4/24/12

Gatinhos para adoptar na Figueira da Foz - divulgue p.f.!




jmagnunes@gmail.com

4/22/12

No reservations - quando a TV é mesmo saborosa


Bourdain tornou-se popular após ter escrito Kitchen Confidential em 2000, um best-seller da lista do New York Times, onde ele escreve sobre aspectos menos conhecidos do mundo da culinária, temperando o relato com episódios da vida pessoal e profissional. Eu, que não dou um pé de salsa por obras sobre o tema, nunca descobriria o chef culinário se ele não tivesse dado o salto para  a televisão, igualmente com sucesso, apresentando o programa de aventuras culturais e culinárias Anthony Bourdain: No Reservations, no Travel Channel, que é uma espécie de reality show da culinária, ainda que bastante editado e cuidadosamente escrito e filmado. O carismático chef Anthony Bourdain não usa o tradicional barrete branco nem cozinha muito, passa cada episódio a visitar cidades e locais nos Estados Unidos, ou noutro qualquer local do globo, a ser recebido pelos locais, com quem  prova o sabor local não só da gastronomia mas também dos diversos ambientes.  
A série estreou em 2005 no Travel Channel, e seu formato e conteúdo é semelhante à série do mesmo Bourdain exibida em 2001 e 2002 pela Food Network, de nome A Cook's Tour. Espreitando o IMDB  vemos que está bem posicionada. Este ano o American Cinema Editors já atribuíu um Eddie ao episódio Haiti, a que pertence o primeiro dos videos que aqui partilho, o prémio de Best Edited Reality Series. Mas em 2011 o mesmo episódio já tinha sido premiado com um Emmy: Outstanding Cinematography for Nonfiction Programming - e nomeado para  Outstanding Picture Editing for Nonfiction Programming Outstanding Writing for Nonfiction Programming. Por sua vez a série tinha sido nomeada para Outstanding Nonfiction Series. Aqui as nomeações referem-se igualmente aos Emmys. À semelhança de certos vinhos, a série tem, portanto, vindo a melhorar ao longo dos anos e a ser reconhecida.
Devem saber, pelo que de vez em quando aqui escrevo, que eu e a cozinha não somos amigas do peito. Tratamo-nos por tu mas não entramos em relações sofisticadas. Se pudermos manter-nos longe uma da outra não sentimos muitas saudades. Em cima disso eu sou das que come para viver, não vivo para comer. Frequentes vezes dizem-me que tenho estômago de passarinho embora, verdade, me considere um bom garfo por ser curiosa em relação aos sabores e estar sempre disposta a provar um prato novo, em especial se alguém o cozinhar para mim. Por isso, revistas de culinária, livros de culinária ou programas de TV sobre culinária nunca me cativaram por aí além, embora me lembre do chef Silva e das suas receitas... com algum carinho...possivelmente porque já me lembro mal.  Até que um dia descobri o Bourdain. A sua série era uma refeição variada de episódios sobre comidinhas dos quatro cantos do mundo, paisagens e recantos,ora sofisticados ora rústicos, notas culturais, e gente. Gente ora simples ora muito senhora da sua arte e do seu nariz, que a produção desencanta e que acaba invariavelmente sentada à mesa, ou não, com Bourdain, a dar à língua e a dar ao dente. Aqui a ali o chef não se coibe de dizer asneiras, aliás  o homem faz por dizer o que lhe apetece. Mas, atenção, Bourdain é um personagem. Vejam o making off creio que do episódio na India e perceberão. Não há ali ponto sem nó. Fiquei fã do Bourdain. Só que nem sempre consigo acompanhar a série que se tornou rapidamente um dos meus programas favoritos. Para mim é um exemplo do que a boa TV deve ser: entretenimento, informação, humor, cultura num formato concentrado, simples, e variado, umas vezes doce, outras vezes mais amargo, que sempre nos deixa saciados mas, como diz o chef...hungry for more(famintos por mais).
Há uns Domingos atrás, à noite, enquanto procurava um filmito para desanuviar o espírito, apanhei na SIC Radical este compacto de dois episódios No reservations - o premiado episódio do Haiti e o episódio filmado em Vienna. Andava há muito para escrever sobre a série, inclusivamente estive para o fazer quando Bourdain esteve, há uns meses, em Lisboa, para filmar o seu terceiro No reservations dedicado a Portugal. Mas não estava muito inspirada e o assunto foi ficando em banho maria. 
Estes dois episódios em conjunto formaram um admirável painel de contrastes sobre o nosso mundo. Bourdain visitou o Haiti em 2011, depois do sismo que em 2010 terá afectado três milhões de pessoas destruindo milhares de edifícios e comunicações, lançando o caos sobre o território. Se bem se lembram as imagens colhidas do ar à altura mostravam cidades inteiras esmagadas como se Gulliver e a sua família alargada tivesse feito dali o seu recreio. Infelizmente, a qualquer vaga noticiosa segue-se quase sempre um lento esquecimento daquilo que deu à costa na nossa TV e hoje já são raras as imagens que vemos dessa destruição, que permanece, tal a dimensão e a lenta recuperação em curso. A riqueza deste episódio é demasiado notável  e receio que escrever sobre o mesmo não expresse  a qualidade daquilo a que assisti, mas gostava de conseguir contagiar-vos com o meu entusiasmo, ele pode ser visto no Youtube.  Aí encontrarão imagens do que é viver a eminência de um furacão, os coloridos tap-tap, a evocação literária de Graham Greene em virtude do Hotel Oloffson em Port-au-Prince ter inspirado um seu livro, o relato da sobrevivência diária nas ruas, a história da  resistência deste povo à adversidade  através da arte, da música, dos seus ritos,  a sua luta diária para limpar os escombros e manter pequenos negócios de rua, um encontro com Sean Pean que se responsabillizou por um acampamento de 50.000 pessoas, análise política, a confissão de Bourdain de que não aguentaria viver assim...os picklies, e  as imagens finais de um mar de tendas azuis, onde actualmente muitos haitianos vivem e viverão por muito tempo. Após o intervalo, cehga-nos o contraste com a limpa e gelada Vienna de Áustria, imagens de abundância, conforto e luxo. Depois de servidas as entradas do episódio, uma alusão cinematográfica ao Terceiro Homem, filme que ainda leva muitos turistas a Vienna, passeamos com Bourdain até aos palácios e belas estátuas semi-cobertas de neve, uma imponente árvore de Natal, encantamo-nos com a pastelaria fina, a visita ao Hotel Sacher, a casa da célebre torta de chocolate, lojas em mercados onde a qualidade é palavra de ordem, muitos e muitos pratos de carne para degustar que convertem Bourdain à terra onde se fala alemão e vivem afamados chefes pasteleiros, uma raça que ele não parece considerar muito. O destaque para uma loja de artigos de caça justifica-se porque ela é um modo de vida mais do que um desporto para os vienenses. Aí, Bourdain prova roupa de qualidade e equipamento para a caça, manuseia espingardas construidas de forma artesanal, lindas peças de morte, e ouve do proprietário a justificação de que um veado, quando é morto, viveu uma vida perfeita, não é como um frango criado em aviário. E por fim, o humor habitual servido na forma de uma salsicha, o "pau de pus", que leva recheio de queijo,  e o mais insólito que já vi, um restaurante onde se servem todas as partes da cabra, incluindo o seu anús, um prato de muito difícil saída e que Bourdain teve de engolir, gostasse ou não, entre gracejos sobre o rabo da Angelina Jolie. Inesquecível, aquele pequeno monte de carne em forma de vulcão no centro do enorme prato, a desafiar o nosso entendimento do que a gastronomia pode ser...Sou fã do Bourdain. Percebe-se, certo?

4/21/12

Opiniões sobre o projecto Es.col.a da Fontinha e o seu despejo no dia 19 de Abril

A Escola depois da intervenção policial. 
Foto de António Serginho (Facebook)

Porque fiz questão de marcar presença na concentração de apoio ao Es.col.a da Fontinha, em Coimbra, ontem, dia 20? Porque em Junho de 2011 tive oportunidade para passar alguns momentos na Fontinha  e informar-me da acção em curso e reconheço o mérito do que ali está a ser feito. Por isso apenas posso manifestar repúdio e vergonha por situações como esta, sempre, em que uma CM cheia de técnicos supostamente bem preparados academicamente em matérias sociais de toda a ordem não sabe lidar com a população sem ser pelo uso da força e da destruição. O despejo violento que aconteceu na Fontinha espelha a incompetência camararária mais do que a impertinência de um grupo de pessoas que se tem preocupado em servir os que mais precisam desinteressadamente, resgatando e devolvendo teimosamente à comunidade o que a CM tinha desleixado e mantido ao abandono durante cinco anos, e sem nunca pedir nada em troca! Estas pessoas do Es.col.a da Fontinha não são marginais, são parceiros do desenvolvimento comunitário. Mereciam ser tratadas de igual para igual e não como escumalha prevaricadora. Lembremo-nos que criminosos há neste país que são tratados com bem mais deferência. Condeno, pois, aquilo que me parece não ter passado de um tosco ensaio de negociação por parte da Câmara, orgão que não esgotou todas as possibilidades de diálogo antes de encetar pelo uso da força, não visando  nunca verdadeiramente a obtenção de uma solução e antes dar aso a mais um pretexto para proceder ao despejo do Es.col.a, e a consequente destruição, desnecessária e vândala, de bens que tinham por objectivo apoiar uma população carenciada de uma forma criativa e autónoma, com a sua participação empenhada. Perdeu-se mais do que aquilo que se ganhou. Em tempos difíceis para tantos poderemos mesmo dar-nos ao luxo de desbaratar de forma arrogante esforços e acções que visam atenuar carências sociais de vária ordem, mesmo se não devidamente enquadradas legalmente ou incompreendidas pelos tecnocratas do planeamento social, que, na verdade, se econtram de mão atadas, falidos, e a pensar que a população pode esperar eternamente? Não deveríamos todos concentrar o pensamento e a acção num sentido único, comum, capaz de potenciar o melhor resultado junto daquela população? O que é mais importante? Colmatar as necessidades da população carenciada, incentivar a iniciativa juvenil, solidária, útil, ou esmagar a acção deste grupo? Eram uma ameaça imediata? Em que moldes? Para quem? Expliquem-me e expliquem a uma pessoa que já tem pouco que vai ficar sem nada porque é legal fazê-lo e têm o poder para tanto. Se ela for do Porto não esperem uma reação numa linguagem asséptica e contida como esta em que escrevo e vos convido à leitura do que se segue. Depois detenham-na por injúrias e apresentem-na à autoridade. Desculpem-me se penso mais uma vez em quem não tem tempo para esperar que a batalha se trave. Porque não sentarem-se à mesa de forma civilizada e em conjunto elaborarem um plano de acção útil, sustentável, com futuro para a Fontinha, num verdadeiro espírito de entreajuda? Afinal uma coisa o Es.Col.A  da Fontinha e a CM do Porto, apartados que estão ideológica e políticamente, têm em comum -  o objectivo de servir os cidadãos embora a câmara pareça exigir a sua vassalagem, o que está muito errado, e não se coaduna com o que ela devia estar a promover: a emancipação dos habitantes da cidade. Em rota de colisão nem um nem outro o conseguirão fazer, o primeiro irá desgastar-se em reações, ainda que não se agaste, e o segundo fará o que for preciso para se auto-preservar enquanto sistema. Não é o princípio, nem foi o fim. Resta saber o que foi, incompetência, medo, cegueira, desnorte.

 O despejo, não é o princípio, nem foi o fim deste projecto.
 As primeiras pessoas a chegarem ao local da concentração em Coimbra
Dia 20, 18:00 horas, em frente à CM de Coimbra - Solidariedade com a Fontinha.
Alguns dos cartazes expostos.

O texto do panfleto que estava a ser distribuido no local:
"Há 5 anos que existia uma escola abandonada e degradada no Bairro da Fontinha no Porto que já só era frequentada por ratos. Um grupo de cidadãos ocupou esse espaço, restaurou-o e fez dele uma zona de liberdade e democracia em perfeita colaboração e partilha com as populações desse bairro. Naquilo a que se chama Es.col.a ( Espaço Colectivo Autogestionado do Alto da Fontinha) ajudam-se as crianças nos estudos, criam-se actividades para os jovens do bairro e apoio para os mais idosos de uma forma solidária e desprendida. Xadrez, Yoga, Capoeira, Música, Dança, Bibliotecas, um sem número de actividades que seram vida e criaram esperança num espaço construido em democracia e liberdade. Num só ano o Es.col.a passou a ser o centro daquele bairro e o único apoio de muitos que passam por dificuldades devido às desumanas políticas de austeridade e roubo a que este país tem sido sujeito. Aí se partilham refeições confecionadas com produtos das hortas comunitárias que têm surgido na zona e se reforça a solidariedade e a cidadania. Não a solidariedade da esmola ou da caridadezinha, mas uma solidariedade feita da partilha e da união de todos. Isso parece assustar o sistema receoso que os cidadãos compreendam que existem alternativas possíveis ao mercantilismo e à subjugação aos grandes poderes económicos e que as leis só devem ser válidas e obedecidas quando forem justas. Ver nas televisões ministros a saírem sorridentes de carros de alta cilindrada pagos por todos nós e depois polícias a violentarem cidadãos para lhes retirar aquilo que construiram com as suas próprias mãos é uma imagem que só nos pode causar repulsa e indignação. Exigimos por isso que o poder aceite a soberania dos cidadãos sobre as suas terras, bairros e cidades e que, se não são capazes ou não têm a vontade de os apoiar, pleo menos não envie os seus cães de guerra para impedir a sua organização. Exigimos que o Es.Col.a da Fontinha seja devolvido ao bairro e aos seus habitantes. O Es.col.a não será nunca despejado, porque não se pode despejar uma ideia."
Antes de continuar a ler esta postagem, se nunca leu nada sobre o que é o Projecto Es.col.a, Espaço Colectivo Autogestionado, sugiro a leitura do blogue da Es.col.a da Fontinha.
Alguns textos de opinião - listagem em actualização
Ódio à diferença, diz António Pina, do JN, "No edifício da antiga Escola da Fontinha, há cinco anos ao abandono, nascera espontaneamente, por iniciativa dos moradores e outras pessoas, um projecto cívico autónomo que, durante um ano, sem mendigar subsídios, fez a "diferença", infeccionando de vida comunitária e, sobretudo, de esperança, o resignado quotidiano de uma das inúmeras zonas degradadas que, longe do olhar dos turistas, persistem no coração da cidade."

A falência de uma Câmara Municipal, por Jorge Palinhos, no blogue Quarta Parede, que diz que "quando a máquina propagandística da câmara se calar, a cidade verá Rui Rio como o mais falhado dos seus presidentes, que precisou de mobilizar centenas de polícias para destruir o espaço comum dos habitantes pobres de um bairro social e tentar afirmar a sua influência sobre uma cidade, cidade essa que há muito escapou ao seu poder."

Maria de Deus Botelho, diz que no bairro da Fontinha aconteceu o despejo de Rui Rio. "Retive, no longo pedaço em que lá estive, (na Assembleia Popular) a organização espantosa de todo aquele movimento, ainda que sem uma liderança assumida. Impressionou-me o pacifismo de todos os presentes — sem que isso significasse, em momento algum, passividade — e a seriedade de propósitos que transpareceu. Tocou-me a coragem e a firmeza daquela gente, que continua a acreditar que este projecto é possível, apesar de todas as contrariedades e obstáculos. Guardei, como exemplo, a resiliência de tantos na prossecução do objectivo."

Armando Pera, no blogue Artérias cruzadas, sobre a arte de problematizar soluções, escreve que "um espaço público fechado não tem muito de público, enquanto que aberto à comunidade local e ao público em geral já serve bem mais o seu propósito. Mas ao que parece, as gentes do poder parecem discordar deste facto, pois o seu propósito não servia adequadamente os seus interesses económico-burocráticos."

Governo Sombra e Ricardo Araújo Pereira no podacast , na sua habitual ironia, "Ufa, durmo mais descansado, até que enfim, finalmente eliminou-se ali aquele enclave perigoso de actividades culturais no Porto e a escola pode agora voltar ao abandono em que estava antes daquilo... muitos dos okupas chegavam a ter cabelo comprido... e brinco, alguns." ao min 34:30'

Pedro Figueiredo, sobre a Fontinha e um presidente que não faz, não deixa fazer e bate em quem faz. O que ele escreve:" Na semana passada pude muito simplesmente passar por lá e ajudar aqueles “perigosos anarquistas” e Fontinhenses a arquitectar um magnífico pano amarelo que foi depois colocado ao inicio da rua. Ficou bonito. Foi uma obra colectiva e colectivista. Foi só chegar, voluntariar-me e participar. Nada mais. Simples. Ninguém me perguntou quem eu era, se tinha interesses ou opiniões “políticas”… Eficaz portanto… "

O dr. Rui Rio não é fascista...escrito por Joe Médicis, no blogue Merditações. "Durante 5 anos, o abandonado edifício foi ocupado para fins de “casa de chuto” não supervisionada, sem que o impacto de tal actividade económico-social (ilegal em Portugal) preocupasse as autoridades policiais e camarárias. No entanto, bem mais perigoso do que uma pandilha dezombies adormecidos pela heroína, é um grupo de gente inteligente, activa, empreendedora, criadora de sonhos, fabricante de asas que fazem as crianças voar."

O centauro e os okupas, de Carlos Carujo, no Facebook. "Eu até gosto da expressão “okupas” e penso que seria um bom dia para passar o documentário do João Romão. Só que a expressão, neste contexto, parece procurar ter como efeito a estigmatização e a marginalização do projecto da Fontinha. Parece desta forma legitimar a violência por outra forma já que ela não foi feita contra nós, pessoas normais, cidadãos honrados, mas contra os outros, umas pessoas esquisitas que sabe-se lá que interesses escondem e o que querem verdadeiramente fazer com aquilo…"

Fontinha, por Fábio Duarte Martins, no Facebook."Quando falei com um dos voluntários do Es.Col.A, que ajudava os miúdos no estudo acompanhado e a aprenderem o que quisessem, senti-me num funeral a tentar, desajeitadamente, consolar os vivos da perda do morto; naquele olhar, vi a meiguice que se tem por um fantasma demasiado querido.(...) O que é triste é este desperdício de solidariedade humana que a política insiste em desaproveitar.

A lei foi cumprida, a escola da Fontinha está em ruinas e entaipada, é o título de uma reportagem do IOnline. "Livros, trabalhos realizados por crianças, electrodomésticos que nos custaram a conseguir…O material vai todo para o lixo ?!” Marco juntou-se ao colectivo aquando do primeiro despejo; dá apoio escolar às crianças do bairro. “Eu dou aulas de guitarra”, diz um outro elemento do colectivo que não se quis identificar. Cristiana, a voz intensa, afoita, que se ouviu durante todo o protesto de resistência, “não ensinava nada, mas doei um frigorífico”. De facto, o frigorífico estava lá na carrinha dos serviços de limpeza da Câmara Municipal do Porto. O frigorífico, um fogão, bicicletas e mais um monte de haveres reunidos ao longo de um ano, atirados pelas janelas da escola como se de lixo se tratasse."

Anestesia, por TAF, "Aqui na Fontinha o problema não é a eventual violência policial, insistir nisso é desviar o foco do essencial: a atitude consciente e amadurecida da CMP entrar em confronto com os ocupantes e com a população local. Isso sim é que é grave, incomparavelmente pior do que uma chapada ou uma bastonada forte de mais (embora sempre lamentáveis e inaceitáveis) no calor do momento."

Comunicado, por Gui Castro Felga, em O blogue ou a vida. "Acho que nunca tive tanto medo na vida como quando vi, para lá do muro baixinho do es.col.a e através do gradeamento, os capacetes do corpo de intervenção a aparecer da rua inclinada. Traziam escadas: alguns passaram a vedação e começaram a desmontar a barricada, outros a cercar-nos e a tentar separar-nos. Ao ouvido, um dos polícias sussurou-me: «irra que as gajas são sempre as mais difíceis», quando eu e outra tentávamos, como possível, agarrarmo-nos para não sermos levadas. Arrastaram-nos para a sala ao lado da cozinha, guardados por vários polícias. Lá de cima, no pátio sobre a cozinha, ouvíamos as rebarbadeiras a cortar a porta de acesso à caixa de escadas."

Uma questão de credibilidade, por Vítor Silva, opina que "A Câmara Municipal do Porto diz que a es.col.a da Fontinha sofreu uma ocupação abusiva e "selvagem". O que eu vi quando lá fui (não foram muitas é certo, 2 vezes apenas) foi uma escola que estava abandonada e que passou a ser utilizada. Vi uma pequena biblioteca, uma sala de computadores e uma sala para as crianças brincarem. Quantas vezes é que Rui Rio ou a vereadora Gulhermina Rego viram isto? Acho que nenhuma."

No blogue Ladrões de bicicletas, Nuno Serra escreve" Imagine-se também que um grupo de cidadãos, interessados pela cidade em que vivem, pretende fazer trabalho comunitário, junto de pessoas que podem beneficiar do seu apoio. Alguns são empregados dos serviços, outros são professores e outros são gestores. O grupo é ainda composto por reformados, que decidiram preencher o tempo de que agora dispõem ao serviço da comunidade. Tencionam ajudar as crianças nos trabalhos escolares e promover diversas actividades com os moradores do bairro."


Petição pública 
TOD@S pela FONTINHA! para Rui Rio, Presidente da CM do Porto
Petição O Es.Col.A não será nunca despejado, porque não se podem despejar uma ideia.O projecto Es.Col.A no Alto da Fontinha (Porto) está a ser despejado neste momento pela polícia. A Câmara Municipal do Porto, ao não ter cumprido com o acordado, está a tentar matar algo que reabilita a zona do centro do Porto e que tem o apoio da população. O Es.Col.A não será nunca despejado, porque não se podem despejar uma ideia. 

  (2738 assinaturas até ao momento em que eu assinei.)


E para terminar, um texto de um dos membros do colectivo, Pedro Lima, Ocupar é urbanizar, onde ele nos relata queé possível agir sem estar à espera do paternalismo do poder instituído, que a desobediência civil é um caminho, uma via consagrada na Constituição da República para defender os bens do Estado, num país onde o património arquitectónico dos principais centros urbanos está votado ao abandono e em particular numa cidade onde os valores culturais são ultrapassados por carros de corrida."

A text I wrote about Es.Col.A written in English language can be found here.

4/12/12

A Pátria de Guerra Junqueiro!



"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este,finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. [.] A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos [.] sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, [.] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896.

Ajude a AMI a lutar contra a pobreza


Apelo da AMI, para divulgar, por favor!


Este ano, com a sua declaração de IRS, ajude a acabar com a Pobreza.
Basta escrever o número de contribuinte 502 744 910, no campo 9, anexo H. Ao fazê-lo, o Estado irá entregar 0,5% do seu imposto já liquidado para a “Missão de Emergência Nacional” da AMI.
No último ano apurado, o valor atribuído pelos contribuintes atingiu os 579.908 euros. Esta verba equivale ao funcionamento, durante um ano, de 3 dos 12 equipamentos sociais da AMI, em Portugal.
Pedimos-lhe que participe também, enviando este e-mail para todos os seus amigos, colegas e familiares e peça para também eles darem o seu contributo.Dê. Vai ver que não dói nada!

4/11/12

As pequenas bestas

Crónica de Rodrigo Guedes de Carvalho, de 2011, já, mas que encontrei no Facebook e que resolvi trazer para aqui.Penso que ele se refere a dois miúdos que atiraram um gato vivo do castelo de Montemor-o-Velho, aqui bem próximo. Leiam:
"(...)Dois miúdos, cada um com a sua câmara de vídeo. Um vai para o alto de um castelo, ou muralha, ou lá o que é. O outro fica lá em baixo. O lá de cima leva um gato nas mãos. Ri-se, mostra o animal à câmara e depois atira-o das alturas. Filma o seu gesto, o animal pelo ar. O de lá de baixo, já adivinharam, filma a parte final do voo do animal, o seu impacto no chão, a sua absurda morte emigalhada. Ri-se também para a câmara. Em ambos os casos, fazem comentários a condizer com a sua bestialidade.
Julgando ter graça, colocam sobre o voo do animal um som de gritos arábicos, jogando com a ideia de um gato-suicida. (...) Foi, digamos, a parte 'objectiva' desta crónica. Mas, na verdade, esclarecidos os factos, apetece-me ser pouco objectivo, e muito menos politicamente correcto. Porque em todos os casos em que falamos de miúdos vem logo a lengalenga da sua "condição sócio-económica", e do tipo de "referências que marcam a sua educação", mais o blá-blá de que não "há crianças más", e por aí a diante. Ouço estas explicações do costume, olho as imagens que não julgava possíveis, e só me apetece, confesso-vos, oportunidade de apanhar os miúdos e desabar-lhes uma chuva de estaladas até me fazer doer o braço, e fazê-los engolir ao pontapé o sorriso psicótico de imberbe homicida. Chocado com a minha afirmação? À vontade. Assumo-a e até a repetiria (...).
Acredito piamente que estes miúdos são umas bestas precoces, e quero lá saber do seu background. Quem faz isto dificilmente deixará de cometer outras crueldades. E não me venham, por favor, com a conversa que já ouvi de alguns amigos meus: "Ó pá, não me digas que quando eras puto nunca mandaste umas pedras aos gatos ou aos cães?..." Não, não mandei, desculpem lá. Não mandei nunca e não compreendi nunca quem o faça, embora viva num país onde uma das cançonetas para educar as criancinhas diz que "atirei o pau ao gato mas o gato não morreu". Sendo que a selvajaria de que falo não se compara com o atirar do calhau. Trata-se de uma maldade planeada, com um requinte de crueldade inimaginável.(...)Porque há uma certeza que ninguém me tira: quem é capaz de olhar nos olhos de um gato, ou qualquer outro animal, e prosseguir com o seu plano nojento e maquiavélico, será capaz de muitas coisas mais. Quem abusa, descarrega ou maltrata seres fracos ou indefesos, sejam gatos ou homens, só mosta que é uma besta cobarde. Tenha lá a idade que tiver. De pequenino se torce o pepino."in TVmais

Entretanto também encontrei um texto magnífico que ensina a cuidar de gatinhos bebés. Está no blogue Bolinhas de Pelo. O que eu aprendi sobre como cuidar de gatinhos, nunca imaginei que fosse tão complexo!!Leiam e atentem no papel da gata, como é importante a presença dela junto dos filhotes nos primeiros tempos de vida. Os gatos são um dos meus mais recentes tópicos de interesse e tenho-me dedicado a saber mais sobre eles...

Amor pelos animais

Há um par de semanas passei pelo Parque das Abadias, na Figueira da Foz. Não sei quando foi a última vez que passei lá, mas às tantas passaram-se anos sem que o atravessasse. A minha primeira descoberta foi esta placa avisadora e custa a crer, de facto, que com tantos caixotes de lixo próximo as pessoas deitem o lixo para o ribeiro. Mas pelos vistos é verdade ou este aviso não estaria ali. 
É possível avistar aves de diversas espécies no Parque das Abadias. Vivem por ali ou numa mata contígua, que reparei está a ser desbastada. Melros, pegas e piscos são as minhas favoritas.
O passarito que estava no chão assustou-se comigo e colocou-se a salvo numa árvore próxima!
Já depois de ter atravessado o Parque em direção ao Liceu, apercebi-me de uma senhora com um pequeno cão que parecia ser seguida por um bando de pombas. Mas ela não estava a alimentar as pombas e foi isso que me intrigou...
À medida que ela se aproximava o facto confirmava-se!
As pombas seguiam-na e não tinham medo do cão nem o cão se assustava com elas!
Quando ela deixou o parque e atravessou a rua as pombas continuavam a segui-la! Mas antes disso já eu tinha esclarecido o mistério. Há uns tempos largos esta senhora começou a proteger e a dar comida às pombas da zona das Abadias.Ela diz que muitas são atropeladas pelos automóveis que ali passam ou mordidas pelos cães e então ela leva-as ao veterinário. Conhece algumas pelo nome que lhes deu e já são mais de 200. Tantos animais já a levaram a dar cerca de 7kg de arroz diariamente, pela manhã ou à hora do almoço. Agora diz que não distribui tanto alimento pois leu na internet que se forem muito alimentadas se reproduzem mais! Enquanto conversámos as pombas ficaram à nossa volta e não arredaram pé. São mesmo muito mansas, não estranharam em nada a minha presença!Há pessoas que gostam de ter um animal de estimação, outras há que necessitam de ter mais do que um, um bando deles!

4/9/12

Quem salva a caravela Boa Esperança?





Eis a história sumária de três irmãs. Em 1987/88 a APORVELA, com o apoio das Comunidades Portuguesas da África do Sul, construíu uma caravela a que deu o nome de Bartolomeu Dias para comemorar o V Centenário da passagem do Cabo da Boa Esperança (1488). Esta embarcação encontra-se actualmente em exposição no Museu dos Descobrimentos em Mossel Bay na África do Sul.  Outra caravela, a Vera Cruz, é utilizada para diversos fins pela APORVELA e está de boa saúde. A segunda caravela construída, de nome  Boa Esperança, pertence à Região de Turismo do Algarve. Lançada à água em Vila do Conde em Abril de 1990, a Boa Esperança é uma réplica tão aproximada quanto possível de um caravelão ou caravela quinhentista de dois mastros. Foi construída por  entendidos na construção naval em madeira, o mais possível de acordo com as regras de construção naval da época dos Descobrimentos, usando pinheiro bravo no forro, borda falsa, sobrequilha e mastros,  carvalho e sobro nas balizas, cambola no convés e tombadilho e eucalipto nas vergas. Possui dois mastros, um secundário no castelo de popa, e velas latinas que ostentam a cruz de Cristo. Tem pouco mais de 20 metros da popa à proa. Tinha objectivos nobres como possibilitar o treino de mar e vela, participar em provas, eventos náuticos e na investigação do comportamento e manobra das antigas caravelas. Mas desde o início do ano que leio notícias muito pouco nobres e esperançosas sobre o seu futuro. 
Se ficaram supreendidos com o meu encantamento com a barca Sagres aquando da sua visita à Figueira da Foz, fiquem sabendo que o meu carinho por embarcações de velas vem de longe. As fotos que vos mostro foram tiradas na Figueira da Foz quando a Boa Esperança passou por aqui há mais anos do que me lembro, talvez dez. Por isso saber que a Boa Esperança está a apodrecer na marina de Lagos não foi o que mais gostei de ler. Somos mesmo uns tristes, uns pobres, uns inaptos. Não sou por conservar símbolos por preservar, mas, que diabo, não conseguir rentabilizar um equipamento com tamanha carga simbólica e emocional, e ainda por cima construído com rigor técnico, causa-me perplexidade. A Entidade Regional de Turismo do Algarve dizia, numa das notícias que li, não ter meios para a sua manutenção perante os anunciados cortes. O presidente da ERTA, António Pina, fez-me lembrar o dono de um cão forçado a abandoná-lo no canil por ter sofrido cortes da sua magra pensão de reforma! Choroso, diz que tem afectos pelo barquinho, mas nem assim, nem a paixão lhe dá ideias. Caramba, o Algarve é onde fica Sagres, território da mítica escola náutica, que, quer tenha ou não existido, tanto faz. Aproveite-se a fama para explorar o filão. Se já não precisamos de caravelas para descobrir o mundo, não é no Algarve que tantos turistas hoje descobrem Portugal? Quando lá vou só ouço falar inglês, é irish pubs por aqui e por ali, ham and eggs para o pequeno almoço servido a cada esquina!! Nem assim é possível conseguir dinamizar esta embarcação onde eu vejo tanto potencial cultural e turístico? Então leve-se para Lisboa, coloque-se junto da Torre de Belém, dinamize-se o imaginário dos Descobrimentos! Lancem um concurso de ideias a nível nacional. Precisa-se menos coração e mais cabeça. São precisos 100-150.000 mil euros por ano, diz Pina. É dinheiro. A última vez que a caravela navegou foi há dois anos. Pois foi. Eu estava no Algarve, metida no mar com água pelo pescoço quando a vi passar lá ao longe e todas as pessoas ali à volta se entusiasmaram com essa visão! Substituam os tripulantes (20) por um motor se for caso disso, façam-na circular pela costa durante o Verão, cobrem visitas a pequenos e graúdos; desenhem merchandising apelativo e vendam-no! Façam dentro um restaurante e façam menus da época dos Descobrimentos e sirvam-nos. Sirvam-nos no convês, no porão, sirvam-nos cá fora, com a caravela a servir de cenário. Façam despedidas de solteiro à moda do séc. XV, façam, façam coisas,  puxem por essas cabeças como os homens puxavam pelas cordas para subir as velas! Se eles conseguiram ir longe, vocês também hão-de conseguir. Ou a austeridade deu-vos para poupar em neurónios além do dinheiro que não têm?! Ou são menos do que eles?!! Era só o que nos faltava. Deixemos então ir tudo ao fundo, não tarda nem Portugal há-de restar à tona! 
E, agora, a última notícia que li dá conta de que querem vender a Boa Esperança mas os compradores não querem uma caravela, querem uma pechincha, pelo que a ERTA não vende, vai pô-la a circular emparelhada com a nau espanhola Vitória numa qualquer divulgação dos Descobrimentos no âmbito de um qualquer projeto transfronteiriço Descubriter, que vai permitir dar uso à caravela para promover o Algarve, já está aprovado de acordo com o que disse Almeida Pires, vice-presidente da ERTA. A Esperança é a última coisa a morrer. Vamos esperar para ver se antes dela não morrerá esta caravela quinhentista num qualquer molhe esquecido ao sul.



4/8/12

The Tall Ships Races 2012 - Lisboa



Em 1956, Lisboa recebeu a primeira edição das The Tall Ships Races. Em 2012, em Julho, esperam-se 60 navios em representação de 49 países, num todo de 5000 tripulantes. Estas
 regatas são promovidas anualmente pela Sail Training International com o objectivo de proporcionar experiências de treino de mar a jovens de todo o mundo, embarcando-os na frota dos Grandes Veleiros. Paralelamente é um belo espectáculo para as cidades por onde passa esta frota. Em 2012, os Grandes Veleiros passam por Saint Malo, Lisboa, Cádiz, Coruña e Dublin. Reserve tempo para ir vê-los no novo Cais de Cruzeiros, entre o Terreiro do Paço e Santa Apolónia, em Julho!

Os Grandes Veleiros são classificados em 4 categorias, dependendo do seu Comprimento Total (LOA), do Comprimento de Linha d´água (LWL) e do equipamento de Vela.
O Comprimento Total (LOA) refere-se ao comprimento máximo de uma embarcação de dois pontos sobre o casco, medida perpendicular à linha de flutuação; O Comprimento de Linha d’Água (LWL) denota o comprimento do veleiro, no ponto onde ela se senta na água. Exclui o comprimento total do barco, tais como as características que estão fora da água.
São assim agrupados em 4 classes:
Classe A
Navios de velas quadradas – (Barca, Lugre-Patacho, Brigue, Patacho) e outros veleiros com Comprimento Total (LOA) superior a 40 metros, não incluindo a vela.
Classe B
Chalupa de um mastro, Chalupas, Ioles, e Escunas – Embarcações com Comprimento Total (LOA) inferior a 40 metros e com Comprimento de linha d’Água (LWL) de pelo menos 9.14 metros.

Ganhar a lotaria e doar o prémio para a caridade

Allen e Violet Large, um casal de idosos que residiam em Truro, Nova Scotia, Canadá, jogaram e ganharam, em Julho de 2010, $ 11255272 jogando Lotto 649. Eles doaram 98% dos seus ganhos para a caridade. O prémio foi entregue a hospitais, bombeiros, cemitérios, igrejas e mais instituições. Violet Large, de 78 anos, sofria de cancro no  momento em que a sorte lhes calhou em vez e acabou por falecer em 2011. Allen tinha 75 anos. Viviam numa casa velha de 147 anos, não tinham automóveis, nem sequer uma grande TV. Não mudaram em quase nada o seu estilo de vida.

Ao tomar conhecimento desta história imediatamente me veio à cabeça o velho dito dinheiro não traz felicidade. Millôr Flores, humorista e poeta brasileiro falecido há bem pouco, acrescentou Dinheiro não traz felicidade, manda buscar. Alguém também disse que essa frase mítica tantas vezes repetida não passa de boato espalhado pelos ricos para que os pobres não tenham muita inveja da vida que levam. Eu não me considero infeliz mas raramente penso na felicidade. Para mim a felicidade é um episódio que se experimenta de vez em quando e não um estado de permanência. Como estado considero-a inalcançável por natureza, já que conhecê-la gerará uma nova ânsia de felicidade. Nunca achei que pudesse ir atrás dela e agarrá-la com as duas mãos, torná-la minha e retê-la. Na minha ideia a felicidade tem uma natureza volátil e o seu quê de imprevisível. É assim como que um perfume para a existência. Quando se liberta, dissipa-se, deixa um rasto mas tem uma notável característcia que é a impermanência.  Isso nunca me preocupou pois o meu esforço é combater motivos de infelicidade, um a um, e não partir numa cruzada pela felicidade. Poderão dizer que é a mesma coisa, mas eu não penso assim. Ao colocar a fasquia demasiado alta correria o risco de me tornar uma eterna insatisfeita a batalhar por alcançar os objectivos inscritos na lista. Uma lista destas pode atirar-nos facilmente para o plano da irrealidade se comparada com a lista, mais terra-a-terra, do que terei de cumprir para não me considerar infeliz, lista muito mais maneira e útil porque mais exequível. Não me tenho dado mal com esta estratégia muito pouco científica mas reconheço que pode não funcionar para todos. Desde logo podem acusar-me de falta de ambição. Seja. Não somos todos iguais, aliás, este é o reino da subjectividade.
Há então quem diga que o dinheiro não traz felicidade. Certamente não trará a quem tenha todo o dinheiro do mundo. Uma vez que na sociedade capitalista não temos outra maneira de obter a mioria dos bens que necessitamos sem ser através do dinheirinho, parece-me evidente que o dinheiro traz felicidade. A felicidade pode bem ser ter um tecto para nos abrigarmos do frio e da chuva, um tecto modesto, mas ainda assim um tecto. E não precisa de ser o Castelo de Neuschwanstein! O dinheiro é apenas um meio para satisfazermos as nossas necessidades, básicas ou não, sendo que, de pessoa para pessoa, também depois varia o que é considerado necessário. Além disso, o dinheiro abre um leque de opções que podem traduzir-se em outras tantas hipóteses de “ser feliz” ou “mais feliz”. Quanto àqueles que já conseguiram comprar o melhor de tudo com o dinheiro que têm, a incansável sociedade de consumo encarregar-se-á de lhes sugerir novas ofertas, quantas vezes superfluas, mas que eles avidamente consomem: mais, maior, melhor, mais alto, reeinventam-se os limites do consumo e surgem comportamentos exibicionistas e excêntricos. (O assunto é sério e existe uma tipologia na Economia que destingue entre bens de Giffen que são bens de pequeno valor, porém de grande importância no orçamento dos consumidores de baixa renda, e os bens de Veblen que são bens de consumo ostentatório, obras de arte, jóias, tapeçaria e automóveis de luxo.) Este tipo de consumo perdulário aumenta a distância entre quem tem bens e quem não tem, esvazia a sociedade de sentido comunitário e não é saudável para o crescimento económico.
 Mas um leque de opções existe que não é negociável já que ricos e remediados quantas vezes têm de se confrontar com os mesmos problemas - a falta irremediável de saúde, a perda de entes queridos, a inadaptação social, os vícios e dependências, o falhanço nas relações pessoais, familiares ou amorosas. Enquanto os remediados se debatem para pagar as contas, os que nadam em dinheiro arcam com a responsabilidade que a gestão de uma fortuna acarreta. Muitos deles não quereriam trocar de posições uns com os outros se isso lhes fosse oferecido, Pobrete, mas alegrete, eis mais um dito popular com fundo de verdade, e quem tem muito, regra geral, não aceita andar de cavalo para burro a não ser por  azares incontornáveis da vida.
Ontem li uma notícia sobre mais um estudo entre dinheiro e felicidade e espanta-me que as universidades se dediquem a estudar estas coisas que me parecem tão básicas! Mas dedicam, donde infiro não devam ser tão básicas quanto parecem. Resta-me pensar que é assim que esses investigadores são felizes, a fazer estudos sobre a relação que há ou não há entre dinheiro e felicidade! Foi assim que fiquei a saber, por exemplo, que os brasileiros são aparentemente um povo mais feliz do que os portugueses. Mesmo quando o cruzeiro andava pelas ruas da amargura, o brasileiro era mais feliz que nós, nem no auge da avalanche de fundos da CEE o português se sentia feliz! O brasileiro é um português à solta, escreveu Agostinho da Silva! Para mim a liberdade é realmente um dos componentes da felicidade. Liberdade que se exterioriza em sentimentos positivos, energia, confiança, alegria, criatividade. Infelizmente os português típico ou comum parece prisioneiro do fado, herdeiro de uma herança de infortúnio que não se esgota, de geração em geração. Tudo vai mal mesmo quando vai bem, no mínimo vai assim-assim. Assumir de caras a felicidade até parece pecado ou asneira ou crime.
Infelizmente, o que me parece verdade no Portugal actual é, de facto, que mais dinheiro não traz felicidade. E porquê? Porque para a maioria das pessoas o acesso ao dinheiro não é fácil, ele faz-se por via do trabalho e para ter mais dinheiro as pessoas têm de trabalhar mais. E a forma como o trabalho se processa actualmente não ajuda à felicidade de ninguém. O trabalho está mal remunerado em muitas profissões. Basta ver o desnível que existe entre o salário de um professor e o de um gestor público! Quantas pessoas podem actualmente dar-se ao luxo de trabalhar no que gostam? A que custo ganham o seu salário? Saíndo de casa de madrugada, passando horas em transporte, regressando de noite, entregando seus filhos a instituições, algumas acumulando dois empregos para fazer face às despesas? 
A felicidade e o dinheiro têm caminhos cruzados e muitas vezes paradoxais. Acreditar que o dinheiro é a chave para a felicidade pode até levar à ganância para no balanço final de horas de sacrifício dispendidas na missão se chegar apenas à triste conclusão de que não se soube gozar a vida. Mas quem nos dera a todos neste momento de austeridade campeã e dificuldades economico-sociais podermos ser gananciosos! Ainda assim eu gostaria de estar com Arthur Schopenhauer quando ele escrevia que A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças, do que nos nossos bolsos.Difícil sustentar esta ideia constatando a luta diária que se trava na actual sociedade portuguesa quando uma ida ao supermercado se pode transformar numa maratona de contas de cabeça para trazer o estrictamente necessário ao mais baixo preço para casa e pelo direito elementar de ser feliz à mesa. 

Allen e Violet Large - para eles, a felicidade foi doar o prémio da lotaria.

Felicidade realista

A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar É importante pensar-se ao extremo, buscar lá d entro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.
Mário Quintana, poeta e jornalista brasileiro

4/6/12

Humana TV

Humana Tv: A partir de um sonho de P. Por muito que possam dizer o contrário, a Tv é fria, distante, impessoal, voraz e cruel. É fácil deixamo-nos seduzir por ela. É uma bela mulher, voluptuosa. Como qualquer vampiro alimenta-se do sangue alheio. É ninfomaníaca. Quando menos damos por ela já fomos engolidos, estamos hipnotizados e não conseguimos encontrar a saída. A longa estrada vazia que pretendemos percorrer começa agora na Humana Tv. O asfalto leva-nos por uma viagem de sentimentos, “estórias”, ideias e ideologias, conceitos de vida, dor e mágoa, alegria e felicidade. A Humana Tv é isto e muito mais. É o Manuel, a Carla, o José, a Ivone, o pai, a mãe, a vizinha do lado, e o tipo que fuma as beatas do outro e insulta os árbitros. Sabemos que a globalização é claustrofóbica. Que a crise justifica tudo. E que a vida pode ser tremendamente triste. Por isso, a partir de um sonho de P. procuramos o homem comum de um Portugal afogado em dívidas, sem rumo e austero. É o poeta que escreve nas mesas de café, o músico que canta a miséria dos outros, o cantoneiro que assobia para o lado, o empregado de mesa que só fala de futebol. Procuramos os néons que iluminam a solidão de muitos portugueses. Ao som da melhor música pop rock portuguesa a Humana Tv é tudo aquilo que gostaríamos de ver, ouvir e sentir. Mas não nos responsabilizamos por eventuais danos. Porque esta Humana Tv pode ser tremendamente desumana. O encontro está marcado para a esquina onde não há trevas! HumanaTv.
Para ver, aqui. 

4/5/12

Navio Escola Sagres


A visita do navio escola Sagres à Figueira da Foz foi também uma oportunidade para aprender algo mais sobre ele. Durante o tempo que aqui esteve ancorado, três dias, o navio recebeu 12.000 visitas o que atesta bem o fascínio que ele exerce por onde passa. Os marinheiros disseram-me que é sempre assim e isso não me surpreende. Nacionais e não nacionais, em portos portugueses ou longe da pátria, facilmente se rendem à beleza das velas e dos mastros no horizonte, o contrário é que seria de estranhar. Embora o navio nos diga mais a nós, portugueses, creio que recorda a todos um tempo em que o mar era uma porta misteriosa para o mundo e para a aventura, uma época em que as máquinas e os cálculos computorizados ainda estavam por vir e muito se confiava na intuição e até na sorte quando se pisava um convés. Durante as manobras no porto ouviam-se os apitos e as ordens dadas aos homens, sons e palavras de um vocabulário próprio, que não devem ter mudado em 50 anos de histórias de viagens, acompanhados também por gestos aprendidos e repetidos e que já duram desde o início das viagens marítimas. Uma escola para os cadetes e um museu de história viva para nós, que o visitamos, e ainda por cima de borla, num tempo em que tudo se paga, um privilégio afinal. 
O Navio Escola Sagres é uma barca de 4 mastros, com 23 velas. Existem mais navios irmãos da Sagres: Gorch Fock I/Tovarich (1933), Horst Wessel/Eagle (1936), Mircea (1938) Herbert Norkus (1939) e Gorch Fock II (1958). A bordo seguem Oficiais,  Sargentos,  Praças e Cadetes. Tem por missão  formar os cadetes da Escola Naval, promover a imagem de Portugal no Mundo, apoiar a diplomacia política, económica e cultural portuguesa, estreitar as relações entre Portugal e outros países que visita e contactar os Portugueses na Diáspora.  O navio dispõe de 10 velas redondas e 13 velas latinas, num total de 1979 m² de área vélica, podendo atingir uma velocidade máxima de 16,5 nós. Leia mais sobre esta embarcação no site da Marinha. Para conhecer o navio também pode dar uma espreitadela às fotografias que fiz do navio escola Sagres. Aí o encontrará iluminado pelas 6000 lâmpadas, que, uma a uma, são colocadas ao longo de duas horas e meia de trabalho, sempre que o navio aporta. Mas também o fotografei à luz do dia, e quando chegou e quando partiu pelo Mondego. Nas minhas leituras e procura de informação sobre o mesmo também encontrei o hino do navio interpretado por Vitorino e  acompanhado pela Banda da Armada dirigida pelo Maestro 1º. Ten. Délio Gonçalves, que aqui deixo!


4/1/12

A Sagres chegou à Figueira e não é mentira

Hoje é dia 1 de Abril mas está notícia é, toda ela, verdade! A meio da nebulosa manhã, o navio escola Sagres entrou na barra e subiu o tranquilo rio Mondego acompanhado por remadores entusiasmados e pequenas outras embarcações de velas. Dos molhes muitas pessoas acenavam aos seus ocupantes, tripulação e alunos das escolas, e fotografavam a chegada desta bela embarcação que visita o porto da Figueira da Foz pela segunda vez. A primeira foi em 2005 por ocasião das comemorações do Dia da Marinha. Atracado no Porto Comercial, bem próximo do Relógio de Sol, o navio pode ser visitado entre hoje e terça-feira de manhã, após o que partirá de regresso à base naval do Alfeite. Na viagem de Lisboa para a Figueira da Foz, e regresso, seguem a bordo da Sagres, 100 jovens figueirenses, uma oportunidade privilegiada para se iniciarem nos assuntos da marinha em ambiente prático.
O belo navio comemora 50 anos de serviço à Marinha Portuguesa e 75 anos de vida. Foi construído nos estaleiros de Blohm e Voss, em Hamburgo em 1937, e batizado Albert Leo Schlageter. Em 1948 entrou ao serviço da Marinha do Brasil e então recebeu o nome Guanabara. Anos mais tarde, em 1961, foi adquirido por Portugal para substituir um velho navio chamado Sagres. Seu nome vem do Cabo de Sagres, o local onde foi criada a primeira escola náutica do mundo  pelo Infante D. Henrique no século XV - que muitos dizem ser apenas um mito. As velas apresentam a Cruz de Malta, símbolo usado nas velas de embarcações portuguesas durante a época dos Descobrimentos. Curiosamente o navio ostenta as divisas das Marinhas a que pertenceu inscritas nos aros das rodas do leme: Gott mit uns - Deus está connosco -, ostentada pela Marinha Alemã;  Tudo pela Pátria, divisa da Marinha Brasileira e a divisa da Marinha Portuguesa - A pátria honrae que a pátria vos contempla.  Isso eu só irei ver amanhã ou depois, quando o for visitar. Desde 8 de Fevereiro de 1962 que a Sagres assegura a formação de oficiais na Academia Naval que assim complementam o seu conhecimento técnico e académico. Já embarcaram mais de 4000 cadetes! O navio escola Sagres realizou já mais de 150 viagens navegando pelo Atlântico, Pacífico e Índico, Mar do Norte, Caribe, Japão, China, Mediterrâneo, etc. Durante os últimos 50 anos ao serviço de Portugal realizou três viagens ao redor do mundo e visitou 385 portos, tendo navegado cerca de 600 mil quilómetros.

Aproveite para ler tudo sobre o navio escola Sagres visitando o site da Marinha Portuguesa! Ou leia uma entrevista ao Comandante Sardinha Monteiro no jornal o Figueirense realizada a propósito desta visita. Se vive na Figueira da Foz, não perca a oportunidade para observar de perto esta escola e fantástico embaixador de Portugal no mundo que é o Navio Escola Sagres. 

Horário das visitas
01ABR (Domingo): 15:00-19:00; 20:00 – 23:00;
02ABR (2ª Feira): 10:00 – 12:00; 14:00 – 19:00; 20:00 – 23:00;
03ABR (3ª Feira): 10:00-12:00.

Ao longe, à espera.
Na companhia dos reboques.
A subir o rio.
A alguns metros do molhe.
A afastar-se em direção ao porto.
Bem acompanhado!
Foi lindo!
Depois de ter dado meia-volta.
Muita gente concentrada no porto.

Boas vindas com música pela Fanfarra dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz

...e Banda Filarmónica do Paião
A Sagres junto ao Relógio de Sol

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