11/22/15

Uncanny - uma pequena crítica do filme


Este ano talvez ainda não tenha visto filme mais interessante do que Ex Machina. Não tenho visto muitos, essa é a verdade. Mas é agradável para uma entusiasta da ficção científica fazer esta constatação. Vem isto a propósito de Uncanny, um filme que vi ontem à noite. O “vale da estranheza”, em inglês, “uncanny valley”, é uma hipótese no campo da robótica e da animação 3D segundo a qual quando réplicas humanas se comportam de forma muito parecida — mas não idêntica — a seres humanos reais, elas provocam repulsa entre observadores humanos. A expressão deve-se a um professor japonês de robótica, Masahiro Mori, e data de 1970.(Wikipedia) O "vale" refere-se à profundidade no gráfico que mede o nível de à-vontade dos humanos em relação a uma semelhança sã e natural com o ser humano em função da estética.
Wikipedia

Li no site oficial que o dinheiro para fazer Uncanny foi reunido entre amigos, família e investidores e que tudo estava começado e acabado em 4 meses! O realizador filmou no apartamento de um amigo, em Los Angeles. Consideradas as limitações orçamentais há que reconhecer que o resultado é bastante bom. O filme é de 2014,
 não deve nada do seu argumento a Ex Machina. Mas o facto de ter saído depois de Ex Machina não o beneficia já que são evidentes algumas semelhanças e muita da discussão em torno dele vai reduzir-se à sua comparação com aquele. Quer num quer noutro a acção desenvolve-se num espaço fechado ao mundo exterior, no segredo e na solidão que parecem ser necessários ao desenvolvimento de resultados científicos de topo, e no inerente sacrifício da vida mundana pelos que perseguem objectivos elevados; também temos três personagens em jogo durante um período temporal pré-determinado, um cientista genial fechado em si mesmo e na sua entrega à ciência, uma vistosa jornalista com formação científica com a missão de revelar ao mundo o milagre da ciência que vai descobrir e um robot AI que assiste o génio que o criou e cujo desempenho alterna entre o adolescente tímido e o revoltado; temos uma personagem que comanda o trio de títeres que mal chegamos a conhecer, Castle, o recrutador de talentos científicos, o patrono bilionário sem escrúpulos, temos o teste de Turing e outras questões ligadas à robótica, envolvimentos emocionais em triângulo, ciúmes, conquista e um desfecho-choque. Mas em Ex Machina tudo é mais refinado e até poético, o ritmo é melhor, a estética é melhor. Uncanny não passa de um laboratório de experimentação e não respira. Há, todavia, uma boa qualidade visual, o realizador conseguiu ultrapassar o limite do orçamento, fez uma boa exploração dos ambientes assente numa tensa fotografia, por exemplo e tem uma mão segura na direcção. O argumento é satisfatório. Mas há uma ambição na história de Ex Machina que Uncanny não possui ao evidenciar basicamente um triângulo onde duas entidades masculinas se batem pelos afectos de uma mulher. No entanto e ao contrário do que sucede em Ex Machina – onde a AI e o jovem estabelecem uma subtil e magnética relação - eu tive dificuldade em aceitar o impacto produzido por Joy – a jornalista – quer em Adam(o AI) que desenvolve uma atração por ela, afastando-se da relação companheira que possuía com o seu criador, quer em David, que também desenvolve uma atração por Joy, que o leva a colocar em causa a sua dedicação aos objectivos científicos. Também Joy é afectada pelo contacto com este universo, convencida e vencida no seu cepticismo inicial, ela rende-se ao fascinante trabalho do engenheiro, ao mesmo tempo que é forçada a examinar a sua escolha profissional, e, acabando apaixonada pelo inicialmente arrogante e convencido geek. Do jogo sentimental deste triângulo emergem as questões previsíveis, embora as mais fascinantes – Adam, ao exibir emoções típicas dos humanos e não dos robots, estará a registar uma evolução positiva e assombrosa na sua programação? Ou antes uma abertura para imprevisíveis ameaças aos seres humanos que o rodeiam e ao futuro dos AI? Em último caso o filme deixa-nos com uma questão primordial: nos tempos em que a tecnologia vai um passo à frente de nós, o que significa ser humano? 

Uncanny tem um trunfo inequívoco na interpretação Adam (David Clayton Rogers) cuja expressividade é em certos momentos desconcertante, levando-nos a acreditar que se trata de um verdadeiro AI. A reviravolta final, que já se anunciava,  foi para mim menos gratificante do que a tensão que se desenvolve ao longo da fita e que quase a transforma num subtil thriller. Não é um mau filme de ficção científica mas há um excessivo peso dos diálogos, explicativos, que não sendo redundantes tornarão o seu visionamento enfadonho para alguns. Aguardem até ao final dos créditos pois eles escondem uma última cena que envolve o destino de Joy!

11/20/15

Hello...it's me.


Tenho tido o desprazer de ser acordada pela Adele vários dias a fio. O radio despertador está na RFM, - ou na Comercial, é tudo o mesmo - e o turno de serviço deve ser grande fã da cantora londrina. Algures entre as sete menos um quarto e as sete e um quarto da matina a senhora chega sorrateiramente com o seu lânguido lamento, Olá, sou eu. Estava por aqui a pensar se não gostarias de te encontrar comigo para recapitular tudo aquilo por que passámos. - Uma péssima ideia, quanto a mim. Não se acordam moscas que estão a dormir, já dizia a minha avó e não se deu mal. - Dizem que supostamente o tempo cura todos os males, mas não me parece que me tenha curado de muito.  - Séneca, que viveu antes de ti, estava muito mais à frente. Aprende, Adéle, esquece essa mesmice da cura pelo tempo e bebe lá esta:"O vinho lava nossas inquietações, enxuga a alma até ao fundo, e, entre outras coisas, garante a cura da tristeza."  - Perante o elevado número de vendas de Hello sou levada a pensar que existe por aí um culto do drama que o tomou por hino. Mais vinho, menos drama, Adéle! Já chega! Quantas letras bonitas que podias ter-nos oferecido! Mais vinho,pois, mas não pipas de vinho, claro, ou ainda te  mandavam para a rehab e depois tinhas de dizer "No!No!No! - Olá, sou eu. Olá, podes ouvir o que tenho para dizer? Estou na Califórnia a sonhar com quem fomos quando éramos jovens e livres. Esqueci como era antes do mundo se desmoronar aos nossos pés. - Ora aí está uma oportunidade perdida, Adéle. Estás na California onde o que não falta é terreno vinhateiro! E em vez de pegares num bom copo e brindares ao futuro e às vendas massivas de "25", andas para aí aos pontapés ao passado? Ó mulher, shut up! - Há uma tamanha diferença -uma baita diferença, diriam os nossos irmãos brasileiros- entre nós, e um milhão de milhas. - O milhão de milhas é tranquilizador. Há sempre a secreta esperança de que esta letra não tenha sequela. De que a mulher não volte a botar olhos no muso. Pausa. Uns segundos depois a Adele enche os pulmões, espreguiça-se e solta a portentosa vocalização que todos somos unânimes em elogiar, continuando a sua ladainha do desespero, e neste ponto percebemos em Adele uma alma torturada pelo remorso.- Olá, do outro lado. Devo ter ligado mil vezes para te dizer que peço desculpa por tudo o que fiz. Mas quando ligo pareces nunca estar em casa.
- Adele acha que o cara está em casa e não atende. Ela prolonga o seu sofrimento imaginando o cara em casa, a fazer festas ao gato, enquanto o telefone toca e o nome ADELE pisca nos dígitos do visor do telefone...Ora, Adele. Se calhar ele está na rua. Porque não tentaste o telemóvel? Hoje toda a gente tem telemóvel! O quê?! Records em cima de records e o gajo que te inspirou esta letra nem sequer tem telemóvel?! Mas que pitecantropo é este, Adele?!! Adele, olha, deixa-te de desculpas esfarrapadas! Pff!  - Olá, do lado exterior. Pelo menos posso dizer que tentei dizer-te que lamento ter partido o teu coração. Mas não importa, claramente não te destroça mais. - Claramente! Está na cara que o cara superou com Super-Cola3! E era mesmo necessário escrever esta letra de nojo, Adele? Safa! Depois a mulher acalma-se um pouco, torna-se algo analítica e reconhece ser centrífuga na relação -   Olá, como vais? É tão típico de mim falar sobre mim própria, desculpa, espero que estejas bem. -  Chegaste a deixar aquela cidade onde nada acontecia? Não é segredo, ambos estamos a ficar sem tempo. Por isso, olá do outro lado. - Ficamos também a saber que não consegue resistir à cusquice, Adéle, não se faz, deixa lá a vida do homem em paz, Adele, é evidente que já não estás no radar do tipo há bué, quiseste deixar a pasmaceira da cidade onde viviam, foste atrás da fama, deste-te bem e ainda te queixas?! E para sublinhar o drama diz que o tempo está no fim e cada um de nós ouvintes que dê corda à imaginação e destrince, não é segredo para eles, o mesmo se não diga para nós.  E de novo, Adele solta as feras e é quando eu resolvo intervir e acabar com o sofrimento da Adele e o meu próprio, desligando o alarme. 

Hello...é eficaz pois eu salto da cama que nem uma mola. Mas quando chego ao quarto de banho ainda vou a resmungar mentalmente. Como é que esta canção sobre sentimentos de culpa vendeu 480 K cópias digitais nos Estados Unidos na sua terceira semana de circulação?! A canção é também um record de vendas somente equiparado ao obtido por Elton John há 18 anos com Candle in the wind. Isto ouvi eu na radio anteontem. Hoje já deve ter amealhado outros records. Evidentemente que Adéle é a senhora de todos os records, se os Grammy fossem anéis ela usaria um em cada dedo! Com Adele é tudo pela medida grande - 30 milhões de cópias, Grammys, Oscar, Globo de Ouro, prémios de composição e distinções da Billboard, TIME, People e BBC...Adéle é indiscutivelmente uma grande voz. Não contesto o que é óbvio. Mas não me entusiasma por aí além. Entusiasmou-me com Skyfall, o tema de 007, que se tornou um dos meus favoritos da série Bond. Hello entrou directamente para o primeiro lugar da minha lista de canções que não suporto.Não sei se por causa da onda de irritabilidade que acorda em mim mesmo antes do galo cantar, a altura do dia em que estou mais sensível, Hello está irremediavelmente condenada. 

Quando penso em Adele penso na Florbela Espanca. Estes discos da Adele são Discos de mágoas, esta mulher é uma alma torturada! Mas a tortura foi um mal que veio por bem, ou não fosse viver numa mansão de 6 milhões de dólares que pertenceu a Paul McCartney, um luxo todo ele alicerçado nestas baladas sofredoras sobre corações destroçados e vidas desencontradas. Amanhã a ver se acabo de vez com a minha tortura, que nada me rende, sintonizando outra estação de rádio, talvez a Antena2. Oficialmente "25" chega hoje às lojas físicas e virtuais.Palmas.





11/11/15

Paulo Cunha e Silva - Sempre fiz o que gostava


"É legítimo que na Avenida dos Aliados exista a Prada, a Louis Vuitton ou a Hermès, mas a Rua do Almada tem de permanecer como a rua das ferragens. E estamos numa fase muito crítica em que aquilo que caracteriza o Porto, até como cidade comercial, pode estar a desaparecer e a ser substituído por uma voragem de lojas de bugiganga turística anódina e inconsequente.

Tenho estado a trabalhar com um fulano americano que foi conselheiro do Obama para conseguir identificar uma centena de zonas comerciais da cidade que possam ter um regime tão especial que lhes permita sobreviver e não terem de se sacrificar em nome desta voragem turística, que tudo quer normalizar e equalizar. Isso é uma situação que me preocupa muito: como manter o carácter da cidade sem deixar que a bolha turística expluda e o abastarde completamente."


Leitura integral aqui.

"Portugal é um país por onde os princípios do determinismo e da causalidade não passaram: tudo pode acontecer sem se saber porquê. Toda a gente pode ser tudo, sobretudo quando tem qualificações para ser coisa nenhuma."

Foto retirada daqui. Leitura integral aqui.

11/10/15

Orientação para o cliente


Este apontamento podia chamar-se a decepção do comércio local e ser um rol de lamentos sobre a falta de orientação para o cliente de algumas casas que têm porta aberta para as ruas nesta cidade. Há um caso que me traz sempre inquietação, não apenas pelo comportamento do lojista, mas também pelo meu próprio. Pessoa que habitualmente frequenta papelarias concordará comigo que ao ser-lhe entregue uma folha de cartolina esta deverá ser enrolada e envolvida por uma cinta de papel, -  de preferência reaproveitado em nome da reutilização dos recursos e poupança, - ajustado e mantido no lugar por fita cola, ou então pelo elástico tradicional. É por ali que pegamos e transportamos o rolinho com as nossas mãos gordurosas ou sujas ou suadas, sabendo que uma pequena mancha pode ser o desastre da nossa folha, obrigando a cortes e desperdício evitáveis. Os empregados mais experientes perguntarão se queremos que enrolem  a cartolina, ou se queremos trazer a folha desfraldada, em jeito de bandeira, o que pode servir melhor a futura utilização mas raras vezes o transporte. Há momentos de cuidado picuinhas em que me faço acompanhar de uma pasta plástica e de consideráveis dimensões para que a folha chegue à minha mesa de trabalho em nada beliscada. Mas não na ocasião que se fixou na memória. Ia a passar, vi a papelaria e aproveitei para fazer a compra no momento. Depois de percorrer os mostruários e de ter escolhido a folha na cor certa, coloquei-a no balcão e aprecei-me a sacar do porta moedas para pagar. Enquanto isso o empregado, que até penso ser o próprio dono do estabelecimento, acercou-se da registadora e executou um breve bailado de dedos sobre as teclas. De algures saiu um papelito ridículo, que ele rasgou e colocou sobre o balcão, enquanto murmurava o valor a cobrar entre dentes. Acto contínuo, e sem me olhar estendeu a mão na qual depositei a moeda de dois euros. Acho que recebi troco sem mais amabilidades gestuais ou verbais, nem um "worte sempre" sequer. Findo este processo o jovem senhor deu dois passos atrás, encostou o rabo ao balcão contíguo, cruzou os braços sobre o peito e fitou o espaço exterior que fica para lá da montra e porta de vidro da loja, olhando por cima do meu ombro direito, perscrutando a movimentação citadina do local, que, quando eu saí, se resumia a uma dama a passear um cão e alguns cachopos de mochila em assembleia. Fui apanhada de surpresa por um invulgar estado catatónico - dei por mim indecisa entre o imóvel e a reação lenta, a olhar a folha muito esticada sobre o balcão como que à espera que ela se enrolasse sózinha para ser transportada. A minha estupefação era tanta que nem consegui articular o que se impunha: pedir uma cinta para a cartolina. Foi a primeira vez que trouxe um canudo nu na minha mão constatada a evidência: eu tinha emudecido e o homem estava ali em corpo mas demasiado distante para se aperceber da minha inquietação e da grave falha cometida. A verdade é que daí ao carro eram uns metros que foram percorridos o mais rapidamente possível com a cartolina segura entre polegar e indicador. Felizmente não havia vento.

Outras lojas que habitualmente frequento são as livrarias. Sou tão viciada em livrarias que entro só para dar uma volta. É assim como quem vai a um parque de diversões e sai sem se divertir nos carros de choque ou na montanha russa porque não tem dinheiro. Vai-se e a própria atmosfera já nos empresta um ar de graça. Quando eu estou entre livros sinto-me logo especial, bem acompanhada. Fico com a impressão que vivo melhor, ou, pelo menos, que vivo a vida que mereço. Mesmo que não compre nenhum faço planos de os comprar e isso acrescenta logo três pontos a algumas das minhas angústias e um ponto de exclamação à minha narrativa existencial. Tenho de dizer que actualmente compro muitos livros em segunda mão. Como tenho as leituras atrasadas um bom par de anos é fácil encontrar o que desejo a metade do preço. Mas desta vez precisava de um livro em particular, bem recente, e com alguma urgência. Depois de procurar na estante estava prestes a dirigir-me ao balcão para pedir ajuda quando ouço junto a mim uma simpática funcionária a oferecê-la. Prestável foi ver o que podia fazer. Eu gostei porque o cliente gosta de ser bem servido. Nem muita nem pouca atenção, a necessária, é essa a chave do êxito do bom atendimento. Mas depois veio a decepção. O livro não estava disponível. Mas para grande mal, grande remédio - podiam mandar vir para mim. A rapariga disse-o sem sequer ter sido eu a perguntar: mais dois pontos para a moça. Só que à resposta seguiu-se a estupefacção. Novamente um momento de transe do cliente, um déjà vu. O livro demoraria 15 dias a chegar à minha mão. QUINZE DIAS? A pergunta trovejou dentro da minha cabeça seguida de uma catadupa de outras:mas o livro vem do outro lado do Atlântico? Acaso o livro virá montado num burro? Acaso eu vivo nos confins da Terra?! Respirei fundo e respondi que assim não me interessava e, de facto, não sendo um caso de vida ou de morte, sendo até um caso de vida sobretudo, impunha-se ainda assim alguma urgência. Saí da loja.

É assim que se perdem clientes. Não voltei à papelaria e já se passaram dois anos. À livraria irei voltar, mas acho incompreensível que não possam fazer melhor. É assim que se perdem alguns clientes.Perdem-se clientes porque existem alternativas mais satisfatórias. Depois os lojistas queixam-se e dizem que a crise deu cabo do negócio - que deu - que não há dinheiro - não há - que os clientes fugiram para as grandes superfícies - pois foi - ou para as lojas mais atraentes das cidades próximas - sim, sim - que não vale a pena investir mais no negócio - pois não - ou que os clientes são uns picuinhas do cara*** - pois somos.  Mas a verdade é que quando cheguei a casa abri o computador e liguei-me ao site de uma conhecida livraria online. Promessa de entrega em 24-48 horas e portes grátis acima de certo valor. Deixem-me somente acrescentar que o livro em questão não é nenhuma raridade, é um manual de apoio, a primeira edição é de Agosto de 2013.Quando acabar de escrever esta postagem vou deitar-lhe as unhas. Já chegou.

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