1/28/07

DO REALIZADOR DOS ANZÓIS, Kim Ki-Duk




Ontem assisti a Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera. É um filme contemplativo,austero,lento.Simplesmente complexo e belo, exactamente como a Natureza nas suas quatro estações.Eis um realizador,Kim Ki-Duk,que pratica um cinema de autor com uma visão peculiaríssima e que ainda assim convence júris atrás de júris e também o público. O aclamado e premiado “realizador dos anzóis” criou o filme mais violento que jamais vi, ou, pelo menos, um dos poucos que me recordo forçar-me a desviar os olhos e contorcer-me na cadeira. Não sou muito impressionável mas acreditem que esse filme tem situações de uma violência inacreditável que levaram críticos dos Festivais de Nova Iorque, Veneza e Sundance a caírem para o lado. Dito assim e por muito teatral e mais próprio de damas antigas apertadas em corpetes asfixiantes nos salões de festas da alta sociedade do que de gente habituada às andanças das salas de cinema, acho até a reacção perfeitamente natural perante a sequência de cenas de mutilação, crueldade diversa para com animais, uma relação sado-masoquista entre uma mulher muda e um ex-criminoso, penso que um polícia e outros requintes de que já não me recordo. A passar na TV este filme devia exibir uma bola vermelha em cada canto do ecrã! Refiro-me a O bordel do lago. E é tão mais chocante por nele se encontrar toda a mestria técnica, plástica e visual que se encontra no Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera. Essa mestria é apenas um ponto de contacto entre os dois, existem outros.O próprio cenário é muito semelhante, um lago cercado de montanhas, névoas, barcos, cabanas flutuantes, assim como é semelhante a quase ausência de diálogos ou a presença de um fugitivo que busca refúgio no lago isolado. Também a violência está presente neste que agora vi mas de longe muito menos encenada ou menos construída. Impossível dizer que são maus filmes, aliás, considero que os dois são boas experiências cinematográficas. Mas depois de deixar assentar o deslumbramento visual e/ou o atordoamento mental e/ou o desassossego do estômago, parece-me não restar matéria que justifique inteiramente colocar nos píncaros da Lua um filme de uma violência tão entranhada, no primeiro caso, e de uma simplicidade tão extremada, no segundo. Este, de narrativa linear (e circular) não deixa no entanto de remeter para reflexões tão profundas quanto,talvez, apenas levemente tangíveis em torno dos princípios budistas.Mas independentemente de crenças religiosas que possamos ter o filme procura captar e transmitir algo que é comum à essência da humanidade,ilustrando a sinuosa caminhada dos seres na sua busca de perfeição e equilíbrio. Encontrei dois cartazes do filme, o da direita é o meu favorito e representa o resultado da cena do entalhamento de caracteres pelo revoltado fugitivo, caracteres escritos "a gato"no chão da cabana-templo, sim, escritos pelo mestre usando o rabo de um gato branco mergulhado em tinta, gato que ele carrega consigo ao longo de todo o processo.

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