12/31/11

Sonhei com o Jim Morrison

Esta noite acordei por voltas das sete da manhã, quer dizer, já era madrugada, estava a sonhar com o Jim Morrison.  Foi o último sonho de 2011! Um desenhador americano, cujo blogue visitei durante imenso tempo com assiduidade, ilustrava os sonhos que tinha tido. Alguns eram hilariantes, outros estranhos, havia-os também desconexos, surreais, complicados e ininteligíveis. Eu invejava o Goobeetsa por dois motivos, primeiro, por se lembrar dos sonhos e depois pela paciência infinita para os desenhar, ainda que usando formas geométricas. Acabou por fazer um livro com essas ilustrações. 
Quando eu e a minha irmã éramos pequenas eu costumava  contar-lhe os sonhos que tinha tido enquanto tomávamos o pequeno-almoço. Nunca me lembro de ter tido pesadelos ou de sonhar coisas desagradáveis e ainda bem. Por regra sonho coisas fantásticas, que na realidade nunca acontecem, coisas incomuns e estranhas. Durante um tempo sonhei bastantes vezes com golfinhos. Uma vez vi o mar da praia da Figueira cheio deles. As ruas da cidade tinham as casas decoradas com colares de pérolas de todas as cores, mas eram colares que chegavam do primeiro andar ao chão! Raras vezes sonho com pessoas conhecidas e quando isso sucede tenho por hábito informá-las!Sempre achei fabulosa, esta nossa capacidade de sonhar, e tenho pena de me recordar com dificuldade do que sonhei. É preciso acordar durante o sonho para que nos recordemos dele e depois é ainda preciso que, de manhã, nos lembremos disso! Gostava de fazer o download dos meus sonhos para uma maquineta, para os ver depois! Muito melhor do que cinema, isso vos asseguro! Pode ser que um dia seja possível, quem sabe?! 
Bom, esta noite sonhei com o Jim Morrison. Já devem estar a pensar que sonhei com o Rei Lagarto! Lagarto, lagarto, lagarto! Não, não sonhei com o vocalista dos Doors. Li há pouco tempo que um tal  Sam Bernett, ex-jornalista, tinha escrito um livro de nome "The End" onde dava conta que Jim Morrison tinha morrido  num WC do bar Rock’N’Roll Circus, em Paris, após ter consumido heroína. Mais, depois do livro sair, veio um português, José Simas, barman nesse local, dizer que ele é que o tinha encontrado no WC do tal bar e que no livro se tinham esquecido dele! Era fama que eu não queria ter, ser conhecida como a gaja que tinha dado com o Jim Morrison caído nuns lavabos a espumar pela boca, mas, enfim, antes alguma fama do que nenhuma fama, para algumas pessoas isso é importante! O livro foi polémico pois os fãs de Morrison acharam que esta versão manchava a memória do músico, preferiam a ideia de que teria morrido de morte natural, na banheira do apartamento. Opiniões, porque Jim Morrison consumia heroína como quem consome açucar, não vejo qual a diferença. Não sei a quem é que a morte natural de Jim Morrison, que tinha somente 27 anos, pode parecer natural, sobretudo depois de conhecermos os seus excessos com drogas e bebidas. Mais: o homem nem sequer foi autopsiado, por isso as versões sobre a causa da sua morte são todas aceitáveis, cada um que fique com a que mais lhe agrade.
Este Jim Morrison também é uma estrela mas não tão conhecida, não tão polémica e com hábitos de vida bem mais saudáveis. Faz sobretudo papéis em séries televisivas, também já gravou umas canções e é um entusiasta da prática do ioga. Quem seguia a série 24 talvez se lembre da personagem de Bill Buchanan, o sereno director do CTU. Eu curtia bué o Bill Buchanan e quando eles resolveram matar a personagem foi um choque!!! Eeheheh! Pois, é sonhei com o Jim Morrison. Estava eu a almoçar num restaurante todo catita, quando ele apareceu com um amigo, a falar português na perfeição e conhecia-me muito bem, apesar de já não me ver há uns tempos! Hilariante! Ei-lo aqui a falar entusiasmadamente da ioga,(em inglês) algo cujo fascínio me escapa, mas quem sabe se, com um professor como ele, eu até não acabaria por me converter?

...e até já!

Happy New Year Fireworks mousepad
Amigos antigos e mais recentes, leitores assíduos, feedburneados ou não, colegas da blogadura e da blogamole, visitantes de ocasião e  virtualmente peludas aranhas do Google: depois de mais de meio ano parado, em Setembro o Palavras-Cruzadas regressou das cinzas feito Fénix! Não foi a primeira vez nem terá sido a última vez. Os habituais já se habituaram, os ocasionais nem deram por isso e os novos estranharam, deram meia volta e sumiram-se na noite da blogosfera. A todos desejo um ano novo repleto de palavras boas. Palavras para dizer, palavras para escrever, palavras para cumprir, palavras de acção, em suma, boas palavras que não caiam em saco roto, seja na blogosfera seja fora dela. Um ANO NOVO FELIZ... e até já!

As palavras (Eugénio de Andrade)

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

12/30/11

Ano morto, ano posto!

Neste momento do ano, quando as agendas e calendários se esgotam, as pessoas fazem marcha atrás no tempo, elaboram balanços, balancinhos e balancés. Eu tenho um defeito que afeta sobremaneira estes exercícios de ruminação mental de factos passados. A minha memória é extremamente preguiçosa, tenho de puxar imenso por ela para conseguir botar cá para fora alguns dados. Em certos momentos é mesmo um embaraço, por exemplo, em reuniões de amigos. Nunca tenho nada para partilhar e ainda me espanto quando me dizem, lembras-te quando fomos à Via Latina e morreu o Freddy Mercury? Eu já não sei se me lembro ou se me lembro porque sei que estava lá e porque mo recordam de vez em quando.

Neste momento do ano em que a luz mingua nos dias e o frio toma conta dos nossos corpos, se há coisa que me apetece sempre recordar são os meus fins de tarde na praia. É reconfortante, é quase como comer castanhas na rua quando está um frio de morrer. Mais do que as imagens das ondas e espraiarem-se incessantemente sobre a areia, em pleno inverno o que sabe mesmo bem é recordar o calor do sol da nossa pele e a brisa morna. Até parece que foi há uma eternidade mas este ano em Outubro ainda fui à praia, foi um privilégio para quem se alimenta da luz do sol para combater tudo, desde neuras funestas a falta de inspiração para mais um desenho. E assim como o Natal carrega o ar do inverno de sons próprios, de saudações amigáveis, de cânticos e do tlim-tlim-tlim de guizos de trenó, também o verão se matiza em plena época balnear, colorido com risos e gritos de brincadeiras e os inesquecíveis pregões do mais irreverente e divertido vendedor de bolacha americana da Figueira da Foz, o Paulo: “Que brasa! Está calor. Ponha o protector”, “Bolacha americana”, “Já só tenho três….Aldrabão!”, “As caras lindas não pagam, mas também não comem”, “Isto parece a Assembleia da República, tudo a dormir”, “A cara é o pai, mas o feitio é da mãe. Não perde nada”. “Olha a bolacha americana da tampa amarela. Quem comer um Noddy, faz noddismo!” “Bolacha Americana é fixe e bacana...”, “Bolacha america, come uma, faz amor toda a semana; como três faz amor todo o mês”, “Bolacha americana, começa na areia, acaba na cama. “... O ano está a acabar e eu começo a contagem decrescente para o verão, encostando-me às memórias mornas dos finais de tarde na praia de Buarcos!O ano morreu, viva o novo ano!



(Esta postagem faz parte do Desafio 21 Dias, #8 Postar para futuro)

12/29/11

Facebook 2011 - Para mais tarde recordar


Passatempo de Natal da Escola Dinheiro

O Constantino tinha acabado de entrar para a faculdade. Vivia no interior, em plena serra, e agora fora obrigado a rumar ao sul para estudar Ciências do mar. Os amigos do liceu chamam-lhe Costeau estranhando que um jovem habituado às neves e que nunca tinha visto o mar ambicionasse tal futuro. Em segredo ele preferia ser chamado Capitão Nemo pois é fã de Júlio Verne desde criança. Uns anos antes pintara a sua versão do Nautilus nas paredes do quarto. A mãe adotiva não percebeu a sua paixão. Deu-lhe um sermão graúdo e mandou-o pintar a parede de alto a baixo. Nesse dia o Constantino nem jantou.
Durante muito tempo o seu sonho era partir à descoberta do mar num submarino ultramoderno e auto-sustentável. Mas cuidar de um pedacinho de qualquer zona marinha e costeira de Portugal ou ilhas já não seria muito mau. Não se pode dizer que o Constantino viva no mundo da Lua, pelo contrário, a maior parte das vezes ele parece estar mergulhado nas profundezas sem luz onde só vivem os peixes sem olhos. Não sabemos o que o Constantino vê por esses lugares mas decerto ele não precisa de luz para ver, imagina coisas.

Os colegas gostavam que ele fosse um tipo mais terra-a-terra, mais brincalhão, que não andasse sempre à procura de Nemos, nos livros, nos aquários, dentro da sua cabeça. O mais companheiro deles é Gonçalo. Todos os dias o Gonçalo toca à campainha do prédio onde Constantino alugou um quarto e seguem juntos a pé para a faculdade. Gonçalo faz surf e adora o mar. No futuro pensa tornar-se professor e ensinar as pessoas a preservar os recursos marinhos. Os dois entendem-se bem unidos pela paixão dos oceanos. Gonçalo adora navegar na internet até mais do que no mar. Não larga o seu portátil nem o seu smartphone por um minuto, o que por vezes até consegue irritar o tranquilo Constantino.

Quando Dezembro chegou o Constantino regressou à serra para passar o Natal com a família. Quando regressou à faculdade vinha diferente. Se já era um tipo sonhador agora parecia andar sempre ausente. O Gonçalo tentou sacar os motivos daquele estado mas sem êxito. Constantino “Costeau” parecia estar ainda mais longe do que já era hábito, já não sabemos se na companhia dos peixes se em Marte! O Gonçalo, preocupado, mas tentando disfarçar, um dia disparou a meio da caminhada matinal, Ouve cá, pá, andas a tomar alguma cena? Tu vê lá isso. O Constantino sorriu e repondeu que não andava a "tomar coisas", o Constantino tinha muito tino, o futuro ainda havia de lhe prestar contas e ele sabia que esse não era o bom caminho. O mistério adensava-se e até o professor de Oceanografia Geológica notou em plena aula que o rapaz estava a leste, Ó Constantino, desce à terra, queres ir até lá fora arejar? Assim não vale a pena estares aqui...
No calendário do quarto começaram a aparecer contas dos dias que faltavam para a próxima ida a casa, bué de tempo, pensava Constantino. Cada dia que passava era riscado com tanta força que o papel quase não resistia, dir-se iam tiques de condenado a cumprir pena. Afinal sempre eram 500 km enfiado no autocarro, 9 horas de marcha, e era caro, não podia andar para cima e para baixo quando queria e lhe apetecia. O Constantino era orfão e a família adotiva dava-lhe todo o amor do mundo mas pouco dinheiro para gastar. Era difícil viver da bolsa escolar e mais uns trocos. O Constantino não se queixava de nada, adorava os pais, tirando o episódio da incompreendida decoração em honra de Júlio Verne nas paredes do seu quarto, claro.

Gonçalo começou a não ter grande prazer naquelas caminhadas matinais entrecortadas por monossílabos mas os amigos não são apenas para as farras e por isso ele continuava a tocar à campainha do Gonçalo diariamente. Numa terça-feira igual a tantas outras, quando seguiam pela mesma rua de sempre, o Constantino ficou colado a uma montra e o amigo seguiu em frente sem dar pela sua falta. Quando reparou que estava a falar para o boneco olhou para trás e foi ver o que se passava. Ao chegar ao pé do amigo viu que ele cobiçava uma máquina fotográfica. Ó Constantino, francamente, uma máquina fotográfica?! Porque não usas o teu telemóvel?, disse-lhe. Só que o Constantino tinha um telemóvel dos mais básicos, nada de câmeras incorporadas, radio FM, wifi, gps, internet nem pensar. Tirou-o do bolso e agitou-o à frente do nariz de Gonçalo. És muita parvo, disse-lhe o Gonçalo. Tu não precisas de uma máquina fotográfica, precisas de um telemóvel novo, olha só. E dito isto, sacou o telemóvel de última geração do bolso, agarrou o amigo pelo pescoço e tirou uma foto aos dois. E agora, gajo, vê só esta maravilha. Vai directo para o Facebook. Mágico, não é?
Constantino não ficou impressionado. A Exilim tinha-lhe piscado o olho e ele ficara enfeitiçado. Era aquela, era mesmo aquela que ele queria. Pretinha, maneira e compacta, com 12.10 milhões de pixeis e um TFT a cores de 3.0 polegadas onde cabia tudo à vontadinha. Na realidade ele nem percebia muito de ISO, nem de aberturas e distância focal. Ele fotografava mais com o coração do que com a cabeça. A sua antiga máquina era analógica, achou-a esquecida numa gaveta em casa dos pais. Aprendeu a usá-la quase por instinto. Mal avistou o mar não tardou a correr por ele dentro com a máquina na mão. Imprevidência, claro. Com tanta excitação a máquina escorregou-lhe da mão e naufragou para sempre. Mas uma coisa ele soube assim que olhou aquela montra: era daquilo mesmo que precisava, basicamente uma pequena maravilha da Casio que cabia perfeitamente no seu bolso, sempre pronta a apontar, disparar e capturar. E até fazia videos. A caminho da faculdade o Constantino habitualmente macambúzio parecia ter tomado três cafés de uma assentada. O problema, dizia Constantino, era onde é que ele ia arranjar o money para a maquineta. Se quiseres eu empresto-te, disse-lhe o Gonçalo solícito. Pagas-me quando puderes. Mas Constantino era orgulhoso e não quis aceitar. Sabia lá ele quando poderia pagar. Não, teria de haver uma outra maneira. Então o Gonçalo sugeriu-lhe que criasse um blogue para ganhar umas lecas. Mas adiantou logo que ele teria de ser paciente, que um blogue demora até fazer dinheiro...e que é preciso dedicação e muito trabalho, não desistir. Naquelas águas o Gonçalo sabia navegar sem bóias de salvação e foi dando umas dicas ao amigo nesse dia e nos seguintes, enquanto caminhavam para a faculdade, ao almoço, na cantina, e até no regresso para casa. Era SEO para aqui, SEO para ali, e o Adsense isto e o Adsense aquilo, e mais os afiliados e o Google Annalytics.

À noite Constantino sentava-se no seu computador e tentava aplicar os conselhos que ouvira da boca do amigo ao longo do dia. Mas ou Gonçalo não tinha nascido para ensinar ou era Constantino que não tinha queda para o negócio dos blogues. Foi então que ele descobriu o blogue da Escola Dinheiro do Paulo Faustino e tudo mudou. Quer dizer, não mudou da noite para o dia, mas a Escola Dinheiro era uma autêntica mina. A Escola Dinheiro ensinava diariamente milhares de pessoas a ganharem dinheiro na internet e se havia alguém que precisava de ganhar dinheiro era Constantino.

Os meses passaram e não havia aluno mais dedicado e paciente que Constantino, até o Paulo Faustino se surpreendeu. O blogue sobre a vida nos oceanos tornou-se um êxito, ultrapassando até o de Gonçalo em visitantes, um facto que a este muito intrigou. Mas acabou por concluir que tal se devia ao facto de ser um bom professor e ficou contente pelo amigo. Durante a interrupção lectiva do Verão, o Gonçalo, que era mesmo um camarada a sério, enviou uma prenda ao Constantino. Como estás, meu palerma? Sei que hoje é o dia do teu aniversário e resolvi fazer-te uma surpresa. Ora descarrega aí e diverte-te a brincar com ela enquanto não deitas a mão à verdadeira. O Gonçalo, que aqui para nós teria feito bem melhor em seguir design do que Ciências do Mar, tinha feito um paper toy para o seu amigo querido, nada mais nada menos que uma réplica da desejada máquina fotográfica. Constantino imprimiu o ficheiro e montou o brinquedo de papel, jurando para si mesmo que ainda havia de tirar fotos ao Gonçalo.

Quando se reuniram de novo, ambos já no 2º ano, em Outubro, o assunto da máquina não tardou a vir à baila. Daqui a pouco ainda o modelo se esgota, gozava o Gonçalo. Porque não me deixas emprestar-te o dinheiro que falta? Mas Constantino, paciente qual chinês, assegurava que estava quase, que não era necessário. Durante o Verão até ganhara uns trocos a fazer trecking com turistas lá na serra.

Foi já muito perto do Natal que o nosso “Costeau” recebeu o pagamento do Google. Faltavam dois dias para ir a casa passar a quadra natalícia quando se meteu a caminho da loja para cumprir o sonho. Levava parte do dinheiro no bolso das calças, outra parte pagaria com o seu cartão. Gastara o resto da magra mesada em prendas de Natal e no bilhete do autocarro que o levaria de volta à serra. Não era fácil viver com uma bolsa de estudante. Certo que tinha umas economias no banco, mas isso não era para mexer a troco de qualquer capricho, era um fundo de emergência. O Constantino cogitava nestas coisas da vida enquanto apreciava a rua iluminada com decorações natalícias. Ao chegar perto da loja viu um Pai Natal à entrada.
Ao aproximar-se este estendeu-lhe a mão mas em vez de dizer Ho!Ho!Ho! Feliz Natal perguntou-lhe se Constantino não lhe podia dar qualquer coisa. Constantino ficou embasbacado. O Pai Natal a pedir esmola? Ai...Ouça lá, você não tem vergonha de estar vestido de Pai Natal a pedir esmola? Isso é um truque muito feio para se aproximar das pessoas. O Pai Natal não se ficou e respondeu na volta dizendo que feio era que a loja de fotografia o tivesse despedido sem sequer lhe pagar os dias anteriores que já ali estivera a entreter a criançada e a distribuir balões. Estava desesperado, dizia, a mulher era desempregada e doente. Ou pagava a renda de casa ou lhe pagava a medicação. O que ia fazer agora? Todas as lojas já tinham contratado o seu Pai Natal. Constantino ficou com vergonha de voltar as costas ao Pai Natal mas consumido por um grande dilema: desse o que desse ao Pai Natal, um euro ou 10 euros já não era ali e agora que podia comprar a tão desejada máquina. Olhou em volta e as pessoas passavam sem dar por eles, sem imaginarem sequer o drama, o dele e o do Pai Natal, que, aqui para nós, não passa de pura mentira. Porquê eu, perguntava-se Constantino. Como podia entrar na loja sabendo que do lado de fora o pobre do Pai Natal o veria a entregar todo aquele dinheiro? O melhor era ir embora, comprava a máquina no dia seguinte. Queria tanto levar a máquina com ele, até já tinha feito planos de estudar as instruções na viagem. Nisto, o Pai Natal puxou de uma arma e ameaçou-o. Sei que tens dinheiro, passa pra cá se não queres que te fure a barriga. Constantino não conseguia pensar nem mexer-se. A arma mais não era que uma pistola de brincar que ficara no saco das prendas baratas que ele tinha para distribuir. Mas aos olhos de Constantino aquilo era a pistola do Jack Bauer. O Pai Natal insistiu e abanou-o pelo braço com mão de ferro, Vamos, rápido miúdo, deixa-te de cenas. Constantino levou a mão hesitante ao bolso e retirou de lá o dinheiro. O Pai Natal riu-se atrás das barbas e agarrou o pequeno rolo de notas avidamente. Desapareceu dali a passos largos deixando Constantino a olhar para a máquina na montra com as lágrimas presas na garganta. Tinha sido assaltado pelo Pai Natal!
Constantino não via mais as luzes da rua, era como aqueles peixes sem olhos que habitam o fundo do mar. Deixou-se arrastar até casa pela corrente das pessoas apressadas, como se fizesse parte de um cardume em plena corrente do Golfo. Mas eis que ao virar uma esquina o Pai Natal lhe apareceu de novo à frente! Em choque, Constantino exclamou, Não tenho mais dinheiro, pá, o que é que você quer agora? Deixe-me, deixe-me, seu cretino ou eu chamo a polícia! À sua volta as pessoas estacaram e Constantino sentiu-se cravado por olhares de censura. A chamar nomes ao Pai Natal, disse uma senhora, chocada. Estes jovens! Aí o Pai Natal abriu a boca e disse, Constantino, amigo, vê lá se te acalmas. Estou aqui para te dar um presente, sei que precisas dele. Constantino estava a ferver. Amigo?! Primeiro aquela fraude de Pai Natal roubara-o e agora vinha ter com ele cheio de falinhas mansas?! Sem dizer mais nada o Pai Natal meteu a mão ao bolso e forçou Constantino a aceitar uma nota de 20 euros. Feito isto deu meia volta, pegou no saco e meteu-se num taxi que estava ali mesmo parado na estrada, dir-se-ia à sua espera. Constantino não sabia o que pensar de tudo aquilo, ele nem queria pensar, só queria esquecer-se do sucedido. Ou devia ir à polícia? Mas para dizer o quê? Que tinha sido roubado pelo Pai Natal?! Descreva o suspeito, diria a polícia. Bom, tinha barbas brancas, casaco e calças vermelhas, responderia ele... Quando chegou a casa tomou um duche quente e longo, comeu e foi-se deitar.
Ao acordar havia sol a entrar pela janela e ele, ainda deitado, começou a pensar no encontro fatídico com o Pai Natal. Levantou-se e viu sobre a mesa o conteúdo dos seus bolsos: a chave, o telemóvel, um pacote de chicletes e a nota de 20 euros. Lembrou-se que não tinha com ele nenhuma nota de 20 euros no momento do roubo e achou estranho estar a pensar isso. Durante a manhã fez a mala, e enquanto aspirava o quarto pensava que à noite, e após tantos meses, estaria de novo nos braços da sua namorada. Iam festejar um ano de namoro. Infelizmente ainda não era desta que ia fazer fotografias dela, as fotografias que tanto o ajudariam a superar a distância e pelas quais tanto esperara. Imaginava a Gracinha toda boneca a fazer pose e quase explodia de raiva pelo sucedido. Que ironia. Para matar o tempo até à hora da partida, abriu o computador e sem pensar bem no que fazia andou a clicar por aqui e por ali. Passou pelo site da Escola Dinheiro e viu uma postagem sobre o Ok Online Casino, um site que se gabava de apresentar uma linha completa de jogos tradicionais de casinos, como o Blackjack ou o Bacará, além de uma seleção de jogos premiados com tecnologia de última geração. Também tinha lançamentos exclusivos de Caça-níqueis e outros tipos de jogos em 3D, com efeitos de som e imagem jamais vistos em qualquer outro casino on-line! Era um site cheio de oportunidades únicas para ganhar dinheiro sem sair de casa. Constantino olhou para a nota de 20 euros em cima da mesa. Porque não? Perdido por 100, perdido por 1000. Sem pensar mais, entrou no jogo.
Logo após o almoço, Constantino despediu-se dos colegas do apartamento desejando um Feliz Natal e Boas Entradas. Também ali o Constantino “Costeau” tinha fama de reservado e até lhe estranharam a façanha. O Natal é um tempo especial, muda as pessoas, pena que a mudança não permaneça o ano inteiro, foi o que disseram quando ele fechou a porta atrás de si. O elevador desceu. Constantino puxava a mala com rodinhas desajeitadamente pela rua que todos os dias subia e descia com Gonçalo a caminho da faculdade. Parou junto da montra da loja de artigos fotográficos. Olhou uma última vez para a Casio Exilim antes de entrar para a comprar e meter enfim no bolso, como imaginara um ano antes. Feliz Natal!

12/28/11

O gato comeu o rato!

Nas últimas semanas do ano tudo abranda, é quase inevitável. Os bloggers mais previdentes, o mesmo é dizer, aqueles que encaram a actividade blogueira muito a sério escreveram já com antecipação e à hora marcada as postagens são publicadas automaticamente. Enganam assim o marasmo habitual que toma conta dos blogues a nível mundial nos últimos dias do ano. Quem não quer saber disso já se desculpou com o nariz do Rudolfo, a pança do Pai Natal ou um anjo esvoaçante na homepage do blogue e uma curta postagem a dizer, amigos, como decerto compreenderão, andarei muito ocupado com as celebrações natalícias, a compra das prendas, da comida, regressarei depois das doidices da passagem de ano, mais pobre e também mais anafado mas com o mesmo afinco blogueiro. Outros então nem sequer passam cartão. Fazem silêncio. Uma semana antes do Natal já há indícios. Na semana do Natal há provas.  Nada se move na sua homepage a não ser, claro, os flocos de neve a caírem em diagonal e o gif electrizante do trenó do pai Natal puxado pelas renas a toda a largura do cabeçalho. Por ali, tudo é silencioso, tudo é noite, tudo é calmo e brilhante, - Silent night, holy night; All is calm, all is bright - e o ecrã do computador estiver devidamente limpinho. Na semana seguinte até se poderá dizer que o gato comera o rato e que à falta de conhecer os atalhos no teclado o blogueiro dedicado teria  ficado de mãos atadas. Quem não ficou de mãos atadas foi a tricotadeira que teve a ideia de vestir o rato não fossem os frios gelados de Dezembro constipá-lo. E nos sete dias que inauguram o ano muitas mãos continuarão em stand byE a cantar vos deixo, mesmo se não ando muito ressacada das festas nem a traçar planos para a passagem de ano. Há que levar isto nas calmas, cantando, de preferência, e protegendo sempre o nosso rato do ataque dos felinos de tricot. Digo isto porque estou a ser mentalmente embalada pela canção Noite Feliz... ainda são ecos da fustigação musical da quadra. Nada que me apoquente muito, tirando a repetição massacrante...

(Esta postagem faz parte do Desafio 21 Dias, #8 Postar para futuro)

Praia em Dezembro











No Algarve têm a Praia da Rocha. Na Figueira da Foz, quase aos pés da Serra da Boa Viagem, temos a praia das rochas. Não deixa de ser uma boa aventura procurar vida entre as rochas. Ao largo, depois de as percorrerem com as pranchas de surf sob o braço, havia mais de duas dezenas de surfistas a apanhar ondas. Na areia, à hora do almoço, apenas duas ou três pessoas, o vento frio mantinha os mirones do mar dentro dos carros estacionados na avenida. Mas o sol convidava ao passeio e junto ao mar, não estava mal de todo, debaixo de três camisolas...!

12/26/11

Uma história de amor no metro

Celebrate Love card
Estamos na quadra do Natal e o Público publica uma história de amor. Há um homem que desde o dia 14 de Fevereiro de 2011 coloca uma flor e uma mensagem escrita na alavanca do sinal de alarme da última carruagem do metro de Lisboa, mais propriamente na linha Azul, aquela que parte de Santa Apolónia e que termina na Amadora. No próximo mês de Fevereiro a sua aventura termina, muitas flores, palavras e fotos colecionadas, uma inequívoca prova daquilo que o amor tem de ser afinal: entrega. “O amor é todos os dias”, diz José. Inspirem-se aqueles que se dizem demasiado ocupados para o amor, para o sentido da vida, pois ele tanto se faz de pequenos como de grandes gestos.

Este destino coube-lhe quando, num jantar para “encalhados”, revelou ser o que estava há mais tempo à espera do Cupido, ficando para ele a rosa que estava na mesa. Essa flor deu origem à brincadeira que se tornou um caso sério. De regresso a casa, ao ver a alavanca de alarme do metro, o nosso jardineiro colocou lá a flor acompanhada de uma mensagem: “Só me volto a encontrar contigo quando apanhares a flor que vai no metro da linha azul”. Dali em diante começou a escrever diariamente pequenas notas de amor e a ir ao metro depositá-las com as flores. José quer permanecer anónimo e não revela o apelido. Mas o seu projeto de plantação de flores e palavras de amor no metro, por vezes ridículas como todas devem ser, tem página no Facebook, Sinal de Alarme. O amor escrito permeia-se dos eventos do quotidiano como as eleições, a política, as manifestações, greves ou a declaração do fado como Património da Humanidade. Este jardineiro poeta é-o também de intervenção. José comprou as flores mas também as apanhou no canteiro do Banco de Portugal, uma esmolinha para o jardineiro do amor, oferecida pela cidade. Ocasionalmente, em aniversários que marcam etapas assinaláveis, às palavras juntaram-se objetos – uma camisa, um abacaxi, um bacalhau, um bolo-rei! 
Até o passageiro mais empedernido daquela carruagem se deixa abraçar pelo amor entre uma e outra paragem. Porque o amor também é estranho, nem sempre racional, e muitas vezes surpreendente. Na mensagem há uma morada e já houve pessoas que colheram a flor e retribuiram com uma carta, uma chegou do Canadá. Mas a maioria vai ao Facebook e é aí que interpela este jardineiro dos subterrâneos de Lisboa sobre a sua loucura normal.

“O amor é todos os dias”. Por isso José não falhou um dia. Não teve férias, não viajou, não foi a festas, não dormiu para poder cumprir o destino da flor. Um dia em que de todo não teve possibilidade de ir ao metro houve alguém que assegurou a tarefa para que os olhares habituados à beleza não se interrogassem e os corações não tremessem de frio no  vazio das palavras. Pela Páscoa não foi ao norte celebrar com a família, pediu à família para descer até Lisboa. Noutra ocasião, a avó de 88 anos teve de peregrinar até à capital se quis ver o neto! Ele esconde a natureza da sua missão com a desculpa do trabalho a fazer pois receia que até a família o catalogue como louco! Ninguém sabe da sua escravidão feliz. A fazer um doutoramento na Universidade do Minho, José vai mas volta, todas as sextas-feiras, por amor ao amor, às palavras e à flor. No Natal, mais uma aventura: José atreveu-se a ir passar a consoada com a família, mas regressou a Lisboa. Não sei se correu completamente bem pois havia greve na CP. Lá para Fevereiro o calendário vai embrulhar esta história num final. E então os passageiros do metro, estranhando a ausência da Primavera naquele recanto, irão certamente interrogar-se: E agora José? 


Fonte: Sinal de Alarme - O amor é rei.

12/25/11

Cinema e livros - O segredo de seus olhos


Há um presente que eu queria receber neste Natal mas que ninguém me vai oferecer porque eu não disse a ninguém que o queria. Pensei várias vezes comprá-lo, mas não calhou. Depois ofereci-me a minha prenda de Natal, um precisado disco externo que me custou os olhos da cara. Era uma ferramenta imprescindível e teve de ser. Com isso ficaram adiados até uma melhor oportunidade quaisquer outros hipotéticos presentes de Natal. Refiro-me, se ainda não adivinharam a este livro, O segredo dos seus olhos. Fiquei com uma enorme vontade de o ler depois de ter visto o filme que o adaptou - El secreto de sus ojos, um filme argentino, de Juan José Campanella, que obteve o Óscar para o melhor filme de língua estrangeira no mesmo ano em que concorriam o excelente e favorito O laço branco, de Michael Haneke, que também vi apenas este ano, e O profeta, de Jacques Audiard, que também vi recentemente. Já não sei quais os outros, mas estes três filmes eram realmente bons e ser-me-ia difícil eleger um como sendo o melhor se mo pedissem. A atribuição dos prémios é por vezes redutora, fazendo brilhar um filme e remetendo outros para um plano secundário. Por isso eu fico por regra mais atenta às nomeações do que propriamente aos vencedores dos Festivais. 

Deste O segredo de seus olhos, estou certa que todos gostámos da reviravolta final e da forma subtil como uma das personagens, o marido da vítima, nos mantém na dúvida sobre se não terá sido ele o autor do crime. Todo o filme é feito desse tipo de subtileza e é aí que reside a chave do seu êxito. Com diálogos realistas e interpretações maravilhosas, nada é desprovido de significado, há sugestão em cada palavra, em cada gesto, em cada olhar. É daquele cinema que nos envolve de tal forma que parece estar a acontecer à nossa frente. Eu sei que pode parecer uma afirmação tola. Mas se viram o filme sabem o que digo. As personagens têm real substância, respiram no ecrã. Embora tenha achado todos os intervenientes competentes, fiquei deslumbrada com Ricardo Darín capaz de interpretar primeiro, um homem novo, - o Benjamin Esposito, um jovem vigoroso, despreocupado, de respostas prontas - e depois, passados 25 anos, um homem maduro mas desassossegado, um homem à procura de respostas. Ele deseja recuperar o tempo perdido, uma paixão por viver com a sua chefe, a Juiza Irene, - que sempre lhe pareceu tão distante quanto a resolução do mistério Morales- e fazer a paz com o passado. Além disso podia citar a fotografia clássica, a boa banda sonora, a atenção ao detalhe na reconstituição histórica de Buenos Aires de 1974 e do ano 2000, marcos temporais da trama. Mas o que me fascinou mais foi ver como num filme com duas linhas narrativas, com passado e presente de duas histórias, tudo flui em simultâneo com uma naturalidade e ritmos perfeitos. Isto é muito raro, este tipo de equilíbrio. Além disso Campanella conseguiu ainda realizar um verdadeiro thriller, que surge como que sem artifícios, manipulando doses de incerteza q.b para manter o supense até final e pontuando a fita com momentos de verdadeira tensão dramática apenas quando necessário. Um filme como este remete claramente para o cinema clássico norte-americano, até na sua forma convencional de realização, escorreita mas sem malabarismos, o crime em primeiro plano, mas entrelaçado nele uma história romântica que emerge logo nas primeiras imagens do filme na forma de um emocionado olhar, uma despedida numa plataforma de uma estação de comboios. Despedida que é uma das memórias que Benjamin, ex-agente federal, procura no presente exorcizar na forma do romance que pretende escrever, agora que se reformou, a par do Caso Morales, um crime de homicídio que tinha sido arquivado precocemente deixando-o em desassossego até ao presente. É um filme sentimental e por isso envolve-nos no desejo pelo triunfo do amor de Esposito e Irene, mas não deixa de ser um filme sobretudo policial, da investigação à tramitação nos gabinetes dos juizes e dos oficiais de justiça, no tempo em que Péron governava a Argentina, com direito à denúncia da corrupção, um filme que nos faz ansiar por justiça e que ao mesmo tempo nos faz sorrir com momentos de bom humor e rejubilar quando chega o The end. Para já fica a memória cinéfila, para o ano a leitura do livro O segredo dos seus olhos.

12/24/11

Renda de Birras, um ilustre desconhecido

O blogue objeto desta postagem chama-se Renda de Birras. Esta postagem integra o Desafio 21 Dias e é a tarefa #5 Ilustres desconhecidos.
Em Dezembro de 2008 criei um blogue que, portanto, está a celebrar o 3º aniversário durante este mês, ainda é um blogue bebé. Parabéns Renda de Birras! Não, não estou a falsear a tarefa. Fui uma espécie de mãe Blogger de aluguer. Gerei o blogue e depois entreguei a criança para...a minha mãe. Eis o que ela quis que eu escrevesse no perfil: 

“Fui modista e ensinei costura,e agora sou reformada,esposa e avó e dona de casa atarefada.Estou a aprender a usar o PC e a internet e criei este blogue para escrever sobre birras, manias,memórias,o que me apetecer!” Interesses: Palavras cruzadas,leitura-livros revistas jornais.Ver filmes.Cozinhar.B ordar e fazer renda. Medalhística do Cabral Antunes.Viajar "cá dentro"! Filmes Favoritos: Perfume de Mulher com o Al Pacino e Alguém terá de ceder com o Jack Nickolson ,O carteiro de Pablo Neruda. Música Favorita: Música portuguesa e música clássica.Fado de Coimbra, Cântico alentejano, Artur Garcia Marco Paulo e ópera. Livros Favoritos: Poesia de Guerra Junqueiro e Antero de Quental. A cidade e as serras de Eça de Queirós.”
Eu escrevi isso no perfil dela porque nesse momento ela não sabia mexer no Blogger. Mas depois não fiz mais nada. É tudo dela. Eu ensinei a minha mãe - e o meu pai – a usar o computador, o Office e a internet para blogar, enviar correio e navegar. No momento actual o blogue da minha mãe tem 46 seguidores, a maioria são do Brasil. 
Sempre achei que usar um computador e a internet seria muito bom para os meus pais e meti-lhes essa ideia na cabeça. Ambos tinham a essa data  70 anos e pensavam que já não tinham idade para essas modernices. Não foram precisas muitas lições para eles dominarem o básico. Por vezes ainda sentem dificuldades e precisam de uma" revisão da matéria dada”! Mas nada que também não me aconteça quando uso os meus programas. Penso que ainda aprenderiam mais coisas se eu dedicasse mais tempo a apoiá-los. 
Dos dois, a minha mãe foi quem mais entusiasmada ficou com a internet. Ela diz até que se viciou no uso do computador. Por vezes chega a esconder o portátil noutra divisão da casa  para não ir lá durante o dia! O azar chegou este ano quando a placa gráfica se avariou. Fui ver do que se tratava e acabei quebrando o ecrã. O conserto das duas coisas juntas era uma pipa de massa! Os dias passados sem o portátil foram um tempo de grande enfado para a minha mãe. 
Primeiro ela usou o blogue só para escrever os seus textos e colocar umas fotos, mal saía do seu cantinho. Mas depois descobriu que havia vida além do seu e nunca mais parou. Agora diverte-se imenso a comentar e a visitar os blogues da sua lista de leitura. Ela acabou mesmo por criar uma rotina: de manhã, antes do pequeno-almoço, e ao final da noite, antes de dormir, é tempo reservado para blogar. Só falta colocar na porta: do not disturb, estou a blogar!

Eu quero recomendar o blogue dela por entender que pode inspirar outras pessoas que tenham pais já idosos, e na situação em que os meus estavam, isto é, a leste desta tecnologia, a ensiná-los a usar o PC, a usar a internet, e em particular os blogues. Porquê?

- aprender uma coisa nova é estimulante em qualquer idade. A idade avançada nem sempre é um obstáculo à aprendizagem;

- um blogue pode rapidamente tornar-se o equivalente de um companheiro de estimação. À semelhança de um animal doméstico, o blogue fomenta rotinas, faz nascer compromissos, torna-se uma companhia;

- se um passeio até ao supermercado para comprar pão fresco fornece exercício físico moderado a uma pessoa idosa, blogar é um bom exercício para a mente!

- um blogue é uma forma de ocupação do tempo livre da pessoa idosa que se pode adequar de mil maneiras à sua personalidade. Não tem horário rígido, nem formato, nem tema. Pode escrever muito ou pouco. É uma actividade que ela controla totalmente. E é pessoal e livre. Pode até ser privado.

- existem jovens que não gostam de computadores e tecnologia em geral, nem blogues. Também os idosos poderão não se adptar a eles nunca. Mas se não tiverem essa experiência, nunca saberão.

O blogue Renda de Birras é um registo simples, sincero, das memórias da minha mãe, das suas ideias e opiniões. Aqui deixo algumas ligações para fotografias da vila de Montemor-o-Velho, que ela tirou na juventude, o relato de um sonho que a divertiu a valer, uma reflexão sobre a condição humana, uma canção muito bonitinha que fez furor em Portugal e no Brasil e que parece ter avivado memórias de ambos os lados do oceano, e, por último, um video do filme Rio, com animação e música muito animadas.

Espero que vos tenha convencido a passar pelo Renda de Birras!


12/22/11

Offside - Fora de jogo




No sábado passado a RTP2 passou dois filmes de Jafar Panahi, Offside e This is not a film. Tenho o hábito de colocar os trailers no Facebook, já todos sabem que quando digo “no sítio do costume” me refiro a esse espaço da RTP2 onde se consegue ver cinema dos quatro cantos do mundo, de várias épocas  e estilos. São oportunidades quase únicas e por isso eu faço a minha parte de divulgação, não que receba créditos nem que me paguem para isso, faço-o por solidariedade cinéfila, pois se todos forem como eu, que, apesar de gostar de cinema, muito, muitíssimo até, nunca ando em cima da programação, não faltam oportunidades perdidas de ver cinema na TV.

Offside é um filme muito curioso sobre a condição das mulheres no Irão, um tema que Panahi já abordara noutras obras. Um homem grisalho faz parar um autocarro cheio de adeptos ruidosos que segue a caminho do estádio. Joga-se uma partida decisiva, o Irão defronta o Barhein, os 90 minutos vão decidir o apuramento para o Mundial de 2006. Esse homem procura a filha universitária que fugiu para ir assistir ao jogo. Dentro do autocarro, um dos rapazes permanece sentado e distante, é estranhamente pacato. O rapaz é uma rapariga que, disfarçada, tenta passar despercebida. No Irão de Ahmadinejad as mulheres não podem ir ao estádio Azadi, em Teerão, ver os jogos de futebol. As estrangeiras, as japonesas, dirão depois os militares às raparigas, puderam ir assistir pois não percebem a língua iraniana, não percebem as asneiras que os homens dizem.

Apesar de ter como referência a sociedade iraniana, qualquer pessoa minimamente familiarizada com o futebol e os sentimentos que ele envolve, pode apreciar Offside. Este grupo de mulheres que quer entrar no estádio de Teerão não tem tiques feministas de qualquer ordem, não está a lutar pela igualdade de direitos, elas são pura e simplesmente adeptas da bola e fãs dos jogadores da seleção nacional do Irão. Jafar Panahi inspira-se na sociedade iraniana e critica-a através dos seus filmes mas não faz cinema político. Apesar disso foi acusado de fazer cinema contra o regime, de ameaçar a segurança nacional e instigar os protestos que se seguiram à eleições de 2009. A inspiração para este filme foi resultado de um episódio que ele mesmo protagonizou: quando pretendia entrar no estádio com a sua filha de 12 anos esta foi retida à entrada. Mas depois acabaria por se juntar a ele sem nunca revelar ao pai como o tinha conseguido. Presas pelos militares as raprigas do filme têm de aguardar pelo final do jogo. Nunca vêem o que acontece no relvado: ouvem a multidão e assistem, em sofrimento, ao relato feito por um militar. É no contacto com os militares, no Irão com os 18 anos chega o serviço militar obrigatório, que nos é revelada muita da realidade social e motivações da população iraniana. Os rapazes estão, afinal, do lado das raparigas. Apenas não compreendem porque gostam elas tanto de futebol, arriscando serem presas. Tal como as raparigas também os soldados devem obediência a regras impostas superiormente e nesse patamar comum estabelece-se um entendimento solidário entre os dois grupos que leva ao regresso de uma das raparigas, que entretanto consegue escapar. Quando o filme se aproxima do final, também o jogo, e elas seguem o seu desenlace pela rádio, já dentro do autocarro que as levará à Brigada dos Costumes. Há lágrimas e alegria, fogo de artifício. É dentro do mesmo que festejam a vitória do querido Irão. O filme tem um toque documental ao integrar cenas filmadas durante a final e momentos de franca comédia, terminando com a celebração do grupo, nas ruas, e com música, num sinónimo de abertura ao exterior. Prestigiado no mundo, o cinema iraniano irá conseguir derrubar e censura do regime e prevalecer. Mas Panahi, por enquanto, paga o preço da sua ousadia, continua preso.

Tão importante como conhecer esta realidade social é saber, pois, que Jafar Panahi está preso , foi proibido de fazer filmes e de deixar o país durante 20 anos ou até de dar entrevistas. Foi em casa que ele filmou o seu documentário This is not a film. Este filme proibido chegou à Cinemateca Francesa enfiado num bolo, dentro de uma pen-drive. Juntamente com Mojtaba Mirtahmasb, filmaram-se um ao outro na sua casa enquanto aguardava  a decisão do recurso interposto, e, consigo como personagem, Isto não é um filme aborda um dia na vida do cineasta que, impedido de filmar, resolve contar-nos o filme que queria fazer: as cenas, as personagens, o guião. Primeiro é filmado por Mirtahmasb, depois usa o seu telemóvel. O documentário prova a frustração de qualquer artista amordaçado mas é também uma peça de resistência contra a censura e de reinvindicação da liberdade de expressão.Todavia, apesar de muitas vozes se terem erguido em sua defesa, o regime iraniano continua indefetível na sua resolução. 

Conheço pouco do Irão, apenas o que vi em alguns documentários, mas sei que não é de forma alguma um "país atrasado". Por lá existem poetas e escritores, cinema, arte. Tem tradições, tem uma cultura. É de lastimar  que o regime iraniano tente controlar a criatividade do seu povo, artistas e não artistas, uma população muito jovem e que tenho a certeza há-de conseguir encontrar caminhos para se expressar.

Tenho pena que os trailers que deixei no Facebook não tenham suscitado grandes Likes nem comentários. Mas nem todas as pessoas estão a par da luta de Panahi e eu, na altura, não tive tempo de escrever este texto. Se quiser enviar uma mensagem ao governo iraniano através da Amnistia Internacional, solicitando a revisão da sentença deste realizador de cinema, siga o link! Eu subscrevi.



http://takeaction.amnestyusa.org/siteapps/advocacy/ActionItem.aspx?c=6oJCLQPAJiJUG&b=6645049&aid=15108
Prominent film maker receives harsh prison sentence and artistic ban
I am writing to you to express my concern about the harsh sentence imposed on acclaimed film maker Jafar Panahi. He was sentenced to six years in prison as well as a total ban on his artistic activities for a period of twenty years. He was convicted of "propaganda against the state" for making a film deemed to be against the government, and for his alleged involvement in inciting the protests following last year's presidential election.  His artistic collaborator, Mohammad Rasoulof, was also sentenced to six years in prison.
Jafar Panahi was detained for nearly three months following his arrest on 1 March 2010. While in detention, he reported that he was subjected to degrading treatment and went on a nine-day hunger strike in protest. Because he was in prison, he was unable to accept the invitation to be a judge at the prestigious Cannes Film Festival in May 2010. 
I urge you to overturn the harsh sentences imposed on Jafar Panahi and Mohammad Rasoulof. I urge that all charges brought against them that stem from their peaceful activities as artists and political activists be dropped. The right to freedom of expression through art and peaceful political activism is guaranteed by Article 19 of the International Covenant on Civil and Political Rights, to which Iran is a state party. 

Thank you very much for your attention.


12/17/11

A dar o tilt

Ontem, enquanto trocava uns anúncios do Adsense num dos meus blogues ele perdeu a cabeça, o mesmo é dizer o cabeçalho, foi à vida. E porquê? Tive de fazer um ajuste na largura do blogue e por causa disso tive de ajustar a largura da imagem do cabeçalho. Mas as coisas não estavam a correr de feição e de repente o meu blogue ficou decapitado. Nem percebi como! Já era tarde, com isto eu quero dizer, que já passava da minha hora de dormir. A minha hora de dormir é por regra entre a meia noite e meia hora e as duas da manhã. Às nove já tenho de estar a pé. Comecei a deitar-me mais tarde para tentar combater as minhas insónias sem ter de tomar medicamentos e até verifiquei que não passava assim tão mal se cumprisse aquele horário, desde que, claro, dormisse. Dormir é um desperdício de tempo, mas é imprescindível. Só que nas últimas semanas tudo tem corrido às avessas e eu chego ao final do dia tão cansada que fecho o estaminé bem cedo. E ontem, quando eu já só queria enfiar-me no meu casulo e descansar os ossos e a caixa pensante, pimbas, acontece-me aquela peripécia! Fiquei perplexa, completamente embasbacada, talvez mesmo porque o cansaço não me deixava pensar. Andei a espreitar as entranhas do Blogger tentando perceber o que teria feito de errado e como reparar. Nada. Já pensava em medidas desesperadas: ir buscar um novo template ou o backup do blogue mas nem sabia se o backup resolveria a situação pois não era o conteúdo que sumira, o meu blogue apenas perdera a cabeça, tão simples quanto isso. De repente lá se fez luz: se o cabeçalho não passa de um módulo bastaria abrir o layout e chamar a parte em falta. Ufa!
De repente até já tinha espantado o sono! Lembrei-me da Do a barrel roll e fui ver se ainda estava a funcionar. Ainda. Possivelmente já deve ter visto uma barrel roll em filmes de guerra - é aquela manobra dos aviões girando sobre o seu eixo. Perdeu a brincadeira do mês passado? Não sabe o que é? Digite Do a barrel roll na caixa do Google e veja a página de resultados do Google a girar 360º . Eu também já estava a ficar de cabeça à roda e afinal por bem pouco. É o que o cansaço faz. Em momentos de stress dá jeito ter alguns descompressores à mão como estes comandos que só servem para brincar. Os programadores do Google divertem-se com estas cenas e nós divertimo-nos também. Já agora, esta semana eu estive quase "a dar o tilt" em várias ocasiões. Eu sabia que ia ser um corre-corre danado até ao fim do ano. Não tenho como inventar tempo para cumprir todas as tarefas. Algumas já foram riscadas da lista. Aliás, nem devia estar aqui a escrevinhar estes disparates, mas, lá está, uma pessoa tem de descomprimir de alguma forma! Para complicar este cenário a asma voltou a atacar... Ah...já agora, por falar em tilt, - experimente digitar Tilt no Google e veja o que sucede! Tilt em inglês quer dizer inclinação. Se alguma vez jogou flippers ou até matrecos, deve estar familiarizado com aquelas técnicas de levantar as máquinas e incliná-las. Bom, para evitar que dessa forma os resultados fossem falseados alguém se lembrou de inventar um mecanismo - o tilt. Quando ele detetava inclinação suspeita na máquina o jogo dava o tilt. De cultura popular também vivem as palavras cruzadas! 

Para este Natal o Google preparou uma nova brincadeira: quer ver o ecrã embaciar-se enquanto caiem flocos de neve? É só escrever Let it snow na caixa de pesquisa da Google.
A estas brincadeiras escondidas do Google dá-se o nome de easter-eggs. Já agora, se sabe tocar guitarra, aproveite esta guitarra virtual, uma homenagem ao guitarrista Les Paul. É um logo interactivo, muito original. Ouça o Jingle Bells tocado nela e inspire-se. Pode gravar a sua melodia e partilhá-la com os amigos neste Natal. Comece já a treinar! Bom fim de semana!

12/10/11

Pai Natal Solidário dos CTT - 2011


Olá a todos neste dia de Outono invernoso. Já conhecem a iniciativa PAI NATAL SOLIDÁRIO dos CTT Já se esqueceu do tempo em que acreditava no Pai Natal?! Então que tal tornar o Pai Natal uma realidade? Para ser o Pai Natal de uma criança basta aderir a esta ação dos CTT Portugal, uma Campanha de Luta Contra a Pobreza e Exclusão Social. Os CTT estão a colaborar com 50 instituições de solidariedade. As cartas foram feitas por crianças até 10 anos e têm desenhos, palavras e colagens. É uma iniciativa bonita desde o início, diz quem começou a escrever cartas assim que aprendeu a colocar palavras nas linhas! 
As cartas ao Pai Natal de centenas de crianças desfavorecidas ou em risco, em Portugal, podem ser encontradas no site do Pai Natal Solidário (link acima) e também no Facebook - o site diz que, de momento,  estão sem cartas - e nas estações de correio aderentes. Apoie e divulgue no seu blogue. Ho! Ho! Ho!


12/5/11

Val Palmela Birds - divulgue este projeto

Hoje vou escrever sobre um projecto de criação e venda de animais selvagens, mais especificamente aves ANATIDAE (Gansos, Patos e Cisnes), que encontrei no Facebook - vejam este lindo álbum de fotos -  e que também já tem um site. Chama-se VAL PALMELA BIRDS. Tem sede em Palmela, Setúbal. Os anatídeos são aves aquáticas que apresentam penas impermeabilizadas a partir da segregação de óleos, e membranas interdigitais nas patas, elementos que demonstram a sua adaptabilidade ao meio. Primeiro eu pensei que se tratasse de um parque aberto aos visitantes e fiquei toda empolgada com a possibilidade de ir ver a fauna ao vivo. Mas afinal é uma colecção PRIVADA, não estando por isso aberta a visitas do público. Os mentores do projeto querem criar, proteger e divulgar esta família de aves. As aves criadas são vendidas a outros coleccionadores, zoos, ou entidades ligadas à conservação. O facto não deixa de ser igualmente interessante e merecedor da nossa atenção. Além deste projeto eles desejam ainda criar um Parque ornitológico, o VAL PALMELA BIRD PARK, mas isso depende da criação de infra-estruturas adequadas a um regime de visitas públicas, para o que estão a realizar todos os esforços. Os mentores pedem a divulgação do projeto VAL DE PALMELA BIRDS pois isso conduzirá à concretização desse futuro parque público. 
As marcações de visitas para coleccionadores interessados em visitar o projecto e/ou adquirir aves podem ser remetidas para o e-mail : info@valpalmelabirds.com
Ora vejam estes três lindos exemplares do Val Palmela Birds!
O colhereiro vermelho (Anas platalea), é uma espécie de pato que se encontra na América do Sul, na Argentina, sul do Peru,da Bolívia, Uruguai, Paraguai, Ilhas Falkland, Geórgia do Sul e ilhas Sandwich, sul do Brasil e Chile. Achei-o especialmente bonito, com o seu bico em forma de colher e plumagem de pintas - parece um pato disfarçado de felino!
O pato Mandarim (Aix galericulata) é uma espécie que já foi abundante no leste da Ásia, mas exportações em excesso e destruição de seu habitat reduziram a população no leste da Rússia e na China a menos de 1.000 pares em cada país; no Japão, no entanto, acredita-se que ainda existam 5.000 pares. Vivem em áreas arborizadas, perto de pântanos ou lagoas. Fazem ninho em cavidades nas árvores e é a fêmea quem protege os ovos sózinha. Durante esse tempo o pai pato fica longe mas quando os patinhos nascem a família reune-se! Eles comem plantas e sementes, caracóis e pequenos insetos e peixes, ao amanhecer ou ao anoitecer. São lindíssimos!
O Baikal Teal (Anas formosa) é originário do leste da Rússia e no inverno migra para a Coréia do Sul, Japão, Taiwan, norte e leste da China, de Pequim, ao longo da costa, até à fronteira do Vietname, e no oeste de Yunnan, em seguida, para o norte para Chongqing e Henan. Vive nos lagos à beira da tundra e dentro de florestas pantanosas. Selecionei-o por achar que tem um ar muito exótico!

Nota: Texto escrito com  base em informações da página Facebook do Val Palmela Birds. Pedi autorização para usar estas fotografias. Se as quiser usar  - ou outras  - não se esqueça de proceder de igual forma. Contribua para a defesa dos direitos de autor.

12/4/11

Espionagem na guerra fria: o caso Farewell



 Não é fácil estar a par de todo o bom cinema que se faz. L'Affaire Farewell. Nunca tinha ouvido falar deste thriller de espionagem, escapou completamente ao meu radar! O caso Farewell é um filme baseado em factos verídicos - veja-se aqui o dossier Farewell e factos sobre Vladimir Vetrov , - e foi realizado por Christian Carion. Emir Kustorica é brilhante como Sergei Grigoriev, um idealista desencantado, um agente da inteligência soviética que decide virar-se contra o seu próprio país, sacrificando-se a bem de uma perestroika. Embora defenda o comunismo, que em 40 anos tirara a Rússia da Idade Média colocando o primeiro homem no espaço, ele o considera um sonho difícil. Depois que o Governo subverteu os interesses da Rússia, e a bem das gerações futuras, da qual o seu filho faz parte, algo tem de ser feito. Guillaume Canet é Pierre Froment,  - outra grande interpretação - um engenheiro francês a viver em Moscovo nos anos 80, amante das coisas boas da vida, torna-se o seu contacto com o Governo francês e começa a fotografar e a entregar documentos ultra-secretos ao Ocidente, escondendo a sua actividade da mulher e comportando-se gradualmente como um verdadeiro espião. “Casei-me com um engenheiro e não com James Bond”, exclama a mulher de Pierre, querendo dissuadi-lo,  quando descobre que o marido se deixou envolver numa arriscada trama de espionagem. Com uma intensa serenidade mas plena de tensão latente, a vida de pessoas normais corre diante dos nossos olhos, enquanto, na sombra, se desenrolam factos extraordinários. Exatamente ao contrário dos filmes de James Bond onde tudo é excessivo e acrobático, aqui, o espião aprendiz e o mestre, mostram-nos uma aprendizagem que é natural e subtil, humana, feita de encontros no parque e trocas de champagne, livros de poesia e cassetes dos Queen e Ferré, sem tecnologia de ponta à excepção de umas pequenas cameras fotográficas da CIA que a dado momento saltam dos bolsos de Pierre. Sem espalhafato, sem grandes esquemas, conhecemos a última jogada do mestre analista da KGB urdida num sufocado medo e na melancolia. Assistimos aos conflitos emocionais das personagens, cada uma consumida pela sua dose de segredos, pela sua vida dupla,  - "aprende-se depressa a mentir" - e já sabemos que tudo culminará no sacrifício: para os lobinhos sobreviverem o pai lobo terá de morrer. Os documentos acabam nas mãos de Midterrand e Ronald Reagan, os primeiros são documentos científicos como os planos da construção do vai-vém espacial norte-americano, mas depois chegam os mapas da segurança americana, bem demonstrativos do nível de informação detido pela KGB à altura. Mais tarde Grigoriev entrega os nomes dos homens que compõem a rede de espiões russos nos EUA e na Europa, a Lista X, cujo desmantelamento será decisivo na viragem da história da guerra fria. Quando o filme chega ao fim brinda-nos com uma das mais tensas e extraordinárias fugas que tenho memória, sem nunca, no entanto, contariar o seu ritmo, surpreendendo-nos ainda, quando pensávamos que já tudo estava decidido. Banda sonora impecável, excelente reconstituição histórica, e grandes momentos de cinema numa fita completamente insuspeita, é isto mesmo que eu gosto: ser surpreendida.

12/3/11

Meme: as 10 coisas que mais gosto!

Aristides indicou meu nome para um Meme no seu blogue homónimo. Como eu não sou muito regular nas minhas visitas ao diHiTT o desafio lá ficou durante quase um mês sem eu dar conta. Ontem descobri o convite!Perguntei-me se não teria já azedado. E não é que não? Meme não azeda nem ganha bolor, não caduca. Aliás, nem sequer é obrigatório. Mas fica pouco gentil não fazer e neste acaso é simples e agradável responder. Ainda vou a tempo de contribuir para a corrente dissertando sobre as 10 coisas de que mais gosto. O mais engraçado é que podia quase usar as mesmas respostas do Aristides: bastava substituir whiskey por Drambuie e SPFC por FCP! Mas a verdade é que eu não gosto assim tanto de futebol! No final terei de escolher 10 blogueiros, 5 de cada sexo, para continuarem o Meme. Vejam no final se foram escolhidos!

Mas o que vem a ser um Meme?  Faça-se uma busca ao Google sobre Meme e eis a lista de definições: aproximadamente 1.020.000.000 resultados (0,36 segundos). O sr. Meme é bem popular!   Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, explicou a meio da década de 70 que o meme é a contrapartida cultural do gene, uma unidade de informação que é transmitida de pessoa para pessoa, de geração a geração, através de imitação e não por via genética. Por exemplo, eu via a minha avó a amassar broinhas de Natal e a aconchegar a bola de massa debaixo de um cobertor para ela crescer e ainda hoje faço isso. Adaptando o conceito à rede, um meme é uma ideia que se propaga na internet por qualquer forma: através de blogues, por email, video, etc. Pode ser um link, uma imagem, um texto. Você cria, alguém vê e copia, podendo até introduzir melhorias. Se o meme for bom ele ganha força viral e dissemina-se. Por isso o marketing tem usado o meme na internet para aumentar o potencial das suas campanhas. E agora...

As 10 coisas que mais gosto !!

1. Praia - Vejam algumas fotografias da praia da Rocha, em Portimão, no Algarve, onde estive em 2010. Areia muito limpa, passadiços longos de madeira para caminhar, e uma enorme orla marinha. Adorei!Mas não tem de ser essa. Toda a praia, desde que limpa, me agrada.
2. Animais - Todos são fascinantes, selvagens e domésticos. Sempre gostei de cães, o ano passado apaixonei-me por gatos e este ano até tenho ajudado a salvar alguns, a última é a gatinha Glória, cuja recuperação tenho acompanhado!
3. Cinema - De todo o género, ficção, documentário, animação. Este blogue tem alguns textos que escrevo quando vejo um filme que me agrada. Por exemplo, Laranja Mecânica!
4. Internet - Dispensa comentários! Acesso a tudo e mais alguma coisa, diversão, conhecimento, amizades virtuais, meio negocial. Tornou-se imprescindível. 
5. Desenhar Vejam a minha loja na internet, chama-se A Portuguese Love e está cheia de coisinhas para o Natal!É lá que vendo as ilustrações que faço no meu tempo livre.
6. Viajar - Para mim, a melhor forma de gastar dinheiro. 
Nada se compara ao mistério de viajar até um sítio novo, visitar os seus lugares mais ou menos característicos, os seus museus de arte, percorrer as ruas misturada entre as pessoas que as percorrem, descobrir os petiscos locais, fotografar... A única coisa que sinto a falta em tempos de austeridade.
7. Porto - A cidade do Porto é a minha cidade favorita no Mundo! Parece um exagero dizê-lo, ainda não estive em muitas cidades, aliás, nem nunca saí da Europa, o mais longe que fui foi Istambul. Mas o Porto é o meu amor. O primeiro e o último. Já vivi lá e não passa uma semana em que não pense em voltar. Algumas fotografias da cidade do Porto tiradas em 2000, quando morei lá, pela primeira vez.
8. Chocolate - De preferência com muito cacau, bem preto e amargo. Mas eu não sou racista, chocolate branco também é bem vindo, com frutos secos, também; trufas, outra beleza! Quando não há, mousse de chocolate cai sempre bem, uns brigadeiros, um souflé de chocolate, queques de chocolate, qualquer coisa...com chocolate em cima, por baixo e dentro!
9. Manga - Manga do Brasil, uma perdição. No meu entender, a Natureza criou as mangas para ninguém mais se tivesse de preocupar com sobremesas doces. Adoro manga, babo por manga. Apesar de gostar de toda a fruta essa é a que gosto mais, sem hesitação.
10. Carangueijo - Prefiro peixe a carne. Tudo o que vem do mar é uma delícia. Vejam esta postagem sobre como preparar uma santola ou carangueijo espinhoso. Eu adoro esse bichinho. Dá trabalho a preparar mas depois é uma beleza!

As 10 pessoas nomeadas para este meme!

1.http://www.paixoesedesejos.blogspot.com/ - Rui e Paula Lima, há anos que escrevem imparavelmente sobre cinema e agora também música. Sem floreados, dando a primazia ao que importa, aprende-se sempre com a leitura dos seus interessantes textos.
2.http://www.blosque.com/ - Nospheratt, do Blosque, uma mulher de fibra, uma escrevedora cheia de garra, muito dinâmica, e com quem aprendi muita coisa sobre blogues.
3.http://www.efacilserfelizartesanais.blogspot.com/ - Descobri a Eunice há bem pouco tempo. Ela estava a sortear uns brincos muito bonitos, feitos em macramé. Todo o trabalho que executa é muito bonito e profissional. Vale a pena dar uma espreitadela no seu artesanato. ( Infelizmente não tive sorte no sorteio!)
4.http://www.viesfeminino.blogspot.com/ -  A Jeane Freitas foi uma das mais recentes visitas aqui do Palavras-Cruzadas. O blogue dela é sobre o universo feminino e eu descobri no âmbito do Desafio 21 Dias.
5. http://www.rendadebirras.blogspot.com/ - É o blogue da minha mãe que está 100% viciada na blogagem!
6.http://www.cimitan.blogspot.com/ - Eduardo P.L., um grande senhor de além mar, cujo blogue visito há muito tempo, anos já!
7.http://elcollage.blogspot.com/ - Maurício El Collage Planel, com quem compartilho a paixão pela colagem!
8. http://www.fiolimpo.blogspot.com/ - César Figueiredo, um homem com uma visão singular do mundo e da arte, aqui vai meme!, a ver se actualiza mais vezes o seu blogue e se desenterra aqueles que enterrou!
9.http://www.inseconds.blogspot.com/ - o Dodos vive em Atenas e também visito o seu blogue de desenhos há muito tempo. A aparente simplicidade do seus desenhos abriga um conteúdo muito rico, com destaque para os que fazia em Dodoulis. Espero que ele possa responder ao meme com desenhos!
10.http://www.jorgeortola.blogspot.com/ - O Jorge foi o meu instrutor de condução. É uma excelente pessoa e dinamiza projetos de prevenção da sinistralidade nas estradas, está sempre a pensar em novas iniciativas. 

Espero que alinhem no meme. Senão, amigos como dantes!;)


12/2/11

Aos pescadores sobreviventes



O resgate, com vida, dos seis tripulantes da embarcação de pesca "Virgem do Sameiro", desaparecida na terça-feira ao largo da Figueira da Foz, é hoje a notícia do dia. Os pescadores foram encontrados a 12 milhas, cerca de 22 quilómetros, a noroeste do cabo Mondego, pelo helicóptero da Força Aérea que colaborava nas operações de busca e salvamento. Estavam na balsa salva-vidas. As buscas começaram quinta-feira à tarde. 

As histórias de sobreviventes de naufrágios capturam a imaginação de todos, ontem como hoje. Eu era uma miúda quando vi o filme Moby Dick, fiquei mais assustada com Gregory Peck do que com o cachalote branco! Não li o livro de Melville mas até gostava. Já este ano vi um remake lamentável do filme de John Huston, um filme de baixo orçamento, para televisão. Só para terem uma ideia, o Pequad, o baleeiro que parte de Nantucket, é aqui um submarino equipado com ogivas nucleares e os efeitos especiais parecem da era da Godzilla ou anteriores. Depois desse desastre já voltaram a filmar a história, penso que é a 5ª vez, e com grandes nomes do cinema. Aqui vos deixo o trailer do primeiro e do último filme, este apresenta uma réplica maravilhosa do Pequad, que só por si já dá vontade de espreitá-lo. 

Até há bem pouco tempo eu não sabia que a história de Moby Dick se baseava num relato verdadeiro. Nathaniel Philbrick escreveu o livro In the heart of the sea em 2001. Ele é jornalista e historiador norte americano. Dele consta o relato do ataque de um cachalote enfurecido ao navio baleeiro Essex em 1820, seu afundamento e sobrevivência da tripulação. Estes factos inspiraram Herman Melville a escrever sua obra Moby Dick. Durante 90 dias a tripulação ficou à deriva no mar em 3 pequenos barcos suportando tempestades, doenças, fome e a loucura. Sobreviveram com feroz racionamento de comida e tiveram de sortear e matar companheiros para comer. Sobreviveram 8 homens de uma tripulação completa, talvez de 20 homens ou mais. 

Talvez se recordem da história mais recente dos 5 pescadores que sairam do México num barco pesqueiro a motor, em 2005. Três deles sobreviveram quase 300 dias no mar comendo peixes, aves, sangue de tartaruga e água da chuva, quando esta faltava teriam até bebido a própria urina. A discussão sobre este caso manteve-se durante um tempo pois surgiram dúvidas quanto ao relato. Este seria um novo recorde de sobrevivência pois o que habitualmente é citado é o de Poon Lim, chinês, que passou 130 dias no Atlântico, em 1942. Outros casos de singular sobrevivência são o de um casal inglês, Maurice e Maralyin Bailey, que andaram 117 dias à deriva no Pacífico, em 1973; e, em 2002, Tava'e Raioaoa, pescador do Tahiti, esteve 118 dias à deriva no Pacífico e sobreviveu. Outra história que me vem à cabeça, recente ainda, mas já não sei a data dela, um barco à deriva durante 15 dias no mar das Caraíbas. Tinha saído da República Dominicana com destino a Porto Rico, 30 pessoas à procura de um destino melhor. Uma viagem de dois dias transformou-se num inferno. Já não sei os detalhes, mas o barco perdeu-se. As pessoas começaram a morrer de desidratação, algumas lançaram-se à água para nadar até terra. Os sobreviventes, 5, mantiveram um dos mortos na embarcação e alimentaram-se dela. 

O homem já chegou à Lua mas há momentos em que a tecnologia o abandona, e é então  despido de artifícios que ele tem de se haver com a inclemência da Natureza. A história da sobrevivência e resgate dos pescadores de Caxinas, que passaram duas noites ao relento, está a comover Portugal e com inteira razão. Já pensaram na ironia de estar rodeado de comida e água e não conseguir matar nem a fome nem a sede? Li algures que um estratagema para obter água, além de coletar a da chuva, é espremer água dos peixes. Mas apanhar os peixes não deve ser muito simples pois um náufrafo não naufraga de cana de pesca na algibeira. E comida? A alternativa é comer tudo, mas tudo o que se possa encontrar, e isso pode incluir papel e até a própria roupa. Aliás, a única alternativa pode até incluir matar uma pessoa do grupo e comê-la, como muitas vezes aconteceu na história dos desastres marítimos e não só. A contínua exposição ao sol, ao meio ambiente, a solidão do mar ou de uma ilha – lembram-se de Chuck, personagem de Tom Hanks, no filme O náufrago, e da sua bola de futebol? – são mais provações a superar, para não falar da loucura e da eventual presença de espécies vorazes que não desdenhariam deitar o dente a umas quaisquer febras humanas embaladas num frágil bote! Se pensarmos um instante podemos concluir que em muitas circunstâncias os náufragos actuais acabam por ter de enfrentar as mesmas condições dos homens do baleeiro Essex no séc. XIX - isolados da civilização, entregues ao capricho do destino, à deriva numa balsa, e certamente divididos entre a vontade de se salvar nos momentos de esperança e a vontade de morrer nos de maior desânimo, as suas histórias continuam a cativar a nossa imaginação  e o nosso respeito.




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