14/02/10

O amor não escolhe hora nem data.


E no Domingo de Carnaval lá voltou a suceder. Este entroncamento deve ser um dos pontos negros das ruas da Figueira da Foz quanto a acidentes de trânsito. Uma autêntica nódoa. Tenho uma séria curiosidade sobre a estatística de toques e choques que aqui se sucedem sem fim. A visibilidade é boa e a sinalização existe. Mas neste entroncamento é como se fosse Dia dos Namorados todo o ano e não apenas hoje, dia 14 de Fevereiro. É vê-los aos beijinhos, ligeiros e pesados, que o amor não escolhe grandezas, seja Inverno, Outono, Verão ou Primavera, esteja o piso seco ou molhado, seja noite ou dia.
Já assisti a muitas cenas românticas, mas sobretudo de ouvido. Estamos nós tranquilamente entregues às nossas rotinas e zás, pás!, mais um amasso. Espreita-se da janela e ei-los. Por regra as consequências são apenas materiais. O que não significa que depois do beijo mais ou menos violento alguns dos veículos não fiquem impraticáveis e não tenham de ser rebocados. É o chamado caso de amor à primeira vista e ainda por cima de amor fatal. Por norma os condutores nem vociferam muito, resolvem tudo de forma pacata. Saem do veículo, passeiam por ali, afagam a chapa amolgada, fazem os telefonemas para a autoridade, depois para o marido, a namorada, a irmã. Alguém vem entretanto lembrar que é preciso colocar os triângulos e vestir o colete da moda. Juntam-se transeuntes. Depois chegam os carros da polícia. Umas vezes um ou dois, outras vezes quatro, ou seis. Chegam mais curiosos. Os agentes inspecionam o terreno sem pressas, fazem as medições da praxe. As pessoas vêm à janela de suas casas, apontam para o local e apresentam as suas teorias sobre como deve ter acontecido mais um blind date instantâneo!! É animação garantida.

Hoje fixei para a posteridade mais um destes rápidos encontros amorosos entre estranhos que o destino quis cruzar mesmo debaixo do meu nariz. Estão a ver como é a vida? O amor não escolhe hora nem data.Nem classe. Nestas situações a classe social não interessa mesmo nada: um distinto BMW prateado envolveu-se com um modesto Peugeot branco ou carro de lata semelhante. Até entre veículos do mesmo género o amor acontece neste entroncamento onde o Cupido monta tenda todo o ano. Atentem no veículo no canto inferior direito, um dos veículos da autoridade.

Vamos observar um pouco melhor o lugar que a autoridade escolheu para estacionar. À primeira vista parece um sítio porreiro, mas mesmo assim o carrito podia estar assim, como é que eu hei-de dizer, mais arrumadinho. Todavia a gente tem de compreender. Era um acidente, podia haver até traumatismos graves nos condutores, isto digo eu. Pois imagino que sempre que os agentes da Figueira recebem um telefonema a informar que a sua presença é requisitada neste ponto já devam saber o que os aguarda: chapa batida! Por estas bandas o amor faz faísca, mas ninguém morre electrocutado.
Agora agora vejam o carrinho preto. É da minha vizinha. A coitada tem a mesma sorte vezes sem conta. Qual sorte? É a pergunta que devem ter na vossa mente. Encontros e encontrões amorosos no entroncamento nem por isso. Com ela a cena é mais platónica. Quer saír de casa, abre o portão da garagem com o seu telecomando e lá está um amigo de quatro rodas estacionadinho e todo sorridente a fazer-lhe olhinhos. É claro que o romance nem chega a acontecer. Ao ver a sua saída barrada a situação evolui rapidamente para uma sinfonia de buzina até que o responsável apareça. Depois seguem-se outras sinfonias. Mas nunca uma serenata de amor.
Lá vem o senhor agente da autoridade a correr para remover o veículo azul e branco. Não, não se vê na fotografia. Têm de imaginar. Eu gostava de ter saído naquele momento. Abria-se o portão principal - que não se vê na foto - e deparava-me eu com esta viatura linda, que deve também ser fã do Futebol Clube do Porto. Aí,eu nem sequer buzinava. Eu ficava no quentinho do meu veículo e ligava para a polícia. Dizia que tinha um veículo a obstruir-me a passagem e que queria sair da minha garagem quanto antes, que já estava atrasada para ir ver o Corso passar. A polícia devia aparecer rapidamente para tomar nota da ocorrência, a polícia e o reboque. E quando chegassem, como seria? Eu apenas diria: "Ora, senhores da autoridade, é Carnaval, ninguém leva a mal." Que pena eu ter vendido o meu carro. Brincar ao Carnaval hoje teria tido a sua piada.