1/13/13

Cloud Atlas é muito filme





Hoje à noite atribuem os Globos de Ouro em Los Angeles. Cloud Atlas não está na lista e isso não me surpreende. Vulgarmente pensamos Atlas e imaginamos logo um colosso que suporta uma esfera às suas costas, o planeta ou o universo. Cloud Atlas é um filme colosso porque conseguiu transformar o romance de David Mitchell em imagens. Imagino um daqueles livros que nos engolem inteiros e que a cada página nos exige toda a capacidade da nossa  musculatura cerebral.Tenho os meus limites e não me apetece ter a minha cabeça triturada por tamanha engenharia - seis histórias, seis estilos, espaços e tempos diferentes, ao longo de cinco séculos, Cloud Atlas é uma odisseia, algo que vai do ano 1849 até 2346. Só que o livro segue uma ordem cronológica e o filme, bom, o filme é um mosaico difícil de explicar por palavras. É algo para ver e sentir à maneira de cada um, o mais despreocupadamente possível...ou não conseguirão apreciar o espectáculo e é de espectáculo que se trata.
Logo em Dezembro, a revista Time  tinha agoirado Cloud Atlas, colocando-o no topo da lista dos piores filmes do ano. Estas listas metem-se pelos olhos dentro como pulga por costura e fazem ninho. Eu não me esqueci daquela nódoa, fiquei intrigada. Mas assim como sei que é impossível agradar a gregos e troianos sei também que a  unanimidade, as mais das vezes, pode apenas significar fastio. Não há que dar muita importância a estas cenas, isto de opinar sobre filmes está longe de ser uma ciência. E, além do mais, o  que queremos nós de um filme - uma boa história? Um bom espectáculo visual? E de que forma o vemos? De uma forma mais cerebral, mais emocional? E como o vemos? De bom humor ou de mal com a vida? A nossa experiência de ver um filme não é estanque, comunica com muitos dados, não é pura, não é mecânica, e por isso eu não costumo gostar de rever as fitas, creio que a melhor impressão é a primeira impressão, é a experiência irrepetível, é essa que eu quero guardar. Mas há filmes que revi e de que apenas comecei a gostar no segundo visionamento, o que só prova a relatividade de todo este universo. Ainda assim tenho de concordar: Cloud Atlas não é fácil, é um colosso tão mais difícil de abarcar quanto mais minuciosos quisermos ser a dissecar os seus meandros.
Cloud Atlas dura cerca de três horas mas é incrivelmente agradável de seguir. Sei que  fará adormecer o rabiote a muito boa gente mas essa dormência será a única que vão sentir, pois garanto que o filme não deixará o vosso cérebro entorpecer.  O filme leva-nos numa viagem, faz-nos andar para a frente e para trás no tempo, e isso tanto pode ser delirante para uns como muito aborrecido para outros. Mas os ambientes são notavelmente bem recreados e nunca nos sentimos perdidos. Num momento estamos a bordo de um navio de velas a atravessar o oceano Pacífico na companhia de marinheiros no século XIX, noutro imediatamente a seguir estamos dentro de um bólide numa auto-estrada magnética na futurista Neo-Seul no séc. XXII. Tão depressa  acompanhamos o drama amoroso de um compositor como sorrimos da loucura dos idosos em fuga de um lar. Além disso os actores dão o seu melhor - e há desde nomes consagrados a quase desconhecidos, Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Susan Sarandon , Hugh Grant, Keith David, Jim Sturgess, Doona Bae, Hugo Weaving, Ben Wishaw, James D'Arcy, - desdobram-se em múltiplos papéis e damos por nós a tentar adivinhar quem são eles. Há mudança de idade, de sexo, de raça, de sotaque! Algumas das caracterizações não são completamente bem conseguidas, todavia, este jogo, mais uma vez, um elemento divertido do filme para uns, não passará de uma palhaçada para outros. 
Para mim este é um filme de entretenimento, mesmo se se propõe abordar questões ditas grandes ou quase filosóficas. Estamos todos ligados? Isso até já parece um motto de uma qualquer rede de comunicações móveis! No início de Cloud Atlas eu dei por mim completamente perdida. Então resolvi confiar que mais à frente as peças iriam encaixar e começar a fazer sentido. E assim é, à medida que o filme progride, começa a ser mais inteligível na sua ambição de abordar temas incríveis como a migração das almas ou talvez, mais simplesmente, o destino da raça humana. O desejo de um futuro melhor, de paz, de liberdade, de justiça, sempre comandará os seres independentemente do seu espaço e tempo, animando-os e levando-os a superar-se e a fazer avançar o conturbado destino da humanidade. Essa é a natureza verdadeira da alma humana que se revela através das escolhas que fazemos. Mais perto do final eu estava menos empolgada do que no início mas tinha assistido ao desenrolar das seis histórias e apreciado sobretudo a montagem hercúlea que permite a Cloud Atlas funcionar. Os irmãos Wachowski  ficaram com o encargo de três das histórias e Tom Tykwer com as restantes, mas não sei bem quais.  É impossível não pasmar ante o trabalho a que se deram para filmar este livro. Isso é inquestionável. Individualmente as histórias talvez não sejam extraordinárias, mas ao serem entrelaçadas ganham uma nova dimensão, acreditem. Ver Cloud Atlas equivale a ver seis filmes diferentes numa sessão! Haverá quem não aguente, é tão simples como isto! Todavia não é a soma das histórias que importa, é, de facto, a forma como se comunicam entre si que faz do filme a experiência invulgar que é. Numa dessas histórias assistimos ao caso de um embarcado, um jovem advogado que atravessa o Pacífico depois de ter estado nas Ilhas Chatham para concluir um negócio que envolve escravos e ouro.  Ele está doente e a ser tratado por um médico que o quer envenenar para se apoderar do seu ouro. Acaba por ser salvo por um escravo e torna-se abolicionista, chocando a sua família, no regresso aos EUA. Noutra, no início do séc. XX, um jovem e talentoso compositor deixa o amante em Cambridge e vai procurar a atmosfera perfeita para crescer profissionalmente, acabando a trabalhar com um velho e temperamental compositor, que  se recusa a reconhecer o seu talento. Ele, que nunca deixa de escrever ao seu  amante, acabará por se suicidar depois de compor uma única obra prima a que dá o nome de Cloud Atlas Sextet. Nos anos 70, outra história, a de uma jornalista que descobre uma catástrofe nuclear está eminente, pelo que acaba por ser perseguida pelos homens sem escrúpulos que comandam a empresa. No tempo presente, 2012, na Inglaterra, um editor é internado num lar da terceira idade pelo seu irmão e acaba por fugir dali algo heroicamente com mais um grupo de idosos. No futuro, numa sociedade totalitária, assistimos à vida opressiva de uma clone de nome Sonmi, que trabalha num restaurante de fast-food,  mas que se irá tornar no símbolo de uma revolução e de esperança. Mais adiante no tempo, numa era pós-apocalipse, um pastor que vive numa comunidade rural ameaçada por canibais, vai ajudar uma mulher de uma comunidade mais avançada a salvar os últimos da sua espécie já que o mundo parece  já não ter salvação. 
Não me imagino a incluir Cloud Atlas numa lista dos piores filmes de sempre mas percebo que não obtenha unanimidade suficiente para alcançar Óscares e Globos de Ouro. E isso importa alguma coisa? Acho que não. A nossa experiência na sala de cinema é melhor só porque o filme ganhou Óscares? Não o creio. Penso revê-lo para decifrar mais daquilo que contém e se propõe, e, também porque é uma boa experiência cinematográfica. Quase me esquecia de mencionar a excelente banda sonora!! Todavia percebo que o filme suscite reações opostas de paixão e repúdio, desde logo ele junta comédia, ficção científica e melodrama em três horas de metragem e apenas isso pode já ser demais para alguns. 

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