12/31/06

O MEU LIVRO ESTÁ PRONTO!



O ano está quase a terminar e os blogs estão cheios daquilo que se chama resoluções para o ano novo, ou seja aspirações ou desejos ou anseios que esperamos se realizem nos próximos 365 dias. À semelhança de todos também eu tenho uma colecção deles mas é e vai continuar a ser uma colecção privada. Excepto um deles pois tem as suas raízes no trabalho que venho a desenvolver desde Junho no meu blog Papelustro. Uma brincadeira que começou por servir para arejar os olhos das muitas horas passadas na companhia do sr. Vetor e da Madame Pixel acabou por se transformar num esforço criativo mais consciente e depois de achegas e reptos de alguns bloggers mais interessados - e tenho de citar o meu amigo Morandini e a Lori como os mais relevantes - acabou por conduzir a um esforço mais sério ainda. É assim que a maqueta do meu livro está pronta a levar às editoras. São dez ilustrações, doze, se incluirmos capa e verso, acompanhadas de rimas. É um livrinho destinado às crianças e para já apenas testado junto do meu sobrinho assim eleito cobaia desta nova aventura da tia. Ocupou parte do meu labor desde Setembro. A deadline era hoje mesmo e as últimas três semanas foram decisivas. Não é o primeiro livro que edito mas tem a particularidade de ter sido concebido por mim de uma ponta à outra o que me deixa bastante orgulhosa mesmo que os editores me venham dizer que é uma boa trampa. (Eu sei que a palavra trampa é de baixo nível mas é perfeitamente adequada.) Não é ainda o projecto gráfico que queria ver realizado. Aguardam ainda as oito histórias - que comecei a escrever no século passado! – que terminei, uma das quais penso ter enorme potencial. Mas é um dos projectos que este ano gerou e um dos mais surpreendentes pois surgiu de forma natural e imprevista e como consequência do facto de ter criado um blog com as minhas colagens.O blog foi um elemento catalizador e de repente ideias não faltam. Mas o tempo para lhes dar forma parece insuficiente. Sempre vi o tempo como o grande tirano mas afinal o tempo é um factor de libertação cuja índole caprichosa tem de ser respeitada. Não sucumbir aos ladrões do tempo é uma questão de pulso e o meu nunca foi muito firme! Mas o tempo parece ter uma vida própria. Vejo agora que quando pensava estar a perder tempo era ainda a sua mão que me guiava o percurso criativo permitindo-me respirar, gerar e crescer mesmo se em pausa. Este ano pude, finalmente, dedicar-me ao estudo de programas gráficos que apenas arranhava, Corel Draw e Photoshop. À medida que fui dominando as ferramentas fui percebendo o quanto de disciplina e solidão é necessário para desenvolver qualquer projecto desta índole. Isso foi particularmente difícil pois possuo uma natureza agitada e irrequieta. Entedio-me facilmente com a rotina e rapidamente me disperso. Mas acabei por me habituar à companhia da ventoinha do meu portátil e à medida que progredia fui-me viciando em saber mais, em ir mais longe e tornou-se mais fácil. Além da necessária experimentação também a própria passagem do tempo se torna necessária. Tempo de produção e depois tempo de distanciamento que nos vai permitir olhar de forma diferente o que fizemos, emendar e aprimorar. Tudo isto foi o melhor que me aconteceu este ano e no próximo espero que este projecto tenha o merecido desenvolvimento e que um dia de 2007 eu acorde para ver o meu livrito nas mãos de outra criança que não o meu sobrinho.

PEIXINHOS DE AQUÁRIO



Tenho hóspedes para a passagem de ano: os cinco peixinhos vermelhos do meu sobrinho mudaram-se para cá. Um deles tem manchas brancas, não é inteiramente vermelho. Aliás, todos eles são mais para o laranja do que para o vermelho. É uma laranjada pegada, este mini-cardume, quanto a mim demasiados peixes para os centímetros quadrados da casa-aquário, estão mesmo a precisar de se mudar mas para uma mansão maior. De um dia ao outro a água fica turva e é preciso mudá-la. Grande trabalheira e sempre o receio de lhes arrancar uma barbatana ou vazar um olho no processo. Não sou fã de peixes de aquário mas reconheço que um aquário grande e bem recheado de peixes diversos e plantas tem a sua beleza. Sei muito pouco sobre peixes, suas espécies e comportamento. Nunca lhes achei grande piada e ao fim de uns minutos a vê-los abrir e fechar a boca como cantores de coro dou meia volta e desando na muleta. Dizem que é um exercício tranquilizante mas a mim apenas me causa uma certa irritação segui-los naquele espaço confinado, reduzidos a volteios de cauda e eternos abre e fecha a boca. Ontem, já era para o tarde quando liguei a TV e estavam a repetir a 24. Ainda acabei a ver um episódio que já tinha visto! Fiquei colada ao ecrã da TV como um peixe limpa-fundos. E de repente, berló, berló, berló, liga-se a maquineta que faz bolhas de ar na água e eu até dei um salto no sofá. Aproximei-me e já mal se viam os cinco peixes no meio da água turva. Além disso desprendia-se do aquário um certo cheiro a peixe, claro, e não era cheiro a pescadinhas de rabo na boca acabadas de fritar! Se eu fosse a Catwoman resolvia a situação em duas dentadas. Mas mesmo sem ter super-poderes vi claramente o futuro: hoje tinha limpeza para fazer. E assim foi. Ei-los de casa limpa à espera das 12 badaladas. Que lindinhos. Que regresse o sobrinho, porque peixes para mim, só mesmo no prato.

12/28/06

PRENDA DE NATAL



Ainda movida pelo espírito da quadra não podia deixar de escrever duas linhas sobre uma prenda que recebi do meu cunhado: o DVD O Castelo Andante (Hauru no ugoku shiro / Howl`s Moving Castle) de Hayao Miyazaki, autor de Conan, o Rapaz do Futuro, uma das séries de desenhos animados que mais gostava quando era criança. Fábula sobre a redenção pelo amor e o crescimento individual, o filme possui ainda uma clara nota anti-bélica. A obra é adaptada do romance homónimo de Diana Wynne Jones.Como é que posso não ser materialista perante o apelo consumista de coisinhas boas como esta?! Hayao Miyazaki é considerado um mestre da animação nipónica. Todos recorrem já ao poder da animação digital mas ele continua fiel à animação tradicional, dir-se-ia o último artesão da animação. A animação é para os japoneses uma forma de arte suprema e válida para todas as idades. Eu compreendo isso perfeitamente pois sempre me senti à vontade com o facto de ir ao cinema ver filmes de animação e só não vou mais porque o circuito comercial não aposta nesse segmento. Mas essa não é a regra e sempre tive dificuldade em arranjar companhia para ver “filmes para crianças”. Lastimável que também na TV não exista um programa que aborde a divulgação da animação de um modo global e não apenas a japonesa.É um mundo absolutamente cativante. Quando comecei a ver animação japonesa o que mais me intrigou foi o relevo dado ao sobrenatural, físico e espiritual, o simbolismo, a presença da magia e criaturas fantásticas ou a presença de heroínas femininas capazes de salvar o Mundo. Ghost in the shell, tema de ficção científica, foi o filme responsável pela abertura do Ocidente à animação japonesa tornando-se um dos mais conhecidos manga. Mas a produção é vasta, existe animação para todos os gostos. Mais complexa do que a animação ocidental em termos de profundidade e construção de personagens, mais paciente com as dimensões de espaço e tempo, talvez menos humorada, mas igualmente arrebatadora, vale a pena dar uma espreitadela quando tiverem paciência e quiserem conhecer um universo completamente alternativo ao do Bambi e amiguinhos.

12/27/06

QUEM FEZ O PRIMEIRO CARTAO DE NATAL?


Uma coisa de que sempre gostei no Natal, desde que me lembro, mais do que prendas ou que iguarias, é o cartão de Natal.Guardo todos os cartões que recebi desde sempre e faço-o escrupulosamente. O autor do primeiro cartão de Natal- na imagem - era um artista caricato que se bateu contra a utilização de modelos nus pelos artistas plásticos, de tal forma que ficou conhecido como o Roupas-Horsley. Em 1843 Sir Henry Cole, director do British Museum, estava demasiado ocupado para escrever como habitualmente aos seus amigos durante a época festiva e então incumbiu John Calcott Horsley da empresa. 1000 cartões foram impressos a preto e branco e depois coloridos à mão. As sobras foram vendidas pelo tipógafo. Em 1862 os tipógrafos Charles Goodall retomaram a ideia e o cartão de Natal generalizou-se. (Adaptado livremente de Jonathan Sale, The Guardian)

FRUIT CAKE DA LORI



Depois de 12 dias de viagem o bolo de frutas que a Lori (EUA) fez foi-me hoje entregue pelo meu carteiro. Metade dele já desapareceu, como se pode comprovar pela prova anexa e não é preciso nenhuma equipa do CSI para descobrir onde é que ele foi parar. Exacto! Directo ao meu estômago. Ainda estou viva e nem sequer tive indisposições gástricas. Não gosto de cozinhar e talvez por isso sempre tenha apreciado quem quer que cozinhe o que quer que seja para mim. Daí que quando a Lori me disse que me ia enviar um fruit cake eu não me fiz rogada. Quem espera desespera e eu pensava que o carteiro já lhe tinha deitado o dente. Mas não. 12 dias depois da expedição, chegou. E veio de avião. Se tivesse vindo a nado… A Lori aconselhou-me a não comer e conduzir pois parece que as frutas ficam mergulhadas em vinho durante uns tempos largos antes de se juntarem à massa! Ora estão podres de bêbedas. De facto o aroma alcoólico do bolo é notório: será que ultrapassaria a taxa legal se o comesse de uma vez só e soprasse no balão?! A Lisa aconselhou-me a dar uma fatia a um rafeiro e esperar 12 horas antes de provar: - Ó Isabel, há malucos em toda a parte mas nos EUA há mais ainda! – dizia-me ela. Mas eu estava decidida a não desperdiçar fruit cake com nenhum cão. Aliás, mais perigoso do que comer bolo que vem da América é atravessar passadeiras na Figueira da Foz. Uma senhora paraplégica que vive próximo de mim e que se desloca numa cadeira de rodas motorizada sempre acompanhada por um pequeno cão de pelo claro, que ora corre atrás dela, ora lhe salta para o cesto, foi ontem atropelada numa das passadeiras de peões da avenida marginal. Do que me recordo do Código da Estrada aqueles veículos são equiparados a peões pelo que ela tinha todo o direito de pisar a zebra e de passar primeiro que o automóvel azul que lhe deu uma pantufada. Não sei se a condutora do popó também tinha recebido e abocanhado de uma vez só um fruit cake da América completamente podre de bêbado mas só podia estar com os copos. Oxalá a senhora se safe.

26 DE DEZEMBRO DE 2004



Ontem à noite quando liguei a TV estavam a dar na SIC um filme - Tsunami, the aftermath -inspirado pela catastrófe do dia 26 de Dezembro de 2004, o tsunami asiático. Eu esperava pelo egocêntrico Dr. House e fui vendo um pouco do filme até que descobri que iam repetir episódios passados nem há um mês e recolhi a vale de lençóis entre bocejos e impropérios contra a incompetência da TVI. Este ano reconciliei-me com a TV, caixa que desde 2000 reduzira ao mais insignificante electrodoméstico, através de duas séries: 24 e House MD. No último caso não deixo de me surpreender duplamente pois sempre menosprezei séries sobre médicos, enfermeiras e gente ensanguentada, entubada ou com as vísceras à mostra tipo Emergency Room ou outras. Não que seja particularmente impressionável mas o tema nunca me cativou. E de repente topo com esta e não desligo. Mas o filme sobre o Tsunami tinha-me feito lembrar as imagens, essas sim, impressionantes, que vira há dois anos: destroços e mais destroços, gente acampada na rua, coberta por cobertores, ou esticada ao relento. Eram os mais felizes dos infelizes, poupados à morte mas atirados para uma luta de sobrevivência diária que se iria prolongar, desgraçadamente, por muito tempo. Lembro-me de saltar dos nossos flashs noticiosos para os da BBC para tentar perceber o que sucedera. Aprendi a palavra tsunami nos filmes animados do Conan. Nunca mais me esqueci da onda que vi no filme de animação há 20 anos. O meu cérebro fazia sempre o download dessa imagem da minha memória quando a palavra maremoto vinha à tona. Em 2004 a memória foi tristemente actualizada. Difícil aceitar factos como tribos inteiras arrastadas para o mar, aldeias completamente destruídas, uma geração de crianças perdida na voragem das águas, quilómetros de costa transformados em cemitérios, a urgência de congeladores para cadáveres. Dia 26 estava eu ocupada pelo meu trabalho e bastante engripada. Cheguei a casa e enfiei-me na cama. Só ao outro dia, e nos seguintes, comecei a perceber o que tinha acontecido, os números de mortos a subir a cada edição de jornal, as fotografias inumanas. Uma semana depois já estava demasiado elucidada e mesmo assim não o suficiente. Apesar das imagens da tragédia a devastação era tão grande que não conseguia ter uma percepção exacta dela. Sempre achei que as fotografias são mais exactas do que imagens em filme quando nos queremos aperceber da realidade. Ainda há dias veio parar à minha caixa de email uma aplicação Powerpoint com fotos sobre o 11 de Setembro que confirma esta minha ideia. Mesmo depois de ter visto e revisto o que a TV passou sobre o 11 de Setembro este conjunto de fotos conseguiu ser muito mais preciso e impressionante. À semelhança do sucedido na Ásia também a queda das duas torres deu origem a material fílmico que eu deliberadamente evitei, United 93 e World Trade Center. Para mim é demasiado ser contemporânea dos acontecimentos e revê-los depois naquele formato. Dispenso mais um ponto de vista de terceiros por muito virtuoso ou excelente que seja, fico-me pelo relato jornalístico e documental. Se os trágicos acontecimentos que me envolveram apenas como espectadora desprevenida me abalam ao ponto de encontrar em mim esta recusa pergunto-me como reagirão as pessoas directamente envolvidas e que têm de conviver com esta memória. A verdade é que sem termo de comparação não conseguimos nem chegar perto do que possam sentir. O que é, como é viver o horror, o medo? Em 2001 as zonas alagadas pelas águas do Mondego no concelho de Montemor-o-Velho invadiram os televisores portugueses. A subida das águas do rio causou aqui enormes estragos materiais mas não engoliu vidas humanas. Arruinou pequenos comércios, destruiu estradas e ponte. Pese embora a elevação rápida do nível da água que apanhou a população de surpresa a resposta foi pronta e permitiu evitar o pior. Mas às perdas previsíveis, relativamente contabilizáveis e moderadamente vultuosas, juntou-se a incapacidade de reparação por parte das instituições de molde satisfatório. Um ano depois, dois, três ainda surgiam nos jornais vozes isoladas a reclamarem por essa reparação. Um sábado de manhã nesse mês de Fevereiro, resolvi ir a Coimbra. Não conduzia ainda pelo que fui de comboio. A viagem parou a meio. A linha férrea encontrava-se interrompida pela água. Daí em diante uma viagem de uma hora transformou-se em três longas horas de nervos miúdos. Uma passageira e eu chamámos um táxi: eu tinha uma reunião, ela queria ir ao hospital. Todos os trajectos tomados estavam também impedidos pela água- não tinha sido só a linha férrea que ficara cortada. Depois de meia dúzia de quilómetros o taxista invertia a marcha e tentava outro caminho, uma, duas, três vezes. O condutor conhecia muito bem as estradas, mesmo as estradas do campo, e tentou todas as possibilidades antes de não ter outra solução senão voltar para trás e apanhar a estrada principal. Antes o tivéssemos feito logo que entrámos para o veículo em Alfarelos. A dado momento recordo o carro no meio do enorme campo muito plano e dividido por estradas paralelas aqui e ali submersas. No táxi de vidros embaciados eu limpava com a mão a vidraça do meu lado esquerdo para inspeccionar à minha volta. A água corria, marulhando incessantemente. Era um enorme lençol de cor leitosa, ondulante, que corria todo na mesma direcção, da direita para a esquerda. Atravessava a estrada que tentávamos percorrer e chegava sem dúvida ao nível das portas do táxi o que me deixava bastante preocupada. À minha esquerda, à minha direita, à minha frente, atrás de mim, as terras estavam cobertas de água. O taxista insistia em avançar e eu não percebia como é que ele tinha a percepção da profundidade da água. O troço da estrada adivinhava-se através de tufos intermitentes de arbustos ora da direita, ora da esquerda. Sabendo que ele devia conhecer o carro que conduzia não deixava de perguntar uma ou duas vezes: - Ouça lá, tem a certeza de que o motor não se vai afogar? Ele dizia que não, que aquilo era uma máquina, o que me deixava igualmente intranquila. Atrás de nós, talvez a nem 500 metros, suspeitava eu de águas sustidas por frágeis barreiras em jeito de dique, num plano mais elevado. Nem queria imaginar que aquilo cedesse e elas galgassem o desnível. Se começassem a correr na nossa direcção o carro seria arrastado. Pensei nisso. Estar ali no meio daquele mar-chão de ondulação miúda e barrenta transmitia-me uma inquietação enorme. Não chovia mas a atmosfera estava muito húmida e pesada, os céus fechados de nuvens cinza-névoa. Finalmente o taxista deixou de lutar contra a sua própria teimosia. Eu respirei de alívio. Chegámos a Coimbra três horas depois do previsto. Sirvo-me da minha pequena e inconsequente experiência para tentar perceber algo do que possa ter sido o horror de ser apanhado por uma massa de água em fúria apesar de nem sequer ter molhado o dedo pequeno do pé naquelas águas barrentas dos campos de arroz de Montemor-o-Velho. Ensaio multiplicar a sensação por cem, por mil, mas nem assim. É nesta distância de proporções que se situa a minha percepção do Tsunami asiático. Nesta distância e no meu lugar de espectadora bem aconchegada no meu sofá, de controlo remoto na mão, de camisola quente e seca, em frente ao aparelho de TV. Que sorte que eu tenho.

12/10/06

PASSAGEM DE ÂNUS



Hoje recebi um email com sugestões de como tornar a passagem de ano memorável. Meti-me então a pensar na tal da passagem de ano. Para mim é uma data em que o calendário nos vem chatear a vida e artificializá-a como se os nossos estados de espírito pudessem ser comandados pelo seu correr, folha a folha. Já me basta a arrumação do trabalho por dias, horas, meses. Mas aí, quando estamos inseridos em ritmos colectivos, somos uma grande lagarta cujos pés têm de se mover em sincronia para conseguir avançar. Podem pensar que sou uma gaja do mais anti-social que há, mas tal não é verdade. Não digo que não tenha festejado uma ou outra passagem de ano. Mas essas festarolas sempre foram o pretexto para outros festejos. Logo, em rigor, não festejava a passagem de ano. Recordo uma que foi um autêntico vómito. Foi a partir dela que deixou de ser para mim natural contrariar-me em função dos outros e do calendário. Celebrações por obrigação e em massa são para mim um desatino. Para mim a massificação do entretenimento não pode exceder a lotação esgotada dum Coliseu do Lisboa ou já será demais. Agora daí a olharem-me com ares de quem me toma por anormal só porque não quero ir de flute e passas para um qualquer lugar e uivar à meia-noite, é insuportável. E é assim que alguns me fazem sentir. Como se fosse imperativo brindar e estar de cara alegre, algures, quando chegam as derradeiras badaladas. Forçar o mundo inteiro a um ritual de foguetório é uma aberração. Mas a tradição tem barbas mais compridas que as do Pai Natal e carácter endémico. Com esse ritual, outros: os tradicionais balanços, balancinhos, balancés. Não há jornal ou revista que não caia neles! Que tédio. Deve ser a edição mais fácil do ano inteiro: vai-se aos arquivos e elegem-se os melhores e os piores, em várias frentes, desde os mais bem vestidos aos mais mal vestidos, dos países mais produtivos aos menos, personalidades do ano e anti-personalidades, livros in, discos out, copy, paste e já está. É a grande sangria da estatística, entre o fútil e o útil, é um ver-se-te-avias a encher páginas, listas disto e daquilo. A Internet também não escapa. Nem sempre se percebe bem a qualidade do critério utilizado. Por vezes até coincide com o meu. Quando não coincide aí cismo no que terei perdido ou então apupo mentalmente o autor da selecção pelo seu péssimo gosto. Outro ritual é o das previsões astrológicas. Houve um ano em que comprei deliberadamente um livro com previsões diárias. Sem comentários. Primeiro e último. Deu para rir nos primeiros dias do mês de Janeiro. Eu sei que existe uma enorme minoria de pessoas como eu. Nós, esse pequeno grande grupo, somos uma espécie olhada de esguelha pela massa que, em roda-viva, um mês antes já se anda a preparar para o grande Reveillon, tentando optar, entre as ofertas possíveis, por aquela que garanta não sei bem o quê: o melhor grau de alienação, a melhor ressaca pós-countdown, o olvido de tudo quanto não correu de feição nos anteriores 365 dias e a fé no milagre de outros 365 dias melhores a caminho. O champanhe é o convidado habitual, o mestre de cerimónias. O champanhe ajuda-nos a ser cigarras por uma noite; despimos a nossa pele suada e poeirenta de formigas, vestimos o nosso vestido preto, as nossas asas de tule, colocamos um colar de brilhantes, saltos altos. Convocamos a música, a dança, o sexo. E viva o gás carbónico! É uma pena que um vinho tão galante seja chamado à ocasião para ajudar ao olvido das nossas penas. Não acredito na felicidade colectiva. Acredito no alheamento colectivo. Que sentido há em começar o primeiro dia do ano a questionar-mo-nos se dormimos com quem entrámos na festa ou com quem saímos dela, a prometer-mo-nos uma dieta depois de nos termos enchido de tudo quanto havia na mesa? É fácil quando a ressaca é tanta que comida nem vê-la nas próximas 24 horas! Se dia 2, na mais feliz das hipóteses, dia 3, lá estaremos a olhar nova folha de Janeiro e com os mesmos dossiers herdados sobre a mesa; se sobre o lastro côncavo da nossa consciência, as mesmas angústias, desamores e desesperanças, se depositarão doravante, tal e qual, pergunto-me para quê o estrépito?! Estamos a festejar sebastianamente o novo mundo que há-de vir? Mmmmmm... Muito barulho por nada. Defeito meu? Uma questão de feitio? Festa que é festa tem de começar por dentro de mim. Surge nos mais imprevistos momentos, ao longo do ano, dum desafio ao acaso e dum improviso. E pode então durar até às tantas, ou durar apenas meia hora. Mas é saboreada genuinamente em cada momento, conscientemente. O gosto do encontro, o gosto da boa mesa e da boa bebida, o gosto das palavras, o gosto dos outros, o gosto da música, o gosto da dança, o gosto do riso, o gosto da viagem. Sem desperdícios. Não se quer perder pitada. Não se faz para apagar o mal, para o mal não há um interruptor, porque o mal ou se resolve ou não se resolve, quanto muito, adia-se. Faz-se para festejar o bem e o bom de uma coisa que até pode ser insignificante para a maioria e para o calendário mas que é de suprema importância para uma, duas, três, seis pessoas, e na qual todas se congregam. E de uma coisa que é real. O facto de se juntarem massas informes e desconhecidas, sem qualquer sentido gregário, que se dispersam ao acaso quando o corpo começa a dar de si e o tempo se esgota, intriga-me e irrita-me. Só porque o calendário diz que é hora? Se há dias em que penso que não sou deste mundo é no dia 31 de Dezembro. Uma semana antes é ver as televisões e os jornais a pegar nas palavras lindas da paz na terra aos homens de boa vontade e da solidariedade; e nas reportagens das campanhas a favor dos mais desafortunados e infelizes, dos sem abrigo, das não sei quantas crianças que morrem de fome, mais o Natal dos doentes e o dos soldados que estão longe dos seus e a brincar às guerras que nem são as suas, nas lágrimas dos que estão sós, sujos e mal nutridos, tudo quanto nos possa suscitar piedade aí está. E dê, e dê, e dê. Não seja egoísta, há sempre alguém que precisa daquilo tudo que você tem e nem sequer precisa, ou até de metade, um quinto.... E dê. E dê. E dê. Ampare. Uma semana depois e é o frenesi global. Até parece que o mundo inteiro se prepara para, entre gás carbónico e iguarias excessivas, música e trips, provocar-se a diarreia do ano findo, como se isso se viesse a traduzir num grande olvido e num supremo alívio, afinal numa digestão de tudo quanto é mau, na obtenção de um vazio que seja sinónimo de espaço para uma vida nova, radiante e renovada, que pode bem nunca chegar a ser. Penso que a passagem de ano se poderia então chamar “passagem de ânus”...

12/4/06

CLIVE OWEN PARA 007 JÁ!


Eu nunca gostei dos filmes do 007. E até já me tinha esquecido disso! Foi preciso ir ver Casino Royal para me lembrar porque razão vi Goldeneye, Tomorrow never dies, World is not enough e Die another day. (Terei esquecido algum?!!) O meu interesse pelo 007 sempre se ficou pelos genéricos e pela música. Eis a verdade. Ora então a razão remonta talvez a 1983, altura em que a nossa televisão passava uma série intitulada Os Manion da América. O meu personagem favorito era o Rory O’ Manion. Eu estava na faculdade por essa altura e na faculdade havia um rapaz parecidíssimo com o actor que o interpretava. E se era difícil sentar-me perto dele. Havia dias em que levar binóculos poderia ter sido uma opção. Aqueles anfiteatros eram apenas um pouco grandes para estratégias de proximidade. Já não me lembro de quase ninguém que se sentasse ao meu lado, pois as pessoas nunca conseguiam ter um lugar certo. Ter um lugar já era bom.Mas dele ainda me lembro. O Luís era fenomenal. As minhas colegas todas sabiam da minha paranóia pelo rapaz que era parecido com o Pierce Brosnan. Mas se havia uma que soubesse quem era Pierce Brosnan já seria muito. Por acaso, que actores estariam na berra na década de 80?! Possivelmente Richard Gere, Harrison Ford, Tom Cruise. Mas eu tinha de ser diferente, o meu ídolo era um simples actor de televisão, praticamente desconhecido. Assisti a uma charopada, Remington Steele, (que pelo menos serviu para ele treinar o porte de arma) só porque o protagonista era o nosso amigo 007 agora deposto. E ainda por cima dobrada em espanhol!!! Disse um dia que por uma noite com ele era capaz de rastejar desde a faculdade até à portagem. (Cidade de Coimbra, para quem conhece. Quem não conhece, não se ponha a imaginar que não vale a pena. Digamos que o percurso em matéria de acessibilidades seria a tragédia de qualquer deficiente motor.) Essa esteve quase para ir parar ao livro de curso. Só que na altura do terminus da licenciatura eu já não me revia nas palavras ditas. Jamais rastejaria, nem mesmo pelo Brosnan, para ter sexo. Todavia as minhas amigas não me deixaram mais esquecer esse meu desabafo e ainda hoje se riem disso.(Só que hoje já sabem quem é o homem.) À medida que os anos passaram eu continuei a olhar para Brosnan absolutamente fascinada. Mesmo se todos os anos Hollywood nos brindava com um novo catálogo de carnes verdes, verdes porque ainda com pouca rodagem no plateau. Mais novos, mais velhos, morenos, loiros, nenhum me demovia do meu objecto de admiração: eu continuava fiel a Brosnan. Era mesmo um casamento para a vida,ahahah! Muitos filmes e filmes depois, à medida que a minha cinefilia se desenvolvia, apercebi-me claramente que o bonitão não era um actor para altos voos. Paciência. Não se pode ter tudo, não é? Nunca procurei ver todos os filmes onde entrou, mas vi a maioria. Também nunca colei fotos do malandro no caderno, nem na parede, nem pertenci a clubes de fãs!! (Agora acho que o devia ter feito, isso é que teria tido piada, pelo menos para escrever aqui!) Mas tenho algumas Première, durante anos assinei a versão francesa, depois comprei, de vez em quando, a versão portuguesa, e ele anda por lá. Mas não é a mesma coisa, pois não?A sua filmografia é pura mediania. Gosto do The Thomas Crown Affair. É um filme cheio de charme e bom gosto. E escrevo-o com todo o distanciamento. O resto não vale mesmo a pena. Mas, e nem 007? É claro que era divertido ver o Pierse Brosnan como agente secreto, todo elegante no seu smoking, ao volante de grandes carros, sempre penteadinho mesmo no auge da maior pancadaria, shaken but not stirred, etc, etc... Entretenimento bom para a vista. Sinceramente o resto não era nada importante. Digamos, sem querer diminuir o produto, que não é bem o meu tipo de cinema. Mas como não era pelo bom cinema que comprava o bilhete sempre achei divertido, sempre dei o tempo por bem empregue! Goldeneye não é um mau filme. Mas já não me lembro bem. Hoje, pelo contrário, senti que Casino Royale nunca mais chegava ao fim. Duas horas e vinte minutos e se espremer bem o que gostei mesmo foi da personagem da Vesper que me parece muito atípica e interessante dentro do género mulheres Bond. Ora vejamos: cenas de acção e suspense, gadgets e agentes secretos? Fico com a 24 que chega perfeitamente para me deixar empolgada. E nem tenho de andar à procura do meu lugar com o telemóvel dentro de uma sala cúbica - eu sabia que havia de dar uso à pilha eléctrica incorporada - , e nem tenho de aturar os vizinhos do lado a roerem pipocas que nem castores! É que também já não me lembrava: não gosto de animais roedores nas salas de cinema.Tanta coisa de que já não me lembrava. Talvez porque o último filme que vi numa sala de cinema foi O castelo andante. Será que o Brosnan já viu o Casino Royal? Ou andará muito ocupado a gravar anúncios para marcas de relógios e cerveja? Será que ele gosta do seu sucessor, Daniel Craig, que eu apenas conhecia de um único filme, Sylvia, fita sobre a vida de dois escritores, Ted Hughes e Sylvia Plath? Já li algures que afinal o Ian Fleming concebeu um agente durão e sem maneiras, carrancudo e de pouca falas. Mais à Craig do que à Brosnan. Mas que diabo, será que no livro também está escrito que o agente secreto tem de ser loiro?!! E orelhudo?!!!Dei por mim a matutar nisto tudo a meio do filme. Estava obviamente profundamente embrenhada na trama. Que resposta para a pergunta sobre quem poderia justificar melhor os 4 euros e as duas horas e vinte na salinha cúbica?! E penso que já encontrei uma possível: Clive Owen. Porque não? Imaginando-me a fazer o casting, objectivamente, não consigo perceber porque escolheram Craig Daniel. A interpretação é boa, não digo o contrário. Mas não me consegue convencer. É o mistério deste 007.Vamos fazer uma petição online?!!!!

12/2/06

CINEMA E POSTAIS DE NATAL HOME MADE


Todos os anos em Dezembro há que ver um filme de animação. É algo que vem de longe nos meus hábitos. Tenho um bilhete de cinema, cor-de-rosa, rectangular, de papel muito fino. Data de 16 de Dezembro e 1973, refere a fila e o número da cadeira, o preço da sessão foi 10$00. Nome da sala: Cinema S. Geraldo, em Braga. Hoje a sala onde Villaret fez recitais de poesia e onde Sá Carneiro e Mário Soares realizaram comícios já fechou portas. Não sei no que se terá transformado. Os meus primeiros filmes foram vistos aqui e eram cinema de animação. Nessa altura como agora a minha devoção aos desenhos animados continua. Mas hoje reinam os Multiplex, salas pequenas: só quem nunca viu cinema num grande ecrã se pode contentar com aquilo. Neste vão de anos os bilhetes passaram de escudos a euros, 5 euros. Já não há carimbos manuais no pequeno papel, os computadores e as impressoras tratam do assunto, e, se quisermos até podemos comprá-lo pela Internet. Tudo muda, a única coisa que não mudou é este meu hábito de guardar bilhetes. Mas o meu filme de Natal é um filme sobre o Halloween, é Nightmare before Christmas, do Tim Burton. Jack, elegante e horroroso esqueleto, estava cansado da sua rotina de sustos, ainda que bem sucedida, e da sua terra de todos os pesadelos. Apaixonou-se loucamente pelo Natal, enquanto espreitava uma cidade acolhedora, luminosa e colorida, onde reinava o espírito de Natal, tudo aquilo que o seu mundo feito de negritude e fantasmagoria, não era. Quis então substituir-se ao sr. das barbas brancas, não percebendo que, cada macaco no seu galho: nem o Pai Natal sabe assustar, nem Jack saberia dar às crianças os presentes desejados. O resultado é arrepiante, quase um desastre, mas...tudo termina bem, até a afeição que a donzela de trapos Sally lhe devota acaba por triunfar, e um nevão branco e apaziguador cobre a terra de trevas de Jack. The End. O ano passado estava demasiado cansada de tudo, pensei que estava cansada do Natal também. Parecia-me claramente uma rotina, as mais das vezes consumista, outras sentimental, que o calendário nos traz com o frio de Dezembro. Sentia-me uma personagem patética e assíncrona. O pior que o Natal tem, achava eu, é que não se lhe pode escapar. Ele parece estar em toda a parte. Quem nele não se congrega está fadado a ser olhado com suspeita. Sequestrar o Pai Natal foi o plano de Jack e falhou. O ano passado disse especificamente a algumas amigas e amigos que me costumam presentear abonadamente que não o fizessem, que não fazia sentido. Que eu não estava com espírito nem para dar, muito menos para receber. Que pegassem antes na carteira de cheques e fizessem um cheque para uma instituição que trabalhasse com crianças. Que não queria receber uma prenda só porque no calendário estava assinalada uma data. Fiz campanha anti-Natal. Tornei o facto público. Pouco faltou para distribuir panfletos. (Não resultou, recebi prendas, o que só contribuiu para aumentar a minha neurose anti-natal!) Sentia-me medonha. Ficaria bem ao lado de Jake na espectral Halloweentown. Nem sequer podia ser a doce Sally, teria de ser uma verdadeira monstra. Subitamente percebi que o meu boicote ao Natal – esse ano não enviaria cartões nem SMS, não compraria presentes, muito menos simbólicos, nem abriria a boca para desejar Feliz Natal a ninguém, nem de viva voz, nem usando telefones fixos, móveis, fax, internet ou whatever – nada tinha a ver com a celebração do Natal em si mesmo mas com todos os outros dias que o antecederam. O Natal tem de ser construído todos os dias. Não se resume numa prenda, por mais ansiada ou simbólica, num cartão lindinho, em duas palavras, numa reunião de amigos ou familiares lá para os idos de Dezembro. Isso é apenas obedecer ao calendário. A salvo de todas estas variantes estão os crentes que têm sempre um motivo sólido para celebrar: o nascimento de Jesus Cristo. E nesses não me incluo. Ora, tinha treinado pouco a minha rotina de dar. E também de receber. Para receber há que saber como. Receber, por vezes, é difícil. A equação tinha sido a do desequilíbrio. Quedara-me entre o dar pouco e receber ainda menos, e o dar tudo e nada receber. O saldo negativo era grande. Por isso me sentia assíncrona. Fora de tempo. Fora de contexto. Egoísta. E sem pinga de força para ser hipócrita. Era uma abóbora-menina de olhos e sorriso assombrados. Não servia sequer para compota doce. Afinal o que devia era boicotar retroactivamente o ano inteiro e não o Natal! Neste Dezembro tudo isso me parece um despropósito. De tal forma que até resolvi fazer os meus próprios cartões de Boas – Festas. O melhor que o Natal tem, acho eu, é que não se lhe pode escapar. Ele parece estar em toda a parte. Basta não o boicotarmos e somos parte dele. E nem é preciso comprar bilhete!

11/26/06

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS (1923-Novembro 2006)




(Chegada dos portugueses ao Japão, frente e verso)

lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

             Mário Cesariny

11/24/06

RECEBI UM PRESENTE


Trabalho de pintura digital que recebi de Marcos Cruz, um fabuloso artista brasileiro autodidacta que me deu grande incentivo e ajudou a dar os primeiros passos no Photoshop. Para ver algumas das pinturas digitais de Migsete visitem a Galeria do Site do Migsete

15.40 HORAS E CHOVE CÃES E GATOS



Chuva a potes, vento fortíssimo. Os holofotes do estádio Bento Pessoa não chegam para compensar o escuro que tomou conta dos céus da Figueira da Foz.Outono mascarado de Inverno profundo.Ai que bom ter ficado hoje em casa.

NÃO PAREM DE ME ARTESANAR!


(Artesanato natalício para suspender na porta da entrada de casa. O meu sobrinho fez as estrelas, os corações, os peixes e pássaros em massa DAS e cravou-lhe pedrinhas coloridas. Eu fiz o resto.)

De há uns três anos a esta parte a blogosfera portuguesa encheu-se de blogues de mulheres que se dedicam a criar peças de artesanato da mais variada qualidade e pelos mais variados motivos. Aventuras criativas individuais para passar o tempo, valorosas cruzadas maternais perante a adversidade, juvenis experiências empreendedoras, microformas de negócios on-line - há de tudo nesta vasta galeria de produtos manuais desenvolvidos no aconchego do lar e expostos na grande montra da Internet. Sempre apreciei peças artesanais porque são únicas. Eu própria gosto de criar algumas de tempos a tempos, exemplares únicos, pois se tenho de fazer vários semelhantes ou parecidos o tédio apodera-se de mim e logo me enfado. Coisa que nestas artesãs ditas urbanas parece não existir já que algumas se dedicam à efectiva produção artesanal de série, peças atrás de peças atrás de peças que apenas apresentam algumas variações mínimas. Elogio-lhes a paciência fruto da paixão ou da necessidade. Alguns desses produtos são efectivamente notáveis pelo conceito de produção que envolvem ou o próprio design. Adquiri um a Rosa Pomar, uma boneca personalizada para oferecer à minha irmã por altura do nascimento do meu sobrinho. Infelizmente muitos produtos que se podem encontrar nestes blogues já são apenas derivação ou mesmo cópia do engenho de quem se abalançou a dar o primeiro passo. Todo este afã criativo rejuvenesceu e ressuscitou a cena das manualidades que andava até mal vista e arrumada algures entre produto de donas de casa desesperadas, ocupação de ócio de senhoras bem e entretém das reformadas, ou metodologia de quermesse. Técnicas antigas receberam novo fôlego; possuir jeito de mãos tornou-se subitamente motivo de inveja e moda; competências femininas de outrora foram revalorizadas e até já existem homens intrigados com o fenómeno, a cobiçarem a astúcia e a deitarem mãos à obra!
Todo este movimento traz à tona o primado do indivíduo e é isso que me fascina como criatura individualista que tendo a ser. Eu tive sorte. Eu fui uma bebé que teve um enxoval confeccionado à medida, peças minúsculas cortadas em retalhos escolhidos com amor e costuradas uma a uma, malhinhas tecidas com modelos originais e exclusivos, babetes bordados com minúcia. Ah! E já me esquecia de mencionar a alcofa decorada e respectivos lençóis made by mamã. E depois fui crescendo e nos anos seguintes a minha mãe continuou a confeccionar quase toda a minha roupa, vestidos fabulosos, casacos, calças. Na altura eu achava isso natural, aliás, pensava que todas as mães eram assim. Mas hoje penso que isso foi extraordinário. Até porque hoje já não tenho essa sorte, hoje que eu gostaria de usar peças exclusivas a toda a hora! Por ter estado por perto do atelier adquiri conhecimentos de corte, diferentes tipos de tecidos e acabamentos e isso tornou-me mais tarde uma consumidora crítica que sempre olhou para a roupa das lojas como quem inspecciona, escapando à sedução da moda as mais das vezes, sendo mais objectiva do que emotiva no acto da compra.
A produção em série pode ser muito lucrativa para o dono da fábrica mas nem sempre deixa o consumidor plenamente feliz. Deixa-o apaziguado na sua necessidade mas vestido de igual a não sei quantos mais consumidores. Que tédio. Compramos muitas vezes o que precisamos, não o que gostamos verdadeiramente. Esgotada a necessidade chega o dia em que adquirimos nova peça e com desprendimento deixamos de parte a anterior que nada tinha de especial que justificasse uso prolongado, cuidados especiais, destaque no guarda-roupa. Com o tempo o consumidor acabou por acreditar que a situação era prática, a solução única e que fazia máximo sentido no quotidiano do corre-corre. Esqueceu-se que podia ele mesmo produzir e ser único. Talvez nem sempre nem nunca, mas esqueceu-se. Imagine-se agora que a sociedade de consumo possa evoluir e dar lugar a uma outra onde a afirmação individual se faça pela produção de tudo o que cada um de nós souber fazer de melhor a par do primado do nosso gosto especial atípico, incomum, único. Na realidade porque têm tanto sucesso alguns blogs e podcasts? Não será porque os consumidores estão cansados de formatos padronizados ou conteúdos espartilhados por regras que não os servem mas que foram treinados para aceitar como a resposta única?!! Algo na nossa consciência colectiva reclamava por esta pequena revolução dos produtores artesanais que apela fundo à satisfação dos nossos caprichos e desejos. Não apenas às nossas necessidades mas também ao nosso desejo de prazer, ao nosso eu muito pessoal. E a internet foi a alavanca deste movimento criativo. E estamos todos a descobrir o prazer de comprar por encomenda, à nossa medida e dos nossos gostos. E havendo procura é apenas inevitável que não nos parem de artesanar …

11/22/06

PAPELUSTRO na FIGUEIRA21





- Olha, trouxe-te a Figueira 21. Tem uma referência ao teu blog.

- Ah, eu já sabia, mas ainda não tinha visto.Deixa ver.

- Quanto é que pagaste para te publicarem isso?

- Eu?!Nada, ora essa. É que eu sou boa, é isso!

- Ah, boa!Boazuda!!

- Estúpido!Cala-te e dá cá a revista.

- Não dou, ai não...

- Dá cá! Vá lá! Deixa ver!

- Ok, é toda tua.

11/15/06

ALERTA LARANJA



Alerta laranja para o estado do tempo, alerta vermelho para o meu estado de espírito. Estes rigores de Outono mascarado de Inverno abalam a minha predisposição para quase tudo. Dou comigo a fazer funcionar a máquina de café várias vezes durante a tarde para compensar a abulia. Em vão olho para a folha de papel branco sobre a mesa. Já foi quase meio bloco para o lixo e nada surge que se aproveite. O lápis gira louco na minha afiadeira em forma de peixe. Não que habitualmente a folha se preencha sem esforço, mas hoje, nada surge. Um dos meus sonhos é seguir o Verão, voar para outro lugar quando chega o Outono. Um dia escrevi um poema com este título e tudo. Seguir o Verão. Fui buscar um CD para amenizar a tempestade que se abateu sobre mim. Save room for my love/Save room for a moment to be with me...Legend em segunda vez, punhado de canções boas para bandas sonoras de cenários românticos. Voz morna e adocicada, aconchegante, sexy. Piano mas também guitarras. Não tenho o primeiro CD que lançou, o muito celebrado Get lifted. Este ouve-se bem, muito bem, aliás. E ali pelo meio até parece a voz do Jeff Buckley, que raio de assombração, uma boa assombração na verdade pois Buckley era extraordinário. Legend. Como é que alguém se sente à vontade com este nome se não tiver nascido com ele?!! Lá fora a chuva incessante esmaga-se contra a vidraça, acendo mais uma luz pois a tarde é quase noite. A folha em branco. A inspiração tarda e o CD gira as suas melodias imensas de soul e travo pop. A evasão resvala para o quase possível. Sigo o Verão…

BEING BORING


Há dias vi que Neil Tennant dos Pet Shop Boys colaborou no novo Rudebox do Robbie Williams. Eu nunca tive muita simpatia pelos Pet Shop Boys nem sabia que eles ainda estavam "no activo". A melhor canção dos Pet Shop Boys é Being Boring do álbum Behaviour.(Minha modesta opinião, claro, quem sou eu para afirmá-lo...) O título da canção parte de uma inspiração de empréstimo a Zelda, mulher de F. Scott Fitzgerald que terá escrito“She refused to be bored chiefly because she wasn’t boring.” A letra sobre ímpetos juvenis, amigos e tempos passados não deixa de ser uma celebração. Sempre foi uma das minhas canções predilectas.O video a preto e banco de Bruce Weber também. Não teve muito sucesso comercial mas gerou um forte culto. Vejam este site, por exemplo. Aqui fica a letra da canção, para cantarolar...
I came across a cache of old photos
And invitations to teenage parties
"Dress in white" one said, with quotations
From someone's wife, a famous writer
In the nineteen-twenties
When you're young you find inspiration
In anyone who's ever gone
And opened up a closing door
She said: "We were never feeling bored

'Cause we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: "Make amends"
And we were never holding back or worried that
Time would come to an end

When I went I left from the station
With a haversack and some trepidation
Someone said: "If you're not careful
You'll have nothing left and nothing to care for
In the nineteen-seventies"
But I sat back and looking forward
My shoes were high and I had scored
I'd bolted through a closing door
I would never find myself feeling bored

'Cause we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: "Make amends"
And we were never holding back or worried that
Time would come to an end
We were always hoping that, looking back
You could always rely on a friend

Now I sit with different faces
In rented rooms and foreign places
All the people I was kissing
Some are here and some are missing
In the nineteen-nineties
I never dreamt that I would get to be
The creature that I always meant to be
But I thought in spite of dreams
You'd be sitting somewhere here with me

'Cause we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: "Make amends"
And we were never holding back or worried that
Time would come to an end
We were always hoping that, looking back
You could always rely on a friend

And we were never being boring
We had too much time to find for ourselves
And we were never being boring
We dressed up and fought, then thought: "Make amends"
And we were never being boring
We were never being bored

'Cause we were never being boring
We were never being bored

BACALHAU TRISTE



Adoro o cheiro do peixe fresco. Mas no hipermercado o peixe tornou-se inodoro e as montras frigoríficas exibem-no como peças de arte, emoldurados entre gelo picado e salsa, e outros adornos mais plásticos. Além deste temos o cirúrgico espectáculo das carnes. Hoje tudo está meticulosamente embalado em tabuleiros brancos e celofane, rotulado. Nem mosca nem mão afastando a mosca. Eis um gesto que a modernidade apagou, garantia suposta de segurança e higiene, sabemos lá nós a que farinhas e outros aditivos engordou aquela fatia vermelha de novilho perfeitamente embalada e rotulada. Por vezes penso que sou uma vegetariana em potência à espera de um pretexto. Mas um amigo biólogo garantiu-me que qualquer alface de aspecto inofensivo é uma perfeita bomba de resíduos químicos! Não sei cozinhar. Isto é, sei tornar a comida comestível. Géneros que tenhamos de sujeitar a exercícios de corte e cozeduras em lumes mais ou menos brandos, suadelas no aconchego dos vapores, crestas ao lume e preparos com delongas de requinte são para mim um mistério. O que não significa que não goste de boa comida - comer em boa companhia é uma das minhas artes dilectas.Com um bom vinho que me faça ruborescer e soltar-me um riso de borboletas dançarinas, então é perfeito. A propósito da ementa de bacalhau cozido, a meu ver tristemente, com batata e couve, talvez um ovo e uma cenoura também, com que em muitos lares se pratica a tradição do Natal à mesa, lares, empresas e afins, eis sobre o que me apetece escrever agora, pois hoje havia uma pequena multidão à volta da banca do bacalhau no hipermercado. E ainda estamos a mais de um mês do evento! Uma vez a maré da recessão levou da mesa do meu “jantar de empresa” esse desafamado prato substituindo-o por nenhum: não houve confraternização natalícia. Agradeci à crise general – sim, general, porque é ela quem está no comando - e à magreza orçamental da instituição pois se havia noite do ano em que rapava fome era nessa. Nem arte nem bom senso em servir um peixe tão maravilhoso de uma forma tão insípida, e, ainda por cima, fria, num jantar que é supostamente de festa e não de expiação ou penitência. Para mim era mesmo penitência. Comia o ovo e rezava para que o final do transe chegasse depressa, pois havia sempre a esperança de uma fatia de Bolo-Rei e de um copo de Porto para esquecer a desdita. Imaginava que seria bom trabalhar numa organização não governamental de perfil ambiental: talvez nessas já alguém se tivesse lembrado de substituir o prato e já vou escrever sobre o motivo a invocar! O bacalhau é uma espécie em vias de extinção. Antes dela se extinguir irá certamente extinguir-se a nossa frota bacalhoeira. O cão pode ser o melhor amigo do homem mas o bacalhau é o melhor amigo de qualquer português. Quando era criança adorava sacar lascas das postas secas às escondidas e sugar-lhes o sal. Comigo foi assim que começou a minha descoberta do bacalhau. Todo o português que se preze anda atrás do bacalhau. E no Natal, então, é uma corrida de fórmula repetida. O concorrente directo do português, é, fiquem a saber, a foca. Parece que a foca pode comer até 30 quilogramas de bacalhau por dia o que a transforma numa comilona sem maneiras.Ainda por cima, nem sequer deixa que o peixinho se torne adulto, papa-o logo que este lhe cabe na boca. Muito antes de ser apanhado pelas redes e acabar nos nossos estômagos, existem portanto as esfaimadas focas canadianas. As focas eram uma espécie em vias de extinção. Passaram de perseguidas e hiper-protegidas e agora andam a dar cabo de tudo quanto é bacalhauzito “pacanino”, quando um espécimen demora cinco anos a ser capaz de reprodução! Ora isto é calamitoso! Preparemo-nos! Dentro em breve nem miúdo, nem corrente, nem crescido, nem graúdo nem especial. Ficarão para a história as 1001 maneiras que se diz existirem para o levar à mesa. A cadeia alimentar é tramada.

11/14/06

PARA ZOMB(I)AR COM AS PALAVRAS



Zombie Letters from e-zombie.com

É PRECISO TER LATA!




Concurso de reciclagem criativa de latas Red Bull. Visitem a galeria Online People's Choice Award onde poderão encontrar estas e outras peças.

11/13/06

HERA UMA VEZ...

NORTE


(Escrito a 6 de Outubro de 2004, recuperado de blog extinto)

“Obrigado por adquirir este CD e apoiar os artistas, autores, compositores, músicos e outros profissionais que o criaram e tornaram possível.” Tenho o “Norte” sobre a mesa, é o último trabalho do Jorge Palma. Estou a guardar a audição para um pós jantar enrolado na manta do sofá, salpicado a chuva na vidraça. Que grande festa um CD de originais do Jorge Palma! Por enquanto estou na leitura de todas as palavras do booklet, ainda separadas da música, mas já de si (e como sempre) tão ricas em sonoridades e imagens. Em vez da pressa de ouvir vou tacteando o possível, imaginando, antecipando a imersão num universo que vem de longe e que ao longo dos anos me tem acompanhado como se de um templo se tratasse. A semana passada fui surpreendida pelo meu sobrinho de dois anos a cantar “mamã, mamã/onde estás tu mamã”. O Jorge Palma ia dar uma entrevista promocional na radio, saí para o trabalho sem a poder ouvir mas o ouvido atento do meu sobrinho não deixou escapar o essencial. No meu regresso tinha muito que cantar. Imagino-me daqui a uns anos a ver um concerto do Jorge Palma, eu a dizer-lhe que ele cantava esta canção muito antes de aprender o “Atirei o pau ao gato...” quando ela surgisse no encore! A última vez que vi um concerto do Jorge Palma foi em 1998. Três horas de espectáculo no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Afinanços e acertos de última hora, alinhamentos desalinhados, palavra e som ao sabor do momento e um copo de cerveja sobre o piano. Público devoto, público acintoso, velhos fãs, estreantes no culto do talentoso marginal. Seis anos depois e até alguns discos depois, a idade atravessada na face do artista como o rasto de um arado nas terras, ei-lo de cigarro abandonado na mão, fitando-nos, num preto-e-branco fotográfico:”ainda vou ser ilusionista crónico/um mestre da fuga, um mago supersónico”. Tenho a certeza que ele vai sempre ser aquilo que quiser e nunca aquilo que os outros queiram que ele seja. E é por isso também que gostamos tanto dele.

UM PROFESSOR ÀS DIREITAS


(Texto escrito em 29 de Novembro de 2004, recuperado de um blog extinto)

Ontem, cheguei a casa e atirei-me para o sofá, puxando para junto mim um montinho de jornais destinados ao lixo. Num deles e na última página (Jornal de Coimbra) vinha a fotografia do Prof. Dr. José Joaquim Gomes Canotilho, há um ano distinguido com o Prémio Pessoa, e umas extensas colunas de elogios. Este senhor foi meu professor em finais dos anos 80. Olhando a fotografia, os olhos de um azul perscrutador parecem-me a única coisa que não mudou naquele rosto. Isso fez-me olhar para o espelho da parede inadvertidamente, como se para verificar o quanto em mim mudou, inevitavelmente, também. 

Aquele professor era intocável. Nunca ouvi uma voz erguer-se contra ele enquanto fui estudante. Quando soube do Prémio fiquei contente. Desde que deixei a faculdade nunca mais o voltei a ver.( Estou tão distante das esferas jurídicas quanto das celestes. Em meados de Julho fui notificada do trânsito em julgado da sentença do último caso que aceitei...em 1997! É isso. A deusa Iustitia anda há anos em greve de zelo. É um território iníquo. Por cada lacuna legal que um diploma fecha abrem-se mais duas ou três. Fui assistir a uma sessão de esclarecimento sobre o novo Código do Trabalho. A linguagem ainda me é familiar, segui-la é que já não é assim tão simples.) Pelos louvores que não pararam de ser escritos e proferidos pelas mais diversas bocas, o Prémio foi justíssimo. Pelo que conheci de Canotilho-profissionalismo, empenhamento e simplicidade- não deve haver sombra de dúvida. Ano de caloira, os anfiteatros repletos de alunos que traziam a sua cadeira às costas – um aparte, eu queria dizer “cadeira em atraso”, com que se podia transitar para o ano seguinte, mas, de facto, uma verdadeira cadeira às costas teria dado jeito, pois foram inúmeras as aulas a que eu e muitos assistimos de pé ou sentados em vãos de janela ou escadas, ou até no chão – e muitas páginas dum manual de Direito Constitucional, de capa negra, por ele escrito, talvez umas oitocentas, metiam-me respeito. E temor. Hoje não consigo sequer recordar como foi fazer aquela cadeira. Muito estudo? Pouco? Noitadas sem pregar olho? Pura e simplesmente, não me lembro. Mas lembro-me das aulas. E lembro-me de comprar a Constituição, a nossa lex fundamentalis, e do título II, Direitos, Liberdades e Garantias, cuja ideia da aplicabilidade directa independentemente da acção do legislador jamais esqueceria. Isto aprendi com o Professor. E isto, para quem não sabia nada de Direito, viria a provar-se um conhecimento importante e talvez um dos primeiros adquiridos. 

Anos passados pouco recordo dos homens e mulheres que se perfilavam à nossa frente nos anfiteatros da Faculdade de Direito de Coimbra. Nem da sua fisionomia, nem do seu carácter. Exceptuando, talvez, o mais que comum distanciamento que interpunham entre nós e eles, a começar no tratamento por “doutor” a quem ainda há pouco não era mais do que um puto do liceu a fazer provas específicas ou lá como lhe chamavam. Excepções à parte, para confirmarem a regra, quer fossem professores doutores ou aspirantes a mestre, ou uns fedelhos duns assistentes com a mania que já eram tudo, aí vinha o”dr” para cá, o “dr” para lá. Não sei se com isto pretendiam colocar-nos ao mesmo nível que eles, fazer-nos sentir em casa...comigo nunca resultou. Nunca me senti em casa, naquela casa. Só porque se vestiam de azul e cinza, outro fenómeno curioso, a paranóia do uniforme bi-color, já se davam ares de gente muito importante, gente de “faca e queijo na mão”. Na sua maioria possuíam um apelido comum ao do pai professor, ou ao do avô professor ou ao do tetravô professor doutor que também andavam por lá, ou por lá tinham andado - verdade, a impressão de que a carreira universitária se herdava podia facilmente deduzir-se mal eram afixados os horários e os seus nomes. Estes também se podiam encontrar nas faces das sebentas.(As sebentas não tinham capas nem lombadas, eram uns fascículos policopiados, mal impressos em papel de porcaria, que se desfaziam com a humidade e se compravam sempre no 1º andar de casas velhas com escadas mal iluminadas e estreitas a cheirar a mijo de rato, tipo artigo de contrabando. Nunca eram entregues todos de uma vez. Vinham aos montinhos, tipo fascículos da Planeta Agostini, mas sem cores atractivas e miniaturas para colecionar.( E até podiam!Teriam sido certamente um sucesso maior do que o dos ovos Kinder Surpresa. Exemplos: miniatura da deusa da Justiça romana; miniatura da deusa da Justiça grega: miniatura da espada da deusa da Justiça; miniatura de um juiz impoluto; martelinho de juiz de Tribunal da Relação; miniatura de toga de magistrado em latex; miniatura de código civil de Seabra; miniatura de um advogado incorruptível; miniatura de pasta de advogado;miniatura da Faculdade de Direito com pilhas: liga-se e ouve-se o toque da cabra; miniatura de um professor da Faculdade de Direito, com e sem pilhas, caso ainda haja paciência para ouvir o seu discurso monocórdico ou não; miniatura de um estudante de Direito de cabeça perdida depois de ter encornado 1000 páginas e de ter chumbado na oral porque não sabia o conteúdo da nota de rodapé do Manual de Direito Romano; miniatura de uma estudante de Direito quando se apercebe de que escolheu o curso errado - nesta eu podia ter servido até de modelo ao molde em plástico, de facto, escolhi o curso errado. 

Mas podia ter sido pior. Sem este curso nunca poderia dizer que o Prof. Canotilho foi meu professor. Miniatura do advogado desempregado - brinde, grátis, com o último fascículo, depois de perceberem que ninguém o queria. O diabo dos fascículos esgotavam facilmente e obrigavam-nos a muitas idas à baixa, Quebra Costas abaixo. Havia quem as mandasse coser e encadernar depois da nota 10. Eu mandei-as para o lixo, repletas de sublinhanços policromáticos, desenhos nos espaços em branco, versos sem valor e notas de memória de que nunca me lembrava.) Gomes Canotilho era um professor como devia ser, um professor que mais tarde queremos lembrar: um mestre e um amigo. O prazer com que exercia o seu múnus era notório. Nas suas aulas não havia fastio. Não me lembro de fazer gazeta às aulas de Constitucional. Ele tornava o complexo acessível. Ele fazia-nos sentir que a Lei Fundamental não tinha labirintos que não pudessem ser percorridos. Mostrava-nos o caminho. Lembro-me de um Professor que cumprimentava todos os alunos, como se fosse possível conhecer todos os 400 que se amontoavam no anfiteatro que nem macacos após o assalto à carrinha das bananas. Pobre do archeiro que, bem fardado e de chaves na mão, suava que suava para furar a muralha humana, e abrir as altas portas da nobre sala de aula dos Gerais. Ia na frente do maralhal se não se arredasse, ai isso era certinho, com algum azar ainda era atirado por uma das janelas! Se há ruído que não esqueço é o do escancarar das duas portas contra as paredes! O pobre do homem já não saía antes que todos tivessem saltado bancadas e galgado degraus para marcar um lugar sentado, de pé ou acocorado, um lugar, por Deus, um lugar!!GUARDEM-ME UM LUGAR!!! Antes da enxurrada parar, nem pensar em arredar pé, o senhor archeiro sabia da fúria das hostes. Ainda lhe pisavam os calos ou lhe vazavam algum olho, safa! E se havia concentração de capas e batinas era de rir ver os panos a ensarilhar a vida aos mais afoitos. Uma colega ficou de óculos esmagados num desses episódios. Outros, pesos-pluma, levitavam, outras transpunham a entrada em pontas. Digamos que era treino para certas Noites do Parque que haviam de vir, lá para Maios. Que condições para ter aulas. Por isso, hoje, quando vejo na TV os alunos recalcitrantes por causa do pagamento da propinas, o meu pensamento é sempre o mesmo: também eu me recusaria a pagar propinas, eu a monte com mais não sei quantas sardinhas humanas, durante 15 longos minutos num compacto junto a uma porta para no final conseguir apenas um degrau para sentar e arrefecer o rabiote durante 45 minutos ou mais. Não há cu que aguente, desculpem. Aquilo é pedra do séc. XIV. Nem mesmo se tivermos pela frente o melhor Professor de Constitucional de Portugal isto se aguentava. Eram meia dúzia de meses de aulas, matérias debitadas em passo de corrida, provas orais às vinte e trinta da noite com chamadas às nove e quinze da manhã, notas atiradas à pauta mercê de critérios mais que obscuros. E um bar onde numa das mesas havia um papel a dizer “reservado a docentes”. Propinas?! Não sei qual é o quadro actual. Hoje já só recordo o que aquela Faculdade tinha de melhor: uma linda vista do varandim sobre o rio Mondego, sobretudo em dias de sol, uma bela e preciosa biblioteca mesmo ali ao lado, e alguns excelentes professores. Como Gomes Canotilho. Gostei de ler o Jornal de Coimbra.


11/12/06

Panorama zoológico


Alguém aí coleccionou estes cromos? Eu adoro este álbum! Panorama Zoológico! É preciso pensar numa coisa: nos anos 70 a televisão era a preto e branco - veja aqui uma grelha de televisão em 1974 -  e quem gostasse de animais contava apenas com os livros para se deleitar com as suas cores. E eu não tinha pilhas de livros como tem hoje o meu sobrinho. Eram uma meia dúzia e já eram muitos. Nada de enciclopédias em DVD, nada de CD-Roms interactivos com os sons do bichos. Por isso este álbum era uma preciosidade. A televisão a preto branco dos meus pais era uma Philips. Ainda a guardo mesmo se não funciona!!! Tem do lado direito superior sete botões salientes, de plástico a imitar o metal. Servem para sintonizar os canais, VHS, UHS, a coisa faz-se manualmente, rodando, com jeitinho, polegar e indicador. Uma pequena barra vermelha desloca-se numa calha até ao ponto certo. Mais três botões para regular som, contraste, luz. Mais um botão para ligar e desligar. Abaixo a saída de som, nada stereo. Nada de controlos remotos, nada de buscas ou sintonizações automáticas, menus ou outros. Tem um ecrã plástico, preto, sobresposto ao original, de vidro muito claro e cantos arredondados. É forrada numa matéria plástica a imitar madeira. Esta TV é o equivalente do vira-lata que encontrou um dono piedoso. Se depender de mim vou guardá-la para sempre. Ninguém mais lhe dá valor. Só eu. Foi ali que vi, na minha infância, um programa chamado Expedição, penso que em parte por causa dele quis ser veterinária!! (Ver o video no final da postagem!)  Era transmitido aos Domingos, próximo da hora de almoço, depois da Eucaristia Dominical. Travava eu uma luta desigual porque coincidia com a bastante mais sagrada hora da refeição familiar e eu, criança, queria era ver a bicharada, e os meus pais, adultos, queriam era que eu cumprisse horários e o ritual da refeição em família. Eles ganhavam. Eu comia tudo à pressa, pouco e mal, e regressava, logo que podia, ao sofá de napa vermelha e pernas cónicas de madeira, sem sobremesa, engasgada, mas lá estava eu a olhar de novo a bicharada a preto-e-branco. Ainda me lembro da música de abertura e do genérico. Só muito mais tarde chegariam a televisão a cores e programas verdadeiramente excepcionais sobre a Natureza, como o Planeta Vivo. Continuo a ver documentários sobre a vida animal sempre que posso porque há sempre novas descobertas, ou uma nova perspectiva ou um animal que desconhecia. O último que vi foi sobre a fauna em Madagáscar. Não. Minto. Foi sobre salvamento de orangotangos capturados por caçadores furtivos na Indonésia. Mas de vez em quando ainda dou por mim a folhear o Panorama Zoológico!Eram 250 cromos de cores berrantes sobre o reino animal. Talvez por isso ainda hoje sei o que são antrópodos e nunca direi que Ofídio escreveu A arte de amar!

Periquitos!



Tenho um casal de periquitos numa gaiola e todos os dias me delicio durante uns minutos a observar as manifestações de cuidado que dispensam um ao outro, a meticulosa arrumação das penas, ou aquele adormecer juntinhos próximo da noite. Olhando para eles percebe-se logo que tempo vai fazer. Quando chega a chuva, enrolam-se sobre si, ficam cabisbaixos, dormentes. Se o sol brilha piam logo pela manhã. Eram três. Mas o casal eliminou a segunda fêmea. A sangue-frio. Estava estirada no chão da gaiola, uma manhã, quando cheguei para o pequeno almoço. Hirta, as penas em desalinho, o bico semi-aberto. Percebia-se que as bicadas tinham ido certeiras ao pescoço. O mar de penas verde e brancas que o vento soprado da janela empurrara pelo chão da cozinha ao longo da noite dizia tudo. Culpados. De facto a pássara era uma provocadora irritante e não querendo tomar partido tenho que afirmá-lo: aquela fêmea era incorrigível e estava mesmo a pedir uma lição. Apanhou com o curso todo de uma vez só. Pimba! Três era uma multidão. Pode parecer-vos estranho, mas para quem observa periquitos há um quarto de século, parece-me certo afirmar que estes pássaros têm uma personalidade própria, têm atitude. Aquilo foi um crime passional. Tive uma periquita de olhos vermelhos. Imaginem um passaroco, uma magricela de nem 10 cm a crescer para mim do seu poleiro, dir-se-ia em bicos de pés, peito proeminente, asas afastadas do corpo, um pio rouco mas estridente, e sobretudo furioso, entrecortado de arremessos do seu bico em direcção à minha mão. Nenhum medo. Pensava que me podia fazer frente. E eu deixei-a ver que sim. Tentava acercar-me dos filhotes, lindíssimos, já de plumagem perfeita. (Sim, porque quando saiem do ovo os pequenitos são uns cabeçudos feiosos, só bico e olhos, o milho vê-se à transparência pela pele rosada do seu papo! Feiosos mas que belo o milagre bem sucedido da vida assente um duas patitas com dedos desproporcionados.) Deixei as crias em paz e fiquei a olhá-las de longe. A periquita convencera-me. E convencera-se. Das vezes seguintes pude colocar-lhe a água sem alaridos de maior. Apenas se mantinha a posição ameaçadora, de guarda. Se nunca agarraram um pequeno pássaro não devem saber como o seu coração dispara na nossa mão. O seu instinto deve fazê-los sentir intimamente: vou morrer, esta gaja vai comer-me vivo, com penas, ossos e tudo! Parecem aqueles bonecos de corda. Esgotada a energia o boneco pára. Também o coração do pássaro. Por vezes os pardais entram no meu prédio pelo telhado e tenho de os apanhar para devolver à rua pois aquilo é mesmo uma ratoeira, melhor uma “passareira”. Morreriam à fome ou de sede nas escadas. Por vezes vai de percorrer cinco andares de lanços de escada tentando fazer com que o pássaro vá fugindo à minha frente até alcançarmos a porta principal, no R/C, se me calha um tão um arisco que não consiga deitar-lhe a mão. Ainda miúda, em Braga, andei à bulha com um puto que tinha uma fabulosa fisga como nunca mais vi nenhuma. Madeira, elástico, e napa. Eu vinha da escola. Andavam, ele e o amiguito, a fisgar os pardais. Eu acho que não queria que ele fizesse pontaria aos pardais, mas acho que também queria a fisga para mim! Possivelmente para lhes fazer pontaria a eles! Cheguei a casa em mau estado, sem a fisga, e eles devem ter continuado a fisgar os pardais. Nunca dei nome às minhas aves. Nunca lhes tentei ensinar acrobacias nem palavras patetas. Esforço-me por lhes poupar uma intromissão maior que a minha observação. Sempre gostei de animais. Nesses tempos longínquos da escola primária eu queria ser veterinária. E a minha melhor amiguita da escola, também. Ela tornou-se educadora de infância e eu, bem, eu continuo à procura da minha real vocação.

Desligar a TV



TURN OFF YOUR TV  

Fui com o meu sobrinho ver os peixes na loja de animais. Uma das paredes é uma quase vídeo wall feita de muitos aquários onde peixinhos coloridos de vários formatos e cores se agitam de um lado para o outro. Noutras caixas engradadas arrumam-se cães, gatinhos e hamsters. Papéis chamam a atenção dos visitantes para deixarem os animais sossegados. Ver sem tocar é, em alguns casos, uma tentação difícil de contornar. Mas tocar é, em muitas situações, molestar. A barreira é ténue. Andámos durante muitos anos a remexer demais na Natureza. Para a nossa espécie, a expressão da superioridade passou rapidamente pela da aniquilação, que provou ser uma vocação tão forte quanto sobreviver. Portanto ver sem tocar devia ser a regra. Sobretudo porque a Natureza tem regras que nós não soubemos, não pudemos ou não quisemos seguir. E por fim, quebrámos também as nossas próprias regras ao permitir um ver que não preserva, antes avilta, um ver sem tocar num formato tal que nos inferioriza na nossa dignidade, que nos molesta, que nos remexe na mais íntima natureza. A cotação da nossa esfera privada enquanto homens e mulheres entrou em baixa galopante, o mesmo é dizer o nosso quoficiente já não sei se emocional se intelectual, se ambos. A preços ridículos pessoas aceitaram a presença das câmaras num seu quotidiano, é certo que encenado e anti-natural, transmitido para o país via TV. O trunfo disso seria supostamente o de conhecermos a vida real em directo, e, quem sabe não seria interessante se daí se extraísse alguma lição. Mas eis a minha leitura da experiência: meia dúzia de humanos, meia dúzia de salas, meia dúzia de acrobacias, um prémio - eis um modelo de antropozoo de sucesso. Nunca homens e animais se equipararam tanto na sua miséria. O consentimento numa folha de papel tudo legitima e apazigua: a TV propõe, o concorrente assina por baixo, os espectadores legitimam. Para mim, enquanto não aprendermos a desligar o botão do aquário colorido estamos a subscrever todos a delapidação e o enfraquecimento de vários direitos, que são de todos nós, que foram conquistados e que quisemos salvaguardar constitucionalmente, o direito à imagem e o direito à reserva da intimidade da vida privada, por exemplo. Esta é a ordem televisiva dos nossos dias. O Grande Irmão não nos vigia, ele comanda-nos através do seu olho rectangular. Penso que foi Tchekov quem escreveu: “Valoriza-te, que os os outros se encarregarão de fazer baixar o teu valor”.Nada questionamos, nada pomos em causa. Baixamos todos os dias o nosso valor. Por acção ou omissão. Anseio pela extinção dessa espécie, mas concurso após concurso, programa após programa, umas vezes veladamente,outras de forma descarada, ela fortalece-se. Arruinado o mundo das outras criaturas ou saturados do seu conhecimento voltámo-nos para a devassa do nosso mundo privado, em busca de divertimento. Estamos a um passo de legitimarmos a videowall do dono do prédio daquele filme com a Sharon Stone, Violação de privacidade. Por enquanto, eu e o meu sobrinho vamos olhando os pequenos peixes coloridos na parede de aquários da loja de animais. Oxalá o futuro lhe traga uma nova era televisiva que não faça dos homens macacos e das suas casas, zoos.


11/11/06

KLIMT, SINNEAD E AMOR


"I wanna be haunted by the ghost of your precious love". É um dueto inesquecível que conjuga a fragilidade sibilante da voz da Sinnead O’Connor com a rouquidão rude do vocalista dos Pogues. Descobri ontem este CD no meio das centenas que possuo. Arrumar tem destas coisas. Nem sabia mais que o tinha! E agora a música não me sai da cabeça. Encontrei também uma caixa cheia de agendas velhas. Tão velhas que nem sei porque as guardo assim, gastas, cheias de anotações e papéis agrafados. Muitas delas são da Tashen e vivem da inspiração da obra desse extraordinário artista que foi Gustav Klimt. Agendas são compra comum nesta altura do ano. O que não é comum é que ano após ano eu compre uma agenda sempre igual. Este ano vou tentar ser diferente de mim própria. Sou como aquelas pessoas que na gelataria pedem sempre morango e chocolate: até poderiam descobrir sabores muito do seu agrado se transgredissem na sua preferência de vez em quando. Mas não: ouço-as dizer morango e antes de eu conseguir contar até 3 dizem chocolate! Mais do mesmo pode ser garantia de prazer certo, mas dum prazer que é negação da descoberta com tudo o que ela encerra. Uma agenda de Klimt é mais do que uma agenda. Acompanha-me em cada dia e quando estou desinspirada, exausta ou confusa não é raro perder-me a folhear as suas páginas aí encontrando transporte para o universo do amor, da beleza e da arte que me fazem alhear do momento de crise e me ajudam a respirar fundo. Ante as emoções que me proporciona a contemplação dessas reproduções é difícil aceitar que em finais do séc. XIX o reconhecimento da obra do pintor fosse tudo menos unânime. Muita gente apenas desejava mais do mesmo, dir-se-ia morango e chocolate. Por acaso tenho uma colecção de várias agendas, agendas que fogem ao comum e que vou comprando um pouco tontamente. Tontamente porque não as uso. Um pequeno stock. Uma vez vi na Casa Rádio, conhecida livraria e papelaria da Figueira da Foz, um cesto cheio de agendas em saldo. Eram do ano transacto! Alguém as compraria?! Tenho uma agenda dos Cahiers du cinema, outra da Tate Gallery, outra, UMA AGENDA LITERÁRIA que cita autores portugueses em cada dia e que tem ilustrações do Jorge Colombo…Agendas não são livros, pois não?!!Ou são?!! Tenho uma agenda que a CINEMATECA PORTUGUESA editou. A capa é preta e traz uma imagem do filme Há lodo no cais, de Elia Kazan, com Eva Marie Saint e Marlon Brando. Uma vez aberta uns lábios vermelhos abrem-se deixando ler dentro a frase “Kiss me, stupid”. Daí para a frente os meses e os dias do calendário sucedem-se entremeados de fotografias extraídas de filmes, na sua maioria dos clássicos do cinema americano, a antecâmera do beijo, a cena do beijo ou o take seguinte da rendição amorosa, sempre a preto e branco, sucedem-se. É ridiculamente ternurenta. Uma das fotografias que mais me agrada refere-se ao filme Sunrise, de F.W. Murnau, de 1927, um filme que não vi. O casal está enlaçado num beijo, não percebemos os rostos. Ela usa chapéu e um vestido longo. Parecem ter-se encontrado em plena rua e terem feito parar o trânsito. Um homem espreita, metade do corpo fora dum veículo, lábios entreabertos como que a dizer: “Hey, folks! Cut it out! Get of the way!” Comprei essa agenda a pensar oferecê-la a um homem particular mas depois não lha dei. Ahahah! Possivelmente ele não a usaria por muito que goste de cinema. Nem eu a utilizei senão para deleite visual. Como cinéfila inveterada que sou, vi quase todos aqueles filmes e cada fotografia chamava por alguns queridos fotogramas dispersos na minha memória. Imagens do cinema, da pintura, fotografia, palavras de poetas enchem estas agendas que, de certa forma, colecciono. Os artistas viveram e vivem emersos nas suas imagens, nos seus poemas, na sua música sobre o amor, criando, partilhando, expondo-se. Namoro com a vida feito arte. Arriscando, como Klimt, o julgamento do público. Em público. Enquanto nós nos ficamos com os nossos dois sabores, morango e chocolate, tolhemo-nos até de dizer amo-te com todas as letras àqueles a quem queremos, nas ocasiões e vezes certas. Entre nós, turistas acidentais do amor, quanto se perdeu do lirismo, quanto do romance evanesceu das palavras e dos gestos na vertigem diária da existência. Delegámos nos artistas a nossa voz…A voz da Sinnead ficou a cantarolar na minha cabeça: “Quero ser assombrada pelo fantasma do teu precioso amor.” É bonita como a pintura de Klimt esta frase. Haja ainda quem nos dê umas pistas de como traduzir o que sentimos em lindas assombrações verbais e visuais nas agendas da nossa vida.




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