4/30/08

JÁ CÁ CANTA! TINDERSTICKS, cinco anos depois, novo disco!



2008 é um ano bom!

4/27/08

A HISTÓRIA DE VÁRIAS ABELHAS



Já agora imaginem o barulho das asas de uma abelha e multipliquem por 40.000 pois é esse o número de insectos do enxame avançado pelo jornalista.

Na última página do jornal leio a notícia de duas mulheres que ficaram reféns de um enxame de abelhas num apartamento na Praia da Luz, no Algarve. A expressão “ficaram reféns” não é minha, é mesmo do jornalista Paulo Marcelino. Curiosa coincidência pois ontem mesmo vi, finalmente,A história de uma abelha, gentilmente emprestada pelo meu sobrinho. Sempre que tem um novo título ele empresta à tia,é um amor. Tudo começou com o DVD das tartarugas Ninja entregue acompanhado da preocupada observação de não saber se aquele filme não seria demasiado violento para mim... Eu não fiquei refém do Barry, a abelha do filme. Não vou estar aqui armada em crítica cinematográfica mas achei excessiva tanta citação à cultura popular norte-americana. O que é nacional é bom mas um certo sentido universal fica mais bonito nestes filmes sobretudo quando essa cultura icónica não traz, nem mesmo para as crianças norte-americans, acho eu, nenhum brilho extra.Além disso, um processo judicial estranhamente faça-você-mesmo no meio do argumento,caricaturas e piadas a advogados?!!!Que coisa tão mais batida...e própria de adultos. Muito pouca frescura no todo visual,muita colagem, muita sensação de “já-vi-isto-em-qualquer-parte”, animação mediana que não seria problema se as personagens fossem mais ricas e o argumento mais inspirado. E mais uma vez a sensação de que esta gente pensa em tudo menos nos putos quando faz os filmes.Mas eu ainda me ri com algumas abelhices, não foi tudo mau,mau,mau de todo. Então e hoje, ainda sob o efeito hipnótico das riscas amarelas e pretas, a cena do susto das abelhas no Algarve animou-se delirantemente na minha cabeça, e, verdade, a descrição do jornal é mais adequada para animar crianças do que o argumento de Bee Movie. Eu até já via o Marcelino transformado em boneco, uma espécie de jornalista abelhudo, de micro em punho, a esvoaçar pela cena. E guardas nacionais republicanos e bombeiros equipados a rigor, de máscaras e tudo, não fosse alguma abelhuda ferrar-lhes a ponta do nariz...muito aparato, muito tinonim,tinonim, rua fechada ao trânsito, mirones, ambulância a postos, mas, e ainda antes disso, as duas mulheres,Jenny e Fátima, a tentar afastar as abelhas ziguezagueantes à mangueirada, e estas, a zunir, a zunir, a avançar, imunes aos gritinhos histéricos, cena esta agora mais digna de filme de horror, ao jeito de uma Aracnofobia ou outros onde a bicharada miúdinha se une em força para fazer a vida negra aos humanos.Já agora que mencionei união imaginem o barulho das asas de uma abelha e multipliquem por 40.000 pois é esse o número de insectos do enxame avançado pelo jornalista. E as duas humanas indefesas,olhos arregalados e faces ruborizadas- é Algarve, está calor- ou talvez pálidas, - quem tem cu tem medo - a recuarem até à varanda da casa e a suplicarem auxílio, mais provavelmente a usarem os telemóveis- quais donzelas em apuros verdadeiramente encurraladas ali, naquele exíguo espaço, enquanto o enxame crescia a bom crescer no beiral da porta da entrada! E daí, até serem reféns das abelhas vai apenas um título de notícia num jornal de grande tiragem.Resta saber se estas também iriam pedir um resgate em mel à maneira da estratégia em Bee Movie. Ainda pensei que fosse ler isso umas linhas abaixo, mas não.Não admira que Jenny e Fátima se confessassem com medo à equipa da SIC, três horas na varanda a ouvir a sinfonia das abelhas em crescendo lá em baixo, no beiral, enquanto os agentes da autoridade localizavam e traziam até si um apicultor da zona de nome José Júlio. E o homem,que deve ter chegado sem tinonitinoni mas munido de coisas básicas e necessárias e eficazes como duas mantas para embrulhar as senhoras em pânico e assim fazê-las sair,protegidas, para a rua, lá reconduziu as abelhas transviadas para dentro de uma colmeia: atraidas por um guloso favo de mel e pólen levaram cinco horas para se acomodar na nova casa.O nosso herói, qual cowboy solitário, deixou o local do incidente ao som do aplauso dos mirones anónimos, sob objectivas de cameras e olhares invejosos das impotentes forças policiais. Consigo levou uma colmeia debaixo do braço e 40.000 abelhas.Havia confetti e serpentinas no ar e até já se fala em adaptar esta história ao moderno cinema português.Bzzzzzzzzzzzzz.

4/25/08

25 de ABRIL de 1974


Palavras do Presidente da República, Lisboa, Portugal


O Presidente da República, Cavaco Silva, mostrou-se hoje (dia 25 de abril) "impressionado" com a ignorância de muitos jovens sobre o 25 de Abril e o seu significado e denunciou uma "notória insatisfação" dos portugueses com o funcionamento da democracia.No seu discurso na sessão comemorativa do 25 de Abril, no Parlamento, Cavaco Silva divulgou extractos de um estudo que mandou realizar sobre o alheamento da juventude face à política, e atribuiu parte da responsabilidade aos partidos políticos. O Presidente considerou "não ser justo" para aqueles que se bateram pela liberdade, tantas vezes arriscando a própria vida, que a geração responsável por manter viva a memória de Abril persista em esquecer que a revolução foi um projecto de futuro. "Os mais novos, sobretudo, quando interrogados sobre o que sucedeu em 25 de Abril de 1974 produzem afirmações que surpreendem pela ignorância de quem foram os principais protagonistas, pelo total alheamento relativamente ao que era viver num regime autoritário", declarou o Chefe de Estado perante o hemiciclo. Cavaco Silva recordou que, quando o 25 de Abril ocorreu, uma parcela substancial da população não tinha ainda nascido e lamentou que quem viveu a revolução tenha a tendência para não se lembrar disso, julgando que essa data, fixada no tempo, possui uma perenidade eterna. "Um regime político não pode esquecer as suas origens", disse, acrescentando "não ser saudável que a nossa democracia despreze o seu código genético e as promessas que nele estiveram inscritas". Para Cavaco Silva, "num certo sentido, o 25 de Abril continua por realizar".

Palavras de Paulo Seara, Londres, Reino Unido

Este discurso não prima pela originalidade. Culpar os jovens por não saberem o que é o 25 de Abril, é como sacudir o pó da casaca. Depois, o PR afirma que eles são o futuro; mas que nos devemos concentrar no presente. Por favor não deixem o PR escrever os discursos. Culpar os jovens de levianidade para com o 25 de Abril, não é um ataque aos adolescentes de hoje, os adolescentes entre os 12 e os 18 anos, estou certo que há muitos que ignoram a data, mas é bom sentir o pulsar da sua liberdade. Por outro lado este discurso é um ataque absurdo a todos os milhares de jovens adultos que foram enganados pelas promeças de políticos pouco dados á causa pública. Acham que os milhares de precários, desempregados, individados, emigrados, etc, querem comemorar uma data com os vampiros que lhes sugam a existência!? Eles querem ser livres, realmente livres. A felicidade das gerações futuras vale mais do que um discurso infeliz de um PR, e do que as comemorações do 25 de Abril. A felicidade das gerações futuras deve ser a comemoração per si.

O 25 de Abril explicado às crianças, aqui.

4/24/08

REVISTA LER RENASCEU!




"Se a Carolina Salgado é escritora o que terá sido Camões, um homem com uma pala no olho?"

Ontem foi Dia Internacional do Livro. Não foi para celebrar o facto que entrei num livraria em Coimbra. Queria comprar um livro sobre a cidade de Coimbra e coincidiu. Fiquei desapontada com a oferta que encontrei...mas ao chegar à caixa para pagar esperavam por mim duas surpresas quase à moda da Catalunha, um livro e uma rosa, bem, não exactamente um livro mas antes uma boa revista, forma encontrada para assinalar o dia. Como ia continuar a cirandar pela cidade até à noite ofereci a rosa à menina da caixa, muito simpática, e trouxe a nova revista LER, que surge rejuvenescida e, devo dizer, muito agradável à vista e ao toque. No editorial lê-se que a LER acredita na valorização do livro e da leitura como elementos fundadores da nossa civilização. É bonito e toca fundo qualquer pessoa que tenha um mínimo de amor pelos livros. Francisco José Viegas é o filho pródigo regressado, ele que já tinha estado na linha da frente da publicação, parece que foi até ao Brasil passear e agora voltou, que sorte- eu também gostava de poder ir até lá!! Apesar de ser uma publicação com história eu poucas vezes a comprei, apenas o fiz convencida pelos fortes argumentos de capa,por exemplo, porque trazia a foto de um não escritor, lembro-me da edição com Fernando Lopes, um cineasta preferido. Não porque não a achasse competente mas porque eu sou uma fraca leitora, sempre me pareceu absurdo ler uma revista sobre livros sem ler os livros!Este número da revista LER até me demonstrou que talvez possa estar errada.Eu não leio muito actualmente...mas já li bastante. Em artigo onde enumera 50 autores mais influentes do século XX pude constatar que li pelo menos um livro de cada um deles,bons tempos, bons tempos!Excepção para Gilles Deleuze,Tolkien,Rowling...e mais um ou outro.Gostei também da longa entrevista com um dos nossos mais importantes escritores vivos: Lobo Antunes.E,entre outras coisas que li na LER, fiquei surpreendida ao saber do gordo número de publicações mensais em Portugal: chegam às 1500 por mês. Mas dessas apenas 30% são vendas em livraria, ora aí está, hoje compra-se tudo em toda a parte- leia-se grandes superfícies- e os livros não escapam: livros nas estações de correio, nos supermercados, nos quiosques. Mas não há nada como uma livraria. Uma senhora livreira da Figueira da Foz queixava-se a semana passada da diminuição de afluência de clientes repicando no papel destruidor das grandes superfícies e dizendo que até já faz vendas online para o estrangeiro como forma de dar a volta à quebra. Mas a verdade é que há livros e livros, e há livros que só estão nas livrarias e em certas livrarias. Contaram-me que a actriz Simone de Oliveira terá ficado escandalizada ao ler num jornal chamarem "escritora" à Carolina Salgado o que a terá levado a dizer que se Carolina era escritora o que teria sido Camões, um homem com uma pala no olho?!! Hoje toda a gente escreve,verdade,toda a gente pode escrever, ser autor, e em especial se andar na bocas do mundo mesmo que da sua boca não saia nada de literato.Eu até acho que isso é fenomenal, é bom. Plantar uma árvore, fazer um filho, escrever um livro. Escrevam, escrevam.O que era preciso a par dessa borbulhante epidemia escrevedeira, e cada vez mais numa época em que quer a formação e as aprendizagens quer os passa-tempos se digitalizaram, era estimular e educar o gosto do futuro leitor pois um leitor que conheça e ame a literatura saberá sempre distinguir vários produtos na literatura, saberá que ela não tem de ser sempre de génio para ser genial.Ela pode ser uma nossa amiga constante e companheira ao final do dia, quando queremos colocar de parte a rotina estéril e nutrir a nossa alma com histórias de vidas mais felizes que as nossas, ou mais promissoras,ou mais justas,...ou tempos mais gloriosos,...ou espaços mágicos,...ou então uma amiga mais brejeira, porque não, que vai connosco de viagem nas férias de Verão, porque não?Não temos, não devemos intelectualizar o livro ou reduzi-lo a um objecto de culto só para iluminados capazes de lhe destrinçar os códigos, as citações imanentes, o formato inovador, o seu lugar na história da literatura. Livro até poderá então ser um objecto leve e fútil porque a vida não se faz somente com objectos perfeitamente racionalizados, necessários e geniais e no entanto, se satisfizer uma necessidade do leitor, se cumprir o seu desígnio de ainda assim ser lido, óptimo!E ler é o que é preciso...mas ler com consciência crítica!E é preciso não esquecer também que entre o escritor e o potencial comprador-leitor existem forças de interesses diversos, comerciais, que manipulam o seu juizo sobre a aquisição deste ou daquele livro. Mais uma vez ser detentor de um bom juizo crítico é a única saída face ao marketing...e isso só se adquire se for cultivado precocemente. Porque, em rigor, "o grande juiz (sobre o que é bom ou mau, nota minha) acaba sempre por ser o tempo, Lobo Antunes.",in LER (O cartoon sobre a guerra dos livros é meu, tinta da china sobre papel, muito antes do digital ter chegado à minha secretária, tem mais de dez anos...)

4/22/08

UM BLOG NOVO EM FOLHA




Ando a fazer concorrência ao homem dos sete instrumentos:mais um tempo e eu transformo-me na mulher dos sete blogs. Depois de uma semana de febre e sonolência que me forçaram a reclusão forçada, ontem, primeiro dia fora de casa, cometi o erro de tomar cafés em excesso. Nem vou confessar quantos foram mas desde que saí de casa de manhã até que regressei, ao final da tarde, o gesto repetiu-se amiúde. Se estou doente o café deixa de me apetecer,a correlação existe, constatada por mim episódio atrás de episódio.O corpo e a mente acabados de sair do estágio letárgico desses dias transactos absorveram a cafeína como se uma planta sequiosa! Resultado: ao final do dia estava mais hiperativa que uma pulga, o meu coração ouvia-se na esquina e não conseguia concentrar-me em nada, mas nada mesmo, quanto mais dormir!A cafeína dá-me asas, a sério,patas de centopeia e tudo o mais, faíscas, pim,pam,pum! Acabei por me instalar em frente à TV e vi tudo o que havia para ver até às quatro da matina, incluindo um fenomenal episódio do House MD, que continua a em grande forma:grandes diálogos, histórias surpreendentes, porque é que passa tão tarde?!! Hoje acordei completamente ressacada quando tocaram à campainha da rua... e era engano...e estou a resistir ao apelo cafeinómano com todas as forças.Sei que mais um me desanuviaria a mente. Só o cheiro dele e já me sentiria outra. Detesto a dependência,toda a dependência, e fui castigada. Esta história do café já tem barbas. Até consigo parar de o beber em casos extremos de emergência médica, mas, reconheço, aquela mistela negra faz-me falta. Há uns tempos vi um anúncio, penso que foi na revista Volta ao Mundo,de uma maquineta minúscula que promete fazer café expresso na perfeição quando andamos em viagem. É portátil, é expressamente idealizada para levar na mala de viagem. O invento perfeito! Há uns anos atrás teria comprado.Agora só não compro porque não ando por aí a cirandar pela estranja.Viajava sempre abastecida de saquetas de negro pózinho instantâneo, o meu fiel amigo.Viajante prevenido vale por dois.Estas inelutáveis forças que nos vergam a vontade fazem-me lembrar como estava viciada na internet e na descoberta de novos blogs há um ano atrás. O interregno de meses fez-me mal. Como dizia a um dos meus bloggers favoritos em comentário sofrido, a minha ausência da blogosfera alterou o estado das coisas. Longe da vista longe do coração, tal como na vida real,- escrevia-lhe eu- os meus antigos e habituais visitantes sumiram quase todos e agora eu não tenho tempo para re-fazer novos amigos blogueiros.Parece contradição mas não é. Não sinto necessidade de público para escrever aqui mas para publicar as minhas colagens é algo diferente. Embora tenha ali um pequeno stock delas sem feedback não me dá vontade de as partilhar! Por outro lado o meu interesse pela blogosfera parece efectivamente ter esmorecido.Há vida na Internet, proclama o anúncio, proclamo eu que há vida lá fora. Algo mudou.O meu amigo blogueiro, o Raim, cujo blog é dos que mais gosto, diz-me que é como andar de bicicleta.A ver vamos. O mais paradoxal é que apesar do meu enfadado regresso criei mais um blog! Ando a fazer concorrência ao homem dos sete instrumentos: mais um tempo e eu transformo-me na mulher dos sete blogs. É um erro.A melhor técnica é ter um bom blog, um que valha mesmo a pena, e não vários. É como ter dois telemóveis para dois números diferentes. Tem razão de ser mas tem inconvenientes também.Mas eu podia juntar tudo num mesmo blog se estivesse agora a começar, agora já sei que isso seria ideal.Mas agora é tarde.Agora é como se eu já vivesse numa casa há muito tempo e tivésse arrumado as muitas tralhas nas devidas dependências: não vou mudar para uma nova casa com uma grande sala de estar e enchê-la com os tarecos de uma casa inteira, as peças não jogariam umas com as outras. É uma questão de estilo. E assim lá criei mais um blog!E esse momento da criação é absolutamente divertido, excepção para a escolha do nome -parece que todos os que me ocorriam já tinham ocorrido a tantos outros!Bom, eu precisava desse novo blog para disciplinar a minha produção gráfica. Selei um compromisso comigo mesma de o alimentar com uma coisinha, qualquer coisinha vetorizada,ou pixelada,ou recortada, ou rabiscada pelo menos de duas em duas semanas, parece-me razoável,nem que para isso tenha de recorrer à minha amiga cafeína para me dar asas! E agora,apresentado o rebento, vou mesmo tomar um café que não aguento mais. (Nota: este blogue teve vida breve e acabou por se extinguir!!!)

4/10/08

DEXTER OU NÃO,EIS A QUESTÃO



Em que tempo e espaço se perderam o meu gosto pelas edificantes histórias humanistas,a minha preferência pelos heróis íntegros e de bom coração?
Ver TV não é sequer dos meus passatempos favoritos,abdicaria dela sem grandes problemas. Ontem passou na Dois mais um episódio de DEXTER. É a única série de TV que sigo com interesse neste ano de 2008. Não tenho canais à dúzia. Não tenho dinheiro para isso e mesmo que tivesse não teria tempo para os ver.Por isso basto-me em ir consumindo o que dá a televisão dos pobres e por isso é provável que alguém me prove que se diverte mais, aprende mais ou ganha mais com os tais não sei quantos canais. A minha avó dizia muitas vezes que não percebia porque é que eu comprava tanta roupa e tanto calçado: afinal só tinha um corpo e dois pés. Viveu sempre com pouco e viveu quase um século. Sociedade de consumo,claro, mas nem oito, - sim, nem viver como uma austera mulher amish, - nem oitenta, tipo mulher de presidente terceiro-mundista, carregada de sapatos e vestidos para alimentar as traças do guarda-roupa enquanto o povo passa fome! Haja bom senso! Realmente o meu dia é sempre demasiado curto, portanto...Em nome do bom senso, e depois de ter visto o primeiro episódio de DEXTER, devidamente acompanhado do aviso de cenas e linguagem eventualmente chocantes e círculo vermelho no topo direito do ecrã,interroguei-me há umas semanas atrás se já não conseguiria divertir-me sem ser a ver séries carregadas de violência: é o Jack Bauer a torturar o próprio irmão que o pai mata de seguida, é a cabeça decapitada de Sara metida numa caixa em Prison Break e já nem vou referir a tortura em The Shield! Sinto que entrei noutra dimensão e já não consigo sair dela. O portal fechou-se! Em que tempo e espaço se perderam o meu gosto pelas edificantes histórias humanistas, a minha preferência pelos heróis íntegros e de bom coração?! Sempre existiram bons e maus e vilões nas histórias. Mas na ficção actual os bons são afinal os maus e os maus são bons... e os vilões até são cativantes! E às tantas damos por nós a torcer por um serial killer! Mas qual é afinal o critério utilizado para dar o selo vermelho a estas séries??! Litros de sangue?!Número de vítimas? Calão cru? Sexo?Tudo isso em doses diversas?Contas feitas por alto e nada concluí de justo. Os argumentistas esforçaram-se a valer para legitimarem DEXTER tentando a todo custo levar-nos a considerar que ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão e fizeram um bom trabalho.Mas DEXTER é basicamente um assassino que mata com prazer e requinte de coleccionador outros seres humanos. E ainda que estes não sejam modelos de conduta não mereceriam, a não ser face a uma qualquer lei de Talião, que não posso subscrever, um tal tratamento.Terei então eu de assumir que a atracção pela violência,por implícita que seja, é afinal o que garante que todas as quartas feiras à noite eu me sente a olhar para o rectângulo luminoso da TV?!!Lá se foram meia dúzia de anos de estudo do Direito às urtigas - parece que nem o estudo/conhecimento da lei nos garante imunidade contra o engenho malicioso do Mal!Talvez isso não seja inédito mas DEXTER tornou-o escabrosamente evidente, tanto que me fez questionar a minha natureza!E à luz duma ideia básica que informa toda a trama em DEXTER - ninguém conhece verdadeiramente o outro,- eu quase poderia dizer que nem a nós mesmos nos conhecemos verdadeiramente quanto mais! Tenho de concluir brilhante que um argumentista me tenha conseguido colocar em choque com as minhas convicções éticas e morais confessadamente rendida ao espectáculo semanal das atrocidades de um serial-killer como forma de diversão. Porque vencida, ou independentemente disso, ou talvez mesmo por causa disso, DEXTER aconselha-se e muito porque é superiormente bem escrita, interpretada e dirigida.É uma ficção que nos trata como consumidores adultos e exigentes na era do alienado consumo televisivo.É uma série que nos desafia no limite do nosso comando televisivo: teremos efectivamente o comando do nosso consumo?! Esta temporada poderia ser facilmente um filme de luxo! Infelizmente a tentação de quem encontra uma fórmula de sucesso em televisão é fazê-la render e assim, depois de resolvido o mistério do Ice Truck Killer, novos casos se hão-de seguir,novas temporadas.E infalivelmente lá chegará a noite em que me redimirei da minha culpa de telespectora dos horrores finalmente (con)vencida pelo enfado e não pelo meu discernimento do Bem e do Mal! Tal como sucedeu depois da última e arrastada temporada de 24, ou desta terceira, esgotadíssima e às voltas sobre si, de Prison break, o momento chega em que eu desligo e vou antes ver o delicodoce Dumbo com o meu sobrinho, ...e isso,acreditem, nem sequer é penitência.

DE VOLTA

Ora eu disse que regressaria na Primavera, estação própria da renovação dos ciclos. Agora que o momento chegou sou confrontada com o espaço em azul do meu blog, com as palavras que se cruzam com tudo o que cruza a minha imaginação, e pergunto-me se quero mesmo despertar o blog da letargia. Terei o que escrever?! Terei o tempo e a calma... ou antes a apatia ou a raiva ou a alegria ou a paixão para isso? Terei assunto? Valerá a pena?O blog,afinal o herdeiro da nossa velha amiga ou inimiga folha em branco. Dantes um olhar amigo e íntimo do outro lado da viagem das palavras, agora olhares mais ou menos anónimos, mais ou menos imprevisíveis, mais ou menos fugazes... Sempre oscilei entre estes dois pólos: escrever, mas afinal escrever o quê, para quê? Escrever,ah, sim, escrever, claro, algo tão imperioso como respirar, escrever, não importa o quê, escrever,escrever.Já me esquecia que ter um blog significa antes de mais que não tenho de escrever para ninguém senão para mim própria, ora aí está.Mas para isso não precisaria do blog: ainda tenho folhas em branco, aliás, terei sempre folhas de papel em branco.E cada vez mais em branco agora que já nem cartas escrevo!As pessoas que partilharam a minha adolescência e juventude talvez já nem sintam a falta dessa correspondência com cheiro de papel, tinta e cola. E as minhas ideias de escrever mais a sério também se diluiram no tempo como sempre se diluiam quando lia algum livro efectivamente bom e me confrontava com a minha nulidade literária. Ao longo do tempo tudo muda, ou nada muda, mas o papel agora uso-o menos para escrever do que para desenhar.O desenho dá-me luta e se desisti de escrever a sério dando a guerra como perdida, de desenhar não páro, vou travando batalhas, e se não ganho a guerra pelo menos ainda não me senti derrotada. Talvez devesse ter feito o mesmo com a escrita.Mas a energia não é inesgotável e há que gerir os recursos escassos de forma razoável se queremos sobreviver.E se calhar sobreviver ao Inverno significa Primavera, significa recomeçar.E por isso aqui estou de novo a poluir as folhas virtuais de cor azul do meu blog com palavras sem muito sentido, uma vez mais também ao encontro dos olhares anónimos, alguns mais familiares, e a estes, que sabem quem são, agradeço os emails recebidos duraante a minha ausência. Estou de volta para o que der e vier...

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