2/16/12

Joshua Bell toca no metro, incógnito

Li sobre esta experiência social no Facebook e resolvi procurar mais informação, até porque não sabia bem se era inteiramente verdadeira. A história original ainda pode ser lida no Washington Post de 2007. É uma peça de Gene Weingarten, intitulada Pérolas ao pequeno almoço, mas o jornalista também lhe podia ter chamado Pérolas a porcos para resumir o desperdício em que se traduziu o episódio. Ou talvez não se tenha tratado de um desperdício total. Senão vejamos.

Um músico entrou numa estação de metro. O violinista vestia uma t-shirt comprida e umas calças de ganga. Na cabeça usava um boné comum. Colocou o estojo do violino no chão com algum dinheiro a servir de isco e começou a tocar. Eram 7:51 da um manhã de sexta-feira do dia 12 de Janeiro, em pleno rush matinal. Nos próximos 43 minutos o violinista interpretaria seis peças clássicas e 1.097 pessoas passariam, segurando copos de café na mãos, sandes, telemóveis, demasiado apressadas para se importarem com ele e a sua arte. Quase todos eles estavam a caminho do trabalho, o que significava, para quase todos eles, um emprego no governo. Esta estação dá acesso ao edifício do governo federal de Washington pelo que os passantes seriam na sua maioria burocratas de nível médio com títulos vagos como analista político, gerente de projetos, diretor de orçamento, especialista, facilitador, consultor. O que acham vocês? Parariam para ouvir a interpretação musical deste músico (de rua) ou seguiriam o vosso destino como se nada fosse?

Quem seria capaz de pensar que ali, num momento tão pouco apropriado e num local tão banal, actuava um dos melhores músicos clássicos do mundo, tocando algumas das músicas mais elegantes já escritas e utilizando um dos mais valiosos violinos Stradivarius já feitos, ele também uma obra de arte avaliada em 3,5 milhões de dólares? Alguém pararia reconhecendo o talento e a qualidade da oferta ali presente pelas mãos de Joshua Bell?  Seria a música só por si suficiente para fazer parar o movimento incessante na estação?Três dias antes de atuar ali, Bell tinha enchido a casa senhorial de Boston Symphony Hall, com ingressos a 100 dólares cada. As pessoas que compraram esses bilhetes já sabiam o que esperar e Bell também sabia que esse público lhe ia devolver atenção e palmas. Na estação de metro tudo era uma incógnita. Bell decidiu começar com Chaconne da Partita de Johann Sebastian Bach No. 2 em D Minor. Chaconne é considerada uma das peças de violino mais difíceis de executar. Muitos tentam, poucos conseguem ter sucesso. É exaustivamente longa - 14 minutos.Três minutos se passaram até que algo aconteceu. Sessenta e três pessoas já haviam passado quando finalmente um homem de meia-idade alterou a sua marcha para uma fração de segundo. Olhou e depois ele seguiu. Meio minuto mais tarde Bell conseguiu sua primeira doação. Uma mulher deitou uns trocos no estojo e seguiu rápido. Nos três quartos de hora que Joshua Bell tocou, vinte e sete pessoas deram dinheiro, a maioria delas a correr, a soma chegou aos 32 dólares. As restantes 1.070 pessoas que passaram, algumas apenas a três metros de distância do intérprete, mal se voltaram para olhar. A pessoa que se revelou mais interessada foi um menino de 3 anos de idade. Ele e todas as crianças que passavam eram naturalmente atraídos pela música mas os pais arrastavam-nos para longe invariavelmente. Depois de Chaconne, ouviu-se Ave Maria, de Franz Schubert, depois peças de Jules Massenet, Bach.

Quando vou para uma estação de comboios, de autocarros ou metro, e eu uso-as com frequência, eu tenho um transporte para apanhar, um horário a comandar as minhas acções e quase sempre um destino onde tenho de chegar a horas. Quantas vezes é que eu poderia parar e apreciar a música, por muito excelente que ela fosse, sem sofrer uma sanção por causa disso? Valeriam aqueles minutos de música ser repreendida pelo meu patrão, por exemplo? Aceitaria ele a minha explicação ou antes consideraria que eu não tinha as minhas prioridades bem definidas? Sem dúvida que eu não conseguiria saber se o intérprete era ou não um virtuoso, não tenho o ouvido assim tão treinado. Mas decerto não ficaria indiferente à música, talvez identificasse até as peças tocadas, algumas sem dúvida, e como tenho hábito de dar uma moedinha aos artistas de rua, eu teria dado uns trocos a Bell. Mas eu sou sensível às artes de rua. Páro quase sempre até para apreciar até mesmo simples malabaristas andrajosos de mochilas às costas! Parece-me indiferente que o artista em causa fosse um virtuoso ou que estivesse a tocar música clássica. Creio que até podia ser um tocador de concertina ou de covers pop, não creio que a reacção das pessoas fosse diferente. O mesmo sucederia com um mágico que estivesse ali fazendo alguns truques de magia ou um contorcionista ou até um encantador de serpentes. E mais, o que é importante para uns, para outros não é, para já não dizer o que é importante para a maioria. Há quem passe a vida inteira sem nunca ouvir Bach e conheça de cor as músicas dos Queen. Queen é igualmente bom dentro do seu género. E se fosse Freddy Mercury a cantar ali? Sim, eu sei, ele já morreu. Não era isso que pretendia dizer, vocês entendem-me. E como seria bom que todos tivéssemos a liberdade, a disponibilidade mental e a eterna curiosidade das crianças a quem até uma bola de sabão a pairar no ar deixa intrigadas!


Esta experiência social sobre a percepção e as prioridades das pessoas pode não ter qualquer rigor científico mas servirá pelo menos para nos fazer pensar se na nossa corrida diária não perderemos coisas importantes, ainda que haja uma forte justificação para isso, sejam belas ou menos belas, excelentes ou nem tanto, e se não valerá a penas fazer um pequeno grande esforço para estarmos mais atentos ao mundo que nos rodeia. Vale, pois, como uma provocação e cada vez mais actual face ao cada vez mais vertiginoso quotidiano que nos envolve, e por isso aqui fica para os meus leitores e amigos.



Joshua Bell interpreta Ave Maria, de Shubert
uma das peças que tocou na estação de metro

1 comment:

David C. said...

Increíble historia. Lo que debemos siempre es apreciar la belleza a cada instante.

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