1/19/12

SOS - A Transtejo e as jangadas de salvamento

A Transtejo está um pouco transtornada das ideias. Quando tudo corre bem é fácil ter boas ideias. Quando a crise aperta então é que chega o tempo de teste. As boas ideias nem sempre são baratas e quando não há dinheiro rapidamente tendem a ser substituídas por más ideias, mais baratas. Mas como todos sabemos, muitas vezes o que é barato pode sair caro e a Transtejo está a arriscar uma dessas saídas. 
Há dias li que os trabalhadores da Transtejo, empresa responsável pelas ligações entre Seixal, Montijo, Almada e Trafaria com a capital, iam fazer greve no dia 2 de Fevereiro. Em causa a redução do número de carreiras, eventual fusão com a Soflusa, prenúncio de despedimentos. Poupar é a nova ordem. Nunca precisei de atravessar o Tejo nestes barcos mas sei o que é depender de um transporte público para tratar da minha vida. Eu não gosto muito de barcos, não sei nadar e a ideia de um naufrágio aflige-me bastante. É algo que até ultrapassa essa minha fragilidade, a ideia de estar sobre a água só por si faz-me bulir os nervos. Não tem explicação 100% racional pois sou capaz de estar no mar com água até ao pescoço sem qualquer transe, aliás, adoro um banhito de mar. 
Ontem li uma notícia que me deixou boquiaberta. A Transtejo está a poupar nos custos e resolveu poupar onde eu penso que nunca se deve poupar - na segurança dos passageiros. Quer substituir as balsas pneumáticas por jangadas rígidas. Quando comecei a ler eu nem sabia que esta modalidade de salvamento existia, os meios de salvamento colectivos que eu conhecia eram ou balsas ou botes, a "modalidade Crusoe" é nova para mim. Uma jangada rígida das maiores, para 20 pessoas, custa 341 euros, uma balsa custa pneumática custa 4000 euros e nela cabem 100 passageiros. Além de serem uma pechincha, estas jangadas rígidas  dispensam inspecções para acautelar se estão em boas condições de funcionamento. A vida humana não tem preço mas não para a Transtejo. A opção de poupar dinheiro destronou a outra, a de poupar vidas humanas.
Eu, que sou muito boa a fazer filmes, imaginei-me logo a bordo de um destes barcos, um cacilheiro, a ver a água a chegar-me aos tornozelos, rodeada de gente aos gritos, gente de todas as idades e crianças também, até um cego e um cão guia. Imaginei umas cenas de pânico bem rápidas, para me poupar a agonia e passar ao que verdadeiramente interessa. Vejamos. O rio Tejo tem um estuário enorme, por alguma razão lhe chamam  Mar (da Palha), nem  todos os nadadores se safariam, eu nem precisava de me preocupar com a distância a que estávamos da margem mais próxima, afundaria que nem prego. Se conseguisse ultrapassar o pânico ou o estado de choque em que entraria, querem estes senhores da Transtejo que eu ficasse sentada em cima de uma jangada,  - se tivesse arte de trepar para cima dela e de me aguentar aí, pois no meio da confusão aquilo deverá ser um puxa-empurra do cara..., toda a gente a ver se consegue um lugar na tábua flutuante - ensopada, com as pernas mergulhadas na água do rio de temperatura baixa no Inverno (10º) e não muito elevada no Verão(17º),  ou mesmo somente agarrada a umas pegas laterais que elas possuem, o corpinho estendido a boiar. Não demoraria muito a entrar em hipotermia e a ir desta para melhor. Depois de perder as forças as correntes arrastariam a minha carcaça para o mar onde serviria de repasto aos peixes. Mas como eu tenho um feitio um pouco azedo, é possível que nem isso, pois até os peixes devem ser bons garfos na hora de comer e não faltará melhor petisco. Et voilá, aí temos mais uma trágica história à la Titanic, mas sem direito sequer a inspirar fitas de cinema, sinónimo apenas que é desta pobreza a que estamos entregues de momento, pobreza em todos os sentidos. 
Mas há mais detalhes de transtorno: esta notícia do Correio da Manhã (de ontem) ainda refere uma tal Convenção Marítima Mundial que possui legislação contra o uso destas jangadas rígidas e que está prestes a ser aprovada. Ou seja, no momento em que o mundo concluiu que elas são ineficazes, a Transtejo resolveu remar contra a maré e abrir  - em Março de 2010 - um concurso para a sua aquisição!Enquanto isso as velhas balsas ficam com a Transtejo por 20 anos, não sei se arrumadas a um canto, se para serem usadas também. Esta negociata não tem pés nem cabeça. E, depois, vamos ao site da Transtejo e lemos a sua Missão: " A Transtejo e a Soflusa prestam um serviço público de transporte fluvial integrado no sistema global da Área Metropolitana de Lisboa, sendo elemento fundamental na travessia do Tejo, subordinado a padrões de elevada qualidade e segurança." São muito bonitos os barcos, cacilheiros, ferries e catamarãs, parecem ser todos muito modernos e bem equipados nesta infografia, daqui, donde eu os vejo, do meu lugar seco e a quilómetros da água. Eu gosto muito de barcos, o pior é quando começam a meter água. Agora pensem lá como é que um barquinho de 290 metros acaba de naufragar bem perto da costa italiana depois de sofrer um pequeno arranhão no casco, o Costa Concordia, um acidente tão improvável que só prova que tudo pode acontecer!  Por isso a aposta na segurança tem de ser levada a sério, não com a ligeireza de ideias em que a Transtejo está navegar, colocando em potencial risco a vida dos passageiros para poupar dinheiro. Porque é que a Transtejo não faz um ensaio com essas jangadas rígidas? Embarquem os responsáveis pela tomada de decisão num cacilheiro e depois mandem-nos ao rio frio num dia de nevoeiro, chuva e águas agitadas. Depois dessa experiência radical talvez regressem às secretárias com uma lucidez mais enxuta.

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