8/20/08

AOS MURROS A TUDO NA FIGUEIRA DA FOZ

Já por diversas vezes consertei electrodomésticos com um bom murro: o aspirador, por exemplo.Agora foi a vez da maquineta fotográfica de brincar.Ainda hoje de manhã fui à Box do Jumbo comprar um disco externo e lá andei a rondar as digitais como um cão faminto.Mas o modelo que eu quero não está lá e,mais do que isso, não há dinheiro para comprar a ambicionada maquineta, para já.Hoje fui até à praia fazer a despedida pois nos próximos oito dias não posso desviar-me da minha rota: há que concluir um projecto gráfico e o sol tem de esperar nem que seja até para o ano.Retirei a máquina do saco de praia e dei-lhe umas pancadas secas mais a castigá-la por me ter deixado ficar mal do que a pensar em trazê-la de novo à vida!Qual não é o meu espanto quando vejo o lead acender-se.Ahahahh!!Levei-a então comigo e fiz esta fotografia a partir do ponto onde me encontrava, no areal da Figueira da Foz, a uma distância tranquila das ondas que andam um pouco desnorteadas por estes dias.Eu seria uma criatura muito mais feliz se pudesse ir à praia todo o ano. Não sou pessoa de lá passar o dia inteiro mas uma horinha de sol diário faz maravilhas à minha alma.Já olharam bem um malmequer?Já viram que é uma flor que parece sorrir?Tem aquele olhinho amarelo como um sol e as pétalas, como pequenos braços, parecem dançar todas contentes à sua volta, gratas por terem abraçado aquele calor que agora nos transmitem,assim generosamente abertas para nós.É isso, é uma flor contente, em nada se assemelha às torturadas rosas enrodilhadas onde se escondem segredos murmurados entre pétalas.É o efeito do sol no malmequer, é como o efeito do sol em mim. Ora isto que parece conversa de Primavera é tudo fruto da boa disposição que essa horinha mágica de sol diário me comunica.Detesto o Inverno!Começo a contagem descendente para o Verão ainda mal se cheiram castanhas assadas!E gosto, efectivamente, da praia da Figueira.Gosto do areal enorme com espaço para todos e do alheamento que ele me permite, longe da estrada, longe de tudo.Gosto da água moderadamente fria...tem dias em que é impossível entrar, faz doer até ao osso...mas é assim!O ano passado estive no Algarve numa praia onde vou desde criança e embora as promessas de água morna e sol constante sejam cativantes o resto não é assim tanto agora que cresci.Prefiro este areal à língua de areia onde passei as tardes de Setembro,aos equipamentos chiques e à companhia de espanhóis e ingleses.Prefiro a direcção que o sol aqui tem,prefiro, até, um sol menos quente e um ventito ligeiro,desde que não frio, como este que tem soprado ultimamente.Prefiro a minha caminhada de casa até às areias do que, imaginem, ter a varanda sobre o mar,atravessar a rua em bikini e estar na praia.Eu sei que poderei parecer tonta, mas assim é.Por isso quando li no Diário de Coimbra que um punhado de espanhóis ameaçou ir-se daqui por fundados motivos- cimento,lixo,barulho,falta de estacionamento- fiquei triste.Imagino que na Câmara se tenham rido deles e do seu protesto, e que tenham dito:que vão,carago,outros melhores virão.Melhores não, menos interessados pelo rumo que a Figueira no seu entender tomou.Eu fiquei triste não porque eles se possam, de facto, ir embora-e sempre haverá quem perca com isso muito mais do que eu - mas porque eles têm razão em se queixar da degradação que encontram.Eu nunca estive nas praias de Espanha, não posso estabelecer comparações.Mas lembro-me de uma amiga se ter queixado de infestações de baratas e lixo numa das estâncias mais populares de Espanha onde foi veranear, não me recordo o nome.Todavia já estive numa praia italiana que era bastante interessante,Viareggio, nome sobretudo conhecido por causa do extraordinário carnaval.Também lá o vento sopra que se farta,três dias a fio quando começa,segundo me disseram enquanto comia o mais mais majestoso gelado que jamais vi!A maioria das praias da costa de talvez 10 km é concessionada.Encontrei tudo muito arranjadinho.Eu contento-me com muito pouco.Na realidade a praia ideal para mim não teria nada a não ser areia e mar.Mas um certo turismo de praia tem de vender areia e mar, limpos, e muito mais.Os veraneantes exigentes querem qualidade e querem também uma razão para preferirem uma praia a outra.Para uns essa razão pode ser o apenas o clima propício,para outros a hotelaria e a restauração, para outros o pitoresco, para outros a tranquilidade, para outros a animação nocturna,para outros a tradição, para outros ainda, hábitos de gerações-as razões são inúmeras e muitas vezes subjectivas.Podem até basear a sua preferência em várias razões simultaneamente mas bastará um único motivo de desagrado para terem uma razão para partir em busca de outro destino.Até eu,que me contento com pouco, fiquei a cismar com o que encontrei quando fui à praia a primeira vez há duas semanas.Pelo que quando li a notícia no jornal só pude suspirar e dar razão aos queixumes dos nuestros hermanos.No caminho até à praia a existência de uma zona de construção - o polémico e pouco galante edifício da discórdia, que todos os figueirenses já identificaram, -não devia ser desculpa para deixar que as folhas secas e papéis se acumulem junto das árvores,nos passeios próximos e tapumes,dia após dia.Entra-se na praia e a sinalética está toda suja de grafitti, a informação sobre a qualidade da água meio amarfanhada, parece que está lá desde a abertura da época balnear-estará?E à direita os repuxos do ex-oásis,ex-viveiro de ratazanas e presente charco imundo com patos,jorram água amarelada ou verde com cheiro pouco convidativo;a água da vala que corre para lá é suja e a boiar estão sempre sacas plásticas e coisas que nem queremos identificar. Mais para a direita, na direcção de Buracos, a estrutura de bungalows de madeira do (ex-explorado ou a explorar no futuro?!!) restaurante(?)está a degradar-se rapidamente por falta de manutenção e uso.As passadeiras de madeira que levam até ao mar têm traves arrancadas.Mais adiante lançaram fogo a um dos bancos de madeira, as cordas estão partidas, desfiam-se,os poucos cestos de lixo estão cheios até acima ao início da tarde e assim ficam...e lá aparecem os insectos.Existem tantas penas de gaivota a ladear a passadeira que dão para fazer um edredão!Pior: pela areia fora,caminho que temos de fazer assim que acabam as passadeiras, e durante dois dias seguidos encontrei vidros de garrafas de cerveja e arames, razão para nunca mais caminhar na areia sem as minhas velhas Nike...Tudo isto, dirão alguns de vocês, são meros detalhes.Mas se nem dos detalhes cuidamos, o que dizer do resto? Se não podemos mudar o clima, a des-urbanização existente, se não inovamos, se não nos reinventamos, não poderemos ao menos manter o que existe em boas condições?!Era bom que também pudéssemos consertar a praia com um murro como fiz com a minha máquina de fotografar.O grupo de espanhóis deu um murro na mesa do Presidente da Câmara mas ingloriamente - não haverá vontade nem dinheiro para agir.O Verão está no fim não tarda nada, os dias até já estão mais pequenos.Em breve a escuridão invernosa engolirá os seus queixumes e no próximo Verão,quem sabe, estas pessoas não escolherão esta praia.Virão outras menos observadoras,mas sobretudo menos amáveis na sua preocupação para com uma praia que escolheram talvez pela primeira vez e por onde passarão sem dar murros na mesa numa indiferença descontraída e ligeira de quem veio praticamente ao acaso.É desses espanhóis de passagem que a Figueira há-de viver no futuro, ou sobreviver.Viva la España.

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