4/9/12

Quem salva a caravela Boa Esperança?





Eis a história sumária de três irmãs. Em 1987/88 a APORVELA, com o apoio das Comunidades Portuguesas da África do Sul, construíu uma caravela a que deu o nome de Bartolomeu Dias para comemorar o V Centenário da passagem do Cabo da Boa Esperança (1488). Esta embarcação encontra-se actualmente em exposição no Museu dos Descobrimentos em Mossel Bay na África do Sul.  Outra caravela, a Vera Cruz, é utilizada para diversos fins pela APORVELA e está de boa saúde. A segunda caravela construída, de nome  Boa Esperança, pertence à Região de Turismo do Algarve. Lançada à água em Vila do Conde em Abril de 1990, a Boa Esperança é uma réplica tão aproximada quanto possível de um caravelão ou caravela quinhentista de dois mastros. Foi construída por  entendidos na construção naval em madeira, o mais possível de acordo com as regras de construção naval da época dos Descobrimentos, usando pinheiro bravo no forro, borda falsa, sobrequilha e mastros,  carvalho e sobro nas balizas, cambola no convés e tombadilho e eucalipto nas vergas. Possui dois mastros, um secundário no castelo de popa, e velas latinas que ostentam a cruz de Cristo. Tem pouco mais de 20 metros da popa à proa. Tinha objectivos nobres como possibilitar o treino de mar e vela, participar em provas, eventos náuticos e na investigação do comportamento e manobra das antigas caravelas. Mas desde o início do ano que leio notícias muito pouco nobres e esperançosas sobre o seu futuro. 
Se ficaram supreendidos com o meu encantamento com a barca Sagres aquando da sua visita à Figueira da Foz, fiquem sabendo que o meu carinho por embarcações de velas vem de longe. As fotos que vos mostro foram tiradas na Figueira da Foz quando a Boa Esperança passou por aqui há mais anos do que me lembro, talvez dez. Por isso saber que a Boa Esperança está a apodrecer na marina de Lagos não foi o que mais gostei de ler. Somos mesmo uns tristes, uns pobres, uns inaptos. Não sou por conservar símbolos por preservar, mas, que diabo, não conseguir rentabilizar um equipamento com tamanha carga simbólica e emocional, e ainda por cima construído com rigor técnico, causa-me perplexidade. A Entidade Regional de Turismo do Algarve dizia, numa das notícias que li, não ter meios para a sua manutenção perante os anunciados cortes. O presidente da ERTA, António Pina, fez-me lembrar o dono de um cão forçado a abandoná-lo no canil por ter sofrido cortes da sua magra pensão de reforma! Choroso, diz que tem afectos pelo barquinho, mas nem assim, nem a paixão lhe dá ideias. Caramba, o Algarve é onde fica Sagres, território da mítica escola náutica, que, quer tenha ou não existido, tanto faz. Aproveite-se a fama para explorar o filão. Se já não precisamos de caravelas para descobrir o mundo, não é no Algarve que tantos turistas hoje descobrem Portugal? Quando lá vou só ouço falar inglês, é irish pubs por aqui e por ali, ham and eggs para o pequeno almoço servido a cada esquina!! Nem assim é possível conseguir dinamizar esta embarcação onde eu vejo tanto potencial cultural e turístico? Então leve-se para Lisboa, coloque-se junto da Torre de Belém, dinamize-se o imaginário dos Descobrimentos! Lancem um concurso de ideias a nível nacional. Precisa-se menos coração e mais cabeça. São precisos 100-150.000 mil euros por ano, diz Pina. É dinheiro. A última vez que a caravela navegou foi há dois anos. Pois foi. Eu estava no Algarve, metida no mar com água pelo pescoço quando a vi passar lá ao longe e todas as pessoas ali à volta se entusiasmaram com essa visão! Substituam os tripulantes (20) por um motor se for caso disso, façam-na circular pela costa durante o Verão, cobrem visitas a pequenos e graúdos; desenhem merchandising apelativo e vendam-no! Façam dentro um restaurante e façam menus da época dos Descobrimentos e sirvam-nos. Sirvam-nos no convês, no porão, sirvam-nos cá fora, com a caravela a servir de cenário. Façam despedidas de solteiro à moda do séc. XV, façam, façam coisas,  puxem por essas cabeças como os homens puxavam pelas cordas para subir as velas! Se eles conseguiram ir longe, vocês também hão-de conseguir. Ou a austeridade deu-vos para poupar em neurónios além do dinheiro que não têm?! Ou são menos do que eles?!! Era só o que nos faltava. Deixemos então ir tudo ao fundo, não tarda nem Portugal há-de restar à tona! 
E, agora, a última notícia que li dá conta de que querem vender a Boa Esperança mas os compradores não querem uma caravela, querem uma pechincha, pelo que a ERTA não vende, vai pô-la a circular emparelhada com a nau espanhola Vitória numa qualquer divulgação dos Descobrimentos no âmbito de um qualquer projeto transfronteiriço Descubriter, que vai permitir dar uso à caravela para promover o Algarve, já está aprovado de acordo com o que disse Almeida Pires, vice-presidente da ERTA. A Esperança é a última coisa a morrer. Vamos esperar para ver se antes dela não morrerá esta caravela quinhentista num qualquer molhe esquecido ao sul.



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