- cuide bem das suas peças de vestuário respeitando as indicações de lavagem e secagem
- divulgue os ideias da Slow Fashion e a problemática que lhe deu origem


Apontamentos


Para começar a procurar peças sustentáveis em Portugal ver aqui

Dahka, Bangladesh, aerial view

The true cost - movie trailer e Imbd

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