11/11/14

Fui ver Interstellar




Um destes dias o meu sobrinho disse-me algo chocante, disse que estão a estudar o sistema solar e os planetas na escola, e que ele acha tudo isso uma seca! Eu sempre achei tudo isso muito fascinante. Tenho livros de astronomia que pedi aos meus pais de prenda quando era da idade dele. Mostrei-lhos e ele torceu o nariz. Não sai à tia. Mas tu e eu vemos tantos filmes de ficção científica, filmes sobre o espaço, com planetas e galáxias! – disse-lhe, muito pesarosa. –Pois é tia, mas isso não é a mesma coisa, -respondeu-me ele. Pois, lá nisso ele tem absoluta razão, ficção científica não é ciência. Isto vem a propósito de Interstellar, já andam por aí a arrasar o filme por maltratar a ciência. A minha bagagem científica não é grande, é alguma, muito básica. Assisto a este tipo de filmes sobretudo pelo entretenimento, não pela lição de ciência. Se quero ciência vejo um documentário ou leio um livro. Ou me divirto ou desmonto o filme cientificamente. Se não aceito as regras do jogo, não posso jogar. Evidente que existem erros que são atentados à inteligência. Mas convivo bem com alguma boa margem de erro e sobretudo tento aproveitar o espectáculo o melhor possível.

Christopher Nolan habituou-nos a filmes desafiantes, contou uma história do fim para o princípio em Memento, brincou com a mente e o poder dos sonhos em Inception, elevou o super-herói Batman aos céus do estrelato. Em Interstellar viaja no tempo usando um “buraco de verme” e o bilhete da viagem paga-se com amor filial, dor e sacrifício. Usou o 2001:uma odisseia no espaço como matriz visual – e pessoalmente gostava que tivesse vertido mais disso para o ecrã - mas insuflou-lhe um melodrama familiar, aproximou-se assim de Spielberg, que se terá desinteressado deste projecto, preferia que tivesse gravitado menos em torno deste, mas gostei que se tivesse lembrado de John Ford.
Nesta espécie de prólogo de Interstellar a questão que nos ocorre é que planeta iremos deixar para os nossos filhos. A humanidade não tem futuro. O campo de sonhos americano está transformado num pesadelo, as culturas a serem devoradas pelas pragas e engolidas pelo pó. A nossa espécie está condenada a morrer pela fome ou pela asfixia quando o oxigénio se esgotar. A ausência de um marco temporal específico é interessante – sabemos que isto é o futuro, mas não sabemos quando. Somos inquietados pela dúvida ao mesmo tempo que a similitude das casas, veículos e vestuário nos faz sentir ainda mais próximos daquele desastre. É como se o fim da humanidade estivesse para breve.

Nesse futuro sombrio parte das conquistas da humanidade foram abandonadas em nome da necessidade primeira: alimentar as pessoas. O mundo regrediu, o investimento é feito não em tecnologia e antes na agricultura, não na formação de cientistas mas de agricultores. Cooper, um engenheiro e piloto de testes à força convertido em agricultor– Mathew McConaughey em boa forma, novamente - diz que o homem deixou de olhar para as estrelas e sonhar para agora vaguear no lixo. A NASA é uma organização a laborar na clandestinidade pois as pessoas não admitiriam gastar dinheiro com a conquista do espaço. Em vésperas de apocalipse, o problema para o génio da NASA, o professor Brand, é levar para o espaço a sua arca de Noé, fazer um êxodo intergalático, coisa que o campo gravitacional da Terra não viabiliza. Outro plano possível é mandar astronautas para o espaço, pioneiros, exploradores capazes de encontrar um planeta onde a vida seja viável e proceder à sua colonização. E é assim que Cooper irá ter possibilidade de largar a agricultura e voltar a voar. A forma como isso acontece pode parecer algo sobrenatural, mas no final do filme ganha melhor sentido. Como já sabemos, com Nolan temos de esperar até ao The end para perceber tudo...ou nada perceber.

Entramos depois no tempo da aventura. A viagem no espaço é visualmente esplendorosa, os ambientes planetários revelados, o “buraco de verme”, o buraco negro, é tudo surpreendente e de uma dimensão capaz de arrebatar o mais avesso a estes espectáculos - por favor, procurem uma sala Imax perto de vós, valerá a pena. A simplicidade dos equipamentos 
cria uma sensação de familiaridade no espectador e acentua a fragilidade da missão perante o desconhecido e as forças em teste. Os fatos dos astronautas de desenho fortemente ancorado quer em filmes de ficção científica anteriores, quer inclusivamente nos utilizados pela NASA, ou mesmo a nave Endurance a girar sobre si mesma, os seus blocos constituintes podendo ser utilizados para criar habitáculos na superfície de um planeta, está a anos luz da estranha"nave ferradura" de Prometheus. As manobras, os comandos, a rotina no interior da nave surgem-nos como bastante reais, próximos duma Appolo 13. Não existem artifícios milagrosos para superar os momentos de perigo, o suspense decorre de forma natural da incerteza e dificuldades inerentes à missão, a tónica é colocada no forte realismo.

Mas é sobretudo a viagem no tempo que é fantástica. A forma como Nolan usa o tempo para contar a história e criar episódios e reviravoltas na mesma, é, para mim, onde reside a magia e o engenho de Interstellar. Não que seja uma novidade mas este filme faz um uso incrível desta possibilidade, criando momentos surpreendentes em torno do fenómeno da dilação temporal, o abrandamento do tempo dos que estão perto de uma fonte gravitacional. Einstein falou disso mas não conseguiu fazer a prova. Hoje, experimentalmente, consegue-se. Muitos livros e filmes de ficção científica o referem, não é novo. Interstellar baseia-se nas teorias do físico Kip Thorn. Em termos simples, a nossa compreensão da distância é baseada em 3 dimensões. Mas a teoria científica sugere que o espaço é um lugar onde as dimensões comunicam entre si. Não está ao nosso alcance, no presente, manipular essas dimensões. Mas no futuro isso poderá ser possível. Uma diferente compreensão das leis do universo poderá desbloquear a 4º e a 5º dimensão. Quem dominar a 5º dimensão pode circular entre o presente, o passado e o futuro. Uma força como a gravidade pode percorrer as várias dimensões e é assim que a gravidade se torna a chave da percepção de tudo o que acontece em Interstellar. Do lado de cá de um “buraco de verme” o tempo avança mais devagar do que do lado oposto. Observamos depois que o buraco negro produz uma anomalia gravitacional no primeiro planeta que os astronautas visitam, mas que no segundo se reduz em virtude de estar mais distante do campo gravitacional. Ou seja, enquanto Cooper está no espaço e na superfície de um certo planeta, o relógio corre tão devagar que na nave onde o aguarda o colega e o computador Tars, já se passaram 23 anos. Na Terra o filho cresceu, casou, teve um filho, o filho morreu. Eu sei que os spoilers são uma praga para quem tenciona ver o filme, mas ler e ver são coisas diferentes, acreditem.

Preparem-se para o deleite visual mas também para close-ups de lágrimas sem fim. Não é habitual termos um melodrama familiar tão implicado no género científico. Mas estamos perante pessoas e não máquinas, e neste filme até nas máquinas incutimos características humanas: TARS tem sentido de humor! As personagens de Interstellar são homens e mulheres, não super-heróis de plástico e por isso há muito sofrimento e angústia a atravessar este filme onde o poder dos laços familiares é testado como não há memória. Os astronautas são sugados pelo desconhecido, mergulhados na noite e no silêncio, - e nós com eles - separados de tudo o que lhes é familiar:  sentimentos, pessoas, lar, planeta mãe. Se isto não é uma espécie de morte, é algo próximo. À luz desta ideia parece até perfeito que a filha de Cooper afirme que existe um fantasma no seu quarto que tenta comunicar com ela numa linguagem morta, o código morse.  E não vou explicitar para não estragar a surpresa.

O filme viaja no mistério das emoções humanas tanto como nos mistérios do universo. Uma das primeiras cenas marcantes do filme é a partida de Cooper no seu camião. Para mim esse momento é a chave para descodificar toda a componente emocional presente em Interstellar. Vemos a casa a sumir-se na retaguarda, ouvimos a contagem decrescente para o lançamento da nave, Cooper ao volante, olhos rasos de água. Que outro sentido para o poema de Dylan Thomas?“Rage, rage against the dying of the light”, não é acerca da extinção da humanidade, é sobre o fim de cada um de nós. Não aceitar a morte é, antes de tudo viver com amor, com fé, com esperança até ao último minuto, é esse o leque de emoções que nos torna seres únicos e capazes de feitos excepcionais, como por exemplo partir para o desconhecido, (morrer) e ressuscitar (regressar) 
para cumprir a promessa que se fez a uma filha. E é neste ponto que Interstellar mais surpreende ao mobilizar-nos para  a ideia muito pouco científica de que o amor pode transcender todas as dimensões. Por isso amamos os mortos. E assim foi, de facto, quase três horas depois dos campos de milho, das tempestades de pó, e das lágrimas da partida, o amor filial foi a chave para a abrir a caixinha última onde se guardava a fórmula para salvar a humanidade. Ah, outra coisa: esqueçam os extra-terrestres, esqueçam Deus, nós damos vida ao universo, somos nós, não há nada mais lá fora.

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