1/14/07

TALVEZ UMA HISTÓRIA NORDESTINA?

Esta pequena história é uma brincadeira que me apeteceu fazer depois de ter encontrado uma lista de termos nordestinos no blog do Capitão - Mor, que visito com frequência. Para consultarem e perceberem os termos que utilizei, aqui fica o link:


Obrigada Capitão, foi MASSA fazer este texto!(Massa, foi, dos 30 listados o único termo que não utilizei...)




Lurdinhas, a caminho dos trinta, tinha assim um jeito meio abigobel de ser, tudo parecia passar-lhe ao lado, mas sabia cozinhar como ninguém. Começou a trabalhar no restaurante-bar da praia no início da época de Verão, mas quando o frio chegou ela continuou e agora até já saía da cozinha e passeava-se por entre as mesas, servindo os clientes, achinchelando os ténis Puma coloridos que comprara com as gorjetas ganhas, as alpercatas amarelo sujo arrumadas debaixo do balcão à espera do regresso do sol. As mulheres achavam-na meio abilolada, já a clientela masculina via nela uma boyzinha. Alguns dos mais velhos diziam-na ligeiramente parecida com a mulher do dono do bar, talvez o cabelo muito negro e de caracóis miúdos e firmes, mas não mais do que isso. Ao dono do bar, um tipo bizonho, era indiferente servir uma autêntica borréia a maior parte das vezes. No pino do Verão, casa cheia, e o Joaquim a queixar-se do ovo gorado quando ele se virou para o redondo cliente e lhe disse numa vozinha mimada e fina como a de um bruguelo chorão: - Quer um ovo fresco? Olhe, ponha-o você. – E virou-lhe as costas arrancando de dentro de si a maior goipada que Joaquim jamais ouvira. O patrão era um caboré, pouco falador e sempre metido consigo. Mas nem sempre fora este estorvo de simpatia. Devia ter uns cinquenta anos e vivia sozinho desde a morte da mulher. Tornara-se um homem malamanhado desde então. A morte violenta e misteriosa ainda hoje dava aso a trololó sem fim. Ontem como hoje, todos os dias ele vinha para o restaurante de manhãzinha e regressava noite funda na sua velha bicicleta. A casa onde morava não era longe. Era uma vida dura que desejava muito afolosar para estar mais tempo junto da sua querida Rosa. Mas o tempo é uma 




vertigem e então era de acochar o mais que pudesse, em especial durante o Verão, com a praia cheia de turistas. Nesse tempo José não era leso nenhum. Ambicioso, deixara um sítio para lá de esquecido, uma pleura desgraçada, no interior, e com a herança que recebera dos pais comprara o restaurante bar Dom Copo, junto ao mar. As fotos da “querida mãínha” e do “querido paiínho” que tinham sucumbido atropelados por um doido varrido ao volante de um jeep sem travões ainda hoje estão na parede atrás do balcão. Rosa era uma beldade. Dizia-se que, rapariga, fora assim que José travara relações com ela. José era um homem do mais pixototinho mas bem parecido. E para parecer mais alto andava sempre muito empertigado. A toda a vez que o caningavam por causa da altura, presumindo idêntico o tamanho do seu cacete, ele apenas tirava uma segunda e empertigava ainda mais o peito estreito mas fibroso. Não era homem de resolver nada à reada, aliás não conseguiria esmagar nem um muricoca com a sua palma da mão nua por respeito à vida que Deus criara. Mas como ele desejava não ser um tamborete de forró. Ambos, seu pai e sua mãe, tinham uma estatura normal, era estranho que ele tivesse crescido tão pouco. O desejo de crescer estava presente nas suas orações desde jovem. 


Era um pedido insistente que colocava a todos os santos da sua devoção. Mas nunca crescera nem mais um centímetro, nem os santos nem Deus lhe ligavam nenhuma. Vivia secretamente atormentado por isto mas compensado por ter Rosa a seu lado, por ela é que a vida era de vogar, ultrapassava tudo. Aparentemente, pois continuou a rezar para crescer, até mesmo na prisão, nessa altura até mais ainda. Se ela vinha de vez em quando ao restaurante era só para se distrair, ver as vistas. Ele não deixava que ela botasse a mão num prato, nem que carregasse um saco de macaxeira para o armazém. Prumode? Para isso havia os empregados, três ou cinco, e não dois como agora. Não queria que estragasse as mãos. Foi numa ocasião assim que as vidas da bela Rosa e Eurico se cruzaram. Eurico, um quarentão espadaúdo e morenaço, estava de passagem pela vila e tinha a paixão do bozó. Sentava-se a uma mesa e ali ficava até o restaurante-bar fechar, jogando com quem se fizesse à lide. Estava sempre pronto prá godela e aliciava todos os que passavam para lhe matarem a sede. – Amigo, dê uma carreira e traga-me um líquido fresquinho que estou meio desidratado. Né onda não! - E dizia isto a contorcer as costas largas contra a cadeira por causa da maldita xanha que não o largava. José embirrou com ele assim que o topou, cabelos longos puxados para trás, sentado à mesa a primeira vez, breado nas calças e camisa, até parecia que tinha andado à luta na poeira do chão, diabo malassombrado como poucos que por ali vira. Não dizia de onde vinha nem para onde ia. Um aroma envinagrado a inhaca desprendia-se dele quando José se inclinou sobre o seu lado direito, colocando o prato de carne de sol sobre a mesa. – Amigo, que mulher de cabelos longos e ondulados é aquela ali na mesa do fundo? Bem que me sabia uma zunhada sua mais pela noite.
O pequeno José teve vontade de torar a mesa, a cadeira e as costas do viajante, primeiro a cadeira nas costas daquele infeliz da costa oca, o cachaço em riba do prato e dos talheres depois e tudo o mais! Mas em vez disso, disse, a ferver por dentro: – É a minha mulher. Avie-se lá e ponha-se a andar. O outro, com voz de quem está mesmo a zonar, replicou: - Aí vareia, meu amigo, aí vareia. O que é certo é que o grande Eurico se pôs a andar e daí a dois dias foi encontrado morto, de bruços, uma centena de metros à frente da casa de José. E lá dentro encontraram a mulher semi –nua com marcas de dedos à roda do pescoço e a buceta inchada, morta na cama desmanchada, rodeada de velas, umas acesas outras apagadas, sobre a cómoda e mesinhas de cabeceira, tisna espalhada, até parecia um altar do demónio, aquele quarto. José contou à polícia que surpreendera o vil criminoso já a descatitar para longe mas que tinha ido no seu encalço e que o tinha morto com arma de fogo e que até tinha licença (não disse porquê, mas um homem pequeno talvez se sinta mais seguro na posse de uma arma) e que era culpado, que o levassem preso. Lenhou-se à grande o pequeno José. O local do crime foi motivo para o maior rugi-rugi de que há memória nas redondezas: - Vixe!, ela tinha um pacto com o diabo, a rapariga!- Diziam uns. – Quem nasce para a vida não lhe perde o gosto - diziam outros. Coitadinha, estrangulada e violada, que horror – diziam outros ainda. Mas ninguém lastimava José por ter perdido a razão do seu viver, apenas cochichavam que da noite para o dia se transformara em viúvo e assassino. O dono do restaurante-bar cumpriu a sua pena e anos depois quando saiu da prisão e regressou estava diferente, um priziaca qualquer, sempre soturno. Nunca mais o viram de peito empertigado, até parecia ter mirrado alguns centímetros no chilindró. 


Às vezes quando de madrugada regressava a casa na sua bicicleta chorava e berrava como um doido pela estrada isolada só com as estrelas por companhia. Quem o ouviu dizia que só podia estar louco e que tanta loucura só podia ser culpa e remorsos não espiados na prisão. Muito em segredo a população começou a fabricar uma história dentro da história: afinal José matara não uma mas duas pessoas, o infame, ainda devia estar preso e não a servir comida e bebida aos turistas no Dom Copo.Eita píula! Lurdes viu que o cliente musculado estava a ficar um pouco ariado e que dali não ia sair coisa boa. O patrão até podia dar-se ao luxo de perder clientela mas ela precisava mesmo daquele emprego. Joaquim não era nenhum leso, apesar de sercompletamente xeleléu o homem tinha opinião, sabia o que queria. 



Um ovo assim, para lá da validade e farto de sol, até dava para bater a caçuleta e estas coisas não sabia sequer Joaquim que era duas vezes o patrão em altura e largura. – Joaquim - disse Lurdinhas pondo água na fervura - sente-se que eu preparo uma comidinha boa feita no céu só para si. Mas Joaquim nem lhe prestou atenção. Seguiu o patrão até ao armazém e aí ficaram os dois talvez durante uma meia hora. Ninguém cuidou de ver o que estava a acontecer. - Moça, pode trazer agora essa comida – disse Joaquim a Lurdes a caminho do lavatório, as mãos ensanguentadas. A partir desse dia nunca mais ouviram o patrão gritar ou chorar a caminho de casa pela estrada isolada. Tinha perdido a faculdade de usar a voz. Joaquim tinha apenas querido dar uma lição ao dono do restaurante, - Foi só para ele aprender a ter tento na língua, - disse. Mas ao murro e ao pontapé nos queixos o redondo Joaquim tinha tratado do que restava da culpa e dos remorsos não espiados do pequeno José, e por isto lhe ficou José eterna e silenciosamente grato.

3 comments:

Capitão-Mor said...

Belinha:
Genial. Agradeço do fundo do coração esta dedicatória tão original. E um agradecimento pela divulgação do meu espaço nesta ilustre página.
Uma boa semana para ti.
Bjo

david santos said...

Belinha!
Espectacular.
Parabéns.

simone andrea said...

Belinha,

Agradeço suas gentis palavras e o link no seu blog.
Muito criativa sua escrita.
Parabéns e boa semana.

Simone

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