1/15/15

Os cartoonistas e a liberdade de expressão

Cartoon de Cristina Sampaio

Vi há dias um documentário intitulado Fini de rire. É da autoria de Olivier Malvoisin e Donatien Huet. Descobri ainda o site Cartooning for Peace, criado por Plantu, - um cartoonista francês,"para desaprender a intolerância" - e o site Fini de rire - Une cartographie de la liberté d'expression des dessinateurs de presse à travers le monde. 




O documentário de 52 minutos, ou melhor, webdocumentário, quer traçar o mapa da liberdade de expressão no contexto actual, que era, à altura da sua rodagem, o ano de 2006, quando estalou um dos primeiros casos mediáticos de reacção às caricaturas de Maomé e à representação religiosa. Uma dúzia de caricaturas apareceram pela primeira vez no jornal dinamarquês Jyllands Posten, em Setembro de 2005. A mais conhecida mostrava o profeta Maomé com um turbante no formato de bomba-relógio. No Islão, qualquer representação de Maomé é proibida, ou pelo menos eu fiquei com essa impressão,  a partir dessa data. O director pediria desculpas públicas e confessaria ter vergonha do que fizera, receando que mais ninguém ousasse publicar cartoons do profeta. Depois, as ilustrações foram republicadas na Noruega. Depois no jornal francês  France Soir - cujo editor acabaria demitido pelo patrão egípicio - e em dois dos mais importantes jornais da Alemanha, o conservador Die Welt, que também as colocou na sua página na internet, e o jornal de esquerda die Tageszeitung (taz). Países como a Arábia Saudita ou a Líbia fecharam representações diplomáticas na Dinamarca, os países árabes pediram a punição dos cartoonistas ao Governo dinamarquês, este distanciou-se invocando a independência da imprensa e a liberdade de expressão, condenando quem entretanto queimou bandeiras dinamarquesas no mundo árabe.

"Si vous voulez un baromètre de la liberté d’expression et comprendre les tabous dans un pays, il faut aller voir les dessinateurs de presse". Plantu.


Sim, se querem um barómetro da liberdade de expressão e compreender os tabus de um país, há que ver os cartoons de imprensa. Fini de rire mostra como a defesa da liberdade de expressão é um combate travado por todos os cartoonistas, em qualquer país em que se encontrem - as pressões podem surgir dos mais variados quadrantes. Assistindo aos testemunhos destes cartoonistas percebemos que "os muros" que eles têm de derrubar são diversos. São confrontados com conceitos como blasfémia, delito de opinião, censura, zona interdita, que, afinal, parecem nunca estar ultrapassados definitivamente. Se uns são abatidos, surgem outros. (Por exemplo, no site Fini de rire a portuguesa Cristina Sampaio representa os cartoonistas portugueses e refere que em Portugal os media são condicionados pelos grandes grupos económicos e por isso também os cartoonistas, havendo clara censura económica.)É um documentário que vale a pena ver. Fica a sugestão.

Deixo a lista dos cartoonistas que dão o seu testemunho em Fini de rire, os sites ou blogs onde podem ver os seus trabalhos,  e algumas das suas palavras:

Jeff Danziger - cartoonista político norte-americano.Já foi acusado de ofender Condoleeza Rice e os nativos norte-americanos. "Para perceber os cartoons é preciso estar atento à realidade". " O desenho é uma linguagem, mostra a realidade como ela é."

Plantu - cartoonista francês que se especializou em sátira política.Apoiou o Jyllands Posten fazendo um cartoon para o Le Monde onde a frase "Eu não posso desenhar Maomé" figurava, repetida, num rosto que parecia ser não Maomé, mas Leonardo da Vinci. Outra controvérsia: desenhou Jesus a entregar preservativos em África em vez de pão. " Os cartoonistas vêem coisas que os outros não vêem."

Rainer Hachfeld - cartoonista alemão que publica no Neues Deutschland e também no Cagle Post americano." É difícil fazer caricatura política humorista". " A caricatura pode ser utilizada no combate ideológico." " A censura existe, os cartoonistas fazem auto-censura." "O decoro substituiu a liberdade, por isso já não há caricaturas decentes nos bons jornais". " Imagens dormentes vão substituir os cartoons nos jornais." "Um pedaço de liberdade não é liberdade."

Khalil Abu Arafeh - cartoonista palestino, suportou inúmeras ameaças e viu cada um dos seus desenhos ser controlado antes de ser publicado. "Há limites que não posso ultrapassar, mas posso criticar tudo." " Um bom desenho tem mais impacto do que um artigo."

Nadia Khiari - cartoonista da Tunísia. Criou a personagem Willis from Tunis. Tornou-se conhecida durante a revolução tunisina, em 2011, quando comentou o acontecimento nas redes através do gato Willis. "Os políticos usam a religião para controlar os jornais." " O tabu político deu lugar ao tabu religioso. Se não posso publicar no jornal, uso as paredes e a rede social."

Kianoush Ramezani - cartoonista iraniano e activista dos direitos humanos - é contra a pena de morte, comum, no Irão - , que vive exilado em França, podem ver aqui os seus cartoons e também a sua intervenção na TED. " A alma do cartoon é a crítica. No Irão ser desenhador é um perigo em si mesmo." " A liberdade de expressão é a chave para perceber a liberdade. É preciso viver num país onde ela não existe para perceber como ela é importante."

Pierre Kroll - cartoonista belga que irritou os gregos com um cartoon sobre futebol. "Se algo me choca, todos têm de se sentir chocados também. Se não acontecer assim, tem de ser interditado?!"

Avi Katz - cartoonista americano a viver em Israel

Michel Kichka - cartoonista nascido na Bélgica, vive em Israel. " Existe uma diferença entre fazer crítica dentro de um quadro justo ou uma campanha do ódio. Um cartoon pode causar raiva, levar à morte. Isso mostra o poder do desenho."

Daryl Cagle - cartoonista norte-americano, editor do Cagle Cartoons. " A liberdade de expressão pertence aos editores. O cartoonista não quer desagradar o editor, quer ser publicado. O editor quer ter leitores e assinantes publicitários."

Ann Telnaes - cartoonista sueca, vive nos EUA. "Depois do 11 de Setembro era complicado criticar o Governo e as suas acções. Quando o cartoonista tem medo de desenhar, tem um problema, o seu trabalho não é ser tímido."

Aurel - cartoonista político francês

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