2/1/07

ANIVERSÁRIO (Álvaro de Campos)


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus !, o que só hoje sei que fui... A que distância! ...
(Nem o acho ...)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio....

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, este tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui ...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado - ,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias. Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

3 comments:

Zé Lérias said...

Aqui Álvaro de Campos (Pessoa) parece revela-nos, a sua consciência da fragilidade humana e o inconformismo perante os mitos dos grandes feitos.
Um abraço e parabéns por este bem escolhido post.
Bom fim-de-semana.

Burlesconi said...

Um belo poema, sem dúvida.

Sem desprimor para os restantes heterónimos de Pessoa, é Alberto Caeiro aquele que mais me fascina.

Parabéns por este "blog" de muito bom gosto e não menos bem escrito.

Cumprimentos

pedro said...

Há já algum tempo que venho acompanhando as tuas "Palavras Cruzadas" e tenho gostado mesmo muito! Mas, desta vez, esmeraste-te e chegaste ao "meu fundo": Pessoa!

Não vou comentar nada em particular, mas tudo em geral: gosto dos teus post's (inovadores, criativos e inteligentes) e pronto, desejos de continuação do bom trabalho...

PS -> se tiveres tempo (ou querer) passa pelo meu ;)

Pedro

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