11/10/14

Informação sobre a bactéria legionella


Janeiro-Junho 2013 Hotelaria e Saúde3

A doença dos legionários constitui um problema de saúde pública. Quando os sistemas de água dos edifícios estão mal concebidos, mal instalados ou com má manutenção é fácil que a legionella contamine a água por encontrar as condições mais favoráveis ao seu desenvolvimento.Com a actualização para 233, o número de pessoas infectadas pelo surto de Vila Franca de Xira é dos maiores alguma vez registados no mundo, é, até ao momento, o 4º maior de que há registo. Uma das melhores formas de combater qualquer doença é estar minimamente informado sobre ela. Depois de ler as instruções de prevenção do sr. George, achei por bem ir ao Google actualizar-me. 

A primeira coisa que retive foi que a maioria das pessoas tem resistência à bactéria e não contrai a doença. Li algures que em 100 exposições 5 pessoas são contaminadas. Para haver 180 contaminados em Vila Franca, e a ser este dado verdadeiro, a exposição deve ter sido enorme ou então a maioria das pessoas, por seu grande azar, faz parte do grupo de risco. A segunda é que existem normas e leis que todos os sistemas públicos de água têm que cumprir e que asseguram uma protecção razoável quanto à água que chega a nossas casas.

É sempre necessária a existência da nebulização da água, ou seja, é através da aspiração de partículas de água que vão para os pulmões que contraímos a doença. Por exemplo, num parque público onde houver pulverização de água de rega  contaminada há risco de alguém contrair a doença. A água de bebedouros em edifícios públicos pode conter legionella. Se a pessoa se inserir no grupo de risco deve evitar beber essa água. Deve até evitar beber água da torneira, devendo fervê-la antes de a beber. Mas é sempre por causa da aspiração, - via trato respiratório - não da sua ingestão - via esófago - que se contrai a doença do legionário.

Pareceu-me também que o risco é raras vezes o sistema das casas particulares e mais os de edifícios colectivos. A preocupação maior será nos sistemas de recirculação de água, tipo torres de arrefecimento de ar condicionado industriais e grandes sistemas de AVAC, coisas que ninguém usa na sua casa própria. É o circuito típico de uma torre de arrefecimento de água, onde a agua em circulação é sempre a mesma, e na torre é "despejada" no topo da mesma e por gravidade desce pelas lamelas até ao depósito recolector na base, sendo bombeada novamente para a utilização com a reposição da água evaporada no processo. É uma das muitas soluções possíveis para ar condicionado em grandes edifícios e em muitos processos industriais,onde seja necessário arrefecer grandes quantidades de água. 

Em nossas casas, no entanto, se existirem pessoas do grupo de risco  na família é mais seguro elevar a temperatura do cilindro ou esquentador para os 60º e controlar os possíveis escaldões - a partir dos 44º há risco de queimadura. (Veja-se o esquema. Abaixo dos 55º a bactéria não morre.) Todavia continuará a ser possível contrair  a doença usando água fria da torneira para lavar os dentes. Também o uso da máquina de lavar louça é seguro, de facto a temperatura da água é elevada. 

Os sistemas que oferecem maior risco são aqueles que produzem aerossóis, através da formação de microgotículas de água contaminadas com um tamanho igual ou inferior a 5µm, as que quando inaladas podem penetrar no sistema respiratório atingindo os alvéolos pulmonares e causar as infecções graves.Existem produtores de aerossóis água potável- chuveiros,equipamentos de terapia respiratória, torneiras; e produtores de aerossóis em água não potável-torres de arrefecimento, humidificadores, condensadores, baterias de arrefecimento.

A elevação da temperatura da água na eliminação da legionella é afinal uma prática comum nos sistemas de distribuição de água, principalmente em hospitais e hotéis.  A temperatura da água quente é elevada a 70ºC . Esta deve ser controlada nos pontos mais críticos do sistema, ou seja, aqueles que estão mais distantes e que normalmente coincidem  com os pontos terminais das redes, nomeadamente torneiras e chuveiros. A temperatura efetiva para aniquilar a legionella é 70ºC. Assim, faz-se correr a água àquela temperatura nos chuveiros e torneiras durante 30 minutos. Mas esta medida apresenta algumas fragilidades. Do que percebi a bactéria vive no biofilme e este não chega a ser destruido, rapidamente volta a colonizar as áreas. A outra hipótese é então a desinfeção química.

As bactérias legionella, onde se podem encontrar?

- Existem em ambientes aquáticos naturais por regra em em baixos níveis (lagos, rios, ribeiros, poços, solos húmidos, nascentes, zonas de água estagnada e águas subterrâneas, etc);
- nos sistemas artificiais, como redes de abastecimento/distribuição de água;
- nas redes prediais de água quente e água  fria; 
- nos sistemas de ar condicionado - torres de arrefecimento, condensadores/humidificadores - dos grandes edifícios, nomeadamente em hotéis,centros comerciais e hospitais, empreendimentos turísticos, escritórios, fábricas, etc; 
- sistemas de água climatizada para uso recreativo ou terapêutico (tanques recreativos ou jaccuzzis, banheiras de hidromassagem, piscinas, spas, termas); 
- sistemas de lavagem de gases;
- sistemas de água contra incêndios;
- sistemas de rega por aspersão;
- sistemas de fontes ornamentais;
- repuxos tipo bebedouro público entre outros;
- nos equipamentos usados na terapia respiratória (nebulizadores e humidificadores de sistema de ventilação assistida).
- tubos de água para cadeiras de dentista;
- máquinas de limpeza com água a alta pressão;
- armazenamento de água ao sol.

O que provoca a exposição à legionella?

A exposição a esta bactéria pode provocar uma infeção respiratória, atualmente conhecida por Doença  dos Legionários, assim chamada porque a seguir à Convenção da Legião Americana em 1976, no hotel  Bellevue Stratford, Filadélfia, 34 dos combatentes participantes morreram e 221 adoeceram com pneumonia. A doença que pode assumir a forma de uma gripe - a febre de Pontiac, que até pode passar despercebida sendo tratada como gripe comum - ou então pneumonia.

Como se transmite a infecção por legionella?

- A doença tem sido identificada nas Américas, Austrália, África e Europa, podendo ocorrer sob a forma de casos esporádicos ou de surtos epidémicos, sobretudo nos meses de Verão e Outono;

- a infeção transmite-se por via aérea (respiratória) através da inalação de gotículas de vapor de água contaminada, aerossóis ou spray; 
-  a sua pequena dimensão veicula a bactéria para os pulmões, possibilitando a sua deposição nos alvéolos pulmonares;as partículas com tamanho inferior a 5_m em diâmetro podem ser inaladas e penetrar profundamente nas vias respiratórias provocando a legionelose;
- por exemplo, uma fonte infectada com Legionella (como por exemplo um fontanário) pode disseminar aerossóis contendo Legionella. Quando isto ocorre, grande parte da água do aerosol evapora rapidamente, deixando partículas no ar que são suficientemente pequenas para serem inaladas; 
- as bactérias estão presentes num estado agressivo e em grande quantidade;
- a ingestão da bactéria não provoca infecção;
- não se verifica o contágio de pessoa para pessoa; 
- pode não ser facilmente identificada pois parece uma gripe - toma o nome de febre de Pontiac - ou pneumonia.
- casos de legionelose tem sido frequentemente associados a fontes de contaminação situadas até 3,2 Km de distância, havendo evidências de que esta distância poderá ser superior.

Quem é mais facilmente contaminado?

- Atinge em especial adultos, entre os 40 e 70 anos de idade; 
- atinge com maior incidência nos homens; 
- abaixo dos 20 anos a contaminação é improvável;
- os fumadores, pessoas com problemas crónicos de origem respiratória ou renal, os diabéticos, alcoólicos, os  imunodeprimidos  e os medicados com quimioterapia ou corticosteróides, têm maior possibilidade de contrair esta doença.

Quais são os sintomas da doença dos legionários?

- Os sintomas incluem febre alta, arrepios, dores de cabeça e dores musculares. 
- em pouco tempo aparece tosse seca e, por vezes, dificuldade respiratória; podendo nalguns casos desenvolver-se diarreia e/ou vómitos; 
- o doente pode ainda ficar confuso ou mesmo entrar em situações de delírio;
-período de incubação é de 2 a 10 dias.

Factores que favorecem a multiplicação da bactéria legionella:

- Em água entre 20°C e 45°C a bactéria multiplica-se;
- a temperatura ideal para o seu crescimento é entre 35ºC e 45ºC;
- pH entre 5 e 8;
- humidade relativa superior a 60%;
- zonas de reduzida circulação de água (reservatórios de água, torres de arrefecimento, tubagens de redes  prediais, pontos de extremidade das redes pouco utilizadas, etc);
- processos de corrosão ou incrustação;
- utilização de materiais porosos e de derivados de silicone nas redes prediais, que potenciam o crescimento bacteriano;
- zonas de equipamentos onde haja reduzida circulação de água (reservatórios de água, tanques, torres de arrefecimento, tubagens de redes prediais, pontos de extremidade de redes pouco utilizadas;
- presença de micro-organismos nas águas (amibas, algas, protozoários) não tratadas ou deficientemente tratadas;
- presença de biofilmes  que são pequenos depósitos de microorganismos e substâncias extracelulares em sistemas de tubulação e tanques. São base de procriação da bactéria. Áreas de risco para a formação de biofilme: chuveiros em hotéis, hospitais, casas de enfermagem, piscinas e clubes desportivos; spa e piscinas;instalações de ventilação com gás húmido; torres de arrefecimento; áreas onde a água é distribuída para refrigeração e humidificação, refrigeradores/lubrificantes usados na produção de metal e corte, misturas de resíduos de carvão com água de rio,sistemas de irrigação.
- presença de nutrientes na água, ferro, magnésio
- presença de lodos

Práticas para minimizar a proliferação de Legionella:

Nos equipamentos, em geral

- Assegurar uma boa circulação hidráulica, evitando zonas de águas paradas, ou de armazenamento prolongado, nos diferentes sistemas;
- accionar mecanismos de combate à corrosão e incrustação através de uma correta operação e manutenção, adaptados à qualidade da água e às características das instalações;

- estar atento aos pontos críticos dos sistemas e equipamentos (antiguidade e antiguidade dos materiais, uso do ferro, por exemplo);
- efetuar o controlo e monitorização da qualidade da água do processo, quanto ao residual de biocida, ao pH, à dureza, à alcalinidade; 

- realizar as análises das águas quanto à presença de bactérias heterotróficas, germes e Legionella.
- utilizar meios de isolamento térmico adequados para manter a temperatura ideal.

Em particular nos chuveiros, torneiras, canalizações, cilindros

- Escolher equipamentos que permitam elevar a temperatura da água aos 70º para proceder a desinfecções periódicas;
- a temperatura dos cilindros/termoacumuladores deve ser mantida acima dos 60º;
- no ponto mais distante do circuito a água não deve baixar dos 50º;
- abaixo dos 55º a bactéria não morre;
- manter todo o sistema em bom estado de conservação, escolher sempre materiais anti-corrosivos; 
- manter o sistema em funcionamento com descargas regulares;
- evitar a formação de sedimentos em crivos e filtros do sistema procedendo à desmontagem semestral de torneiras, chuveiros e ralos e sua limpeza;
- desinfectar com lixívia tradicional (hipoclorito de sódio), ou seja, não perfumada e sem detergentes; Nota: embora tenha encontrado várias fontes a sugerir este uso, encontrei outras tantas a dizer que a lixívia não é eficaz na eliminação da legionella. 
- fazer descargas de pressão para evitar zonas de estagnação da água nas canalizações;
- quando a água falta por período prolongado não utilizar de imediato sem fazer o sistema funcionar no seu todo;

- nesses casos água deve correr por meia hora - tempo necessário para que morra - à temperatura mínima de 60º;
- o mesmo se aplica a períodos de inactividade do sistema (casa fechada, edifício encerrado para manutenção ou férias, outro) em que a temperatura da água se deve manter entre valores que dificultem a multiplicação destes microrganismos (água quente superior a 50ºC e água fria inferior a 20ºC)
- a temperatura da água fria deve ser inferior a 20º
- o dióxido de cloro  é o desinfectante mais aconselhado para eliminar a legionella porque actua na água e no biofilme, o habitat da bactéria.

Algumas notas sobre como prevenir a legionella no
s sistemas AVAC de ventilação ou climatização 

- Captações de ar novo devem ser localizadas e orientadas para evitar a entrada de aerossóis produzidos em torres de arrefecimento, chaminés, etc;
-ventilar com caudais de ar novo suficientes;
- dispor de acessos adequados aos componentes do sistema para a sua inspecção; 
-dispor de acessos adequados aos componentes do sistema para a sua inspecção, limpeza e reparação;
- instalar filtros adequados para controlar a entrada de partículas.
 Substitui-los atempadamente;
- evitar água estagnada sob os equipamentos de refrigeração, instalando drenos contínuos com sifão;
-reparar de imediato qualquer fuga de água em qualquer local (do sistema de AVAC ou do edifício)
- seleccionar humidificadores a vapor de água seco, em vez dos que usam água recirculada;

- manter a humidade relativa do ar interior abaixo de 70%, nos  espaços ocupados;

- estabelecer planos de manutenção que contemplem a inspecção, a  limpeza e a desinfecção dos diversos componentes do sistema – com especial atenção a humidificadores e a torres de arrefecimento.

As torres de arrefecimento das fábricas

Devido às condições existentes nas torres de arrefecimento, se não forem tomadas precauções adequadas podem-se desenvolver bactérias. Materiais orgânicos e outros detritos podem ficar acumulados nas torres pois estes equipamentos têm filtros de ar muito eficientes e movimentam grandes volumes de ar. Os materiais orgânicos depositados servem de fontes de nutrientes para o crescimento da Legionellae. Diversos biofilmes que podem suportar o crescimento da Leggionellae podem-se encontrar nas superfícies dos permutadores de calor e superfícies estruturais.

Dúvidas? Contacte a Linha Saúde 24 (808 242424)

Leituras avulsas na internet; Fonte principal: Doença dos Legionários Guia Prático - Direcção-Geral da Saúde- Direcção-Geral do Turismo - Lisboa 2001


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