11/26/06

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS (1923-Novembro 2006)




(Chegada dos portugueses ao Japão, frente e verso)

lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

             Mário Cesariny

11/24/06

RECEBI UM PRESENTE


Trabalho de pintura digital que recebi de Marcos Cruz, um fabuloso artista brasileiro autodidacta que me deu grande incentivo e ajudou a dar os primeiros passos no Photoshop. Para ver algumas das pinturas digitais de Migsete visitem a Galeria do Site do Migsete

15.40 HORAS E CHOVE CÃES E GATOS



Chuva a potes, vento fortíssimo. Os holofotes do estádio Bento Pessoa não chegam para compensar o escuro que tomou conta dos céus da Figueira da Foz.Outono mascarado de Inverno profundo.Ai que bom ter ficado hoje em casa.

NÃO PAREM DE ME ARTESANAR!


(Artesanato natalício para suspender na porta da entrada de casa. O meu sobrinho fez as estrelas, os corações, os peixes e pássaros em massa DAS e cravou-lhe pedrinhas coloridas. Eu fiz o resto.)

De há uns três anos a esta parte a blogosfera portuguesa encheu-se de blogues de mulheres que se dedicam a criar peças de artesanato da mais variada qualidade e pelos mais variados motivos. Aventuras criativas individuais para passar o tempo, valorosas cruzadas maternais perante a adversidade, juvenis experiências empreendedoras, microformas de negócios on-line - há de tudo nesta vasta galeria de produtos manuais desenvolvidos no aconchego do lar e expostos na grande montra da Internet. Sempre apreciei peças artesanais porque são únicas. Eu própria gosto de criar algumas de tempos a tempos, exemplares únicos, pois se tenho de fazer vários semelhantes ou parecidos o tédio apodera-se de mim e logo me enfado. Coisa que nestas artesãs ditas urbanas parece não existir já que algumas se dedicam à efectiva produção artesanal de série, peças atrás de peças atrás de peças que apenas apresentam algumas variações mínimas. Elogio-lhes a paciência fruto da paixão ou da necessidade. Alguns desses produtos são efectivamente notáveis pelo conceito de produção que envolvem ou o próprio design. Adquiri um a Rosa Pomar, uma boneca personalizada para oferecer à minha irmã por altura do nascimento do meu sobrinho. Infelizmente muitos produtos que se podem encontrar nestes blogues já são apenas derivação ou mesmo cópia do engenho de quem se abalançou a dar o primeiro passo. Todo este afã criativo rejuvenesceu e ressuscitou a cena das manualidades que andava até mal vista e arrumada algures entre produto de donas de casa desesperadas, ocupação de ócio de senhoras bem e entretém das reformadas, ou metodologia de quermesse. Técnicas antigas receberam novo fôlego; possuir jeito de mãos tornou-se subitamente motivo de inveja e moda; competências femininas de outrora foram revalorizadas e até já existem homens intrigados com o fenómeno, a cobiçarem a astúcia e a deitarem mãos à obra!
Todo este movimento traz à tona o primado do indivíduo e é isso que me fascina como criatura individualista que tendo a ser. Eu tive sorte. Eu fui uma bebé que teve um enxoval confeccionado à medida, peças minúsculas cortadas em retalhos escolhidos com amor e costuradas uma a uma, malhinhas tecidas com modelos originais e exclusivos, babetes bordados com minúcia. Ah! E já me esquecia de mencionar a alcofa decorada e respectivos lençóis made by mamã. E depois fui crescendo e nos anos seguintes a minha mãe continuou a confeccionar quase toda a minha roupa, vestidos fabulosos, casacos, calças. Na altura eu achava isso natural, aliás, pensava que todas as mães eram assim. Mas hoje penso que isso foi extraordinário. Até porque hoje já não tenho essa sorte, hoje que eu gostaria de usar peças exclusivas a toda a hora! Por ter estado por perto do atelier adquiri conhecimentos de corte, diferentes tipos de tecidos e acabamentos e isso tornou-me mais tarde uma consumidora crítica que sempre olhou para a roupa das lojas como quem inspecciona, escapando à sedução da moda as mais das vezes, sendo mais objectiva do que emotiva no acto da compra.
A produção em série pode ser muito lucrativa para o dono da fábrica mas nem sempre deixa o consumidor plenamente feliz. Deixa-o apaziguado na sua necessidade mas vestido de igual a não sei quantos mais consumidores. Que tédio. Compramos muitas vezes o que precisamos, não o que gostamos verdadeiramente. Esgotada a necessidade chega o dia em que adquirimos nova peça e com desprendimento deixamos de parte a anterior que nada tinha de especial que justificasse uso prolongado, cuidados especiais, destaque no guarda-roupa. Com o tempo o consumidor acabou por acreditar que a situação era prática, a solução única e que fazia máximo sentido no quotidiano do corre-corre. Esqueceu-se que podia ele mesmo produzir e ser único. Talvez nem sempre nem nunca, mas esqueceu-se. Imagine-se agora que a sociedade de consumo possa evoluir e dar lugar a uma outra onde a afirmação individual se faça pela produção de tudo o que cada um de nós souber fazer de melhor a par do primado do nosso gosto especial atípico, incomum, único. Na realidade porque têm tanto sucesso alguns blogs e podcasts? Não será porque os consumidores estão cansados de formatos padronizados ou conteúdos espartilhados por regras que não os servem mas que foram treinados para aceitar como a resposta única?!! Algo na nossa consciência colectiva reclamava por esta pequena revolução dos produtores artesanais que apela fundo à satisfação dos nossos caprichos e desejos. Não apenas às nossas necessidades mas também ao nosso desejo de prazer, ao nosso eu muito pessoal. E a internet foi a alavanca deste movimento criativo. E estamos todos a descobrir o prazer de comprar por encomenda, à nossa medida e dos nossos gostos. E havendo procura é apenas inevitável que não nos parem de artesanar …

11/22/06

PAPELUSTRO na FIGUEIRA21





- Olha, trouxe-te a Figueira 21. Tem uma referência ao teu blog.

- Ah, eu já sabia, mas ainda não tinha visto.Deixa ver.

- Quanto é que pagaste para te publicarem isso?

- Eu?!Nada, ora essa. É que eu sou boa, é isso!

- Ah, boa!Boazuda!!

- Estúpido!Cala-te e dá cá a revista.

- Não dou, ai não...

- Dá cá! Vá lá! Deixa ver!

- Ok, é toda tua.

11/15/06

ALERTA LARANJA



Alerta laranja para o estado do tempo, alerta vermelho para o meu estado de espírito. Estes rigores de Outono mascarado de Inverno abalam a minha predisposição para quase tudo. Dou comigo a fazer funcionar a máquina de café várias vezes durante a tarde para compensar a abulia. Em vão olho para a folha de papel branco sobre a mesa. Já foi quase meio bloco para o lixo e nada surge que se aproveite. O lápis gira louco na minha afiadeira em forma de peixe. Não que habitualmente a folha se preencha sem esforço, mas hoje, nada surge. Um dos meus sonhos é seguir o Verão, voar para outro lugar quando chega o Outono. Um dia escrevi um poema com este título e tudo. Seguir o Verão. Fui buscar um CD para amenizar a tempestade que se abateu sobre mim. Save room for my love/Save room for a moment to be with me...Legend em segunda vez, punhado de canções boas para bandas sonoras de cenários românticos. Voz morna e adocicada, aconchegante, sexy. Piano mas também guitarras. Não tenho o primeiro CD que lançou, o muito celebrado Get lifted. Este ouve-se bem, muito bem, aliás. E ali pelo meio até parece a voz do Jeff Buckley, que raio de assombração, uma boa assombração na verdade pois Buckley era extraordinário. Legend. Como é que alguém se sente à vontade com este nome se não tiver nascido com ele?!! Lá fora a chuva incessante esmaga-se contra a vidraça, acendo mais uma luz pois a tarde é quase noite. A folha em branco. A inspiração tarda e o CD gira as suas melodias imensas de soul e travo pop. A evasão resvala para o quase possível. Sigo o Verão…

BEING BORING


Há dias vi que Neil Tennant dos Pet Shop Boys colaborou no novo Rudebox do Robbie Williams. Eu nunca tive muita simpatia pelos Pet Shop Boys nem sabia que eles ainda estavam "no activo". A melhor canção dos Pet Shop Boys é Being Boring do álbum Behaviour.(Minha modesta opinião, claro, quem sou eu para afirmá-lo...) O título da canção parte de uma inspiração de empréstimo a Zelda, mulher de F. Scott Fitzgerald que terá escrito“She refused to be bored chiefly because she wasn’t boring.” A letra sobre ímpetos juvenis, amigos e tempos passados não deixa de ser uma celebração. Sempre foi uma das minhas canções predilectas.O video a preto e banco de Bruce Weber também. Não teve muito sucesso comercial mas gerou um forte culto. Vejam este site, por exemplo. Aqui fica a letra da canção, para cantarolar...
I came across a cache of old photos
And invitations to teenage parties
"Dress in white" one said, with quotations
From someone's wife, a famous writer
In the nineteen-twenties
When you're young you find inspiration
In anyone who's ever gone
And opened up a closing door
She said: "We were never feeling bored

'Cause we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: "Make amends"
And we were never holding back or worried that
Time would come to an end

When I went I left from the station
With a haversack and some trepidation
Someone said: "If you're not careful
You'll have nothing left and nothing to care for
In the nineteen-seventies"
But I sat back and looking forward
My shoes were high and I had scored
I'd bolted through a closing door
I would never find myself feeling bored

'Cause we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: "Make amends"
And we were never holding back or worried that
Time would come to an end
We were always hoping that, looking back
You could always rely on a friend

Now I sit with different faces
In rented rooms and foreign places
All the people I was kissing
Some are here and some are missing
In the nineteen-nineties
I never dreamt that I would get to be
The creature that I always meant to be
But I thought in spite of dreams
You'd be sitting somewhere here with me

'Cause we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: "Make amends"
And we were never holding back or worried that
Time would come to an end
We were always hoping that, looking back
You could always rely on a friend

And we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: "Make amends"
And we were never being boring
We were never being bored

'Cause we were never being boring
We were never being bored

BACALHAU TRISTE



Adoro o cheiro do peixe fresco. Mas no hipermercado o peixe tornou-se inodoro e as montras frigoríficas exibem-no como peças de arte, emoldurados entre gelo picado e salsa, e outros adornos mais plásticos. Além deste temos o cirúrgico espectáculo das carnes. Hoje tudo está meticulosamente embalado em tabuleiros brancos e celofane, rotulado. Nem mosca nem mão afastando a mosca. Eis um gesto que a modernidade apagou, garantia suposta de segurança e higiene, sabemos lá nós a que farinhas e outros aditivos engordou aquela fatia vermelha de novilho perfeitamente embalada e rotulada. Por vezes penso que sou uma vegetariana em potência à espera de um pretexto. Mas um amigo biólogo garantiu-me que qualquer alface de aspecto inofensivo é uma perfeita bomba de resíduos químicos! Não sei cozinhar. Isto é, sei tornar a comida comestível. Géneros que tenhamos de sujeitar a exercícios de corte e cozeduras em lumes mais ou menos brandos, suadelas no aconchego dos vapores, crestas ao lume e preparos com delongas de requinte são para mim um mistério. O que não significa que não goste de boa comida - comer em boa companhia é uma das minhas artes dilectas.Com um bom vinho que me faça ruborescer e soltar-me um riso de borboletas dançarinas, então é perfeito. A propósito da ementa de bacalhau cozido, a meu ver tristemente, com batata e couve, talvez um ovo e uma cenoura também, com que em muitos lares se pratica a tradição do Natal à mesa, lares, empresas e afins, eis sobre o que me apetece escrever agora, pois hoje havia uma pequena multidão à volta da banca do bacalhau no hipermercado. E ainda estamos a mais de um mês do evento! Uma vez a maré da recessão levou da mesa do meu “jantar de empresa” esse desafamado prato substituindo-o por nenhum: não houve confraternização natalícia. Agradeci à crise general – sim, general, porque é ela quem está no comando - e à magreza orçamental da instituição pois se havia noite do ano em que rapava fome era nessa. Nem arte nem bom senso em servir um peixe tão maravilhoso de uma forma tão insípida, e, ainda por cima, fria, num jantar que é supostamente de festa e não de expiação ou penitência. Para mim era mesmo penitência. Comia o ovo e rezava para que o final do transe chegasse depressa, pois havia sempre a esperança de uma fatia de Bolo-Rei e de um copo de Porto para esquecer a desdita. Imaginava que seria bom trabalhar numa organização não governamental de perfil ambiental: talvez nessas já alguém se tivesse lembrado de substituir o prato e já vou escrever sobre o motivo a invocar! O bacalhau é uma espécie em vias de extinção. Antes dela se extinguir irá certamente extinguir-se a nossa frota bacalhoeira. O cão pode ser o melhor amigo do homem mas o bacalhau é o melhor amigo de qualquer português. Quando era criança adorava sacar lascas das postas secas às escondidas e sugar-lhes o sal. Comigo foi assim que começou a minha descoberta do bacalhau. Todo o português que se preze anda atrás do bacalhau. E no Natal, então, é uma corrida de fórmula repetida. O concorrente directo do português, é, fiquem a saber, a foca. Parece que a foca pode comer até 30 quilogramas de bacalhau por dia o que a transforma numa comilona sem maneiras.Ainda por cima, nem sequer deixa que o peixinho se torne adulto, papa-o logo que este lhe cabe na boca. Muito antes de ser apanhado pelas redes e acabar nos nossos estômagos, existem portanto as esfaimadas focas canadianas. As focas eram uma espécie em vias de extinção. Passaram de perseguidas e hiper-protegidas e agora andam a dar cabo de tudo quanto é bacalhauzito “pacanino”, quando um espécimen demora cinco anos a ser capaz de reprodução! Ora isto é calamitoso! Preparemo-nos! Dentro em breve nem miúdo, nem corrente, nem crescido, nem graúdo nem especial. Ficarão para a história as 1001 maneiras que se diz existirem para o levar à mesa. A cadeia alimentar é tramada.

11/14/06

PARA ZOMB(I)AR COM AS PALAVRAS



Zombie Letters from e-zombie.com

É PRECISO TER LATA!




Concurso de reciclagem criativa de latas Red Bull. Visitem a galeria Online People's Choice Award onde poderão encontrar estas e outras peças.

11/13/06

HERA UMA VEZ...

NORTE


(Escrito a 6 de Outubro de 2004, recuperado de blog extinto)

“Obrigado por adquirir este CD e apoiar os artistas, autores, compositores, músicos e outros profissionais que o criaram e tornaram possível.” Tenho o “Norte” sobre a mesa, é o último trabalho do Jorge Palma. Estou a guardar a audição para um pós jantar enrolado na manta do sofá, salpicado a chuva na vidraça. Que grande festa um CD de originais do Jorge Palma! Por enquanto estou na leitura de todas as palavras do booklet, ainda separadas da música, mas já de si (e como sempre) tão ricas em sonoridades e imagens. Em vez da pressa de ouvir vou tacteando o possível, imaginando, antecipando a imersão num universo que vem de longe e que ao longo dos anos me tem acompanhado como se de um templo se tratasse. A semana passada fui surpreendida pelo meu sobrinho de dois anos a cantar “mamã, mamã/onde estás tu mamã”. O Jorge Palma ia dar uma entrevista promocional na radio, saí para o trabalho sem a poder ouvir mas o ouvido atento do meu sobrinho não deixou escapar o essencial. No meu regresso tinha muito que cantar. Imagino-me daqui a uns anos a ver um concerto do Jorge Palma, eu a dizer-lhe que ele cantava esta canção muito antes de aprender o “Atirei o pau ao gato...” quando ela surgisse no encore! A última vez que vi um concerto do Jorge Palma foi em 1998. Três horas de espectáculo no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Afinanços e acertos de última hora, alinhamentos desalinhados, palavra e som ao sabor do momento e um copo de cerveja sobre o piano. Público devoto, público acintoso, velhos fãs, estreantes no culto do talentoso marginal. Seis anos depois e até alguns discos depois, a idade atravessada na face do artista como o rasto de um arado nas terras, ei-lo de cigarro abandonado na mão, fitando-nos, num preto-e-branco fotográfico:”ainda vou ser ilusionista crónico/um mestre da fuga, um mago supersónico”. Tenho a certeza que ele vai sempre ser aquilo que quiser e nunca aquilo que os outros queiram que ele seja. E é por isso também que gostamos tanto dele.

UM PROFESSOR ÀS DIREITAS


(Texto escrito em 29 de Novembro de 2004, recuperado de um blog extinto)

Ontem, cheguei a casa e atirei-me para o sofá, puxando para junto mim um montinho de jornais destinados ao lixo. Num deles e na última página (Jornal de Coimbra) vinha a fotografia do Prof. Dr. José Joaquim Gomes Canotilho, há um ano distinguido com o Prémio Pessoa, e umas extensas colunas de elogios. Este senhor foi meu professor em finais dos anos 80. Olhando a fotografia, os olhos de um azul perscrutador parecem-me a única coisa que não mudou naquele rosto. Isso fez-me olhar para o espelho da parede inadvertidamente, como se para verificar o quanto em mim mudou, inevitavelmente, também. 

Aquele professor era intocável. Nunca ouvi uma voz erguer-se contra ele enquanto fui estudante. Quando soube do Prémio fiquei contente. Desde que deixei a faculdade nunca mais o voltei a ver.( Estou tão distante das esferas jurídicas quanto das celestes. Em meados de Julho fui notificada do trânsito em julgado da sentença do último caso que aceitei...em 1997! É isso. A deusa Iustitia anda há anos em greve de zelo. É um território iníquo. Por cada lacuna legal que um diploma fecha abrem-se mais duas ou três. Fui assistir a uma sessão de esclarecimento sobre o novo Código do Trabalho. A linguagem ainda me é familiar, segui-la é que já não é assim tão simples.) Pelos louvores que não pararam de ser escritos e proferidos pelas mais diversas bocas, o Prémio foi justíssimo. Pelo que conheci de Canotilho-profissionalismo, empenhamento e simplicidade- não deve haver sombra de dúvida. Ano de caloira, os anfiteatros repletos de alunos que traziam a sua cadeira às costas – um aparte, eu queria dizer “cadeira em atraso”, com que se podia transitar para o ano seguinte, mas, de facto, uma verdadeira cadeira às costas teria dado jeito, pois foram inúmeras as aulas a que eu e muitos assistimos de pé ou sentados em vãos de janela ou escadas, ou até no chão – e muitas páginas dum manual de Direito Constitucional, de capa negra, por ele escrito, talvez umas oitocentas, metiam-me respeito. E temor. Hoje não consigo sequer recordar como foi fazer aquela cadeira. Muito estudo? Pouco? Noitadas sem pregar olho? Pura e simplesmente, não me lembro. Mas lembro-me das aulas. E lembro-me de comprar a Constituição, a nossa lex fundamentalis, e do título II, Direitos, Liberdades e Garantias, cuja ideia da aplicabilidade directa independentemente da acção do legislador jamais esqueceria. Isto aprendi com o Professor. E isto, para quem não sabia nada de Direito, viria a provar-se um conhecimento importante e talvez um dos primeiros adquiridos. 

Anos passados pouco recordo dos homens e mulheres que se perfilavam à nossa frente nos anfiteatros da Faculdade de Direito de Coimbra. Nem da sua fisionomia, nem do seu carácter. Exceptuando, talvez, o mais que comum distanciamento que interpunham entre nós e eles, a começar no tratamento por “doutor” a quem ainda há pouco não era mais do que um puto do liceu a fazer provas específicas ou lá como lhe chamavam. Excepções à parte, para confirmarem a regra, quer fossem professores doutores ou aspirantes a mestre, ou uns fedelhos duns assistentes com a mania que já eram tudo, aí vinha o”dr” para cá, o “dr” para lá. Não sei se com isto pretendiam colocar-nos ao mesmo nível que eles, fazer-nos sentir em casa...comigo nunca resultou. Nunca me senti em casa, naquela casa. Só porque se vestiam de azul e cinza, outro fenómeno curioso, a paranóia do uniforme bi-color, já se davam ares de gente muito importante, gente de “faca e queijo na mão”. Na sua maioria possuíam um apelido comum ao do pai professor, ou ao do avô professor ou ao do tetravô professor doutor que também andavam por lá, ou por lá tinham andado - verdade, a impressão de que a carreira universitária se herdava podia facilmente deduzir-se mal eram afixados os horários e os seus nomes. Estes também se podiam encontrar nas faces das sebentas.(As sebentas não tinham capas nem lombadas, eram uns fascículos policopiados, mal impressos em papel de porcaria, que se desfaziam com a humidade e se compravam sempre no 1º andar de casas velhas com escadas mal iluminadas e estreitas a cheirar a mijo de rato, tipo artigo de contrabando. Nunca eram entregues todos de uma vez. Vinham aos montinhos, tipo fascículos da Planeta Agostini, mas sem cores atractivas e miniaturas para colecionar.( E até podiam!Teriam sido certamente um sucesso maior do que o dos ovos Kinder Surpresa. Exemplos: miniatura da deusa da Justiça romana; miniatura da deusa da Justiça grega: miniatura da espada da deusa da Justiça; miniatura de um juiz impoluto; martelinho de juiz de Tribunal da Relação; miniatura de toga de magistrado em latex; miniatura de código civil de Seabra; miniatura de um advogado incorruptível; miniatura de pasta de advogado;miniatura da Faculdade de Direito com pilhas: liga-se e ouve-se o toque da cabra; miniatura de um professor da Faculdade de Direito, com e sem pilhas, caso ainda haja paciência para ouvir o seu discurso monocórdico ou não; miniatura de um estudante de Direito de cabeça perdida depois de ter encornado 1000 páginas e de ter chumbado na oral porque não sabia o conteúdo da nota de rodapé do Manual de Direito Romano; miniatura de uma estudante de Direito quando se apercebe de que escolheu o curso errado - nesta eu podia ter servido até de modelo ao molde em plástico, de facto, escolhi o curso errado. 

Mas podia ter sido pior. Sem este curso nunca poderia dizer que o Prof. Canotilho foi meu professor. Miniatura do advogado desempregado - brinde, grátis, com o último fascículo, depois de perceberem que ninguém o queria. O diabo dos fascículos esgotavam facilmente e obrigavam-nos a muitas idas à baixa, Quebra Costas abaixo. Havia quem as mandasse coser e encadernar depois da nota 10. Eu mandei-as para o lixo, repletas de sublinhanços policromáticos, desenhos nos espaços em branco, versos sem valor e notas de memória de que nunca me lembrava.) Gomes Canotilho era um professor como devia ser, um professor que mais tarde queremos lembrar: um mestre e um amigo. O prazer com que exercia o seu múnus era notório. Nas suas aulas não havia fastio. Não me lembro de fazer gazeta às aulas de Constitucional. Ele tornava o complexo acessível. Ele fazia-nos sentir que a Lei Fundamental não tinha labirintos que não pudessem ser percorridos. Mostrava-nos o caminho. Lembro-me de um Professor que cumprimentava todos os alunos, como se fosse possível conhecer todos os 400 que se amontoavam no anfiteatro que nem macacos após o assalto à carrinha das bananas. Pobre do archeiro que, bem fardado e de chaves na mão, suava que suava para furar a muralha humana, e abrir as altas portas da nobre sala de aula dos Gerais. Ia na frente do maralhal se não se arredasse, ai isso era certinho, com algum azar ainda era atirado por uma das janelas! Se há ruído que não esqueço é o do escancarar das duas portas contra as paredes! O pobre do homem já não saía antes que todos tivessem saltado bancadas e galgado degraus para marcar um lugar sentado, de pé ou acocorado, um lugar, por Deus, um lugar!!GUARDEM-ME UM LUGAR!!! Antes da enxurrada parar, nem pensar em arredar pé, o senhor archeiro sabia da fúria das hostes. Ainda lhe pisavam os calos ou lhe vazavam algum olho, safa! E se havia concentração de capas e batinas era de rir ver os panos a ensarilhar a vida aos mais afoitos. Uma colega ficou de óculos esmagados num desses episódios. Outros, pesos-pluma, levitavam, outras transpunham a entrada em pontas. Digamos que era treino para certas Noites do Parque que haviam de vir, lá para Maios. Que condições para ter aulas. Por isso, hoje, quando vejo na TV os alunos recalcitrantes por causa do pagamento da propinas, o meu pensamento é sempre o mesmo: também eu me recusaria a pagar propinas, eu a monte com mais não sei quantas sardinhas humanas, durante 15 longos minutos num compacto junto a uma porta para no final conseguir apenas um degrau para sentar e arrefecer o rabiote durante 45 minutos ou mais. Não há cu que aguente, desculpem. Aquilo é pedra do séc. XIV. Nem mesmo se tivermos pela frente o melhor Professor de Constitucional de Portugal isto se aguentava. Eram meia dúzia de meses de aulas, matérias debitadas em passo de corrida, provas orais às vinte e trinta da noite com chamadas às nove e quinze da manhã, notas atiradas à pauta mercê de critérios mais que obscuros. E um bar onde numa das mesas havia um papel a dizer “reservado a docentes”. Propinas?! Não sei qual é o quadro actual. Hoje já só recordo o que aquela Faculdade tinha de melhor: uma linda vista do varandim sobre o rio Mondego, sobretudo em dias de sol, uma bela e preciosa biblioteca mesmo ali ao lado, e alguns excelentes professores. Como Gomes Canotilho. Gostei de ler o Jornal de Coimbra.


11/12/06

Panorama zoológico


Alguém aí coleccionou estes cromos? Eu adoro este álbum! Panorama Zoológico! É preciso pensar numa coisa: nos anos 70 a televisão era a preto e branco - veja aqui uma grelha de televisão em 1974 -  e quem gostasse de animais contava apenas com os livros para se deleitar com as suas cores. E eu não tinha pilhas de livros como tem hoje o meu sobrinho. Eram uma meia dúzia e já eram muitos. Nada de enciclopédias em DVD, nada de CD-Roms interactivos com os sons do bichos. Por isso este álbum era uma preciosidade. A televisão a preto branco dos meus pais era uma Philips. Ainda a guardo mesmo se não funciona!!! Tem do lado direito superior sete botões salientes, de plástico a imitar o metal. Servem para sintonizar os canais, VHS, UHS, a coisa faz-se manualmente, rodando, com jeitinho, polegar e indicador. Uma pequena barra vermelha desloca-se numa calha até ao ponto certo. Mais três botões para regular som, contraste, luz. Mais um botão para ligar e desligar. Abaixo a saída de som, nada stereo. Nada de controlos remotos, nada de buscas ou sintonizações automáticas, menus ou outros. Tem um ecrã plástico, preto, sobresposto ao original, de vidro muito claro e cantos arredondados. É forrada numa matéria plástica a imitar madeira. Esta TV é o equivalente do vira-lata que encontrou um dono piedoso. Se depender de mim vou guardá-la para sempre. Ninguém mais lhe dá valor. Só eu. Foi ali que vi, na minha infância, um programa chamado Expedição, penso que em parte por causa dele quis ser veterinária!! (Ver o video no final da postagem!)  Era transmitido aos Domingos, próximo da hora de almoço, depois da Eucaristia Dominical. Travava eu uma luta desigual porque coincidia com a bastante mais sagrada hora da refeição familiar e eu, criança, queria era ver a bicharada, e os meus pais, adultos, queriam era que eu cumprisse horários e o ritual da refeição em família. Eles ganhavam. Eu comia tudo à pressa, pouco e mal, e regressava, logo que podia, ao sofá de napa vermelha e pernas cónicas de madeira, sem sobremesa, engasgada, mas lá estava eu a olhar de novo a bicharada a preto-e-branco. Ainda me lembro da música de abertura e do genérico. Só muito mais tarde chegariam a televisão a cores e programas verdadeiramente excepcionais sobre a Natureza, como o Planeta Vivo. Continuo a ver documentários sobre a vida animal sempre que posso porque há sempre novas descobertas, ou uma nova perspectiva ou um animal que desconhecia. O último que vi foi sobre a fauna em Madagáscar. Não. Minto. Foi sobre salvamento de orangotangos capturados por caçadores furtivos na Indonésia. Mas de vez em quando ainda dou por mim a folhear o Panorama Zoológico!Eram 250 cromos de cores berrantes sobre o reino animal. Talvez por isso ainda hoje sei o que são antrópodos e nunca direi que Ofídio escreveu A arte de amar!

Periquitos!



Tenho um casal de periquitos numa gaiola e todos os dias me delicio durante uns minutos a observar as manifestações de cuidado que dispensam um ao outro, a meticulosa arrumação das penas, ou aquele adormecer juntinhos próximo da noite. Olhando para eles percebe-se logo que tempo vai fazer. Quando chega a chuva, enrolam-se sobre si, ficam cabisbaixos, dormentes. Se o sol brilha piam logo pela manhã. Eram três. Mas o casal eliminou a segunda fêmea. A sangue-frio. Estava estirada no chão da gaiola, uma manhã, quando cheguei para o pequeno almoço. Hirta, as penas em desalinho, o bico semi-aberto. Percebia-se que as bicadas tinham ido certeiras ao pescoço. O mar de penas verde e brancas que o vento soprado da janela empurrara pelo chão da cozinha ao longo da noite dizia tudo. Culpados. De facto a pássara era uma provocadora irritante e não querendo tomar partido tenho que afirmá-lo: aquela fêmea era incorrigível e estava mesmo a pedir uma lição. Apanhou com o curso todo de uma vez só. Pimba! Três era uma multidão. Pode parecer-vos estranho, mas para quem observa periquitos há um quarto de século, parece-me certo afirmar que estes pássaros têm uma personalidade própria, têm atitude. Aquilo foi um crime passional. Tive uma periquita de olhos vermelhos. Imaginem um passaroco, uma magricela de nem 10 cm a crescer para mim do seu poleiro, dir-se-ia em bicos de pés, peito proeminente, asas afastadas do corpo, um pio rouco mas estridente, e sobretudo furioso, entrecortado de arremessos do seu bico em direcção à minha mão. Nenhum medo. Pensava que me podia fazer frente. E eu deixei-a ver que sim. Tentava acercar-me dos filhotes, lindíssimos, já de plumagem perfeita. (Sim, porque quando saiem do ovo os pequenitos são uns cabeçudos feiosos, só bico e olhos, o milho vê-se à transparência pela pele rosada do seu papo! Feiosos mas que belo o milagre bem sucedido da vida assente um duas patitas com dedos desproporcionados.) Deixei as crias em paz e fiquei a olhá-las de longe. A periquita convencera-me. E convencera-se. Das vezes seguintes pude colocar-lhe a água sem alaridos de maior. Apenas se mantinha a posição ameaçadora, de guarda. Se nunca agarraram um pequeno pássaro não devem saber como o seu coração dispara na nossa mão. O seu instinto deve fazê-los sentir intimamente: vou morrer, esta gaja vai comer-me vivo, com penas, ossos e tudo! Parecem aqueles bonecos de corda. Esgotada a energia o boneco pára. Também o coração do pássaro. Por vezes os pardais entram no meu prédio pelo telhado e tenho de os apanhar para devolver à rua pois aquilo é mesmo uma ratoeira, melhor uma “passareira”. Morreriam à fome ou de sede nas escadas. Por vezes vai de percorrer cinco andares de lanços de escada tentando fazer com que o pássaro vá fugindo à minha frente até alcançarmos a porta principal, no R/C, se me calha um tão um arisco que não consiga deitar-lhe a mão. Ainda miúda, em Braga, andei à bulha com um puto que tinha uma fabulosa fisga como nunca mais vi nenhuma. Madeira, elástico, e napa. Eu vinha da escola. Andavam, ele e o amiguito, a fisgar os pardais. Eu acho que não queria que ele fizesse pontaria aos pardais, mas acho que também queria a fisga para mim! Possivelmente para lhes fazer pontaria a eles! Cheguei a casa em mau estado, sem a fisga, e eles devem ter continuado a fisgar os pardais. Nunca dei nome às minhas aves. Nunca lhes tentei ensinar acrobacias nem palavras patetas. Esforço-me por lhes poupar uma intromissão maior que a minha observação. Sempre gostei de animais. Nesses tempos longínquos da escola primária eu queria ser veterinária. E a minha melhor amiguita da escola, também. Ela tornou-se educadora de infância e eu, bem, eu continuo à procura da minha real vocação.

Desligar a TV



TURN OFF YOUR TV  

Fui com o meu sobrinho ver os peixes na loja de animais. Uma das paredes é uma quase vídeo wall feita de muitos aquários onde peixinhos coloridos de vários formatos e cores se agitam de um lado para o outro. Noutras caixas engradadas arrumam-se cães, gatinhos e hamsters. Papéis chamam a atenção dos visitantes para deixarem os animais sossegados. Ver sem tocar é, em alguns casos, uma tentação difícil de contornar. Mas tocar é, em muitas situações, molestar. A barreira é ténue. Andámos durante muitos anos a remexer demais na Natureza. Para a nossa espécie, a expressão da superioridade passou rapidamente pela da aniquilação, que provou ser uma vocação tão forte quanto sobreviver. Portanto ver sem tocar devia ser a regra. Sobretudo porque a Natureza tem regras que nós não soubemos, não pudemos ou não quisemos seguir. E por fim, quebrámos também as nossas próprias regras ao permitir um ver que não preserva, antes avilta, um ver sem tocar num formato tal que nos inferioriza na nossa dignidade, que nos molesta, que nos remexe na mais íntima natureza. A cotação da nossa esfera privada enquanto homens e mulheres entrou em baixa galopante, o mesmo é dizer o nosso quoficiente já não sei se emocional se intelectual, se ambos. A preços ridículos pessoas aceitaram a presença das câmaras num seu quotidiano, é certo que encenado e anti-natural, transmitido para o país via TV. O trunfo disso seria supostamente o de conhecermos a vida real em directo, e, quem sabe não seria interessante se daí se extraísse alguma lição. Mas eis a minha leitura da experiência: meia dúzia de humanos, meia dúzia de salas, meia dúzia de acrobacias, um prémio - eis um modelo de antropozoo de sucesso. Nunca homens e animais se equipararam tanto na sua miséria. O consentimento numa folha de papel tudo legitima e apazigua: a TV propõe, o concorrente assina por baixo, os espectadores legitimam. Para mim, enquanto não aprendermos a desligar o botão do aquário colorido estamos a subscrever todos a delapidação e o enfraquecimento de vários direitos, que são de todos nós, que foram conquistados e que quisemos salvaguardar constitucionalmente, o direito à imagem e o direito à reserva da intimidade da vida privada, por exemplo. Esta é a ordem televisiva dos nossos dias. O Grande Irmão não nos vigia, ele comanda-nos através do seu olho rectangular. Penso que foi Tchekov quem escreveu: “Valoriza-te, que os os outros se encarregarão de fazer baixar o teu valor”.Nada questionamos, nada pomos em causa. Baixamos todos os dias o nosso valor. Por acção ou omissão. Anseio pela extinção dessa espécie, mas concurso após concurso, programa após programa, umas vezes veladamente,outras de forma descarada, ela fortalece-se. Arruinado o mundo das outras criaturas ou saturados do seu conhecimento voltámo-nos para a devassa do nosso mundo privado, em busca de divertimento. Estamos a um passo de legitimarmos a videowall do dono do prédio daquele filme com a Sharon Stone, Violação de privacidade. Por enquanto, eu e o meu sobrinho vamos olhando os pequenos peixes coloridos na parede de aquários da loja de animais. Oxalá o futuro lhe traga uma nova era televisiva que não faça dos homens macacos e das suas casas, zoos.


11/11/06

KLIMT, SINNEAD E AMOR


"I wanna be haunted by the ghost of your precious love". É um dueto inesquecível que conjuga a fragilidade sibilante da voz da Sinnead O’Connor com a rouquidão rude do vocalista dos Pogues. Descobri ontem este CD no meio das centenas que possuo. Arrumar tem destas coisas. Nem sabia mais que o tinha! E agora a música não me sai da cabeça. Encontrei também uma caixa cheia de agendas velhas. Tão velhas que nem sei porque as guardo assim, gastas, cheias de anotações e papéis agrafados. Muitas delas são da Tashen e vivem da inspiração da obra desse extraordinário artista que foi Gustav Klimt. Agendas são compra comum nesta altura do ano. O que não é comum é que ano após ano eu compre uma agenda sempre igual. Este ano vou tentar ser diferente de mim própria. Sou como aquelas pessoas que na gelataria pedem sempre morango e chocolate: até poderiam descobrir sabores muito do seu agrado se transgredissem na sua preferência de vez em quando. Mas não: ouço-as dizer morango e antes de eu conseguir contar até 3 dizem chocolate! Mais do mesmo pode ser garantia de prazer certo, mas dum prazer que é negação da descoberta com tudo o que ela encerra. Uma agenda de Klimt é mais do que uma agenda. Acompanha-me em cada dia e quando estou desinspirada, exausta ou confusa não é raro perder-me a folhear as suas páginas aí encontrando transporte para o universo do amor, da beleza e da arte que me fazem alhear do momento de crise e me ajudam a respirar fundo. Ante as emoções que me proporciona a contemplação dessas reproduções é difícil aceitar que em finais do séc. XIX o reconhecimento da obra do pintor fosse tudo menos unânime. Muita gente apenas desejava mais do mesmo, dir-se-ia morango e chocolate. Por acaso tenho uma colecção de várias agendas, agendas que fogem ao comum e que vou comprando um pouco tontamente. Tontamente porque não as uso. Um pequeno stock. Uma vez vi na Casa Rádio, conhecida livraria e papelaria da Figueira da Foz, um cesto cheio de agendas em saldo. Eram do ano transacto! Alguém as compraria?! Tenho uma agenda dos Cahiers du cinema, outra da Tate Gallery, outra, UMA AGENDA LITERÁRIA que cita autores portugueses em cada dia e que tem ilustrações do Jorge Colombo…Agendas não são livros, pois não?!!Ou são?!! Tenho uma agenda que a CINEMATECA PORTUGUESA editou. A capa é preta e traz uma imagem do filme Há lodo no cais, de Elia Kazan, com Eva Marie Saint e Marlon Brando. Uma vez aberta uns lábios vermelhos abrem-se deixando ler dentro a frase “Kiss me, stupid”. Daí para a frente os meses e os dias do calendário sucedem-se entremeados de fotografias extraídas de filmes, na sua maioria dos clássicos do cinema americano, a antecâmera do beijo, a cena do beijo ou o take seguinte da rendição amorosa, sempre a preto e branco, sucedem-se. É ridiculamente ternurenta. Uma das fotografias que mais me agrada refere-se ao filme Sunrise, de F.W. Murnau, de 1927, um filme que não vi. O casal está enlaçado num beijo, não percebemos os rostos. Ela usa chapéu e um vestido longo. Parecem ter-se encontrado em plena rua e terem feito parar o trânsito. Um homem espreita, metade do corpo fora dum veículo, lábios entreabertos como que a dizer: “Hey, folks! Cut it out! Get of the way!” Comprei essa agenda a pensar oferecê-la a um homem particular mas depois não lha dei. Ahahah! Possivelmente ele não a usaria por muito que goste de cinema. Nem eu a utilizei senão para deleite visual. Como cinéfila inveterada que sou, vi quase todos aqueles filmes e cada fotografia chamava por alguns queridos fotogramas dispersos na minha memória. Imagens do cinema, da pintura, fotografia, palavras de poetas enchem estas agendas que, de certa forma, colecciono. Os artistas viveram e vivem emersos nas suas imagens, nos seus poemas, na sua música sobre o amor, criando, partilhando, expondo-se. Namoro com a vida feito arte. Arriscando, como Klimt, o julgamento do público. Em público. Enquanto nós nos ficamos com os nossos dois sabores, morango e chocolate, tolhemo-nos até de dizer amo-te com todas as letras àqueles a quem queremos, nas ocasiões e vezes certas. Entre nós, turistas acidentais do amor, quanto se perdeu do lirismo, quanto do romance evanesceu das palavras e dos gestos na vertigem diária da existência. Delegámos nos artistas a nossa voz…A voz da Sinnead ficou a cantarolar na minha cabeça: “Quero ser assombrada pelo fantasma do teu precioso amor.” É bonita como a pintura de Klimt esta frase. Haja ainda quem nos dê umas pistas de como traduzir o que sentimos em lindas assombrações verbais e visuais nas agendas da nossa vida.




11/10/06

Eu era anti blogs!






Recupero para este espaço um texto datado de 1 de Dezembro de 2004 que publiquei num blog já extinto e onde hoje me surpreende encontrar a minha afirmada antipatia pelo fenómeno da blogagem.É assim:


Hoje violei um dos princípios que intimamente tinha convencionado comigo mesma: o de não partilhar o meu Blog com ninguém em nome de um lavor autêntico de palavreado, palavrete e palavrão, ideias e não-ideias. Passarão os meus pensamentos doravante a pensamintos? Acaso me deturpar-me-ei por me saber lida? Mascararei as impressões de mim, dos outros, do mundo? Articularei de forma diferente as palavras? Mmmmm...dois segundos e tenho a resposta: não. Já pensei isto uma vez, não é novidade. Isto não passa de um exercício egoísta, narcisista, onanista e ista e ista e ista que poucos não abandonarão ao cabo de alguns minutos de leitura, a não ser que não tenham nada de melhor para fazer, que eu própria abandonarei também, um qualquer dia. Criei o meu primeiro Blog por despautério. Foi um Blog de reacção e não de acção. Eu era anti-Blogs. Acho que quem tem Blogs tem tempo, e eu não tenho tempo, por isso ter um Blog é um contrasenso. Mas eu sou cheia deles! Ocorrem-me já coisas melhores, mais úteis, mais divertidas, mais instrutivas, mais prazenteiras que fazer para ocupar o tempo que não tenho, que é sempre pouco, que sempre me escapa, do que engordar um Blog. Por outro lado há um desassossego em mim que o espaço vazio e branco do Blog me devolve, depois, transformado em paz. É o melhor relaxante natural que conheço a seguir à valeriana. E a outros exercícios mais mecânicos! 
Tinha pensado que manteria o Blog secretíssimo. Que seria uma espécie de diário onde pudesse aberrar e berrar à vontade, dissertar no mais puro estilo diletante, chorar ou rir até o meu PC entrar em curto–circuito. Que seria uma espécie de divã onde poderia repensar-me, refazer-me, reinventar-me, ou uma bancada de contestar sem incomodar vivalma e dar largas ao exercício da minha costela contestatária, aprendida não com o Eça, melhor, antes com a Mafaldinha, dedo em riste e goelas esgrouviadas, sem prejuízo de maior. Em verdade, sou apenas um cão que ladra e não morde. (Cão, não cadela. Já viram como a linguagem é sexista?!! Nem sequer me posso intitular de “cadela” pelo desprestígio que isso acarreta! É muito, mas muito mais desprestigiante do que dizer que um homem é “cão”, ou não é?) Antes mordesse. É que o máximo que consigo as mais das vezes é mesmo ficar afónica. Por isso, antes mordesse ou melhor fosse que nem ladrasse MESMO. Lentamente este Blog vai ser a voz do dono e chamar por mim. His Master’s voice. É um lindo rótulo, a girar, a girar, o cão e o gramofone. Mas. E há sempre um MAS. Pressinto que dentro em breve isto vai ser novamente uma espécie de animal de estimação: primeiro dependem de nós, depois nós dependemos deles. Estou-me a ver a gravitar, o cão rodando, rodando, no gramofone, mais uma vez! Ão! Por isso deletei o anterior Blog, MAS, pelos vistos, sou muito rica em contra-sensos e não tenho emenda!

APRENDATRIX



O hipermercado já tem os enfeites de Natal e as bancas para embrulhar os presentes preparadas. O que me fez pensar no critério que cada um de nós usa para escolher uma prenda e oferecê-la aos outros. Partimos de nós para o outro ou do outro para nós? Queremos que o outro se agrade do nosso gosto ou queremos fazê-lo agradado do seu próprio? Satisfazemos o nosso capricho ou caprichamos para encontrar um objecto que o outro deseja expressamente ou que supomos lhe possa caír bem na sua carteira de gostos? Será melhor arriscar a surpresa ou antes apostar na previsibilidade da escolha? Uma vez recebi de uma amiga de infância, das poucas que ainda mantenho, e por quem tenho particular estima, um objecto que me garantiu comprado numa loja conceituada em design, no Porto. Desembrulhei o paralelepípedo cuidadosamente, depois abri meticulosamente a caixa de cartão e depois o resto, dois objectos envoltos em papel de seda. Surgiu um pequeno cubo platinado, com um buraco no centro. À parte vinha um tubo de vidro, um tubo de ensaio sem tirar nem pôr, que devia encaixar no referido buraco. Eu tomei em mãos as duas peças com espanto e fiz com que cumprissem a sua função, tremulamente, não fosse quebrar o frágil tubinho de vidro. Não sabia o que articular! A minha amiga dizia-me que aquilo era puro design e que o tinha achado o coiso e tal muito interessante. Ora aquele coiso e tal não me dizia nada. Mas a minha amiga dizia-me que aquilo era um solitário. A mim parecia-me um objecto de laboratório. Era-me mais fácil imaginá-lo cheio de sangue ou urina ou soluções de ph vários, numa banca asséptica do que sobre qualquer móvel caseiro, repleto de água para matar a sede a qualquer flor! E que flor?! Aquilo não media mais do que 15 cm! Que flor?! Não sendo mestre em ilusão e disfarce, a minha amiga ter-se-á apercebido facilmente do meu estado, da minha perplexidade perante o recebido. Nunca percebi que caminho trilhou a sua ideia para me comprar aquela peça até porque me conhecia bem e, pensava eu, ter-lhe-ia sido fácil escolher algo que caísse que nem ginjas no meu agrado. E isso deixava-me tão perplexa quanto o objecto em si. Mas ao contrário de algumas ofertas que recebi e que adorei, mas que guardei por falta de espaço nas minhas estantes, aquela encontrou lá um lugar cativo desde o primeiro minuto. Por lá ficou junto a uma moldura, também platinada, que contém uma foto minha a preto e branco. E de cada vez que espanava o pó pela estante fora limpava cuidadosamente as duas pecinhas, espantando-me sempre da escolha feita pela minha amiga, e dela me lembrando e daquele momento de completa dúvida e encabulamento. Continuava, semana após semana, interrogando-me o que fazer, e por fim, mais uma mirada, menos uma mirada, voltava a repô-las no seu lugar. A dado momento a minha cabeça deixou de me interrogar sobre o que fazer com aquilo. Aceitou, indiferente. Era pegar, limpar, recolocar. Mas passou aquilo a interrogar-me sobre que destino era o seu na minha prateleira, perto dos meus livros de banda desenhada e biografias de pintores e da minha foto a preto e branco. Pois um dia agi. Um dia em que o ócio me favoreceu. Peguei num alicate e em algum arame e construí uma flor de arame e pérolas platinadas. O tubo de ensaio transformou-se, aos meus olhos, finalmente, no oferecido solitário. Com pena minha, o seu reinado como tal foi breve. Um dia ,no meio da já habitual confusão de livros, pincéis, CD, dossiers, e bricabraque, um mau jeito, um jeito ao lado ou ao centro, uma contramão e o solitário despedaçou-se contra o soalho. Nessa semana quebrei pelo menos três objectos, lembro-me de pensar que tinha mesmo as mãos rotas, desajeitadona, m… claro, as interjeições não faltaram. De todos os objectos perdidos aquele que mais lamentei foi o “solitário de ensaio.” Guardei religiosamente o cubo e a flor. Adiado tem ficado o momento de encontrar um novo tubo de ensaio. Talvez da próxima vez que for tirar sangue pergunte se me podem dispensar um.

Aula de reciclagem


O meu vizinho da frente, bem, eu nunca estive muito próxima dele. É da frente, mas não do apartamento em frente. Não sei mesmo se ao passarmos ombro pelo ombro na rua principal o reconheceria. Vive no bloco oposto ao meu, no rés-do-chão. É um homem corpulento e vozeiro, de cabelos escuros. Nunca me fixei muito bem no rosto dele, não sei descrevê-lo. Vejo mal ao longe e da minha varanda o que percebo é um homem que gosta de reunir a família e os amigos em volta dos seus petiscos na brasa. Semana sim, semana não, lá está a mesa de plástico branco montada no cimento frente à sua varanda, ali mesmo onde os outros carros e os dele se estacionam; e um chapéu-de-sol aberto sobre ela, se por acaso há sol. Por vezes música popularucha acompanha a cena transformando-a num misto de S.João e festa de garagem. Rapidamente as cadeiras também de plástico branco enchem-se. São as filhas e a redonda mulher, mais meia dúzia de outras pessoas que chegam nos seus automóveis à hora combinada. Uma cadela de pelo curto de cor amarelada, atarracada, pata curta, mas cheia de energia habita também o rés-do-chão enchendo o ar da vizinhança com os seus latidos. É capaz de brincar com um garrafão de plástico durante toda uma refeição, correndo, mordendo, ladrando à cumplicidade das crianças na brincadeira e roendo a paciência de qualquer adulto mais ou menos vizinho. A comida é sempre bem regada e conversada. No final a mesa é levantada, fica apenas a toalha manchada de vinho e um ou dois copos ainda cheios para evitar que voe. As pessoas somem-se nos seus carros até à próxima vez.

Sei coisas interessantes sobre este homem que eu não saberia distinguir se se cruzasse comigo ombro com ombro no passeio. Sei que aos fins-de-semana costuma ir à pesca. Vi-lhe redes, camareiro, botas altas de borracha encostadas à varanda. Sei que percebe de mecânica pelos amigos que ali vêm e lhe depositam nas mãos a sua viatura. As peças e as ferramentas espalham-se então pelo cimento. Mas também sei que leva Lavoisier muito a sério, pois com ele nada se perde na Natureza, tudo se transforma. Um dia alguém colocou uma máquina de lavar junto de um contentor de lixo próximo. Ele foi buscá-la, e, de empurrão em empurrão,levou-a para o cimento junto à sua varanda. Retirou-lhe o tambor e foi devolvê-la ao seu lugar inicial, junto ao contentor verde. Ao final da tarde e depois de algumas secções cortadas e soldadura, ele ali estava: um novo e moderno assador. No dia seguinte, antes do meio-dia o objecto reciclado cumpria a sua função: um espeto soldado ao seu centro e enfiado num suporte de pedra, daqueles que servem de suporte aos chapéus de praia, mantinha-o em posição. Mais um pouco e o cheiro de sardinha assada já chegava à minha varanda. Engenhoso, o meu vizinho.

Um dia nos princípios deste ano os meus periquitos receberam uma casa nova. Ano novo, casa nova. A anterior gaiola tinha as grades todas descascadas e caíra no chão. O tabuleiro branco inferior partira-se e uma corda mantinha-o unido às grades. Era uma gaiola grande de mais, vinha do tempo em que tinha oito, doze bicos ruidosos ali dentro. Agora restava apenas um casal, um periquito muito velho, cinza escuro, com uma pinta branca na cabeça, e uma periquita amarelo-esverdeada. Depois de mudar os inquilinos para a casa nova sob o olhar atento do meu sobrinho, a velha gaiola foi para junto do contentor do lixo, ainda semi-atada. Retirei-lhe alguns dos melhores poleiros, que guardei juntamente com os comedouros. Para quê não sei. Eis que no dia seguinte me chego por mero acaso à varanda das traseiras. O meu vizinho aprontava uns poleiros para uma gaiola. No chão uma gaiola pequena ao lado de uma com quase o dobro do tamanho e de grades descascadas, a gaiola que eu tinha deixado junto ao contentor, reconheci depois de apurar a vista! Mas o tabuleiro tinha sido colado e funcionava agora perfeitamente. Mesmo assim ele passou uma guita em volta deste e da gaiola propriamente dita, ao centro, prevenindo, com nós cuidadosos, uma eventual queda daquele, o que levaria à fuga certa do passarito, o novo inquilino daquele espaçoso condomínio. Uma taça com água, uma taça com comida. E vai de subir para cima de um banco e de pendurar o conjunto na parede. Depois, em passos determinados, uma corrida até ao contentor com a pequena e roída gaiola que estava no chão. Junta as ferramentas, um canivete e pouco mais, lava as mãos e casa com ele. Para mim tinha acabado mais uma aula de reciclagem.



11/9/06

Sobre Jack Bauer...


Ontem vi mais um episódio. As 24 horas aproximam-se do fim. E ainda se vão sucedendo situações empolgantes. Pergunto-me até quando resistirá este modelo. Lembro-me da X-Files ter chegado a um ponto em que já não cativava ninguém nem mesmo esta seguidora compulsiva. Conseguirão os argumentistas baralhar e voltar a dar, temporada após temporada, terroristas, loucos ambiciosos e vingativos, políticos corruptos, bombas, vírus, sequestros, assassinatos, chantagens, tecnologia de ponta, superagentes, presidentes dos EUA e outros itens similares? Até onde levarão o delírio do argumento para nos manter a roer as unhas no sofá?
Sem o 11 de Setembro para expor a fragilidade americana e fazer entranhar o medo do ataque insuspeito no mais íntimo do cidadão comum, sem o renascimento do sentimento patriota americano que se lhe seguiu, 24 talvez não fosse um tão imediato êxito. 24 aproveitou do 11 de Setembro a demonstração de que o perigo espreita, ronda e aguarda a ocasião perfeita para passar de plano diabólico a concretização fatal. E que pode ser gerado mesmo ali ao lado do Capitólio. O terrorismo ficcional mais ousado torna-se mais facilmente credível aberto o caminho pelo terrorismo inimaginável e “espectacular” que havia tornado real a queda das duas torres World Trade Center. E a par disso também as formas de luta e da sua contenção materializadas no CTU, na sua equipa e homem da frente, Jack Bauer se desenham como a resposta necessária mas nem sempre suficiente para evitar perdas de peso. A vulnerabilidade tornou-se uma constante. Deixou de ser verdade que a América possa ser protegida. É esta a mensagem perturbadora de 24.
Eu vejo pouquíssima TV. Comecei a ver 24 por mero acaso porque a televisão transmitiu todos os episódios da temporada 4 num fim-de-semana em que eu estava doente e instalada no sofá a fazer zapping. Na base da história estava o terrorismo islâmico, os episódios sucediam-se, Navi Araz, a mulher e o filho fazem parte de uma célula terrorista que pretende fazer explodir uma bomba nuclear. Ver os episódios em sequência permitiu-me logo perceber a habilidade dos argumentistas na construção do suspense. A imprevisibilidade dos acontecimentos mantém-nos presos ao ecrã. A temporada 5 mantém esses atributos mas parece-me muito melhor na caracterização e desenvolvimento dado às personagens. A avalanche de reviravoltas, a sucessão ou mesmo a resolução de algumas situações em 24 são por vezes questionáveis, mas o entretenimento não é nunca questionável. Não é uma série cerebral, não há muito para pensar. Não há tempo para isso e de resto nem vale a pena conjecturar pois não iremos certamente acertar, quanto muito permitem-nos reflexões pontuais sobre valores patrióticos ou ética profissional. Entre perseguições e situações limite aparecem personagens secundárias excelentes, sólidas - Henderson, Logan, Martha, Novak - representações fantásticas dos actores ou situações de grande complexidade dramática como a da execução de La Chapelle na season 3. 24 não nos deixa andar muito tempo às voltas nas nossas suposições, tipo Lost. (Se Jack Bauer se tivesse despenhado naquela ilha tinha saído de lá em 24 horas!) A história pulsa e avança com o relógio a marcar a passagem do tempo real. O tempo real há muito que se tornou uma estranha ilusão. Jack Bauer tem sete vidas como os gatos e consegue ser tão diabólico e violento quanto os prevaricadores perseguidos. Um super agente que o tempo de excepção que a América vive naturalmente gerou para combater o mal. Alguém que não cumpre as regras porque as regras do jogo mudaram e nunca há tempo para fazer tudo “by the book”. O desequilíbrio entre bem e mal é mantido até à última volta: Jack Bauer 1 - Terroristas 2. O resultado final só é apurado na 24ª hora: um mau dia para Jack Bauer, um bom dia para a América. Em breve realizarão o filme 24 e a personagem pulará do pequeno para o grande ecrã, companhia para o agente 007 na enciclopédia cinematográfica dos agentes secretos de todos os tempos. E se os dois se encontrassem? Como seria? Quem bateria quem?!

O site oficial http://www.fox.com/24/

11/7/06

INICIATIVA ACENDAM UMA VELA em apoio / LIGHT A CANDLE of support

As crianças sexualmente abusadas na pornografia online não têm voz. Esta iniciativa quer que sejamos a sua voz ao "acender um milhão de velas" até 31 de Dezembro no seu site. Aceda ao site http://www.lightamillioncandles.com/Enter, escolha a sua vela e acenda-a. Pode deixar os seus dados e uma mensagem. A petição vai ser usada para encorajar governos, políticos, instituições financeiras, servidores Internet, empresas tecnológicas e agências policiais a erradicar a viabilidade comercial da pornografia infantil online.
Pense nisto se por acaso achar que não vale a pena aceder ao site:
  • existem mais de 100,000 sites de pornografia infantil

  • nos últimos 10 anos este comércio aumentou 1,500%

  • 19% dos pedófilos mostram crianças com 3 anos ou ainda menores
( Recebido por correio electrónico)

E se eu gostasse muito de morrer



Lobo Antunes, na Fnac Colombo,Lx,no lançamento deste livro, disse que "muitos escritores dizem com satisfação "pelo menos eu pus os portugueses a ler" - mas,acrescentou, - "isso é tudo uma treta".

Alguém que já tenha lido este livro  - E se eu gostasse muito de morrer - diga-me se vou ficar ainda mais doente quando começar a ler isto. O título tem um toque de humor negro muito apelativo. Lobo Antunes esteve na apresentação do mesmo na Fnac Colombo e jurou a pés juntos que é muito bom. No Eixo do mal, a Clara Pinto Correia também. Será que são os dois amigos do escriba? Eu já não acredito em ninguém. Ver para crer, melhor, ler para crer. Mas o pior é que aqui já pagámos antes de comer.Ou seja, se o prato for mau e a digestão pior ainda, é de aguentar. E embrulhar. Vem aí o Natal. Se não gostar, sempre posso oferecer a alguém que me tenha tramado e já me lembrei de um ou dois sujeitos. Até posso alterar a capa no Photoshop para E se eu gostasse muito de te matar.Talvez o Rui me queira nas Produções Fictícias. Humor negro é comigo. Medíocre é muita da literatura que se vende por aí, verdade, não é preciso ser o Lobo Antunes a dizer. E é por isso que eu olho para os livros de lado, sobretudo primeiras obras. Mas mesmo que não fosse isso e os olhasse de frente seria igual. São demasiado caros para o meu bolso roto. Este deve ser o último que leio este ano. Verdade, hoje vou passar o serão na leitura, a minha virose está em alta e pede-me actividades relaxantes.


Nota de actualização: o livro é muito bom!Recomendo!

O nome do blog

Dar nome a um blog devia ser um momento importante da sua criação, se calhar o mais importante. Tão importante como saber o que vamos fazer com ele. Baptizar o blog parece ter vindo a tornar-se uma etapa cada vez mais complicada pois testei meia dúzia de designações todas indisponíveis. Lembro-me de há uns anos ter criado um blog num minuto! Tipo empresa na hora! Fácil! Desta vez quase exasperei. E o blog estava a dar pontapés, queria mesmo nascer ontem! O que faz dele um blog do signo Escorpião, ou seja, adivinho-o problemático. Por fim descubro com surpresa que esta designação ainda não estava tomada. Óptimo! Quem vai gostar de saber do nome é a minha mãe. Desde sempre me recordo de a ver a resolver todas as palavras-cruzadas de revistas e jornais a que lançava mão. Eu ainda resolvi algumas, mas não, não é um dos meus passatempos de eleição.É apenas a designação que me ocorreu e que o Blogger deixou registar. Palavras cruzadas com tudo.

Blog assombrado!


Esta é uma postagem de mero teste. Apenas serve para ver se o blogue vive.Lamento agora ter apagado o meu primeiro blogue, que se chamou furor scribendi, e que nasceu em 2004. Acabo de criar mais um blogue e algo me diz que não vai ser o último. É, portanto, um blogue assombrado pelos fantasmas desse blogue passado. Vamos ver quanto tempo vai durar. Prometo a mim mesma que até posso deixá-lo às moscas, mas apagá-lo parece-me um despropósito, agora vejo que é uma idiotice. Enquanto não tivermos de pagar renda para manter aqui um blogue, é vive e deixa viver, ou escreve e deixa ler...




Este é o logotipo do meu blogue PAPELUSTRO. É um blogue diferente deste. Aí trata-se de um espaço apenas destinado exclusivamente a mostrar trabalhos de colagem e a divulgar essa técnica. Visitem-no também!

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