7/12/10

A mulher invisível, no cinema e na realidade


Há uns anos atrás, em Setembro, no Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz, eu costumava ver cinema brasileiro. Ao contrário da maioria das pessoas em Portugal eu nunca caí de amores por novelas, nem brasileiras, nem mexicanas nem portuguesas. Eu pertencia à minoria que via cinema brasileiro que, provavelmente, nem os próprios brasileiros viam! Vi algumas novelas, as primeiras que apareceram na TV, e depois da novidade não mais ser novidade, deixei de ser cliente. Não vale a pena argumentarem pois nem com a melhor delas me convencem:por mais bem interpretadas e produzidas que sejam, é o próprio modelo de novela, com as suas histórias cruzadas, peripécias infinitas e rodeios, tudo servido a conta-gotas, que não serve para mim. Não sei se será impaciência em conhecer o resultado, mas para mim uma boa história tem de ser contada em duas penadas, ou seja, num máximo de duas, três horas, se for em filme, numa dezena e meia de episódios, mais ou menos, se for série, e são raras as que me conseguem manter fiel, temporada após temporada. Nada como um bom filme, não há melhor experiência no audio-visual. Bom, a navegar pelo Youtube, um dos meus ladrões de tempo favoritos, encontrei o trailer do filme A mulher invisível, onde aqui de diz mal, e aqui se diz bem, isto em matéria de críticas, aprendi há muito que melhor do que ler é ir ver o filme e fazer eu mesma a minha crítica. É um filme da autoria de Cláudio Torres - filho da actriz Fernanda Montenegro - que realizou uma obra de crítica social que eu vi há um tempo, de nome Redentor, uma fita que toca nos temas da corrupção, pobreza, tráfico de influências, dinheiro, e de que gostei. O contrate entre os dois filmes é enorme, este é uma comédia romântica, mas confesso que ri a ver o trailler. No mesmo dia li esta notícia sobre o número de mulheres que são assassinadas no Brasil:"Em dez anos, dez mulheres foram assassinadas por dia no Brasil. Entre 1997 e 2007, 41.532 mulheres morreram vítimas de homicídio — índice de 4,2 assassinadas por 100 mil habitantes. Algumas cidades brasileiras, como Alto Alegre, em Roraima, e Silva Jardim, no Rio de Janeiro, registram índices de homicídio de mulheres perto dos mais altos do mundo." A razão encontrada para a mortandade é também avançada: "Os assassinos são atuais ou antigos maridos e namorados inconformados em perder o domínio sobre uma relação que acreditam ter o direito de controlar". Quem sabe não encontra Cláudio Torres neste relatório uma matéria para nova fita, ele que em Redentor mostrou ter sensibilidade para a análise social, talvez um dia dirija uma "longa" sobre estas mulheres que os antigos maridos e namorados quiseram tornar invisíveis, ao contrário da personagem deste filme, que inventou uma para ultrapassar a desilusão amorosa.


E em Portugal? Por coincidência reparo que está em destaque, no Sapo, o assunto da violência doméstica: em 2009, 29 mulheres foram assassinadas por homens de quem eram íntimas. Mas 28 sofreram uma tentativa de homicídio. Há uma redução de 17 vítimas em relação a 2008, quando se registaram 46 casos de mortes. Os dados foram divulgados hoje, no Porto, pelo Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA) que monitoriza os crimes mortais de violência doméstica desde 2004 através da análise comparada de notícias da imprensa, relatórios de segurança interna e processos judiciais.
A tendência está confirmada: 62% dos homicidas mantinha uma relação de intimidade com as vítimas, sendo companheiro, marido ou namorado. No caso das tentativas de homicídio a tendência também se verifica (58%). Os restantes agressores eram homens de quem as vítimas já se tinham separado, 38% no caso dos homicídios e 21% nas tentativas. Lisboa e Porto são os distritos onde se registam o maior número de assassinatos de mulheres desde 2004.

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