2/4/13

Seis sessões - vamos falar de sexo!



Histórias de pessoas com deficiência populam o cinema. Deficiência mental ou física. Umas mais realistas, outras menos. Interpretadas por Dustin Hoffman em Encontro de irmãos, Shean Penn em I am Sam. Caprio em What's eating Gilbert Grape? Sam Worthington em Avatar. Também animais, Winter, em A Dolphin's tale. E até um dragão animado - Toothless, em Como treinar o teu dragão! Algumas destas histórias são sobre a vida de pessoas em situações limite, pessoas para quem o seu corpo se tornou uma armadilha, um cárcere, caso de  Mar adentro, de Amenabar, ou O escafandro e a borboleta, de Schnabel. Assim é Seis sessões embora não se possa comparar com estes, o seu tom é mais carinhoso, menos sério, é uma comédia dramática, um drama cómico, é, sem dúvida, mais sobre sexo do que sobre deficiência. E encara-o com uma naturalidade, uma honestidade e simplicidade raras no cinema norte-americano, nesse aspecto fez-me lembrar de Sexo, mentiras e video, o primeiro êxito de Soderbergh.

Quando li a sinopse de Seis sessões lembrei-me de O meu pé esquerdo, com Daniel Day Lewis. O filme também é baseado em factos reais, segue o livro com o mesmo nome escrito por Christy Brown, um escritor e artista irlandês, diagnosticado com paralisia cerebral à nascença. Com a ajuda da mãe ele aprendeu a escrever e a pintar com o único membro do seu corpo que conseguia controlar - o seu pé esquerdo. A sua história tem contornos de milagre, de tão incrível que é. Os actores, Daniel Day Lewis e Brenda Fricker, que interpreta o papel da mãe de Christy, foram nomeados para o Óscar e levaram as estatuetas consigo. No final dos anos 80 eu via cinema todas as semanas e se possível tentava ver todas as fitas nomeadas antes da cerimónia da sua entrega. Mas O meu pé esquerdo ficou para anos depois e só o vi quando passou na televisão. Nem sempre tinha estofo emocional para ser confrontada com as manipulações emocionais que muitos realizadores fazem destas histórias. Mas O meu pé esquerdo é um filme a não perder. Em vez de nos ensopar a face em lágrimas ou de nos abafar o coração com o sofrimento do protagonista, o filme de Jim Sheridan entretém- nos com inteligência e humor, celebrando a vitória de Christy Brown sobre a sua incapacidade, a descoberta da sua vocação artística, o seu desejo de amor e de apreço pela vida, a impressão que fica é a de um ser extraordinário e forte, não uma criatura inadaptada e frágil. Escrevo de memória, passaram-se anos sobre a noite em que vi este filme, mas aconselho aos leitores cinéfilos mais jovens deste blogue, sem hesitações. 

Seis sessões tem como ponto de partida o artigo "On Seeing a Sex Surrogate", escrito por Marc O'Brien, para o jornal "The Sun", nos anos 90. É um filme simples mas seguro, realizado com economia narrativa e uma eficácia extremas. Não é um filme excepcional, é um bom filme sobre um homem que gosta de mulheres e que deseja que as mulheres gostem dele. Seria talvez um filme imensamente constrangedor não fossem os  diálogos inspirados e as interpretações fantásticas dos protagonistas, Helen Hunt, a terapeuta sexual, e John Hawkes, papel do poeta e jornalista de 38 anos que se prepara para a sua primeira experiência sexual, mesmo se dorme num "pulmão de aço" durante a noite para poder respirar, e se não deixa a cama/maca em nenhum momento do dia, porque está completamente paralisado. A eles junta-se William H. Macy enquanto padre, amigo e conselheiro nesta aventura. Bonito, inteligente, culto e bem humorado, este homem que vive num tubo de ferro, é dependente da ajuda de terceiros para tudo, tudo mesmo, desde a sua higiene até à compra de roupa. Mas não prescindirá nem da sua vaidade pessoal, -é levado até à loja vintage para escolher uma camisa bonita- nem de viver os seus sonhos, nem que para tanto tenha de questionar as regras da sociedade, os limites morais da religião em que foi educado, e os seus próprios  limites físicos, indo ao encontro da felicidade, que, efectivamente, o aguarda, premiando  a sua persistência e a sua ousadia.

Ver este filme não nos dobra o espírito em quatro mas faz-nos questionar a forma como encaramos a vida.  Alguns dos nossos queixumes diários parecerão até miseráveis. Que  vergonha sentir que viver nos suga o ar dos pulmões. Afinal somos, na maioria, indivíduos funcionais e autónomos, bem aparelhados para a vida, no pleno domínio das nossas faculdades. Mas quantos dias nos sentimos amassados pelo peso de existir como se a vida fosse uma prisão! Presos nos seus corpos estiveram afinal Marc e Christy, Marc durante cerca de 50 anos, Christy durante mais alguns, creio, e isso não os impediu de fazer das suas debilidades uma vitória. E nós que somos donos e senhores do nosso corpo, da nossa mente,  não raras vezes respiramos apenas insatisfação, frustração e angústia por todos os poros, não conseguimos gerir satisfatoriamente a nossa liberdade, incapacitados até para definir o nosso futuro. Caso então para perguntar quem é que afinal é deficiente.

Mais sobre Mark O'Brian
Breathing Lessons: The life and work of Marc O'Brian - Pequeno documentário premiado sobre o poeta e jornalista Marc O'Brian que lutou contra a sua doença, a burocracia e a percepção que a sociedade tem da incapacidade física das pessoas com deficiência. Atreveu-se a perguntar o que torna a vida digna de ser vivida.
How I Became a Human Being: A Disabled Man's Quest for Independence (Wisconsin Studies in Autobiography) - Neste livro autobiográfico, O'Brien descreve como foi crescer sem o uso de seus membros, após ter acordado do coma, aos seis anos, vítima de polio. Descreve a sua adolescência lutadora, a reabilitação física, o sofrimento, a burocracia de hospitais e instituições. Continua traçando o seu percurso pela vida adulta como um estudante independente e escritor. Apesar de suas limitações físicas, O'Brien produziu uma narrativa rica à semelhança da forma positiva e esperançosa como encarava a vida.
On seeing a surrogate - The sun - O artigo publicado por Marc no The Sun  e que deu origem ao filme.

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