11/30/13

Querem fazer de nós burros!

Como muitos de nós eu tenho conta no Facebook. Em certas ocasiões a gente começa a ver partilhas na timeline quase em modo automático. As pessoas nem tecem considerações, limitam-se a partilhar. Por regra é qualquer coisa que dispensa explicações. Ontem li um título - Portugueses comparados com burro mirandês - numa dessas partilhas. Pensei, ora bolas, agora até nos comparam com burros, isto está bonito. Mas eu gosto de burros e em especial desta raça de burros. À partida não seria nada de muito mau, antes isso que compararem-nos com preguiças, aqueles pachorrentos animais dos trópicos, em sintonia com aquela imagem que colaram ao povo Grego, todos uma grande cambada de preguiçosos, povos do sul da Europa, o que nós queremos é sol e festas em honra de Baco! 

Título: o Jornal Expresso colocou a tónica no burro mirandês...


Já o Correio da Manhã preferiu colocar a tónica na comparação entre
portugueses e burros.


O Jornal de Notícias também não falhou "a metáfora". 


O dia passou e ao fim da tarde fui ver o que era afinal aquilo.  A essa hora já havia muitos comentários de gente irritada. Eu penso que os jornalistas online fazem isto de propósito apenas para terem com que se rir nas horas mortas em que nada acontece neste país de burros. Senão, leiam alguns dos comentários: 

"A situação de Portugal é péssima, melhorias nem vê-las, mas tanto a fotografia de capa, como a comparação é inaceitável. Era de bom gosto um pedido de desculpas de Obama a Portugal."

"O jornalista esquece-se ou não se lembra que os portugueses são de Portugal e os burros são de toda a parte do mundo, OK?"


"Portugueses, não percam tempo a ficar indignados com este artigo... são apenas vozes de burros."

"Não se preocupem! «Isto» faz parte do plano pra desmoralizar e mais desorientar os poortugueses do que aquilo que já estão. Eles «chamam-nos» de burros mas juntos seremos capazes de lhes dar um «coice»? Vamos a isso?"

"Pois é! Mas as esta gente esquece que se nao era o portugues eles nem existiam. Antes se o serem ja o éramos."

"Este jornalista fez mesmo figura de burro, o que não é de admirar já que a cultura geral dos Americanos deixa muito a desejar. Na Europa existem programas de ajuda a espécies ameaçadas de extinção como por ex. o Lince Ibérico e outras. Os Portugueses não vivem de subsídios, os Portugueses trabalham. Na Europa existe um programa de subsídios para melhorar a integração de países mais pobres, em áreas especificas, como a agricultura as pescas, etc.Este jornalista, em vez de se preocupar com o burro mirandês, devia estar preocupado com a falência de algumas cidades Americanas, ou com a exploração infantil ou o trabalho escravo das multinacionais do seu país."

"Senhor jornalista, permita-me que o considere um imberbe comandante de uma cáfila sem ideias num projecto jornalístico de opinião(?)O burro sabe mais do que o senhor pensa v,g, sabe parar e avançar quando muito bem quer e o senhor não soube parar na sua ironia pálida de quem se julga capaz de interpretar o burro - estude...Por não valer a pena perder tempo com quem escreve (neste caso) com pouco saber... Não gasto mais cera com fraco defunto."

"Pelo menos aqui em Portugal um burro não consegue chegar a presidente."

Eu comecei por examinar os títulos. Vamos então a títulos usados pelo NY Times, na edição europeia: Hard Times for a Small (and Fuzzy) Group of Europeans - PARADELA, Portugal — It’s not easy being a donkey today. Ou seja, Tempos difíceis para um pequeno (e peludo) grupo de Europeus. Paradela, Portugal - Não é fácil ser um burro, hoje. 

Na edição em papel, lê-se "In Portugal, a beast of burden lives on subsidies - Latest threat to survival for endangered donkey may be E.U. budget cuts. Isto é: Em Portugal, um animal de carga vive de subsídios. - A última ameaça à sobrevivência do ameaçado burro poderá ser o corte orçamental da União Europeia.


E quanto ao contundente(!) parágrafo que está na origem desta história, lê-se no  artigo do NY Times   que "After decades of neglect and, some argue, misunderstanding, the fate of the donkey has come to resemble that of its human counterparts in hard-pressed European hinterlands: threatened by declining population and dependent for its survival on, yes, subsidies from the European Union." ie, segundo eu entendo," Depois de décadas de negligência e, argumentam alguns, mal-entendidos, o destino do burro começou a assemelhar-se ao dos seus parceiros humanos nas remotas zonas europeias em dificuldades: ameaçadas pelo declínio da população e dependentes para a sua sobrevivência, sim, dos subsídios da União Europeia." 

Devo ser burra. Li e reli o texto e não percebi porque razão quiseram os nossos jornalistas levantar esta mosca, "a metáfora!" Raphael Minder escreveu sobre o  declínio do burro mirandês - uma raça que serviu tão bem os portugueses, diz ele, no trabalho do campo e de carga, está ameaçada pela mecanização da agricultura, pelo êxodo rural que dita que os mais jovens tenham deixado as terras e que os mais velhos estejam demasiado velhos para cuidar dos animais. Em cima de queda, coice, diria a minha avó. Ou, por outras palavras, um mal nunca vem só. Mais recentemente os nossos burros estão ameaçados pelos cortes nos fundos europeus, sendo que são eles que garantem actualmente a sua sobrevivência. Carinhosamente o jornalista até os intitula de "fuzzy Europeans" mas até já li alguém dizer que isto era uma afronta!! "Fuzzy" apenas significa "coberto de pelo" e dar ao burrinho mais lindo do mundo um estatuto europeu até seria um privilégio se isso agora, mercê da austeridade em que estamos mergulhados, não significasse antes uma desvantagem. No entanto são os fundos europeus que têm pago os esforços de quem tenta conservar a espécie, isso ele também refere neste artigo. Cita também as palavras de Javier Navas, segundo este veterinário os agricultores mantêm os burros por amor e não por causa dos subsídios. Digam lá se este pormenor não aquece o coração de qualquer leitor. O texto também encerra um forte alerta acerca do risco de extinção dos burros em Portugal e no mundo. Menciona ainda o estúpido preconceito que as pessoas (ainda) têm contra o burro considerando-o como o animal dos pobres e o mais idiota dos animais. Esta imagem terá até sido responsável pelo afastamento da atenção da generalidade dos cientistas sobre a  espécie. 

É afinal um português, o presidente da Câmara de Paradela e Ifanes, quem acaba por ser realmente contundente ao dizer que os subsídios recebidos tornaram as pessoas dependentes deles, avessas ao espírito de inovação, ao desejo de modernização ou aumento da produtividade. Além disso, o artigo ainda menciona o renovado interesse dos jovens pela vida rural, mesmo a encerrar, o que não deixa de ser um motivo de orgulho para quem preza a terra, como eu.

Ou seja, mais uma vez, obrigada comunicação social, prestam um grande serviço ao povo. Isto tem alguma justificação? Os jornalistas deviam informar-nos e não fabricar histórias dentro de histórias, sobretudo quando o resultado não é nada edificante. As pessoas, muitas não leram o texto do NY Times, nem tinham de ler, ninguém tem de saber inglês. Pelos vistos os jornalistas também não sabem, nem inglês, nem como ser jornalistas. A malta reagiu contra o jornalista americano e daí até à generalização habitual foi um instante, viva a verborreia anti-americana, e  a culpa disso nem pertence aos comentadores que aí foram conduzidos por um título que distorceu todo o conteúdo de um texto, no seu todo, pleno de interesse.

Mas a história não acabou aqui. O bom jornalismo continuou em força.  Um jornalista do Público contactou o jornal americano para lhe perguntar "se a sua  intenção era ou não fazer uma comparação entre a extinção do burro mirandês e o interior do país." Raphael Minder, correspondente do jornal norte-americano em Portugal e Espanha, respondeu que isso seria absurdo. Mas é claro. O que é que ele havia de ter respondido? Disse também que recebera diversas mensagens de portugueses descontentes. Viva a burrice!

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