10/23/14

Renée Zellwegger, o drama, o horror, a tragédia


Ontem não se passava nada de interessante no mundo e os jornalistas, coitados, fizeram render o que havia na passadeira vermelha-era a Renée, de cara lavada. E num dia a cara da Renée anda nas bocas do mundo e no dia seguinte continua no mundo das bocas. Mas se ontem era o drama, o horror, a tragédia, hoje faz-se a defesa da actriz, que também já veio justificar-se e dizer que "está diferente porque está feliz", qualquer coisa assim. Renée acaba de obter mais visibilidade online pela sua "nova cara" do que pela sua participação na maioria de seus filmes mais recentes. Eu já nem me lembrava dela. Rom-coms não são o meu prato forte, nunca a considerei muito especial. Pareceu-me estranha tanta movimentação!Mas talvez eu esteja errada, talvez Zelwegger seja mais popular do que eu imaginava. Popular mas não muito querida, a avaliar pelo tom dos comentários que inundaram a rede.  


Zellweger apareceu esta semana numa festança da revista Elle visivelmente diferente do que a maioria de nós se lembrava. Talvez a pressão Hollywoodesca a tenha forçado a ir à faca e ao botox, - qual é a novidade?! A intervenção plástica parece não ter corrido bem. Parece. Mas talvez o tempo apenas tenha passado, a idade deixa a sua marca e não há faca nem botox que ajudem!  Zellweger é agora uma mulher com quase 50 anos e isso, em termos de trabalho no cinema, é quase igual a estar morto. O cinema americano não é para velhas. E a velhice começa aos trinta, ou menos, cada vez menos. Não há papéis de velhas, papéis decentes, e quando há chamam as veteranas da velhice em beleza, as rainhas das plásticas ou as abençoadas pela herança genética, a sorte do destino, e, concomitantemente, pelo estatuto estelar entretanto adquirido. Mas afinal o valor da sua cara não reside sobretudo na capacidade plástica de assumir uma personagem? E quem nos diz que não vai ser com esta cara que Renée fará ainda a interpretação da sua vida? 

À estranha comoção geral também deve ter ajudado o facto da maioria de nós ter congelada na cabeçorra a imagem da Rennée protagonizando a desajeitada e roliça Bridget Jones. Notem bem: já passaram 13 anos. Que outros filmes dela vimos entretanto? Por caso eu congelei na Roxie Hart. Devo ter sido a única que ficou menos chocada com a "cara nova" da Renée do que com o corpo que ela estreou em Chicago, o filme de 2002: um ano depois de ter sido a Bridget do Diário ela apareceu em Chicago transformada numa elegante estrela, a cantar e a dançar, leve como uma borboleta. Não cesso de me chocar com este tipo de transformação física que os actores e actrizes abraçam estoicamente para defenderem os seus papéis. Eu que por duas vezes já perdi e ganhei peso de tal forma que fiquei sem roupa para vestir, não gostei nada de passar por nenhuma das duas experiências. Evidentemente que eu não estava a ser paga a peso de ouro para me alimentar de hambúrgueres, ou então a alface borrifada com água, como estas actrizes e actores, mas, ainda que seja ónus da profissão, admiro o esforço. O ano passado foi a barriga do Irving Rosenfeld/Christian Baile em American Hustle, por exemplo, embora o actor até já nos tenha brindado com muito mais tranformações-choque, eu acreditei até prova em contrário...que era uma prótese! 

Bom, tudo isto para concluir o quê? Que a malta perdeu as estribeiras, a começar nos "jornalistas" e a acabar no público em geral, cinéfilo ou não, e refiro-me sobretudo ao norte-americano, que debitou autênticas pérolas negras no Twitter. Sem qualquer pudor, transformaram a Renée numa autêntica personagem do Halloween, uma mulher de meter medo ao susto.  Actualmente o estatuto de figura pública ou celebridade tornou-se um passaporte para o enxovalho fácil. Se vão à faca e corre bem ou menos mal é porque são uns loucos que perseguem a juventude eterna, se corre mal, é o arraso. Se não vão à faca estão acabados, pois, evidentemente, a indústria  e o público nega-lhes o direito a envelhecer, ou seja, a ser pessoa. Para os media da especialidade essa gente há muito tempo que deixou de ser gente, no ecrã são personagens, cá fora são meros "bikini bodies" no verão ou cabides de alta costura nas passadeiras vermelhas. Quem anda à chuva, molha-se, dir-me-ão. Faz parte. Ser comentado por emagrecer ou engordar, estar mais velho, seria até natural. Afinal não é mais do que nós, os comuns mortais, fazemos uns aos outros, no dia-a-dia. Renée, porém, pisou o risco, a maioria clama que ela fez uma espécie de Face off, isto é, mudou de cara. E isto é uma anormalidade que os nossos cérebros não estão a conseguir processar. A Renée já não é a Renée. E então vamos ser rudes até mais não, pode ser que ela vá falar com o cirurgião e lhe peça para voltar a ser como as pessoas gostavam que ela fosse, isto é, como ela era há 13 anos!!!!! Ver grandes jornais(?) a dissecarem a cara da Renée em longos artigos faz a minha pele encarquilhar, sério. Já ganhei mais rugas só à conta disso. É o "assunto WTF da semana", como se diz agora. 



Enfim, esta obsessão da imprensa com o aspecto físico das estrelas é grotesca e nós cá estamos para ajudar a perpetuar o fenómeno. Uma das piores coisinhas que a internet trouxe foi esta possibilidade de teclarmos por aí fora sem qualquer guarda, exacto, a internet devia ter um anjinho da guarda que nos impedisse de fazer figurinhas ridículas tantas vezes, eu inclusive. (Embora batalhe contra isso.) É como se tivéssemos sido acometidos de uma valente dor de barriga e a soltura das fezes se impusesse com violência incontrolável. Estancar a nossa opinião dói, refreá-la é insuportável, adiá-la, impossível.Teclemos pois até se apagarem as impressões digitais dos nossos dedos, mas não nos impeçam de dizer tudo, tudo, ou sufocaremos entalados nos nossos comentários. Como é que dantes conseguíamos viver com tanta opinião por confessar ao mundo? Devia ser cá um fogo nas entranhas, um rodízio de massa cinzenta por sossegar! Somos uns brutos e, mais, gostamos mesmo de o ser, aplaudimos esta reinação dos media com Likes e Shares, e quer seja para comentar o Excalibur-cão, o ministro ou o presidente, Jesus ou o islão, o travesti ou a bola, o pepino, o tremoço ou a Rennée, quanto mais brutos, melhor. Quem é bruto é popular. Por exemplo, eu não tenho graça nenhuma. É a vida.

...e depois veio o Russel e tirou-me as palavras da boca!


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