12/10/06

PASSAGEM DE ÂNUS



Hoje recebi um email com sugestões de como tornar a passagem de ano memorável. Meti-me então a pensar na tal da passagem de ano. Para mim é uma data em que o calendário nos vem chatear a vida e artificializá-a como se os nossos estados de espírito pudessem ser comandados pelo seu correr, folha a folha. Já me basta a arrumação do trabalho por dias, horas, meses. Mas aí, quando estamos inseridos em ritmos colectivos, somos uma grande lagarta cujos pés têm de se mover em sincronia para conseguir avançar. Podem pensar que sou uma gaja do mais anti-social que há, mas tal não é verdade. Não digo que não tenha festejado uma ou outra passagem de ano. Mas essas festarolas sempre foram o pretexto para outros festejos. Logo, em rigor, não festejava a passagem de ano. Recordo uma que foi um autêntico vómito. Foi a partir dela que deixou de ser para mim natural contrariar-me em função dos outros e do calendário. Celebrações por obrigação e em massa são para mim um desatino. Para mim a massificação do entretenimento não pode exceder a lotação esgotada dum Coliseu do Lisboa ou já será demais. Agora daí a olharem-me com ares de quem me toma por anormal só porque não quero ir de flute e passas para um qualquer lugar e uivar à meia-noite, é insuportável. E é assim que alguns me fazem sentir. Como se fosse imperativo brindar e estar de cara alegre, algures, quando chegam as derradeiras badaladas. Forçar o mundo inteiro a um ritual de foguetório é uma aberração. Mas a tradição tem barbas mais compridas que as do Pai Natal e carácter endémico. Com esse ritual, outros: os tradicionais balanços, balancinhos, balancés. Não há jornal ou revista que não caia neles! Que tédio. Deve ser a edição mais fácil do ano inteiro: vai-se aos arquivos e elegem-se os melhores e os piores, em várias frentes, desde os mais bem vestidos aos mais mal vestidos, dos países mais produtivos aos menos, personalidades do ano e anti-personalidades, livros in, discos out, copy, paste e já está. É a grande sangria da estatística, entre o fútil e o útil, é um ver-se-te-avias a encher páginas, listas disto e daquilo. A Internet também não escapa. Nem sempre se percebe bem a qualidade do critério utilizado. Por vezes até coincide com o meu. Quando não coincide aí cismo no que terei perdido ou então apupo mentalmente o autor da selecção pelo seu péssimo gosto. Outro ritual é o das previsões astrológicas. Houve um ano em que comprei deliberadamente um livro com previsões diárias. Sem comentários. Primeiro e último. Deu para rir nos primeiros dias do mês de Janeiro. Eu sei que existe uma enorme minoria de pessoas como eu. Nós, esse pequeno grande grupo, somos uma espécie olhada de esguelha pela massa que, em roda-viva, um mês antes já se anda a preparar para o grande Reveillon, tentando optar, entre as ofertas possíveis, por aquela que garanta não sei bem o quê: o melhor grau de alienação, a melhor ressaca pós-countdown, o olvido de tudo quanto não correu de feição nos anteriores 365 dias e a fé no milagre de outros 365 dias melhores a caminho. O champanhe é o convidado habitual, o mestre de cerimónias. O champanhe ajuda-nos a ser cigarras por uma noite; despimos a nossa pele suada e poeirenta de formigas, vestimos o nosso vestido preto, as nossas asas de tule, colocamos um colar de brilhantes, saltos altos. Convocamos a música, a dança, o sexo. E viva o gás carbónico! É uma pena que um vinho tão galante seja chamado à ocasião para ajudar ao olvido das nossas penas. Não acredito na felicidade colectiva. Acredito no alheamento colectivo. Que sentido há em começar o primeiro dia do ano a questionar-mo-nos se dormimos com quem entrámos na festa ou com quem saímos dela, a prometer-mo-nos uma dieta depois de nos termos enchido de tudo quanto havia na mesa? É fácil quando a ressaca é tanta que comida nem vê-la nas próximas 24 horas! Se dia 2, na mais feliz das hipóteses, dia 3, lá estaremos a olhar nova folha de Janeiro e com os mesmos dossiers herdados sobre a mesa; se sobre o lastro côncavo da nossa consciência, as mesmas angústias, desamores e desesperanças, se depositarão doravante, tal e qual, pergunto-me para quê o estrépito?! Estamos a festejar sebastianamente o novo mundo que há-de vir? Mmmmmm... Muito barulho por nada. Defeito meu? Uma questão de feitio? Festa que é festa tem de começar por dentro de mim. Surge nos mais imprevistos momentos, ao longo do ano, dum desafio ao acaso e dum improviso. E pode então durar até às tantas, ou durar apenas meia hora. Mas é saboreada genuinamente em cada momento, conscientemente. O gosto do encontro, o gosto da boa mesa e da boa bebida, o gosto das palavras, o gosto dos outros, o gosto da música, o gosto da dança, o gosto do riso, o gosto da viagem. Sem desperdícios. Não se quer perder pitada. Não se faz para apagar o mal, para o mal não há um interruptor, porque o mal ou se resolve ou não se resolve, quanto muito, adia-se. Faz-se para festejar o bem e o bom de uma coisa que até pode ser insignificante para a maioria e para o calendário mas que é de suprema importância para uma, duas, três, seis pessoas, e na qual todas se congregam. E de uma coisa que é real. O facto de se juntarem massas informes e desconhecidas, sem qualquer sentido gregário, que se dispersam ao acaso quando o corpo começa a dar de si e o tempo se esgota, intriga-me e irrita-me. Só porque o calendário diz que é hora? Se há dias em que penso que não sou deste mundo é no dia 31 de Dezembro. Uma semana antes é ver as televisões e os jornais a pegar nas palavras lindas da paz na terra aos homens de boa vontade e da solidariedade; e nas reportagens das campanhas a favor dos mais desafortunados e infelizes, dos sem abrigo, das não sei quantas crianças que morrem de fome, mais o Natal dos doentes e o dos soldados que estão longe dos seus e a brincar às guerras que nem são as suas, nas lágrimas dos que estão sós, sujos e mal nutridos, tudo quanto nos possa suscitar piedade aí está. E dê, e dê, e dê. Não seja egoísta, há sempre alguém que precisa daquilo tudo que você tem e nem sequer precisa, ou até de metade, um quinto.... E dê. E dê. E dê. Ampare. Uma semana depois e é o frenesi global. Até parece que o mundo inteiro se prepara para, entre gás carbónico e iguarias excessivas, música e trips, provocar-se a diarreia do ano findo, como se isso se viesse a traduzir num grande olvido e num supremo alívio, afinal numa digestão de tudo quanto é mau, na obtenção de um vazio que seja sinónimo de espaço para uma vida nova, radiante e renovada, que pode bem nunca chegar a ser. Penso que a passagem de ano se poderia então chamar “passagem de ânus”...

8 comments:

Lídia Lopes said...

Olá Belinha! Concordo plenamente. Nunca gostei dessas "celebrações de calendário" em que é obrigatório estarmos alegres, divertirmo-nos, etc... Sou o mais "anti-festas de calendário" que pode existir. Simplesmente não as suporto e tento fugir e esperar que esses dias passem. Simplesmente, porque nunca me divirto nesses dias tal como não me rio de anedotas :). Adoro a espontaneidade, em resumo...
Cheguei aos seus blogs após uma passagem sua pelos meus e adorei. Parabéns pelo seu talento e bom gosto!
Respondendo à sua pergunta, vivo há cerca de 1 ano e meio na Turquia. Obrigada pelo link e também pretendo divulgar os seus!

Capitão-Mor said...

Pessoalmente sempre apreciei mais as celebrações do final de ano do que o próprio Natal. Nunca tive uma família numerosa e talvez por isso desse maior prioridade ao reveillon que era sempre passado com os amigos numa casa alugada algures por esse Portugal. Aqui no Brasil é mais engraçado, porque devido a factores climáticos, a festa é feita essencialmente na praia.

40 said...

Belinha:
Em resposta ao seu comentário no meu "Blog", devo dizer-lhe que o meu patrão não me tem dado tréguas.
Espero que em 2007 possa voltar a "postar" qualquer coisinha...
Cumprimentos

mfc said...

É mais uma convenção do homem a que se dá uma importância desmesurada.

Prismatico said...

Bueno, gracias y te deseo lo mejor para ti este año sera mucho mejor lo veras Salu2 ;)

Jorge Ortolá said...

Olá,
Que 2007 seja um ano cheio de trabalho para ti eolha, para mim também.
Beijos e felicidades

Zé Lérias said...

"Penso que a passagem de ano se poderia então chamar “passagem de anus”...", MAGISTRAL!

Boas Festas para o ano inteiro.

Àparte,cá para nós: Quem me dera escrever assim...

O'Sanji said...

Belinha,
Um beijinho.
Eu preferiria que natal se festejasse durante o ano inteiro e não num único dia, o qual se transformou no palco das hipocrisias e cinismos da vida.
No entanto... não posso deixar de te desejar um feliz dia.

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