1/31/07

QUEBRA-GELO - Palavras em Inuktitut (Linguagem Inuit)




Hoje reparei que tive um visitante do segundo maior país do Mundo, o Canadá. Isso não seria nada de mais se o visitante não fosse da região mais a norte desse país. Recantos há do planeta que têm uma aura especial. Estas paragens frias com as suas extensas planícies brancas, ursos e cães polares,baleias, auroras boreais e população nativa são um deles. Não sei se ARVIAT se inscreve ou escapa, por pouco, à zona do árctico - zona da Terra em que a temperatura média do mês mais quente é de dez graus, mês de Jaulho do Verão árctico. Todavia tenho a certeza de que deve ser fria a valer, um lugar que nunca visitaria apesar da ideia de ver uma aurora boreal ou mesmo um urso polar no seu habitat ser bastante empolgante. Olhando o mapa de localização geográfica no meu blog a pinta vermelha lá está, ali na orla oeste da baía de Hudson, a norte da cidade de Churchill.Gostaria que este visitante tivesse deixado um comentário para eu lhe poder seguir o rasto!Por vezes vivem em lugares que nos suscitam uma enorme curiosidade seja pela geografia, seja pela cultura, sendo por isso especialmente atraentes.É o caso. Também posso ter sido visitada por um turista de passagem pois há muita gente fascinada pela beleza incontestável da região e disposta a suportar o desconforto do frio em troca de uma experiência única e acessível a poucos. Tanto quanto consigo apurar o ponto vermelho indica ARVIAT, mas posso estar enganada. Suponho todavia que as comunidades naquela zona não sejam dispersas pelo que há uma forte probabilidade nesse sentido. ARVIAT já se chamou ESKIMO POINT. Esta palavra vem de ARVIQ que na linguagem de INUIT – linguagem dos indígenas (esquimós) do árctico norte-americano - significa,(traduzi eu da Wikipedia) baleia de cabeça redonda, a beluga, comum naquelas águas. Além desta linguagem – existem ainda outros dialectos além deste e alguns irão extinguir-se dentro de anos - por ali se fala também inglês e francês. Esta cidade de 2000 pessoas fica na região de KIVALLIA e pertence ao território NUNAVUT que tem por capital IQALUIT. Este território é o maior e mais recente do Canadá, tendo-se autonomizado do território do Nordeste em 1999. As actividades principais dos habitantes de ARVIAT são a caça e a pesca. Carros de neve e trenós puxados por cães são os transportes para o dia a dia. Os automóveis estão em minoria. A cidade é acessível do exterior por via aérea e através de uma ponte marítima anual. A sul da mesma fica o McConnell River Migratory Sanctuary- a zona é rica em flora e fauna.O terreno é plano, arenoso grosso. Em Junho e Agosto são inúmeras por ali as aves migratórias, gansos e patos, entre outras, que por sua vez atraem predadores como mochos da neve e falcões peregrinos. Em terra caribús e ursos polares são presença habitual.No Outono avistam-se simpáticas belugas com regularidade nas águas da baía. O território de NUNAVUT chega a ter vinte e quatro horas de sol no Verão e no Inverno zero ou seis, consoante a localização. Muito celebrada e apreciada é a arte INUIT, escultura feita em pedra KEEWATIN,(penso que se trata de "pedra-sabão") mas também em osso de baleia ou de caribú ou ainda trabalhos em pele. Sigam os links que vale a pena descobrir este território de parques e paisagens de cortar (gelar?!) a respiração.Se por acaso não forem como eu, uma friorenta de primeira, e começarem a sentir uma vontade de viajar até lá para verem uma aurora boreal, um urso branco ou uma beluga, aprendam antes algumas palavras para quebrar o gelo com os habitantes quando chegarem ao destino:



Palavras em Inuktitut (Linguagem Inuit)


Qanuippit? (Como estás?)
Ublaatsiaq (Bom dia!)
Nanuq (Urso Polar)
Tuktu (Caribú)
Aputi (Neve)
Qi'mmiq (Cão)
Qakuguptauq (Até logo!)

1/29/07

CICLISTAS NÚS PINTADOS



Desejo sinceramente que a taxa de desemprego baixe em Portugal pois quanto mais gente estiver a trabalhar nos seus computadores por esse país fora maior a probabilidade de recebermos curiosidades como esta via email. Eu sofro no Inverno, eu fui uma iguana na minha vida passada. Eu suspiro pela chegada da Primavera, para não dizer pelo Verão. Eu compreendo perfeitamente as culturas que na antiguidade colocavam o Deus Sol num altar. Eu não compreendo as pessoas que correm para a Serra da Estrela assim que se sabe que está branca. Os esquimós são os meus heróis. Aníbal também, porque atravessou os Pirinéus e os Alpes em pleno Inverno com os elefantes e até sobreviveu aos elefantes. E João Garcia mais as suas oito montanhas conquistadas, esses narizes erectos e pontiagudos com que a Terra fareja intemporalmente os céus…Eu morreria só de as ver, ele chegou ao topo e apenas perdeu o nariz. Hoje as curvas de bézier a moverem-se que nem enguias de um lado para o outro sobre a folha branca de neve e as pontas dos meus dedos enregeladas. Mesmo se estou de luvas sem dedos procuro o calor que a ventoinha sopra do computador ,- será que é radioactivo?!! - o meu cérebro congela com o frio. O meu sentido de humor arrefece. É então que entra uma mensagem calorosa na minha caixa de correio e me alcançam os vislumbres do Verão de Seattle, da sua cultura artística urbana e pagã. Ora vejam como celebrar o Solstício de Verão em movimento, de forma colorida e despida de preconceitos: eis o que fazem os Ciclistas Nús Pintados em Seattle.

1/28/07

DO REALIZADOR DOS ANZÓIS, Kim Ki-Duk




Ontem assisti a Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera. É um filme contemplativo,austero,lento.Simplesmente complexo e belo, exactamente como a Natureza nas suas quatro estações.Eis um realizador,Kim Ki-Duk,que pratica um cinema de autor com uma visão peculiaríssima e que ainda assim convence júris atrás de júris e também o público. O aclamado e premiado “realizador dos anzóis” criou o filme mais violento que jamais vi, ou, pelo menos, um dos poucos que me recordo forçar-me a desviar os olhos e contorcer-me na cadeira. Não sou muito impressionável mas acreditem que esse filme tem situações de uma violência inacreditável que levaram críticos dos Festivais de Nova Iorque, Veneza e Sundance a caírem para o lado. Dito assim e por muito teatral e mais próprio de damas antigas apertadas em corpetes asfixiantes nos salões de festas da alta sociedade do que de gente habituada às andanças das salas de cinema, acho até a reacção perfeitamente natural perante a sequência de cenas de mutilação, crueldade diversa para com animais, uma relação sado-masoquista entre uma mulher muda e um ex-criminoso, penso que um polícia e outros requintes de que já não me recordo. A passar na TV este filme devia exibir uma bola vermelha em cada canto do ecrã! Refiro-me a O bordel do lago. E é tão mais chocante por nele se encontrar toda a mestria técnica, plástica e visual que se encontra no Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera. Essa mestria é apenas um ponto de contacto entre os dois, existem outros.O próprio cenário é muito semelhante, um lago cercado de montanhas, névoas, barcos, cabanas flutuantes, assim como é semelhante a quase ausência de diálogos ou a presença de um fugitivo que busca refúgio no lago isolado. Também a violência está presente neste que agora vi mas de longe muito menos encenada ou menos construída. Impossível dizer que são maus filmes, aliás, considero que os dois são boas experiências cinematográficas. Mas depois de deixar assentar o deslumbramento visual e/ou o atordoamento mental e/ou o desassossego do estômago, parece-me não restar matéria que justifique inteiramente colocar nos píncaros da Lua um filme de uma violência tão entranhada, no primeiro caso, e de uma simplicidade tão extremada, no segundo. Este, de narrativa linear (e circular) não deixa no entanto de remeter para reflexões tão profundas quanto,talvez, apenas levemente tangíveis em torno dos princípios budistas.Mas independentemente de crenças religiosas que possamos ter o filme procura captar e transmitir algo que é comum à essência da humanidade,ilustrando a sinuosa caminhada dos seres na sua busca de perfeição e equilíbrio. Encontrei dois cartazes do filme, o da direita é o meu favorito e representa o resultado da cena do entalhamento de caracteres pelo revoltado fugitivo, caracteres escritos "a gato"no chão da cabana-templo, sim, escritos pelo mestre usando o rabo de um gato branco mergulhado em tinta, gato que ele carrega consigo ao longo de todo o processo.

1/25/07

PERIQUITO NOVO!



Comprei um novo periquito.Por enquanto está um pouco encolhido, mas eles adaptam-se rapidamente, não tardará a sentir-se em casa.

1/23/07

THE RAVEN - EDGAR ALLEN POE ou provocação polémica deliberada

A semana passada li no Diário de Coimbra um protesto sobre o facto de Edgar Allen Poe ser leitura obrigatória no nosso ensino pois terá sido adoptado por mil e tal escolas. A voz indignada referia que ele é um mestre do terror e que os jovens alunos-crianças não deviam ser obrigados a ler um texto onde um gato a quem vazaram um olho e enforcaram ressuscita para denunciar o crime do seu dono: a morte violenta de uma mulher.Sem querer de forma alguma ridicularizar os sentimentos da voz preocupada lembro-me todavia que as crianças nem sequer lêem histórias onde lobos vorazes devoram avós indefesas ou onde bruxas más dão maçãs envenenadas a meninas cândidas, provocando-lhes a doença do sono até ao beijo despertador do príncipe garboso.Nem os próprios pais as transmitem oralmente hoje, como fizeram ontem, e como farão amanhã.Lembrei-me também dos dois rapazes que no passado ano se divertiam a lançar gatos do alto do castelo de Montemor-o-Velho, filmando o estardalhaço felino com o telemóvel.Tão certo como me chamar Maria que algum dia terão lido Edgar Allan Poe no Jardim Escola da Associação Fernão Mendes Pinto, às escondidas das educadoras, naquelas casas de banho equipadas com sanitas minúsculas próprias para rabinhos em crescimento e pernitas curtas. Porque as crianças e os jovens não têm qualquer imaginação, está mais que provado que aquelas cabecinhas semi-desenvolvidas não são capazes nem de engendrar coisas boas nem coisas más por si mesmas.E que aquilo que engendrarem de bom ou de mau também não tem nada a ver com a forma como os pais lhes ensinam a ver o mundo, a ficção da TV, dos jogos e dos livros é muito mais poderosa na formação e deformação do carácter dos miúdos.A notícia provocou-me um súbito desejo de literatura maléfica e aí ocorreu-me o célebre poema do Corvo (ler,neste link, tradução por Fernando Pessoa) e então vim à procura na Internet onde abundam maus exemplos de toda a ordem a que as crianças e os jovens raramente têm acesso sem ser sob a tutela de um professor numa sala de aula ou de um educador em casa. Aqui está partilhado em dupla versão, animada e desanimada,mas sempre em verso, O Corvo. Tenham medo, tenham muito medo!


The Raven na série animada The Simpsons: "Quoth the Raven,Eat my shorts."
http://www.youtube.com/watch?v=BZuIEdaYxiA


Once upon a midnight dreary, while I pondered weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
`'Tis some visitor,' I muttered, `tapping at my chamber door
-Only this, and nothing more.'

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; - vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow - sorrow for the lost Lenore -
For the rare and radiant maiden whom the angels named Lenore -
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me - filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating
`'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door -
Some late visitor entreating entrance at my chamber door; -
This it is, and nothing more,'

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
`Sir,' said I, `or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you' - here I opened wide the door;-
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering,
long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before
But the silence was unbroken, and the darkness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, `Lenore!'
This I whispered, and an echo murmured back the word, `Lenore!'
Merely this and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
`Surely,' said I, `surely that is something at my window lattice;
Let me see then, what thereat is, and this mystery explore -
Let my heart be still a moment and this mystery explore; -
'Tis the wind and nothing more!'

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore.
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door -
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door -
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
`Though thy crest be shorn and shaven, thou,' I said, `art sure no craven.
Ghastly grim and ancient raven wandering from the nightly shore -
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning - little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door -
Bird or beast above the sculptured bust above his chamber door,
With such name as `Nevermore.'

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only,
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered - not a feather then he fluttered -
Till I scarcely more than muttered `Other friends have flown before -
On the morrow will he leave me, as my hopes have flown before.'
Then the bird said, `Nevermore.'

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,`
Doubtless,' said I, `what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore -
Till the dirges of his hope that melancholy burden bore
Of "Never-nevermore."

'But the raven still beguiling all my sad soul into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird and bust and door;
Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore -
What this grim, ungainly, gaunt, and ominous bird of yore
Meant in croaking `Nevermore.'

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamp-light gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamp-light gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor.
`Wretch,' I cried, `thy God hath lent thee - by these angels he has sent thee
Respite - respite and nepenthe from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe, and forget this lost Lenore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'`

Prophet!' said I, `thing of evil! - prophet still, if bird or devil! -
Whether tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted -
On this home by horror haunted - tell me truly, I implore -
Is there - is there balm in Gilead? - tell me - tell me, I implore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Prophet!' said I, `thing of evil! - prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us - by that God we both adore -
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels named Lenore -
Clasp a rare and radiant maiden, whom the angels named Lenore?'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Be that word our sign of parting, bird or fiend!' I shrieked upstarting -
`Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! - quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

And the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamp-light o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted - nevermore!

1/22/07

PERIQUITOS II - RIP

Morreu o meu periquito cinzento que tinha uma pena branca na cabeça. Agora só tenho uma periquita viúva e gaiteira.

REVIVER


Para quem achou Reviver o Passado em Brideshead, série, anos 80, inesquecível, olhem a boa notícia!Ou talvez não, we shall see...

DINHEIRO INSTANTÂNEO


Não sei se já receberam notificações de prémios online. Eu nunca tinha recebido, mas não há fome que não dê em fartura. Num único dia foram-me atribuídos 2.150.000.00 euros através do LOTTO.NL MEGA JACKPOT LOTTO WINNING PROGRAMS, do EURO MILLIONS SPANISH LOTTERY INTERNATIONAL e do REAL CAMPO FREE AWARD. Ou seja, eu sozinha consegui bater os apostadores militantes de Portugal inteiro na conquista de prémios monetários pois que eu saiba ainda não arrecadámos 3 prémios do Euromilhões num só sorteio. Espantosamente tornei-me instantaneamente uma mulher rica além da rica mulher que já sou. Pena que seja apenas virtualmente. E que apenas conte para efeitos de estatística de fraudes na Internet. O que foi absolutamente mau nesta gloriosa atribuição foi o timming. Num momento em que faço contas à vida – se eu vender o carro, a colecção de CD, o relógio de pulso, a colecção de BD… e o casal de periquitos, talvez dê ou talvez não, vejamos se encontro um país onde o nível de ensino seja aceitável e o nível de vida inferior ao nosso para fazer esticar as minhas magras poupanças - para saber se posso financiar uma experiência de aprendizagem internacional, ou seja, num momento em que estou francamente alérgica a conversores automáticos de moeda e indignada com o valor das minhas poupanças de anos de trabalho escravo, vêm estes idiotas brincar com a minha necessidade de uma soma avultada em formato instantâneo!! Foi como se telepaticamente lessem a minha mente esfaimada por dinheiro. O que me pôs a pensar se seria possível saberem que sites andei a visitar na Internet para assim me elegerem como uma das suas vítimas:Big brother is watching you! Deixo um link para um site verdadeiramente assustador sobre fraudes. Aí se explica como andam para aí uns ranhosos sempre prontos a deitarem a unha à nossa identidade para posteriormente darem o golpe. Que vos seja útil.

ESMERALDA OU O TRIBUNAL DA OPINIÃO POPULAR

Convenção sobre dos Direitos da Criança

ARTIGO 3.º
Todas as decisões relativas a crianças, adoptadas por instituições públicas ou privadas de protecção social, por tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, terão primacialmente em conta o
interesse superior da criança.Já ouviram falar de escrita criativa? Aquela que serve para fazer argumentos de novelas ou produtos similares? Este blog não foi criado para gastar os meus neurónios e tempo em assuntos sérios, para isso chega-me a vida extra-blogosfera. Para fazer isso teriam de me pagar. Escrevo para mim e para mim escrevo a brincar. Se por acaso me vierem ler, óptimo.Se gostarem, óptimo.Se não gostarem, óptimo.Se não vierem, óptimo.Não ganho dinheiro com isto, apenas exercito o cérebro como quem exercita os músculos.Pode ser que me garanta um extra de protecção contra o Alzheimer!Mas por vezes assuntos há que até me dão vontade de escrever à séria.Como se com isso pudesse ganhar dinheiro ou alterar alguma coisa. Neste caso penso que é a minha remota veia jurídica a palpitar. Neste assunto, no entanto, prefiro que, caso tenham tempo e vontade, leiam o acórdão relativo ao Caso Esmeralda em vez de me lerem a discorrer sobre a escrita (criativa) que lemos na nossa comunicação social muito bem socorrida de reportagens de televisão (também criativas) que já conduziram a um peculiar habeas corpus com mais de 10.000 assinaturas. A malta da comunicação social adora engravidar-se da causa alheia, engorda em discussões, julgamentos e opiniões até rebentar num pranto laborioso e parir vento, algo muito próximo da gravidez histérica. Depois até parece que é infeccioso não se ter opinião perante os factos - ter uma opinião mal informada surge como algo bem mais saudável do que não ter nenhuma. Aconselho que antes de abraçarem a vossa causa e de opinarem sobre o Caso Esmeralda procurem as fontes - o Acordão Tribunal Colectivo do Círculo Judicial de Tomar (Tribunal de Torres Novas),- a propósito do processo de crime de sequestro agravado e de subtracção da menor Esmeralda para assim evitar um eventual aborto espontâneo das vossas convicções quando o caso chegar ao fim e, em comoção, se defrontarem com o resultado.I rest my case.
Mais um link informativo

1/21/07

INFERNAL AFFAIRS





Com The Departed, de Scorsese, nos cinemas e nas corridas aos prémios, ontem a TV2 deu-nos a boa oportunidade de rever Infernal Affairs, um thriller policial made in Hong Kong, em 2002, no qual o remake americano se baseou. Eis um filme asiático sem violência explícita nem cambalhotas marciais nem outras acrobacias do género. Infernal affairs impressiona positivamente pelo desempenho dos actores, narrativa e estética apuradas, notando-se uma linguagem visual por vezes próxima da da publicidade. Tudo isso e uma banda sonora eficaz para acompanhar uma história simples de indivíduos consumidos por dilemas de identidade e lealdade: Tony Leung, (Wong Kar-wai , In the Mood for Love (2000); Zhang Yimou, Hero (2002), é Chan, um polícia infiltrado numa tríade, e Andy Lau, é Ming, um gangster que foi enviado ainda jovem para a academia de polícia para ser uma “toupeira”. Ao fim de alguns anos Chan quer deixar de ser um infiltrado e levar uma existência normal, e Ming, que está no topo de uma carreira de sucesso, reavalia a sua vida dupla. Sam é o seguro chefe do gang bem sucedido que sempre tem conseguido iludir a polícia, mas esta agora está determinada em capturá-lo. Esta caça ao homem vai precipitar um jogo do rato e gato pois tornou-se evidente a existência de infiltrados que cada uma das facções quer ver a descoberto. Quem sairá primeiro da toca? Os dois infiltrados irão finalmente ultrapassar o inferno contínuo dos seus dias e ver esclarecidos seus conflitos morais. A caça ao homem vai conduzi-los ao confronto e apenas um sobrevive…Um filme de Andrew Lau Wai-keung e Alan Mak Siu-fai que vale a pena ver, mesmo se não forem como eu, fãs de cinema asiático. Três cartazes diferentes, o meu favorito é o da direita, que antecipa o inevitável e decisivo face a face desta história, uma cena chave que acontece no topo de um prédio.

A CÉSAR, A CIDADE DO CÉSAR! (dedicatória invicta)























1/19/07

*****PARQUE DE CAMPISMO/HORTO MUNICIPAL=ZONA VERDE*****



Exmo Senhor Presidente da Câmara
Municipal da Figueira da Foz

PETIÇÃO

No âmbito da revisão do P.D.M. e do Plano de Urbanização relativa ao espaço correspondente ao Horto Municipal e Parque de Campismo.

Os abaixo-assinados, conscientes de que urge defender as escassas zonas arborizadas ainda existentes na cidade, vêm por este meio e ao abrigo do previsto na Lei nº 43/90, de 10/08, apresentar a seguinte petição:
. O espaço correspondente ao Horto Municipal e Parque de Campismo está classificado no Regulamento do Plano de Urbanização da Figueira da Foz como “ espaço urbanizável” (art. 33º da Portaria nº 519/95, de 31/10).
. Segundo o referido Regulamento, nesse local, são possíveis construções com 6 pisos.
. Esta classificação poderá ser sinónimo da sua destruição a curto ou médio prazo.
. Após os fatídicos incêndios de 1993 e 2 de Outubro de 2005, as áreas arborizadas da Serra da Boa Viagem ficaram, na quase totalidade, reduzidas a cinzas.
. Há necessidade redobrada de manutenção daquele pequeno pulmão arborizado, sobretudo quando se assiste a um crescendo na devastação de zonas arborizadas próximas daquele local, para dar lugar a futuras urbanizações.
. Não existem razões de ordem demográfica ou de outra natureza que justifiquem a manutenção da classificação deste espaço como urbanizável.
. Esta área verde arborizada, além da beleza paisagística, é uma importante fonte de oxigénio e de amenização do clima existente na cidade, que é imprescindível conservar intacta para as gerações vindouras.

Em face do exposto, o referido espaço deverá continuar com as finalidades para que foi criado, porém, a sua classificação no Plano de Urbanização, deverá ser alterada para zona verde ou espaço de equipamentos de lazer e desporto.
Link para a assinatura da petição online»»»» Assine com nome completo e Nº de Bilhete de Identidade correcto!

MARINI, VAMPIROS E SELOS DE DESCONTO


Protesto! Gostava mesmo que as editoras deixassem de fazer este disparate que é colar selos às capas dos livros seja a que título for. Dispensava-se perfeitamente o "Exclusivamente este mês!" , o "Preço de Amigo do Peito", o "Preço de Saldo Todo o Ano!", o "Preço ao Preço da Chuva" com que nos querem sinalizar o favorzinho. Imaginem um inestético selo esverdeado com 5cm de diâmetro sobre a capa à vossa esquerda e digam-me se não tenho razão!Selo ou não-selo, eis a questão! Como se já não bastasse os hipermercados autocolarem preços nos livros para eu me entreter a esgravatar com a unha pacientemente antes de iniciar a leitura, as editoras, que têm quanto a mim muito mais obrigação de respeitar o livro do que o hipermercado, inventaram o mega selo!!!!E note-se até que no hipermercado a maioria dos produtos trás um código de barras para leitura e deixou de ter preço afixado individualmente. Mas o amigo livro é parente pobre desta inovação e continua a levar com o selo como se fosse um elemento estranho no meio das vendagens e precisasse de tomar uma qualquer vacina para se proteger e vingar no meio adverso!! Isto vem a propósito da minha compra de hoje de manhã, A Estrela do deserto, II, de Marini. Ainda não tinha este livro, apesar de já estar no mercado desde 2002, e estava à venda no hipermercado com um desconto (embora) não muito grande, e sem dúvida mais pequeno do que o redondo selo que a editora ASA cola na capa a anunciá-lo.
Talvez tenha sido em 2000 que comprei o primeiro livro de Marini, um volume da série Rapaces, parceria do desenhador com o argumentista Dufaux. Apesar de comprar alguma banda desenhada não sou nenhuma especialista na matéria e guio-me apenas pelo meu desinformado gosto. Sei que devo ter adquirido grandes disparates ao longo dos anos ao basear-me apenas na intuição. Certamente deixei escapar as verdadeiras obras-primas. Mas tenho alguns álbuns que sei bons e li alguns dos melhores autores.Ainda miúda, participei num concurso de banda desenhada e ganhei como prémio as aventuras completas (até esse momento) de Alix. Alix é um personagem, um jovem alourado e atlético, que foi criado em 1948 pela mão de Jacques Martin, um autor que pertence com Hergé à chamada Escola de Bruxelas. As suas aventuras decorrem no mundo antigo, entre a África e a Mesopotâmia. Alix enfrenta batalhas, conspirações e mistérios, num cenário fruto da grande paixão que o seu autor nutre pela História. Eu li os oito ou 10 volumes, mas não gostei mesmo nada sobretudo do aspecto gráfico. Esse tipo de banda desenhada havia de me marcar pela negativa e durante anos fugi de vinhetas e balões muito arrumadinhos, procurando mais expressividade no traço e no uso da cor, trabalhos que denunciassem liberdade exploratória dos autores ou caminhos alternativos a esses modelos. Recordo a obra Tell me Dark , uma novela gráfica de Kent Williams, que aqui trabalhou sobre um argumento de Karl Wagner e John Rieber, baseados estes no Fleurs du Mal, de Baudelaire, que alimentou longamente o meu fascínio pela área mais alternativa da banda desenhada. E então um dia foi que dei de caras com os vampiros do Marini. Li o livro inteirinho de pé, na livraria Bertrand, e num instante. Era notória a influência da manga japonesa, vim depois a saber que o seu inspirador é Otomo Katsuhiro, autor de Akira. A história da decadente sociedade de vampiros, do casal de irmãos vingadores, Camilla e Drago, e da tenente da polícia Lenore, desenrola-se numa Nova Iorque predominantemente nocturna, lúgubre e arruinada.As páginas apresentam-se numa progressão quase cinematográfica em planos cheios de profundidade, arrojo e equilíbrio, numa perfeita composição dos mais variados ambientes. As personagens são poderosas e sexy. O estilo narrativo é fluído, o traço e a aplicação da cor, vibrantes, o vermelho sempre presente e contrastante. Em suma, um festim visual e até literário. O livro parecia encerrar um fascínio diabólico pois lembro-me de ter procurado cada um dos volumes seguintes avidamente, até mesmo numa ida à Bélgica, e aí, país berço da 9ª arte, na esperança de me adiantar à edição e distribuição em Portugal! Ainda hoje quando vou a livrarias que sei mais dedicadas à banda desenhada espreito sempre a ver se não haverá um novo Rapaces à espreita, o volume V. Mas por enquanto, nada. Se tiverem curiosidade e quiserem conhecer um pouco de Marini, sigam o link!

1/14/07

TALVEZ UMA HISTÓRIA NORDESTINA?

Esta pequena história é uma brincadeira que me apeteceu fazer depois de ter encontrado uma lista de termos nordestinos no blog do Capitão - Mor, que visito com frequência. Para consultarem e perceberem os termos que utilizei, aqui fica o link:


Obrigada Capitão, foi MASSA fazer este texto!(Massa, foi, dos 30 listados o único termo que não utilizei...)




Lurdinhas, a caminho dos trinta, tinha assim um jeito meio abigobel de ser, tudo parecia passar-lhe ao lado, mas sabia cozinhar como ninguém. Começou a trabalhar no restaurante-bar da praia no início da época de Verão, mas quando o frio chegou ela continuou e agora até já saía da cozinha e passeava-se por entre as mesas, servindo os clientes, achinchelando os ténis Puma coloridos que comprara com as gorjetas ganhas, as alpercatas amarelo sujo arrumadas debaixo do balcão à espera do regresso do sol. As mulheres achavam-na meio abilolada, já a clientela masculina via nela uma boyzinha. Alguns dos mais velhos diziam-na ligeiramente parecida com a mulher do dono do bar, talvez o cabelo muito negro e de caracóis miúdos e firmes, mas não mais do que isso. Ao dono do bar, um tipo bizonho, era indiferente servir uma autêntica borréia a maior parte das vezes. No pino do Verão, casa cheia, e o Joaquim a queixar-se do ovo gorado quando ele se virou para o redondo cliente e lhe disse numa vozinha mimada e fina como a de um bruguelo chorão: - Quer um ovo fresco? Olhe, ponha-o você. – E virou-lhe as costas arrancando de dentro de si a maior goipada que Joaquim jamais ouvira. O patrão era um caboré, pouco falador e sempre metido consigo. Mas nem sempre fora este estorvo de simpatia. Devia ter uns cinquenta anos e vivia sozinho desde a morte da mulher. Tornara-se um homem malamanhado desde então. A morte violenta e misteriosa ainda hoje dava aso a trololó sem fim. Ontem como hoje, todos os dias ele vinha para o restaurante de manhãzinha e regressava noite funda na sua velha bicicleta. A casa onde morava não era longe. Era uma vida dura que desejava muito afolosar para estar mais tempo junto da sua querida Rosa. Mas o tempo é uma 




vertigem e então era de acochar o mais que pudesse, em especial durante o Verão, com a praia cheia de turistas. Nesse tempo José não era leso nenhum. Ambicioso, deixara um sítio para lá de esquecido, uma pleura desgraçada, no interior, e com a herança que recebera dos pais comprara o restaurante bar Dom Copo, junto ao mar. As fotos da “querida mãínha” e do “querido paiínho” que tinham sucumbido atropelados por um doido varrido ao volante de um jeep sem travões ainda hoje estão na parede atrás do balcão. Rosa era uma beldade. Dizia-se que, rapariga, fora assim que José travara relações com ela. José era um homem do mais pixototinho mas bem parecido. E para parecer mais alto andava sempre muito empertigado. A toda a vez que o caningavam por causa da altura, presumindo idêntico o tamanho do seu cacete, ele apenas tirava uma segunda e empertigava ainda mais o peito estreito mas fibroso. Não era homem de resolver nada à reada, aliás não conseguiria esmagar nem um muricoca com a sua palma da mão nua por respeito à vida que Deus criara. Mas como ele desejava não ser um tamborete de forró. Ambos, seu pai e sua mãe, tinham uma estatura normal, era estranho que ele tivesse crescido tão pouco. O desejo de crescer estava presente nas suas orações desde jovem. 


Era um pedido insistente que colocava a todos os santos da sua devoção. Mas nunca crescera nem mais um centímetro, nem os santos nem Deus lhe ligavam nenhuma. Vivia secretamente atormentado por isto mas compensado por ter Rosa a seu lado, por ela é que a vida era de vogar, ultrapassava tudo. Aparentemente, pois continuou a rezar para crescer, até mesmo na prisão, nessa altura até mais ainda. Se ela vinha de vez em quando ao restaurante era só para se distrair, ver as vistas. Ele não deixava que ela botasse a mão num prato, nem que carregasse um saco de macaxeira para o armazém. Prumode? Para isso havia os empregados, três ou cinco, e não dois como agora. Não queria que estragasse as mãos. Foi numa ocasião assim que as vidas da bela Rosa e Eurico se cruzaram. Eurico, um quarentão espadaúdo e morenaço, estava de passagem pela vila e tinha a paixão do bozó. Sentava-se a uma mesa e ali ficava até o restaurante-bar fechar, jogando com quem se fizesse à lide. Estava sempre pronto prá godela e aliciava todos os que passavam para lhe matarem a sede. – Amigo, dê uma carreira e traga-me um líquido fresquinho que estou meio desidratado. Né onda não! - E dizia isto a contorcer as costas largas contra a cadeira por causa da maldita xanha que não o largava. José embirrou com ele assim que o topou, cabelos longos puxados para trás, sentado à mesa a primeira vez, breado nas calças e camisa, até parecia que tinha andado à luta na poeira do chão, diabo malassombrado como poucos que por ali vira. Não dizia de onde vinha nem para onde ia. Um aroma envinagrado a inhaca desprendia-se dele quando José se inclinou sobre o seu lado direito, colocando o prato de carne de sol sobre a mesa. – Amigo, que mulher de cabelos longos e ondulados é aquela ali na mesa do fundo? Bem que me sabia uma zunhada sua mais pela noite.
O pequeno José teve vontade de torar a mesa, a cadeira e as costas do viajante, primeiro a cadeira nas costas daquele infeliz da costa oca, o cachaço em riba do prato e dos talheres depois e tudo o mais! Mas em vez disso, disse, a ferver por dentro: – É a minha mulher. Avie-se lá e ponha-se a andar. O outro, com voz de quem está mesmo a zonar, replicou: - Aí vareia, meu amigo, aí vareia. O que é certo é que o grande Eurico se pôs a andar e daí a dois dias foi encontrado morto, de bruços, uma centena de metros à frente da casa de José. E lá dentro encontraram a mulher semi –nua com marcas de dedos à roda do pescoço e a buceta inchada, morta na cama desmanchada, rodeada de velas, umas acesas outras apagadas, sobre a cómoda e mesinhas de cabeceira, tisna espalhada, até parecia um altar do demónio, aquele quarto. José contou à polícia que surpreendera o vil criminoso já a descatitar para longe mas que tinha ido no seu encalço e que o tinha morto com arma de fogo e que até tinha licença (não disse porquê, mas um homem pequeno talvez se sinta mais seguro na posse de uma arma) e que era culpado, que o levassem preso. Lenhou-se à grande o pequeno José. O local do crime foi motivo para o maior rugi-rugi de que há memória nas redondezas: - Vixe!, ela tinha um pacto com o diabo, a rapariga!- Diziam uns. – Quem nasce para a vida não lhe perde o gosto - diziam outros. Coitadinha, estrangulada e violada, que horror – diziam outros ainda. Mas ninguém lastimava José por ter perdido a razão do seu viver, apenas cochichavam que da noite para o dia se transformara em viúvo e assassino. O dono do restaurante-bar cumpriu a sua pena e anos depois quando saiu da prisão e regressou estava diferente, um priziaca qualquer, sempre soturno. Nunca mais o viram de peito empertigado, até parecia ter mirrado alguns centímetros no chilindró. 


Às vezes quando de madrugada regressava a casa na sua bicicleta chorava e berrava como um doido pela estrada isolada só com as estrelas por companhia. Quem o ouviu dizia que só podia estar louco e que tanta loucura só podia ser culpa e remorsos não espiados na prisão. Muito em segredo a população começou a fabricar uma história dentro da história: afinal José matara não uma mas duas pessoas, o infame, ainda devia estar preso e não a servir comida e bebida aos turistas no Dom Copo.Eita píula! Lurdes viu que o cliente musculado estava a ficar um pouco ariado e que dali não ia sair coisa boa. O patrão até podia dar-se ao luxo de perder clientela mas ela precisava mesmo daquele emprego. Joaquim não era nenhum leso, apesar de sercompletamente xeleléu o homem tinha opinião, sabia o que queria. 



Um ovo assim, para lá da validade e farto de sol, até dava para bater a caçuleta e estas coisas não sabia sequer Joaquim que era duas vezes o patrão em altura e largura. – Joaquim - disse Lurdinhas pondo água na fervura - sente-se que eu preparo uma comidinha boa feita no céu só para si. Mas Joaquim nem lhe prestou atenção. Seguiu o patrão até ao armazém e aí ficaram os dois talvez durante uma meia hora. Ninguém cuidou de ver o que estava a acontecer. - Moça, pode trazer agora essa comida – disse Joaquim a Lurdes a caminho do lavatório, as mãos ensanguentadas. A partir desse dia nunca mais ouviram o patrão gritar ou chorar a caminho de casa pela estrada isolada. Tinha perdido a faculdade de usar a voz. Joaquim tinha apenas querido dar uma lição ao dono do restaurante, - Foi só para ele aprender a ter tento na língua, - disse. Mas ao murro e ao pontapé nos queixos o redondo Joaquim tinha tratado do que restava da culpa e dos remorsos não espiados do pequeno José, e por isto lhe ficou José eterna e silenciosamente grato.

POSTAL ILUSTRADO (POP-UP)





No tempo em que os animais falavam era hábito enviar e receber cartas e postais escolhidos a dedo pelo correio.Era assim em muitas ocasiões,nas festivas, nas férias grandes ou pequenas, no namoro e até no dia a dia. Depois veio a Internet e os animais começaram a teclar:as cartas e os postais começaram a ser enviados só mesmo quando o Rei fazia anos.Os animais descobriram os e-cards e as mensagens cheias de abreviaturas e smileys e converteram-se à moderna-idade. Rapidamente as caixas de correio que havia à porta das suas casas se esvaziaram de cartas perfumadas e cartões a três dimensões como este que recebi com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, tão lindo, não é?! Paulo Magalhães é o nome de um português de 26 anos, formado em ciências da computação e engenharia de sistemas pela Universidade do Minho. Vive actualmente no Colorado mas apesar de ser um modernaço das ciências radicais ainda gosta de coisas à antiga, coisas como receber postais pelo correio. E então criou um projecto chamado The Postcard Crossing Project que nos permite receber postais dos quatro cantos do Mundo.Agora os animais saudosos de rectângulos ilustrados em papel já podem voltar a recebê-los nas suas caixas de correio. E todos continuarão a teclar felizes para sempre.Fim.

1/13/07

SINDROMA DE STENDHAL


Já alguma vez tiveram vontade de escrever a um actor que vos fez comover as entranhas,rir até o zip das calças rebentar, ou então antes o saco lacrimal, ou os dois junto, ou nenhum e antes arrepiado uma zona indefinida do vosso cérebro como se tocado ao de leve por uma pena? Ou a um escritor cujo livro, um livro que não conseguiram largar antes de chegar ao fim e que ainda hoje é o vosso favorito, até vos deu uma enorme vontade de escrever um também? Ou a um pintor que até parece pintar telas a pensar em vós, ao vosso mais íntimo gosto, como se tivessem aprendido nos bancos da escola o mesmo código com que um pinta e outro agora vê, e agora existisse entre vós uma troca secreta de mensagens feita de formas e cores que o Mundo nem imagina…Ou a um músico que vos empolgou a ponto de não se importarem de reduzir os botões do vosso HI-FI ao mágico replay? Nunca se sentiram absolutamente felizes perante uma obra artística não importa qual? Se já, nunca tiveram vontade de o dizer a esses artistas? Estão à espera de serem vítimas do célebre sindroma de Stendhal (palpitações, tonturas, e alucinações que podem acontecer quando as pessoas se encontram perante obras de arte particularmente belas, verídico, não estou a inventar!!) para só então pegarem na pena, na Rotring, na Pelikan, ou se calhar no sebento do rato para passarem ao acto? Porque não o fizeram? Porque já estavam mortos? (Eles e não vocês, claro, …) Porque acharam que era de mau gosto, ou coisa mais própria de comportamento de fã, culto de teenager borbulhento e ruidoso, de pin ao peito e poster na parede, para a qual já não têm idade? Porque isso não tem jeito nenhum e não serve para nada, nem dá direito a cupão de desconto na aquisição de novo bilhete para concerto, museu, cinema ou CD novo? Porque não valia a pena, eles nunca iriam ler, ora, têm lá vida para isso, gente famosa que só pensa no estrelato e na fama, que tiveram sorte em nascerem dotados e assim nos sugarem milhões, tanto dinheiro que até se tornam excêntricos para lhe poderem dar uso, ora, aquilo nem é trabalhar, é pura pândega…e, olha, gente assim até talvez gozasse com a vossa desconhecida cara quando lá aparecesse a cartita, não? Senão, certo seria que os vossos amigos gozariam com a vossa conhecida cara, se lhes confidenciassem, e o mais certo seria, um dia à noite, entre finos e amendoins, na mesa da esplanada, ó pá, escrevi ao Vítor Espadinha, aquela música dele é especial, sabes…Ou ainda porque era apenas o trabalho deles e que a vocês, quando fazem o vosso muito bem, mas mesmo muito bem, também nunca ninguém vos agradece com palavras bem ou mal passadas ou dá palmadinhas nas costas?! E além disso já existem as palmas e os direitos de autor, para quê mais do que isso? Não chegam?! Para quem nunca o fez, mas teve vontade, e ainda não fez, partilho aqui uma troca de emails de 2005 de que me lembrei quando hoje comprei mais um CD da Cristina Branco, mesmo sem direito a cupão de desconto.

De: "Cristina Branco" Ver detalhes do contato
Para: belinha_fernandes@yahoo.com.br
Assunto: Mensagem para Cristina Branco
Data: Mon, 14 Feb 2005 14:45:05 +0100

Cara Isabel,

tudo o que faço é declaradamente um acto egoísta, assumo. Mas saber que de fora do aquário estão pessoas como a Isabel, que aceitam...e mais, admiram e seguem os trémulos passos que vou dando na vida ao mesmo tempo que no canto, essa é a minha glória, é sempre uma emoção muito grande saber que outros compreendem esta aventura, que não tem sido fácil, mas acredite que é também por si e por outros como a Isabel que são a extensão daquilo que faço, que contínuo à procura do caminho!no outro dia perguntavam-me (os ferozes jornalistas da cultura do nosso país), qual era o propósito de tão vasta obra, já que poucos estavam dispertos para ela. Eu pensei e disse só que era uma história para o meu filho, outros deixam dinheiro, eu deixo pautas e poetas que saíram da clausura dos livros para pertencerem a todos nós, é esta a "ridícula" herança do meu menino que lutará ou não por ela, como bem entender, é esta a minha forma de tentar construir um país melhor para a melhor gente que ele contém.

bem haja e não hesite em se manifestar nunca
CB

> -----Original Message-----
> From: belinha_fernandes@yahoo.com.br
> [mailto:belinha_fernandes@yahoo.com.br]
> Sent: zaterdag 12 februari 2005 13:19
> To: webmaster@cristinabranco.com
> Subject: Mensagem para Cristina Branco


> A visitor from the Cristina Branco website sends you this info:

> name: isabel fernandes
> email: belinha_fernandes@yahoo.com.br
> body: Cara cantora
> Vi-a uma única vez no Centro de Artes da Figueira da Foz. Sei que não estava muita gente, mas quem estava sabe o momento que viveu. Deve ter alguma pena de em Portugal haver ainda pouco público para si, mas na minha opinião ele vai crescer. Desde que comprei o seu primeiro CD que, pela minha parte, faço campanha. Eu não gosto de fado, gosto muito das guitarras. Na sua música encontrei as guitarras temperadas por outros instrumentos e um colorido diferente para o fado. Como deve saber tem uma voz maravilhosa que ilumina todas estes trabalhos. A liberdade com que escolhe cantar e experimentar fusões é sinal de aventura, penso também que escolhe letras fantásticas para cantar. Gostaria de voltar a vê-la ao vivo. Enquanto isso não chega desejo-lhe as maiores felicidades pessoais e profissionais e cá vou ouvindo o seu Ulisses. Obrigada por fazer da sua vida uma partilha da sua arte com os outros,

> Isabel Fernandes
> Figueira da foz
> thanks: /pub/contact/thanks.htm
> Date: Zaterdag, Februari 12, 2005 at 13:18:51
Para ouvir, extrato de concerto em Suds à Arles:
http://www.youtube.com/watch?v=05-WKS6lrcU



1/11/07

IS THERE A DOCTOR IN THE HOUSE?


Hoje à noite se a TVI não nos trocar as voltas há episódio novo do Dr. House. Dizem eles que é novo, eu não sei se será. Apanhei a série já na reposição e até pensava que só em Abril é que ia haver novidades, já estava conformada. É que sem a 24, House MD é a minha única desculpa para ligar a TV ritualmente. Para quem nunca apreciou séries com médicos, enfermeiras e pacientes foi uma surpresa encontrar uma série que me tenha convencido e cujo contexto seja o da medicina. Para lá do que todos exigimos quanto a interpretação, realização e produção, nada menos do que a excelência, esta série traz-nos histórias surpreendentes de casos raros ou até extravagantes, não sei como melhor classificá-los, do mundo da medicina. Depois desenrola-se como se cada um fosse um mistério que a equipa de médicos-detectives aposta decifrar antes que a morte vitime o paciente. Desengana-nos sobre a infalibilidade dos juízos médicos e as suas certezas absolutas, choca-nos até pelo método da tentativa e erro, a única forma de tratamento que parece possível perante aquela circunstância. Como se não bastasse a complexidade dos casos também os pacientes são personagens complexas, mas nenhuma o é tanto como Gregory House, interpretado pelo blue eyed Hugh Laurie. House, o médico que desafia todos, os pacientes com quem interage o mínimo possível – ele detesta doentes tanto quanto ama uma boa doença - e a sua equipa, e fá-lo em diálogos de mestre, que são só por si um mimo para quem assiste aos episódios. Talentoso,o especialista em diagnósticos, vive atormentado por dores físicas permanentes fruto de um acidente que o deixou a coxear para a vida, é viciado em Vicodin, um acetaminofeno tipo paracetamol, - posso estar enganada aqui, não percebo nada disto - e também em telenovelas, a que assiste nos quartos de pacientes em coma. Em nome duma forma de ser desapegada e egoísta, misantropa também, ele diz sempre a verdade mesmo que ela corte a direito e mais fina que qualquer bisturi, a sensibilidade alheia. Não é raro, pois, que os seus interlocutores assim maltratados relacionalmente o classifiquem de mau a pior e se afastem deixando-o feliz na sua doce solidão. Sarcástico, miserável, arrogante, convencido, impertinente, bruto, desprezível, presunçoso, tudo isto se lhe cola à pele que nem luva cirúrgica. House não usa bata branca, anda de mota, toca piano e não sei se fala francês, mas disse uma frase em português num dos episódios que vi, cujo caso girava em torno da doença do sono, que, descobri então, é mesmo uma coisa danada. House MD é drama e comédia numa série sofisticada e desafiante, que garantidamente não nos dá sono: mesmo que passe sempre a horários mais que tardios, vale a pena ginasticar a pestana e assistir. Digo eu.

1/8/07

POR UM PUNHADO DE FILMES


Million Dollar Baby, filme do serão de ontem à noite, mais um daqueles que me faltava ver. Com Clint Eastwood passei da indiferença à veneração por muito menos que um punhado de dólares: bastou-me ver um punhado de filmes. Eis um homem que nunca se perderá num lugar algures entre parte alguma e adeus, - a place somewhere between nowhere and goodbye, como narra no filme o extraordinário Morgan Freeman – destino quase fantasmagórico esse da personagem Frankie Dunn, o treinador septuagenário roído por várias culpas, destino que fora antes o lugar onde habitara Maggie, a sua determinada pupila pugilista, antes de conquistar o seu sonho. Fecha-se o círculo, e termina a equação de ganhos e perdas, materiais e imateriais, que é Million Dollar Baby. É extraordinário ver como Clint Estwood continua presente num mapa de Hollywood que nos habituámos a ver repleto de figuras femininas e masculinas muito jovens, aliás, o homem é ele mesmo um mapa de rugas. A idade apenas refinou a sua arte tanto de representar como de dirigir e nós adoramos. Espero não vir a descobrir-lhe um podre qualquer como sucedeu quando ao ver o documentário Bowling for Columbine, do Michael Moore, me apercebi de que o Moisés (Charlton Heston) era Presidente de uma tal Associação Nacional de Espingardas (N.R.A., National Rifle Association) que defende o sacrossanto direito do americano possuir e usar armas de fogo… é algo tão natural e necessário que está na constituição americana…e que Deus salve a América se assim não for! Como é que um pai de família defende a sua casa dos vizinhos estrangeiros e terroristas? Como é que um filho defende a irmã do pai que a quer molestar? Como é que a irmã defende o pai da mãe alienada porque perdeu o filho mais novo na guerra do Iraque? Como é que a mãe se vai suicidar para acabar com a sua interminável angústia? Sem armas? Está provada por A mais B a necessidade de uma tal associação. Espero que Estwood nunca se lembre de seguir as pisadas do colega, no máximo autorizo-o a deixar o Inspector Harry Callahan ir até à sede da NRA dar uns tirinhos.

UM POST SOBRE SEXO A VER SE LEVANTO O TRÁFEGO DESTE BLOG



Já não é novidade para ninguém que alguns blogs se transformam em livro. Também gostaria que assim sucedesse ao meu, não este, o outro. Não na íntegra, nem tão pouco mais ou menos. Mas que saísse um bocadinho dele desta zona imaterial e inodora da blogosfera para o perecível e reciclável território palpável do papel e do cheiro da tinta. O primeiro caso de que me lembro foi O meu Pipi, talvez em 2004. Um dia fui ao hipermercado e lá estava o anúncio: 2ª edição! 15.000 rotos tinham comprado O meu Pipi. Ou seja, 15.000 pessoas, mais ou menos jovens, mais ou menos cultas, seja lá o que isso signifique, homens e mulheres, abriram os cordões à bolsa, instalaram-se de rabiosques feitos num qualquer sofá mais ou menos coçado, cama mais ou menos lavada, sanita mais ou menos desinfectada, às claras ou no umbigo da noite, a ler o célebre livro do círculo vermelho desaconselhável a menores de 18 anos. Uns terão rido à desgarrada, outros batido punhetas a páginas tantas. Outros viram o filme passar ante as suas pupilas dilatadas, outros, terão cogitado na matéria e interrogado a sua capacidade de performance sexual, outros terão ficado deslumbrados com a veia literária do autor, outros nem tanto. Outros ainda ter-se-ão questionado se aquilo era literatura de facto, ou apenas “de (pau) direito”, se era cultura, se era apenas uma coisa que tornava a coisa dura, se era pornografia de requinte ou se tinha requintes de pornografia, ou se não passava de alinhavo de palavras bem entremeadas de vírgulas e pontos finais, as quais, no sítio certo, ajudam muito a um texto. O sr. Pipi era um campeão de audiências e tinha escolhido o tema mais popular a seguir ao futebol: o sexo. (Ou antes?!!) Eu andava demasiado atarefada na minha labuta diária e já só dei com o produto do desenvolto escriba na prateleira do hipermercado, embora soubesse, por artigos de jornal e zunzuns de amigos que um certo blog tinha sido transposto para o papel, e ainda por cima, ah!, sido reservado o anonimato do artista ou do artolas, ou do escritor ou candidato, ou novel personagem do nosso maltratado mundo livresco, onde não há coincidências. Eu nessa altura ainda não tinha poisado os olhos nas linhas do sr. Pipi, era uma virgem no assunto. O sr. Pipi foi em 2003 a prova de que se pode saltar do ciberespaço ou da blogosfera, para o hiperespaço, entenda-se espaço do hipermercado – o Neo do Matrix que se cuidasse, o sr. Pipi era o “escolhido”, pelo menos de 15.000 pessoas. Bem, eu já me contentaria com um terço disso mas a desejar escrever e ilustrar para as criancinhas não devo poder aspirar a esse sucesso. Embora não falte quem desentranhe pulsões de conotação sexual escondidas nas saias da avozinha que foi comida pelo lobo mau ou da Alice que seguiu o coelho até à toca, eu tenho a certeza que nos meus ingénuos escritos nem mesmo Freud seria capaz de encontrar alguém com complexos de Édipo. Como qualquer mortal que se preze também eu peguei num desses livros onde um dia uma certa senhora farejou dinheirinho fácil nas entrelinhas e decidiu editar. Foi ela a artista, o verdadeiro fenómeno, um exemplo de moderno empreendorismo feminino e perspicácia, mais ou menos óbvia, mas de perspicácia para a oportunidade do belo do negócio. Eu tinha acabado de ler Catherine Millet, uma mulher do universo das artes francesas, dos artistas e da escrita. Creio que o livro saíu em 2001 e tinha gostado bastante. Mas não se podia comparar: O meu Pipi era apenas um daqueles embrulhos que fazem carreiritas meteóricas carregados à mistura com cebolas, margarinas e cremes para a barba nos sacos dos Continentes, Jumbos e outros que tais, e que se desembrulham como fogo de artifício, com alarido e estrondo, mas que acabam depressa. Suponho que também tenha estado nas livrarias, afinal sempre é um livro. Hoje já ninguém se lembra dessa personagem nem do seu blog onde alardeava façanhas sexuais em jeito de farelório nem do seu texto de escriba anónimo para ler no umbigo da noite e esquecer pela manhã. Lembro-me eu porque fico roída de inveja dos 15.000 leitores, mais isso do que ficar roída pela facúndia criativa do autor. (Suspiro sem qualquer conotação erótica.)

O MEU COVIL

O início do ano dá-me sempre vontade de fazer uma grande arrumação geral no meu covil. Hoje foram para reciclar três monstruosos sacos cheios de papel: jornais velhos, facturas, esboços, folhetos, porcaria vezes porcaria tudo elevado ao quadrado, que se acumulava no meu covil. Este é o espaço onde desenvolvo a maior parte da minha actividade. A palavra covil está associada ao perigo, a feras e à maquinação de malfeitorias humanas. Por causa disso estou aqui a hesitar e a pensar se não deveria antes referir-me ao meu simpático escritório como toca não vá alguém pensar que sou uma mulher perigosa que se fecha no escritório a maquinar coisas ruins tipo atentados terroristas, filmagem de execuções com telemóveis, mais um argumento para o Manoel de Oliveira filmar, ou outras ainda piores, como caricaturas sacrílegas. Uma toca é também um esconderijo,um buraco no solo ou no tronco de uma árvore onde se acolhem animais de toda a ordem, aranhas, coelhos e outros, mas uma toca parece trazer implicitamente reforçada a noção de segurança e de refúgio. Longe de mim sentir-me uma fera assanhada…embora não dispense as minhas longas unhas. Ou, pelo contrário, um animal acossado… embora horas existam em que seria bom poder esconder-me do Mundo e imaginar que as quatro paredes do meu escritório são tudo o que existe! Quando penso em toca lembro-me logo daquela célebre por onde se lançou o coelho atrasado e que a Alice seguiu indo parar a uma sala cheia de portas onde só havia uma mesa de vidro. E essa história nunca foi das minhas predilectas, mais um motivo para não simpatizar com a ideia da toca. Mas se umas vezes aqui encontro segurança, noutras apenas sobrevém inquietação. É que esta história de querer fazer vida à volta dos desenhos e das letras parece muito engraçada, muito mágica, e se eu pudesse faria disso a minha vida até gastar as pontas dos dedos e todas as pestanas dos meus olhos. Mas o parto criativo tem as suas dores. E agora estou aqui a matutar na diferença entre toca e covil! Hoje o meu cérebro está particularmente lento, talvez porque tenha voltado a chuva miúda e quando há água a tombar do céu os meus mecanismos como que enferrujam. E que falta me faz o Fernando para me explicar! Acho que não o vejo desde Dezembro de 2004. “Se quiseres vir dar-me um beijinho rápido ao Jumbo...despacha-te!” Foi com esta mensagem que se anunciou o meu amigo biólogo. “Ok, vou-te pegar a minha constipação.”- respondi. Enfiei o casaco, peguei nas chaves e corri para o Jumbo. O Fernando estava no quiosque do café, o que achei estranho pois ele não costuma bebê-lo, e quando cheguei mais próximo pedia uma fatia de salame de chocolate. Mas podiam ser novos hábitos adquiridos no estrangeiro. – I was expecting a more kind of english gentleman, - exclamei ao chegar próximo. Ele colocou o boné e perguntou: - E que tal assim? Eu ri. – Ainda falas português ou nem por isso? De boné ele continuava a parecer mais um português alentejano que não era do que um inglês que também não era, exceptuando na sua actual residência. Estava com uma enorme dor de cabeça e daí o café, pensava ele que estava a chocar alguma. – Lá, um café custa uma libra e meia - disse. Fomos para uma mesa amarelo-pálido. A conversa relâmpago ia terminar em breve pois o plano dele era regressar ao Sul, jantar com a família um jantar de despedida e ir ainda mais para sul, até Faro, apanhar o avião para Leeds, pelo que cada minuto era controlado pelo relógio. E num instante o encontro relâmpago encontrou o seu fim, não sem antes se falar da Austrália e de Espanha, do que se ganha quando se tem a coragem de seguir um novo rumo, de crocodilos e tubarões brancos, de teatro, do meu carro e do meu carro, de templates, de desenhos, de projectos, de amigos comuns que estão por perto, do frio português e inglês, do calor inglês, da crise, de prendas de Natal, de cartões de Natal que começam por “Monstro”...Que bom ouvi-lo, vê-lo assim, sorridente, tranquilo, satisfeito. Fiquei feliz quando partiu, esqueci-me até de que ia perder a única pessoa que me acompanhava nas minhas idas ao cinema para ver longas metragens de animação e que gostava disso tanto quanto eu! O que não se ganha num encontro relâmpago, segundos de uma luz intensa e breve, mas capaz de iluminar a vasta escuridão da memória e da distância. Ó Fernandooooooooooooo, qual a diferença entre toca e covil?!!

1/6/07

A MORTE DO BLOG

Pois é, há meia dúzia de minutos deletei o Sketchadabadu. Não tenho tempo para gerir três blogs diferentes. Estava meio agonizante, o coitado: meia dúzia de posts e pouco mais. Resolvi acabar-lhe com o sofrimento. Sendo assim vou manter o Papelustro para as colagens, que esse sim, está de boa saúde, e este Palavras-Cruzadas que servirá para as minhas deambulações quotidianas, como tem acontecido até aqui, mas agora também para publicar algum do trabalho gráfico que reservava para o Sketchadabadu.Esta fórmula é uma boa receita, dois em um, aliás era essa a ideia para este blog, dois, três, quatro, cinco, vinte em um sítio aglutinador de tudo o que me cruzar a imaginação, tudo ao monte e fé em Deus...Sobretudo poupo algum tempo, um bem sempre escasso aqui pelo burgo.

CORREIO


Uma tonelada de correio que expedi ontem, correio para a Inspecção Geral das Actividades Culturais, - o registo do meu livro, - para editoras, ainda retribuições de cartões de Boas–Festas. No topo podem ver uma encomenda especial, um bolo de mel da Madeira para a Lori, em agradecimento do seu texano bolo de frutas, que ela confeccionou. Como não sou nenhuma fada da cozinha optei por me abastecer no sítio do costume, por acaso o bolo não foi comprado no Pingo Doce, não, e assim evitar fazer má figura. O bolo de mel está no meu top de doçarias tradicionais. É um bolo típico do Natal madeirense, rico em aroma, uma autêntica maravilha feita de mel de cana, frutos secos e de especiarias – erva –doce, canela, cravinho e pimenta... Deve ser confeccionado no dia 8 de Dezembro e só aberto no Natal pois esta espera revela o seu melhor sabor. Nada de meter a faca neste bolinho escuro e delicioso, há que parti-lo à mão, como manda a tradição.
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